Notas iniciais
Como prometido, este é o último capítulo, onde tudo se encaixará. Espero que gostem!

Capítulo 3

A lâmina foi retirada com violência do corpo de Eric e seu corpo foi arrastado vagarosamente.

Lilian estava apavorada dentro da casa, sabia que se não fosse o refém preso no cubículo de madeira na sala, ela estaria completamente sozinha. Esperou alguns minutos, mas não houve sinal de nenhum dos dois. Decidiu voltar para o quarto, sentou-se na cama nervosa, só então notou um envelope sobre o criado mudo, a curiosidade falou mais alto, então ela o abriu. Percebeu que ele não havia sido colado ainda e que dentro havia uma carta, que foi aberta vagarosamente antes de ser lida. Era a carta de um velho para seu neto, que morava em outro estado. Nela, ele falava sobre o milho, a colheita, saúde e de uma brincadeira que faria com alguns moleques que pulavam a cerca para roubar espigas de milho do seu milharal. Ele iria se fantasiar de espantalho e dar um grande susto neles.

Lilia largou a carta ao ouvir um barulho na sala. Seria Eric ou John voltando? Cautelosamente foi encaminhando-se à sala, estava desarmada e indefesa. E se fosse a polícia? Ou outros bandidos? Ao pensar isso forçou-se a rir da ironia, ladrão que rouba ladrão...

Voltou a lanterna para o corredor enquanto ouvia mais barulhos, eram passos. Quem poderia ser? Ficou parada, trêmula.

- Eric? – perguntou, mas não houve resposta – John? – silêncio.

Lilian andou até a sala iluminando o cômodo com a lanterna, deu meia-volta. Gritou. Tentou correr, mas o golpe desferido por aquela figura derrubou-a. Uma lâmina foi cravada nas suas costas e retirada. Seus olhos começaram a escurecer, pouco antes dela receber outro golpe, no pescoço.

Faltavam poucas horas para amanhecer, ele estava suando exausto. Tinha acabado de jogar a última pá de terra, contemplando os dois túmulos que acabara de criar. Faltava algo, ele olhou ao redor e encontrou alguns pedaços de pau. Com algumas tiras de pano que havia na varanda da casa, ele amarrou-os em forma de cruz e fincou uma em cada túmulo, ambos diante da cruz maior.

Sorriu, seu plano tinha dado certo, estava finalmente rico, toda grana do assalto seria sua.

“Eu sou um gênio” – pensou. Havia planejado tudo, o local para se livrarem do carro, o milharal que ninguém ousava invadir para se esconder.

- Como esse povo é idiota, acreditar que um espantalho matava todos aqui. – começou a rir, ele havia retirado o espantalho da cruz, mas pelo odor, constatou que era um cadáver. Ficou um pouco apreensivo, afinal, quem colocaria um cadáver no lugar de um espantalho? Lembrou-se do susto de Eric ao esbarrar no corpo do espantalho, pouco antes de assassiná-lo; e do rostinho assustado de Lilian ao ver seu rosto na casa com a lâmina que matara seu namoradinho.

John continuava a rir, livrou-se das provas, limpou o sangue, enterrou os corpos, o refém morreria no cômodo de madeira, não havia nada para preocupá-lo. Colocou a bolsa com o dinheiro no ombro e voltou-se para onde tinha deixado o espantalho, mas... ele não estava lá!

Olhou em volta realmente assustado. Será que o feitiço se voltara contra o feiticeiro? O vento balançava o milharal deixando-o ainda mais apreensivo e nervoso. Virou-se e deu o maior grito de sua vida... e o último. Ali, parado, com a cabeça pendida, com o canto da boca e o nariz costurado e distorcido, com o chapéu de palha sobre a máscara que cobria o rosto cadavérico, estava o espantalho, segurando a lâmina assassina. O espantalho que julgara ser só um simples cadáver. O espantalho que tiraria sua vida...

John o viu levantar a lâmina e virou-se no ímpeto de correr, mas já era tarde. Ele sentiu quando o objeto perfurou violentamente a carne de sua coxa. Caiu no chão, enquanto agonizava de dor, não conseguindo se levantar. A criatura ficou estática atrás dele, como se estivesse se deleitando com seu sofrimento. John começou a se rastejar, o mais rápido que podia naquelas condições. Aquilo era loucura, não podia ser verdade, era ridículo, não acreditava que estava fugindo de um espantalho.

Olhou pra trás e não viu nada. Aonde aquela criatura teria ido? Deve ter entrado no milharal, era a sua chance. Virou-se para continuar, mas viu aquele rosto aberrante parado a apenas um palmo de sua face. O espantalho estava agachado mirando-o com aquelas órbitas vazias. Antes mesmo que pudesse gritar, a criatura rapidamente ergueu a lâmina e atingiu-o mortalmente no pescoço.

********************

Os policiais invadiram a cerca de arame farpado empunhando seus revólveres. Seguiram os rastros dos assaltantes do banco e chegaram até ali, naquele milharal abandonado. Perceberam que a porta da casa estava entreaberta, os três entraram. Estavam cansados, passaram a madrugada toda atrás dos desgraçados, já eram oito da manhã e tudo que queriam era pegá-los logo.

Se reuniram na sala e, através de gestos, começaram a se espalhar pela casa, vasculhando cada cômodo dali. Não encontraram ninguém. Um dos policiais pensou ter ouvido algo vindo de um móvel de madeira, com porta dupla e de mais ou menos um metro. Havia outro menor encostado que tinha vários livros em cima. Estranhando a posição dos móveis foi até lá e bateu três vezes consecutivas. Como não houvera resposta achou que poderiam ser ratos e fez um sinal para os outros saírem.

Do lado de fora, um dos policiais viu aquele espantalho horrendo preso a uma cruz. Outra coisa chamou sua atenção, três túmulos cada um com uma cruz fincada. Aquilo era realmente macabro e assustador. Benzeu-se, quem estariam naquelas covas?

Dentro da casa, mais precisamente num pequeno e apertado cômodo, estava o refém que tentava desesperadamente gritar, mas a mordaça o impedia. Daniel começou a chorar, nunca mais veria a luz do Sol ou outra pessoa, passaria o resto de sua vida preso na escuridão do lado interno daquele cubículo.

Os policiais já estavam bem longe, quando ele conseguiu rasgar a mordaça junto com a pele de seu rosto, de tanto esfregar na madeira. Não havia mais nada em sua mente além do fato de ficar pra sempre sozinho ali. Gritou com todas as forças que possuía em seu pulmão:

- Por favor! Alguém me ajude! Faço tudo o que quiserem, mas tirem-me daqui! SOCORRO! SOCORRO!

Ficou o dia todo gritando até ficar sem voz. Sabia que ninguém viria àquele lugar maldito, ficaria ali dentro sozinho, passando sede e fome, e pensando nos ressentimentos que possuía em sua vida pessoal. Permaneceria assim até a morte, mas sabia que coisa muito pior poderia lhe acontecer.

Notas finais
É isso, aos que lerem espero que tenham gostado. Comentem falando bem ou mal, o que foi bom e o que ainda precisa melhorar.

Até a próxima!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!