O Mistério da torre de cristal
15 Morta no seu coração
Voltei para casa, sentindo-me muito confusa, não sabia o que pensar, mesmo que estivesse mentindo aquela mulher plantou uma sementinha de incerteza na minha vida, apesar de não querer acreditar.
Estou sozinha em casa, ainda não anoiteceu, mas eu acendo todas as luzes para espantar a escuridão, iluminando os cantos escuros onde meus medos se escondem. Fico atenta a cada espelho, quadro ou escultura que encontro e confunde a minha visão.
O meu telefone toca, corro para atender, imaginado que fosse Victor, durante o curto trajeto, avalio se devo ou não o questionar sobre a conversa com a senhora Valdez, contudo, antes de chegar a uma decisão, vejo o nome de Eduardo na tela, ao certo, ele descobriu alguma novidade sobre Mariane, atendo, ansiosa.
— Oi, Lívia. Você não sabe o que descobri? – Pressinto o entusiasmo na sua voz.
— Não, nem imagino.
— A estátua no hall do seu edifício foi encomenda por Bernard Lyon, após o desaparecimento de sua esposa.
— Quer dizer que não foi uma homenagem, já que ele, teoricamente, havia sido abandonado?
— Talvez, fosse uma homenagem, uma forma de ficar perto dela. Uma forma de eternizar a mulher amada que perdeu.
— Não sabia que você era tão romântico, Eduardo.
— Você não sabe muitas coisas sobre mim, Lívia.
Fiquei sem palavras, Eduardo sempre foi tão na dele, nunca falava muito de si mesmo, quais segredos esconderia, mas quem não tem segredos muito bem escondidos dos outros?
— Eduardo, por que você e Monique não vêm jantar comigo amanhã à noite? Victor viajou por alguns dias e estarei sozinha, assim podemos conversar sossegados.
— Vou falar com Monique e lhe envio uma resposta.
Depois que nos despedimos tive uma imensa vontade de rever a estátua no hall, sempre passava por ela, sem prestar muita atenção, por me dar uma sensação um tanto lúgubre, assim peguei o elevador e desci. No meu destino, parei diante da mulher deitada envolta em um véu, sobre uma cama de pedra em cima de um grande pedestal, esculpida em alvíssimo mármore de Carrara, reconheci o velado rosto de Mariane com os olhos fechados e uma expressão tranquila, aquele era o mesmo rosto que assombrava os meus sonhos. Como um homem apaixonado gostaria de homenagear a mulher amada assim, como se estivesse morta? Seria um tipo de vingança, uma forma de matar o seu amor rejeitado?
— Senhora Rahner, posso ajuda? — Levo um susto e dou um pulo, não percebi o porteiro se aproximando.
— Não, obrigada, Alfredo. Só estou admirando essa bela escultura.
— Sim, ela bem bonita, mas me dá arrepio – Sorriu para ele, solidária. – Parece coisa de cemitério.
— É parece mesmo. Boa noite, Alfredo.
— Boa noite, senhora Rahner.
Reticente, voltei para meu apartamento, poderia fazer uma pequena mala e dormir em um hotel ou ir para casa de Monique, mas como explicaria essa atitude ao meu marido, caso descobrisse, ainda não tinha coragem para lhe revelar os meus receios, sem parecer uma desequilibrada. Muitas vezes, Victor era como um estranho para mim, mesmo casados, não éramos tão próximos, ambos mantínhamos segredos.
Sem escolha, conformei-me, tomei um banho e me deitei, mantive as luzes acesas, fechei os olhos e, finalmente, vencida pelo sono, adormeci. Não sei quando tempo, eu dormir, quando acordei com uma música vinda de algum lugar, abri os olhos, não aquele não era o meu quarto, mas outro no passado com seu delicado papel de parede florido, móveis escuros, colcha de cetim. Logo ali em frente, reconheci o mesmo espelho que agora estava no meu quarto, atualmente. Poderia ficar deitada ali, fechar os olhos e esperar que tudo voltasse ao normal, mas, ao invés disso, me levantei e fui em direção ao som. Abri a porta dupla de madeira trabalhada e sai daquele quarto. Segui por um corredor largo decorado com muitos quadros, chão de madeira forrada com um longo tapete até uma sala, cheia de pessoas alegres e falantes, algumas dançavam ao som de um gramofone que tocava uma música animada, os Lyon pareciam modernos, outros convidados tinham copos de cristal colorido nas mãos e conversavam. Era uma festa. Em um canto da sala, reconheci Mariane, linda com um delicado vestido rendado de cor creme e laços rosados, conversando sorridente com um jovem rapaz, bem bonito, que, sutilmente, a cortejava, sabia que não era o seu marido. Quando Bernard Lyon chegou, apesar de sua atitude educada, vi lampejos de ódio no seu olhar. Ele sorriu para a esposa e seu interlocutor, pediu licença e a tirou dali, segurando o seu cotovelo com força, a guiou para uma outra sala, do outro lado da casa, longe dos convidados, eu os segui. Bernard trancou a porta com chave e se aproximou da esposa.
— O que houve, Bernard? O que está acontecendo? – Mariane perguntou, atordoada com a atitude grosseira do marido.
Em resposta, a mão dele voou para o rosto da mulher, com tanta força, que ela perdeu o equilíbrio e caiu sobre uma poltrona. Eu me assustei com tamanha brutalidade, mas não tinha nada a fazer.
— O que acha que está fazendo, deixando ser cortejada por aquele janota sacripanta na frente de todos os nossos convidados, humilhando-me publicamente? – Bernard falou, entredentes.
Mariane, estregou o rosto dolorido, amedrontada, lágrimas rolavam por seu rosto.
— Por favor, só estávamos conversando, Bernard.
— Conversando? Eu vi como ele a fitava cheio de cobiça e você aceitava a corte dele, sem nenhum pudor, tal qual uma meretriz.
— Não é nada disso, Bernard. Vamos voltar para a sala nossos convidados devem estar estranhando a nossa ausência.
— Eu vou voltar, mas, você ficará aqui até o fim da festa, direi que está indisposta e foi se deitar.
— Por quê?
— Porque não quero ser humilhado diante dos meus amigos, por uma esposa desregrada e infiel.
Ele tirou a chave da porta, saiu e a trancou por fora. Sozinhas, dentro daquela sala, com uma memória do passado, Mariane olhou diretamente para mim e eu despertei. Não consegui dormir mais, só quase ao amanhecer, adormeci, acordei tarde, sentindo o cheiro do café, coloquei o roupão e desci as escadas, encontrei Teresa na cozinha.
— Bom dia, senhora Rahner.
— Bom dia, Teresa – Sentei-me diante da mesa já posta. – Por favor, preciso que preparem jantar para três para hoje à noite.
— Alguma preferência, senhora Rahner?
Assim escolhi os pratos a serem servidos, sem muita frescura. Para falar a verdade, sentia falta da comidinha caseira de Amélia.
Passei o resto do dia com aquela cena do ciúme doentio de Bernard na cabeça, imaginava se Mariane havia, realmente, fugido da loucura daquele homem ou não, se havia tornado uma prisioneira inocente dele.
No meio da tarde, Monique me enviou uma mensagem, avisando que não poderia vir porque estava doente e com muita febre, faringite, me fez prometer que a convidaria em outra oportunidade, mas Eduardo confirmava que viria. Por mim, não haveria nenhum problema, já que nós nos conhecíamos desde criança. Mas, com Victor viajando a negócios, queria evitar fofocas, por isso, liguei para a portaria e avisei que receberia a visita de meu irmão, o que era meia verdade, pois eu o considerava como se fosse.
Eduardo chegou pontualmente no horário combinado, eu estava feliz com sua presença, porque teria companhia, por algumas horas.
— O porteiro acha que eu sou seu irmão – ele disse, rindo, quando entrava e me dava dois beijos no rosto.
— Eu disse isso a ele, para evitar fofoca, pois Victor está viajando. — Ele me deu um olhar de reprovação. – Você está muito elegante – Mudei de assunto, porém estava impressionada, pois, poucas vezes, eu o encontrei assim tão bem vestido. – Bebe algo?
— Só água, obrigado. Vou dar aula amanhã.
— É estranho para mim, o mundo real continua indo em frente, enquanto eu estou aqui em cima, na minha torre de cristal.
— Essa foi a sua escolha, Lívia – Ele me encarou de um jeito sério.
— Vamos, entre, e me conte o que descobriu.
Fomos para a sala e servi um copo de água e entreguei a ele e, para mim, uma taça de vinho branco, sentei-me ao seu lado, no sofá. Da sua pasta, Eduardo tirou seu computador.
— Andei pesquisando sobre Mariane e Bernard. E acho que você pode estar certa a respeito do desaparecimento dela. Pois, mesmo com registros precário, ninguém nunca mais ouviu falar dela, nem uma única menção do seu nome consta em qualquer documento daquele dia em diante. Ela pode ter mudado de nome e vivido no anonimato.
— Ou, então, ele pode tê-la matado.
— Ou Mariane trocou de nome e viveu escondida, já que era mais fácil, naquela época. Hoje, eu reparei melhor na escultura do hall de entrada.
— E o que você achou?
— Realmente, ela é muito bonita, mas um tanto mórbida, parece que ela está morta, contudo, pode ser só uma metáfora, como se Bernard quisesse matá-la no seu coração, após sua traição.
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