O ar era gelado como um cadáver recém-retirado da água.

As turbinas do helicóptero ainda lançavam rajadas violentas contra os rostos de Tyler e Dylan enquanto a aeronave se afastava, tornando-se apenas um ponto escuro no céu carregado. Nenhum dos dois disse uma palavra. Apenas observavam, em silêncio, como se aquela máquina estivesse levando embora a última chance de retorno.

Daquele momento em diante, estava claro: para sobreviver, precisariam voltar ao passado. Encara-lo. Desenterrar tudo o que jamais fora revelado.

A garoa começou leve, quase inofensiva, enquanto caminhavam pela ilha. Trovoadas distantes anunciavam algo maior se formando no horizonte. O chão úmido grudava nos pés, e o cheiro salgado do mar se misturava ao da terra molhada.

Eles pararam abruptamente quando um raio caiu a poucos metros de distância.

O estrondo sacudiu o chão. Faíscas se espalharam. Terra e pequenas pedras voaram ao redor deles.

Tyler respirava com dificuldade.

Dylan não piscava.

A noite chegou silenciosa, como se a própria ilha estivesse prendendo a respiração. O único som constante era o das ondas do mar se chocando contra as rochas, repetidas, impiedosas, eternas.

Com rapidez — fruto da experiência adquirida da pior maneira possível — montaram uma fogueira improvisada. Sentaram-se próximos demais um do outro, os corpos quase colados, não por afeto, mas por necessidade. O frio não perdoava.

Enquanto dormiam, encolhidos, eram observados.

O olhar vinha da escuridão. Seco. Perturbador. Um olhar que carregava algo quebrado — como o de uma criança traumatizada… ou de um animal abandonado, ferido, à espera do momento certo para atacar.

07:32 da manhã

Tyler despertou com o som de água respingando.

Abriu os olhos a tempo de sentir pequenas gotas atingirem seu rosto.

— Que nojo, Dylan! — reclamou, limpando o rosto com a manga da camisa.

— Foi mal! — respondeu Dylan, rindo. — Acho que escolhi a árvore errada.

Acha? — Tyler se levantou e deu um empurrão leve no amigo. — Óbvio que escolheu.

Apesar do tom, havia algo quase normal naquele momento. Um respiro raro em meio ao caos.

Mas a ilha havia mudado.

Enquanto caminhavam para tentar caçar algo, Tyler percebeu primeiro.

— Espera… — murmurou.

A cerca.

Ela não estava mais lá.

Os dois trocaram um olhar rápido e correram até a parte mais baixa da ilha. Aproveitaram o antigo rio de água doce que conheciam de antes, enchendo as pequenas garrafas que ainda tinham. A sensação de liberdade era estranha demais para ser real.

Três dias depois

A rotina havia se tornado estratégica.

Tyler e Dylan passaram a observar tudo: câmeras, portões, movimentação. Dylan marcava os horários diretamente na areia, usando o relógio de pulso que, por sorte, ninguém havia retirado de seu bolso.

Os padrões se revelavam aos poucos.

O portão principal abria às 08:30 e fechava às 08:40. Quem não chegasse a tempo… ficava para fora.

As câmeras se moviam em ciclos de trinta minutos. Sempre.

E às 17:50, tudo parava. Funcionários e operários deixavam o local. As luzes diminuíam. Os sistemas entravam em modo automático.

Era ali que a ilha respirava.

Quinto dia — Sexta-feira

Aquele era o dia.

Antes do início do expediente, os dois se moveram em silêncio até a antiga oficina, localizada no andar superior da ilha. Na primeira incursão, haviam apenas reconhecido o terreno — agora, vinham preparados.

A memória de Derek ainda pairava sobre o lugar.

Oficina Subterrânea

O espaço era amplo, limpo, quase sofisticado demais para algo tão isolado. Parecia a garagem particular de uma celebridade excêntrica: ferramentas organizadas, equipamentos modernos, tudo em seu devido lugar.

Ali, qualquer plano poderia ganhar forma.

Tyler calculava mentalmente cada segundo.

Tinham pouco tempo até a abertura dos portões. Os operários subiriam as escadas, aguardariam o elevador, atravessariam três corredores e chegariam à sala central de câmeras — o ponto onde nada escapava do olhar dos três observadores.

Dylan girava lentamente pelo ambiente, os olhos brilhando diante da variedade de ferramentas.

— Incrível… — murmurou. — Com isso aqui, dá pra fazer de tudo. Me sinto o John Wakefield em Harper’s Island.

Tyler virou-se para ele, sério.

— Chega de brincadeira. — Disse firme. — É hora de colocar a mão na vingança.

Dylan sorriu de lado.

— Nossa… que belo trocadilho.

Tyler não respondeu.

A ilha já havia escolhido seu lado.

E, desta vez, não haveria retorno.

Notas finais
O Plano termina-rá e provas serão desenterradas e um novo capítulo irá surgir. A Queima de Arquivos começa em 8/10