Tyler e Dylan ainda estavam vivos.

Cobertos de sangue, ofegantes, mal conseguiam distinguir o que era deles e o que não era. À frente, os cães caídos no chão ainda pareciam ameaçadores, mesmo imóveis. Foi então que alguém surgiu por trás deles.

A figura vestia tudo de preto. Um capuz escondia o rosto, exceto pela máscara: branca, lisa, marcada apenas por um grande ponto de interrogação no centro.

Na mão, uma arma.

Sem dizer uma palavra, o estranho caminhou em direção a uma porta metálica camuflada entre as rochas da ilha. Antes de entrar, virou lentamente a cabeça, encarando Tyler e Dylan.

Um olhar longo. Calculado.

A porta se fechou com um estrondo metálico.

Eles correram até lá, tentaram abrir, bateram, gritaram — nada. Do outro lado, apenas silêncio. A sensação de estar sendo observado nunca os abandonou.

Os dias seguintes foram uma luta constante. Sobreviver na ilha exigia força, atenção e sorte. A primavera se aproximava, mas o clima era imprevisível: algumas noites congelavam os ossos; em outras, um calor abafado trazia rajadas de vento violentas.

O tempo parecia brincar com eles.

Dois meses depois — Primavera

A manhã começou gelada. Nuvens pesadas cobriam o céu, impedindo qualquer sinal de sol. O mar batia com força contra a ilha, e respingos gelados atingiam os dois como chicotadas.

Acordaram com trovões. Logo a chuva caiu, grossa e implacável. Eles se abrigaram sob uma árvore retorcida, encolhidos, tentando conservar o pouco calor que restava.

Quando a chuva cessou, saíram em busca de comida.

Como sempre, a bandeja metálica emergiu do solo.

Desta vez, além de suplementos e água, havia ferramentas: martelo, serrote, pregos, cordas. E um papel dobrado.

“Cuidado. As surpresas vêm quando vocês menos esperam. Façam algo útil.”

— O que isso significa? — Tyler perguntou, confuso.

Dylan pensou por alguns segundos.

— Ele quer que a gente construa alguma coisa.

Antes que Tyler respondesse, as caixas de som espalhadas pela ilha estalaram e a voz ecoou:

— Quero que construam duas cabanas. Uma para cada um.

— Com janelas… voltadas uma para a outra.

O silêncio que veio depois foi pior que a ordem.

Sem escolha, começaram a trabalhar. Passaram o dia inteiro e a noite inteira construindo. Madeira improvisada, mãos feridas, corpos exaustos. Já passava das duas da manhã quando terminaram.

Suados. Tremendo. Vazios.

Dia seguinte

O Misterioso apareceu com o sol fraco da manhã. Na mão, uma Beretta 92, reluzente.

— Entrem — ordenou.

Eles obedeceram.

— Deitem-se. Olhem um para o outro.

A voz era calma demais.

— O dia está quente, não acham?

— S-sim… — responderam quase em uníssono.

O estranho abriu um galão.

Gasolina.

— Que tal esquentar um pouco mais?

O cheiro se espalhou rápido. Tyler e Dylan entraram em pânico, tentaram sair, mas as portas estavam presas por cadeados. Não havia saída.

Eles se olharam através das janelas.

— Parece que nosso momento chegou… — Tyler disse, com a voz quebrada.

— Não — Dylan respondeu, os olhos ardendo. — Não depois de tudo o que passamos. Isso não pode acabar assim.

Com um grito de pura raiva, Dylan chutou a parede com tudo o que tinha.

A madeira cedeu.

Ele caiu para fora no mesmo instante em que o isqueiro escorregou da mão do Misterioso. A chama tocou o chão.

O fogo se espalhou rápido demais.

— TYLER! — Dylan gritou.

Tyler berrava por socorro, as chamas subindo pelas paredes da cabana.

Dylan avançou contra o Misterioso. Os dois entraram em uma luta violenta, socos, empurrões, corpos rolando até perderem o equilíbrio e despencarem montanha abaixo.

Dylan acordou atordoado.

Ao seu lado, o Misterioso estava desacordado.

A arma estava ali.

Dylan se aproximou com cuidado, passo por passo, até conseguir pegá-la. Ainda estava carregada.

Ele correu de volta para Tyler. Usou folhas grandes e terra para abafar o fogo, puxou o amigo para fora no último segundo.

— Respira… respira… — Dylan repetia, desesperado.

Sem perder tempo, voltou para acabar com aquilo.

Mas o Misterioso havia sumido.

Eles subiram até um ponto mais alto para tentar localizá-lo. Desciam a montanha quando tudo aconteceu rápido demais.

CRACK.

Tyler levou uma coronhada na cabeça e caiu. Dylan foi atingido junto e rolou pelo chão. No reflexo, sacou a arma e atirou.

O disparo ecoou pela ilha.

O corpo caiu, ensanguentado.

Com cautela, Dylan se aproximou. Arrancou a máscara.

E congelou.

— Não… — sussurrou Tyler, mesmo tonto.

O rosto ali não era de um estranho.

Era Derek.