Notas iniciais
final~

Derek havia morrido pelas mãos de Dylan — não por intenção, mas por desespero. Era isso que martelava na cabeça de Tyler enquanto tentava se conformar. Nenhum dos dois dizia em voz alta, mas a culpa estava ali, pesada demais para ser ignorada.

A chuva começou logo após o disparo.

O sangue de Derek escorria misturado à água, formando trilhas vermelhas no chão enlameado da ilha. Trovões rugiam acima deles, e relâmpagos iluminavam o céu como flashes de uma lembrança que jamais iria embora. Ensopados, exaustos, Tyler e Dylan tinham a sensação de que suas vidas haviam sido destruídas naquele lugar.

Dias se passaram.

Até que, numa noite qualquer, enquanto dormiam encolhidos, algo os acordou de repente.

Uma luz forte cortava o céu.

O barulho de hélices.

— Dylan… — Tyler sussurrou, incrédulo.

Um helicóptero de resgate pairava sobre a ilha. Guardas desceram minutos depois. Eles haviam sido encontrados graças a uma denúncia anônima.

— Vocês estão seguros agora — disse um dos homens.

Tyler e Dylan não conseguiram responder. Apenas choraram ao subir no helicóptero.

— Eles não conseguem descrever tudo o que passaram na ilha, mas o que impressiona as autoridades é a sobrevivência dos dois por meses em condições extremas — dizia a repórter horas depois.

De volta à cidade, fisicamente melhores, tentaram recomeçar.

Muita coisa havia mudado.

O prefeito fora assassinado. Casos estranhos vinham sendo abafados. Histórias demais para serem explicadas de uma vez. Aos poucos, os empregos voltaram, o convívio com a família e os amigos também.

Mas o medo nunca foi embora.

Numa tarde comum, Tyler andava de bicicleta pelo quarteirão quando algo chamou sua atenção. Um homem arrombava a casa dos Garcia.

Tyler largou a bicicleta perto de um poste e se abaixou atrás de um muro, observando. O estranho entrou na casa sem perceber que estava sendo vigiado.

Após alguns segundos, Tyler decidiu agir.

Entrou com cuidado, atento a cada som. A casa estava vazia demais. Então ouviu a porta da frente se escancarar. O homem havia fugido.

Ou era o que parecia.

O som de uma impressora chamou sua atenção.

Ela não parava de imprimir a mesma folha.

Tyler se aproximou.

No papel, uma única frase repetida dezenas de vezes:

“Você é tão estúpido, Tyler, por vir até mim e entrar numa casa com uma bomba dentro.”

O coração disparou.

Seu nome.

Sem pensar duas vezes, Tyler correu. Pulou pela janela dos fundos e, no mesmo instante, a casa explodiu atrás dele. O impacto o lançou direto para a piscina.

Do outro lado da rua, dentro de uma caminhonete preta com vidros fumê, alguém observava.

O veículo arrancou, deixando fumaça no ar.

Horas depois, Tyler ligou para Dylan.

— Não acabou — disse, sem rodeios. — Ele ainda tá atrás da gente. Acabou de explodir uma casa. Tá passando no noticiário.

— Não… — Dylan murmurou.

— Ele fugiu numa caminhonete preta. Dylan… ele pode estar indo atrás de você agora.

Houve silêncio do outro lado da linha.

— Tyler… — Dylan sussurrou. — Ele acabou de estacionar.

— Se esconde. Ou corre. Se despistar, me liga que eu vou te buscar!

Dylan entrou em pânico. Sem saber o que fazer, se trancou dentro de um armário.

Passos ecoavam pelo quarto.

Cada vez mais próximos.

A lâmina de uma faca raspava na parede.

Quando o estranho tentou abrir o armário, Dylan gritou.

Isso foi o suficiente.

O homem surtou.

Chutes violentos. Facadas atravessando a madeira. O armário tremia a cada impacto. Então tudo parou.

Algo pesado foi arrastado pelo chão.

O silêncio durou segundos.

O estranho voltou segurando um machado.

As machadadas começaram. A porta cedeu.

Dylan foi arrancado para fora e jogado no chão. Chutes atingiram seu corpo sem piedade. Num deslize, Dylan conseguiu derrubá-lo com uma rasteira e correu.

Subiu até o terraço do hotel.

Ali havia um helicóptero — o dono era um ricaço e mantinha a aeronave para emergências.

Dylan não sabia pilotar.

Entrou mesmo assim.

Ativou o piloto automático.

As hélices começaram a girar.

No momento da decolagem, o estranho saltou e se agarrou ao helicóptero, fazendo tudo balançar em zigue-zague.

Desesperado, Dylan abriu o porta-luvas.

Uma arma de choque.

Ele quebrou uma das janelas e disparou.

O choque atravessou o corpo do homem, que gritou antes de perder o controle e cair lá de cima. O impacto contra o chão foi seco.

Final.

Tyler chegou minutos depois.

Ele e Dylan caminharam até o corpo, cercado por curiosos.

A máscara foi retirada.

O rosto era de um estranho. Alguém que nenhum dos dois reconhecia.

Mas havia algo mais.

Um crachá preso ao casaco.

Central de Atormentos.

O verdadeiro jogo…

nunca foi só pessoal.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!