O Mistério da torre de cristal
12 Sombrias visitas noturnas
— Lívia, eu irei viajar a negócios por alguns dias, na próxima semana – Victor me comunicou durante o jantar, naquela mesma noite.
— Viajar? Quando? – Fiquei assustada por ter que ficar naquele apartamento, totalmente só.
— No meio da semana que vem, serão apenas alguns dias, viajarei na quarta, pela manhã, e retorno na sexta à tarde.
— Posso ir com você? Eu ficarei quietinha, no hotel.
— Querida, é apenas uma viagem chata de negócios, por isso não seria justo, você ficar presa em um hotel, sem ter o que fazer.
Soltei um longo suspiro, conformada, ele estava certo, não havia nenhum plausível motivo para eu ir, nem poderia revelar a verdadeira razão dos meus temores, que dividimos nosso apartamento com algum tipo de atividade paranormal, o fantasma de uma mulher que desapareceu no começo do outro século, pois, no mínimo, ele pensaria que eu estava ficando louca.
Mais tarde, Victor ficou bastante animado e romântico, falando em filhos e família, ainda não tinha pensado nisso, éramos recém-casados, por isso me prevenia. No meio da noite, meu marido dormia calmamente ao meu lado, enquanto, eu rolava na cama, observando os cantos escuros, na expectativa do que pudesse acontecer, porém, acho que acabei adormecendo, por pouco tempo, não sei o que me fez despertar, era uma sensação estranha de estar sendo observada, algo que me fez abrir os olhos, mesmo cheia de medo, e lá estava ela me encarando, com seu rosto pálido sem expressão, os olhos vazios, um grito parou na minha garganta, mal conseguia respirar.
— O que você quer de mim? – sussurrei, com a coragem dos desesperados.
Ela me fitou de um modo que parecia perfurar a minha alma, não havia raiva ou rancor naqueles olhos, só uma dor imensa, então, se virou, foi até a porta e parou. Será que queria que eu a seguisse? Era muita loucura, mas me ergui, com todo cuidado, para não despertar meu marido e fui em frente. Continuei pelo corredor escuro, atrás daquela suave luminosidade, estava muito frio ali. Meu Deus, eu estava seguindo um fantasma! Será que estava ficando louca?
Ela parou diante da porta do lavabo, como se me esperasse, olhou para mim, mais uma vez, e desapareceu. Por instinto, sabia o que ela queria me mostrar, entrei acendi a luz e encarei o pequeno retrato a óleo de Mariane, no auge da sua beleza. Era isso? Eu já tinha olhado para aquela imagem algumas vezes, mas havia algo a mais que não estaria enxergando? Ao olhar, o fantasma estava bem atrás de mim, me observando, me assustei. Acordei em um pulo, na minha cama, foi apenas um sonho. Victor dormia pesado ao meu lado.
Aconcheguei-me outra vez no travesseiro e tentei adormecer, mas aqueles olhos sofridos não saiam da minha cabeça. No quadro, eram tão luminosos, ela parecia feliz, bem diferente dos olhos tristes que seu espectro exibia. Qual seria a razão dessa mudança? O que ela queria de mim? Se ela havia fugido com outro homem, por amor ou luxúria, por que então vagava por onde foi o seu antigo lar, atormentando uma mulher inocente, como eu? Talvez, ela só quisesse que descobrisse algum segredo, senão eu não conseguiria viver em paz naquele lugar, com o meu marido.
Não poderia nunca relatar o que estava acontecendo a Victor, ele era um homem prático e cético, nunca acreditaria em mim. Decidida que não conseguiria dormir de novo, levantei-me da cama e fui ao escritório, para recomeçar a minha pesquisa sobre a misteriosa mulher.
Mariane Mathias, nascida nessa cidade em 20 de janeiro de 1895 e dada como desaparecida em 17 de fevereiro de 1919, era uma moça humilde, órfã, sua mãe morreu no parto e o pai de tuberculose alguns anos depois, daí viveu em casa de parentes de favor. Aos 17 anos, era muito linda, trabalhava em uma tabacaria na rua do Comércio, quando conheceu Bernard Lyon, jovem herdeiro de uma tradicional e muito rica família dessa cidade, um dos solteiros mais cobiçados da sociedade, que se apaixonou à primeira vista pela garota pobre e, contra todas as expectativas, casou-se com ela. Viveram felizes por alguns anos, nunca tiveram filhos, até que a ingrata mulher fugiu com um amante secreto, deixando uma carta de despedida e o marido inconsolável para trás, que nunca mais se recuperou ou se casou outra vez, morrendo sozinho no palacete da família, em idade avançada, em estado de demência. Os criados relatavam que o pobre ancião vagava pela casa escura, tal qual uma alma penada, chamado o nome da mulher, há muito, desaparecida.
Que história! Pensei, em parte, parecia com a minha, mas eram outros tempos. Pulei na cadeira, quando as luzes se acenderam.
— Lívia, o que está fazendo acordada a essa hora, sozinha, no escuro?
— Perdi o sono, por isso estava fazendo uma pesquisa – respondi e Victor se aproximou para conferiu. Será que estava desconfiado de mim ou era apenas curiosidade?
— Mariane Lyon?
— Sim, a moça do retrato no lavabo.
— Por que essa obsessão por essa mulher, agora?
— Não é obsessão, só curiosidade. Estava sem sono, então vi gastar o meu tempo.
Ele me olhou de uma maneira estranha.
— Vamos nos deitar, Lívia.
Eu desliguei o computador e o segui de volta ao nosso quarto, mas não consegui pegar no sono, imaginando o que Mariane queria de mim.
— Quando você irá viajar, Victor? – perguntei, durante o café-da-manhã.
— Como falei na quarta pela manhã.
— E para onde você vai?
— Vou até um dos canteiros de obras, no interior, vou ver de perto porque a construção da barragem está tão atrasada. Por que tantas perguntas?
— Não, só não gosto da ideia de ficar sozinha, nesse apartamento tão grande.
— É bastante seguro, não precisa temer nada, minha querida. Convide aquela sua amiga para vir até aqui, passar uma tarde com você. Aliás, eu convidei Verônica e Alex para jantarem conosco, hoje à noite.
— Hoje! Sem falar nada comigo?
— E qual é o problema e só providenciar o jantar com a governança, basta um simples telefonema, e estará tudo resolvido em algumas horas, sempre fazíamos isso, muitas vezes, antes de me casar com você.
— Tudo bem, eu providenciarei o jantar, mas posso convidar Monique e Eduardo e Amélia?
— Faça como quiser – ele se levantou, beijou a minha testa e saiu
Sabia que seria estranho, colocar aqueles cinco juntos, mas, pelo menos, eu me sentiria mais à vontade e ainda teria a opinião de Monique sobre Verônica e seu interesse no meu marido. E como imaginava, minha amiga aceitou de imediato, enquanto, Eduardo ficou reticente, contudo, depois de eu muito insistir, acabou concordando. Amélia recusou, alegando que não se sentiria bem com aquelas pessoas estranhas, prometendo que iria me visitar em outra ocasião. Assim, pedi que preparassem o jantar para 6 pessoas e para ser servido às 8 horas.
Os primeiros a chegarem foram Monique e Eduardo, eles nunca haviam estado na minha nova casa antes e ficaram impressionados com o que viram.
— Nossa, arrasou, amiga! – Monique disse, assim que eu atendi a porta.
— Realmente, é um lugar muito bonito — Eduardo concordou, disfarçando o seu espanto.
— Obrigada, Victor está na sala. Por favor, entrem.
Victor os recebeu com uma indiferente educação, eu já havia percebido que ele não gostava de Monique e até aturava Eduardo, mas eu, também não gostava dos amigos deles, que chegaram logo a seguir.
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