A delegacia cheirava a café velho e desinfetante. Dylan sentou na cadeira de plástico, mãos apoiadas nos joelhos, esperando alguém dizer seu nome. Ninguém parecia ter pressa. Aquilo não era um filme. Era só mais uma tarde ruim.

Quando o chamaram, ele seguiu pelo corredor estreito até a sala de visitas. Um vidro grosso separava os dois lados. Um telefone pendurado em cada parede.

Tyler já estava lá.

Parecia menor. Não fisicamente — mas como alguém que perdeu o direito de ocupar espaço. Barba por fazer, olheiras fundas, o olhar perdido em um ponto qualquer da mesa.

Dylan pegou o telefone. Tyler demorou alguns segundos antes de fazer o mesmo.

— Eu não achei que você viria — Tyler disse.

— Nem eu — Dylan respondeu.

O silêncio caiu pesado entre eles. Não era raiva. Era o acúmulo de tudo que nunca foi dito.

— Você tá bem? — Tyler perguntou, automático demais.

Dylan soltou um meio sorriso sem humor.

— Tô vivo. Evan não teve essa opção.

Tyler fechou os olhos por um instante. Quando abriu, estavam vermelhos.

— Eu pensei que estava protegendo a gente.

— Você estava se protegendo — Dylan corrigiu, sem elevar a voz. — E eu deixei.

Tyler encostou a testa no vidro.

— Eu acordo toda noite com aquela estrada na cabeça.

— Eu não durmo direito desde então — Dylan disse. — A diferença é que eu parei de fingir que isso ia sumir.

Do outro lado da sala, um policial observava sem interesse. Mais uma conversa difícil. Mais uma história quebrada.

— Você vai falar tudo, né? — Tyler perguntou.

Dylan assentiu.

— Vou contar como foi. Sem cortar nada.

Tyler engoliu em seco.

— Isso vai me ferrar de vez.

— Já ferrou — Dylan respondeu. — Mas talvez faça alguma coisa certa pela primeira vez.

Tyler respirou fundo, segurando o telefone com força.

— Eu sinto muito.

Dylan olhou direto nos olhos dele.

— Eu sei. Mas isso não muda nada.

O anúncio de tempo encerrado soou alto demais. Dylan colocou o telefone no gancho e se levantou. Tyler demorou a fazer o mesmo.

Antes de sair, Dylan falou, sem usar o telefone, só lendo os lábios:

— Eu não vou mais carregar isso sozinho.

Tyler assentiu lentamente.

Quando Dylan saiu da sala, sentiu algo diferente do alívio que esperava. Não era paz. Era peso — mas agora dividido.

Do lado de fora, o sol já estava baixo. Gente passando, carros buzinando, o mundo funcionando como sempre.

Dylan respirou fundo e seguiu em frente.

Dessa vez, sem olhar pra trás.