Notas iniciais
Desculpem a demora..estive muito doente :(
Mas ai esta um super capitulo! aproveitem! :D
Boa leitura!

Pouco tempo depois, vovô chegou todo molhado. Cumprimentou Cândida, mas sem deixar de transparecer o semblante preocupado.

- Está tudo alagado! — disse ele. — A enchente tomou conta de tudo!

- E a ponte? — eu quis saber. O único acesso à cidade de Scarabas era por uma ponte. E Lila estava vindo até mim.

Ele fez muxoxo.

- Não tem jeito. Estamos isolados até que a chuva passe.

- O quê?! - vociferou Sara. — Nós estamos presos aqui?!

- E tem mais — vovô Hector suspirou. — Os cabos de eletricidade foram tomados. E estamos sem água também.

- E o que vamos fazer? — sibilou Claire.

Mas ninguém sabia muito bem. Teríamos que nos acostumar com novas coisas agora. E ficar no escuro depois de receber a visita de um fantasma não era muito animador para uma noite de sono.

- Venha, Cândida. — vovó acendeu uma vela quando tudo ficou escuro. — Vou levá-la para o seu quarto.

Cândida passou sorridente por mim. Vovô logo iluminou a sala com o que parecia ser um lampião. Fui levada à uma sensação nostálgica da falta de luz elétrica.

- Valerie. — Lauren me chamou. Mal a reconheci no escuro. — Venha comigo no porão. Precisamos para o fogão à lenha.

Acompanhei-a até o porão úmido e escuro. Pareci ter visto algo se mexer por lá.

- Lauren, o que foi aquilo?

Ela não se mexeu, com medo.

- Sei lá. Vamos...esquecer isso.

Ela tinha razão. Nenhum de nós estava animado para dormir à luz de velas e com sons de trovão. Comíamos à moda antiga — como uma verdadeira vida de fazenda antigamente.

Vovô Hector soube do "ocorrido", mas não deu ouvidos. Depois do jantar, ia conversar com os amigos na varanda sobre os estragos da chuva.

Lauren havia nos contado que Cândida era uma velha amiga de vovó. Morava ali perto, do lado do rio. Com a chegada dela, a rotina da casa mudou. Ela tinha sido empregada ali há muitos anos; conhecia todo mundo. Ficava o dia inteiro na cozinha. As velhas começaram a aparecer pra conversar com ela. Cândida era falante, barulhenta; gostava de papear. A cozinha ficou movimentada. O dia inteiro tinha gente por lá. Nunca vi a casa da fazenda tão cheia.

Mas de noite é que a animação era maior.

Acabado o serviço, elas ficavam ao redor do fogão aceso contando casos. Nós fomos nos aproximando. À princípio, meio ressabiados. Cândida não parecia nos dar confiança, e as velhas da casa muito menos. Mas a conversa era muito interessante.

O assunto mais falado era sobre histórias de assombração. E era o que todo mundo mais gostava de ouvir. Ficava todo mundo quieto, escutando, encolhido.

Enquanto isso, Nancy passava canecas cheirosas de chá. Começaram a contar outros casos. Cada velha lembrava uma história mais impressionante. As vozes ficaram baixas. O silêncio ao redor era completo. Na cozinha meio escura, sombras dançavam na parede. Lá fora, barulho de chuva, caindo sem parar.

Falavam de mortos que voltavam pra fazer ameça...de aparições de madrugada no cemitério...de passos no corredor e batidas na porta que, quando iam abrir, não tinha ninguém...de vultos brancos nas curvas da estrada...

De repente, um trovão arrebentou e Sara gritou.

Cândida levantou a cabeça e olhou pra ela. Em seguida, olhou pra mim, e começou a reparar e apertar os olhos, como se fizesse força pra lembrar.

Aí, se virou e disse para as outras:

- Ela é a cara da menina Natasha!

Uma das velhas respondeu:

- É. Eu já tinha reparado.

Todas viraram pra mim e começaram a concordar e cochichar:

- Minha mãe contava que todo mundo ficava admirado com a beleza dela! — falou uma velha.

- Ainda me lembro da fama, quando era mais nova... — disse outra, das mais enrugadas e encolhidas.

- Que mistério o que aconteceu com ela!

- Era considerada uma santinha...morreu, assim, de repente...

- Foi a Vingativa que matou ela! Dizem que foi por inveja...

- Nada disso! Soube que as duas amavam o mesmo rapaz.

- Ainda tem gente que pede que a Vingativa pare. Que reza pela alma dela...

- Elas eram grudadas, feito irmãs. E a menina Annie também era dócil. Não merecia ter morrido daquele jeito.

- É, eu também já ouvi contar muita coisa assim...

Eu estava cada vez mais curiosa. O caso da Vingativa era mesmo real. E Natasha e eu éramos parentas; eu podia muito bem parecer com ela. Só pra confirmar, me fiz de confundida e desentendida.

- Quem era Natasha? E Annie?

- Annie — começou Cândida. — Aquela do retrato lá da sala. Era amiga da irmã mais velha da Beth, Natasha. É uma história muito antiga. Annie era uma menina boa, mas foi assassinada de repente. Logo depois, Natasha morreu também. Dizem que foi traição, e que é o espírito de Annie, a Vingativa, que assombra a cidade para se vingar de Natasha.

Uma das velhas continuou:

- Perguntaram pra todo mundo. Mas ninguém acreditava. Elas eram muito amigas.

- As duas viviam juntas. Foi um desespero.

- Dizem que foi por causa de amor...

- E por isso, todo mundo tem medo de vir pra cá...

- Depois de um tempo, cansaram de procurar...aí, a Beth nasceu.

- E só ficou aquele retrato na sala.

- E a árvore! — Cândida disse de repente. — Quase todo dia tem vela.

As velhas assentiram, concordando.

- Árvore? — indaguei. — Que árvore?

Cândida ponderou por um tempo, pensando se diria ou não.

- Tem uma árvore no meio do descampado. Dizem que é milagrosa. Muita gente vai lá pra rezar pela alma d Annie, pedir que ela pare de nos atormentar. Ela é toda cheia de flores azuis, que era a cor preferida de Annie e Natasha.

Natasha nunca havia me contado isso. Pelo visto, ainda haviam muitas coisas escondidas.

Estávamos tão distraídos, que nem tínhamos nos dado conta do quão já era tarde. Enquanto nos arrastávamos pra cama, ouvimos as velhas continuarem:

- Noite de lua cheia...noite da Vingativa.

- Pois é. É ela que está causando toda essa chuva.

- Vou lá na árvore dela acender vela pra ela. Coitadinha!

- Psiu! A Beth tá vindo aí!

Vovó Beth chegou, sorrindo pra nós.

- Parecem tão cansados, não é? Também...não estão acostumados com essa rotina...

Pensando em uma desculpa pra sair, eu inventei:

- Precisamos sair, vovó. Andar a cavalo pela fazenda!

- Depois da chuva é perigoso — disse ela. — Lama...está tudo alagado...

- Tudo bem, Beth — vovô Hector se aproximou dela. — Amanhã, deixa eles saírem um pouquinho.

Vovó suspirou e deu de ombros.

Minha ansiedade mal conseguiu deixar com que eu dormisse.

Na manhã seguinte, minhas expectativas me diziam que finalmente iria descobrir mais sobre essa tal lenda que causava tanto medo nas pessoas.

Eu estava mais entusiasmada — afinal, eu conhecia Natasha, uma fantasma. E ela tinha desaparecido. O que teria acontecido?

- Josh. — eu o chamei quando já estávamos um pouco distante da casa. — Nos leve até a árvore de flor azul.

Ele franziu o cenho.

- A árvore do descampado?

- E com flores azuis.

Ele fez muxoxo.

- Não é bom ir lá...

- Por que não?

Ele se virou, suspirando.

- As pessoas daqui têm uma crença. Acham que aquela árvore tem haver com a Vingativa, porque surgiu logo depois da morte dela. Aí, ficam acendendo velas pela alma dela. E dizem que isso a atrai.

- Não importa — eu disse. — Eu tenho que ir até lá.

- Por quê? Natasha pediu à você?

- Por isso mesmo. Natasha desapareceu.

- Deixa eu adivinhar — ele sorriu. — Você acha que Annie tem haver com isso.

- Natsha sumiu assim que Annie nos assombrou! Não acha coincidência?

Ele olhou pelos lados, e me puxou pela mão.

- Vem logo. Não estamos sendo vigiados.

De fato, a árvore ficava em um canto isolado, no meio do descampado. Corria um vento forte por lá. Logo avistei a árvore: sozinha, um tanto pequena; verde e florida. Florezinhas azuis pequenas e delicadas brotavam. Na raiz da árvore, havia um nicho cheio de velas derretidas e apagadas.

- Seu avô mandou fazer o nicho — contou John. — Aqui venta muito; poderia causar um incêndio fácil. — explicou. — Sabe, uma vez eu vi ela...

- A Vingativa? Onde? — sibilei.

- Vi de longe... — lembrou. — Foi quando a minha vila foi destruída. No meio do incêndio, eu fui resgatar uma garota que gritava. Ela estava presa no quarto, amparando o corpo do namorado caído. Ela chorava; implorando pra sair. Quando ela me viu, estendi a mão, e ela recusou. Não queria deixá-lo. Aí eu vi...a Vingativa...no meio das chamas. Usava um vestido cinza sujo. A garota virou um robô: pegou um destroço incendiado e jogou nela mesma.

Arfei.

- Eu também vi a Vingativa! — disse, me recordando da figura sinistra no corredor.

- Então ela está mesmo disposta a nos expulsar daqui. Ela raramente aparece pra alguém. E quando isso acontece, essa pessoa morre.

Meus pelos arrepiaram.

- E temos que correr. Não vai demorar pra ela aterrorizar a cidade inteira. — engoli em seco. — E uma conhecida está vindo pra cá.

- Isso é mal — John olhou para a árvore. — Talvez ela nem chegue. A não ser que...

Eu o olhei, esperançosa.

- A não ser que o quê?

Um sorriso iluminou seu rosto.

- Eu já volto.

- Mas... — eu o observei ir, sem conseguir captar a sua ideia.

Sozinha ao lado da árvore, o silêncio só era encoberto pelo barulho das folhas sendo balançadas pelo vento.

Me agachei para observar melhor o nicho. Além das velas, haviam fotografias meio queimadas e algumas cartas. Mesmo com receio, peguei o primeiro papel que vi.

Do nada, senti um arrepio no ombro, como se alguém o tivesse tocado.

- Velerie. - escutei uma voz me chamar.

E eu conhecia aquela voz.

Não podia ser.

Tirando cinzas que cobriam a carta, me arrepiei inteira ao ver o nome que estava escrito:

Sammantha Arsen

Me levantei de imediato; a carta tremendo na minha mão. Minha mãe havia escrito aquela carta pra Vingativa?

A presença estranha continuava ao meu redor, como um suspiro inaudível.

- Mãe...? — eu arrisquei, e uma lágrima escorreu por meu rosto. Eu vira Natasha. Por que não?

Depressa, abri a carta. Era mesmo a letra de minha mãe:

Não vim aqui para implorar que você pare.

Eu sei o que é sofrer por amor. E é uma dor terrível.

Mas você não pode castigar os outros pelo seu sofrimento. Não percebe quantas vidas está destruindo?

Mas você não vai chegar perto da minha família. Ainda mais agora que carrego a força de mãe comigo, com essa criança em meu ventre. Não há força maior que o amor.

Tenho esperança de que, algum dia, alguém irá parar você.

Sinceramente, não torço para que vá pro inferno.

Você é o próprio inferno para essa cidade.

Não acreditei que minha mãe fosse capaz de algo do tipo. Ela havia enfrentado a Vingativa?

Me recordando do dia de sua morte, uma ideia terrível me passou pela cabeça.

Teria a Vingativa causado a morte da minha mãe?

Ela a havia provocado. Além disso, era descendente de Natasha.

Eu não queria pensar nessa possibilidade.

Remexendo mais ainda, encontrei outra carta de minha mãe:

Saiba que não tenho medo de você. Não vai conseguir me machucar, e nem minha filha. E não adianta tentar me assustar. A força que tenho me revigora, fortalece e me encoraja. Você não irá me atingir.

Transtornada, olhei a data no verso. Era Natal; quando eu tinha uns doze anos, e viemos passar na fazenda. Mamãe deve ter escrito aquilo secretamente e ido até lá pra deixar. Pouco tempo depois, ela morreu.

Era muita coincidência.

Guardei as cartas comigo, para colocar vovó contra a parede de uma vez por todas.

Suspirando, me chamou a atenção uma figura branca no meio das árvores. Quando me viu, ela correu. Decidi segui-la. Aos poucos fui me aproximando. Engoli em seco.

A figura de branco era minha mãe.

Seu cabelo castanho caía sobre o manto branco, e ela sorria, iluminando seu rosto.

- Isso...é mesmo...real...? — balbuciei, completamente emocionada. Ah, como eu queria abraçá-la!

- Filha...você está linda! — ela tocou meu rosto. Foi como se uma película fina roçasse na minha face.

- Eu sabia! — falei. — Assim como Natsha apareceu pra mim...

- Calma, querida — ela chegou mais perto. Sua presença parecia irradiar por todos os lados. — Já chegou até aqui. Agora precisa fazer com que Annie chegue à paz.

- Mas como vou fazer isso?

- Siga as pistas. — orientou ela. — Você é inteligente.

- Foi a Vingativa quem matou você?

A pergunta pareceu pegá-la de surpresa. Mas ela foi mais esperta:

- Você acha que foi?

Eu me calei.

- Isso não importa. Eu estou com você aqui; agora. Pode contar comigo sempre. E Natsha ajudará você também.

- Vou cuidar disso, mãe — prometi, convencida. — Por você e por todos dessa cidade. Já chega de tanto sofrimento.

Ela sorriu e segurou meu rosto com as duas mãos.

- Sei que não pode me tocar, mas...pode me sentir. — e tocou meu coração com a sua mão leve. — Vá em frente, filha. — de repente, sua expressão mudou. — Acorde, Valerie.

- Hã? — disse, confusa.

- Ela está vindo! — minha mãe se afastou, apavorada. — Não pare, querida. Não desista!

Aí tudo ficou preto.

Uma luz passou por meus olhos. Abrindo-os devagar, me deparei com Natasha.

- Valerie, acorde.

Levantei num pulo, olhando ao redor, procurando minha mãe. Nada.

- O que foi? — Natasha quis saber.

- Minha mãe estava aqui! — contei, e ela riu.

- Você estava sonhando, Valerie.

- Não! — contestei. — Minha mãe veio me avisar pra salvar Scarabas. Disse que não devia temer Annie.

- Estava olhando as cartas dela? — Natasha apontou o nicho com os olhos.

- Como sabe?

Ela fez muxoxo.

- Seu avô fez isso apenas por proteção. Não queria que ninguém visse as cartas da filha pro espírito vingativo da cidade. Sua mãe fugiu porque sabia que, se a Vingativa não tinha conseguido pegá-la, pegaria você.

Arquejei.

- Vovó e vovô têm coisas pra me explicar. — e, me virando pra ela, disse. — Onde esteve?

- Annie me prendeu — contou. — Foi quando assombrou vocês. Não pude impedi-la.

- Isso já está longe demais — falei. — Temos que pará-la.

- Parar quem?

Um galho estalou devido à força que fiz pra me virar e ver Lauren me encarar incrédula, me vendo falar sozinha.

Ela deu um passo.

-Valerie, com quem estava falando?

Notas finais
Deixem reviews, please!
prox cap dependera disso, ok?
até lá.