— Você quer dizer a estátua? – Victor indagou com uma expressão de surpresa.

— Sim, descobrimos que ela foi esculpida após o desaparecimento de Mariane. E aquela aparência mórbida...

— Não é possível. Bernard Lyon era um homem infeliz com o desaparecimento da mulher, não um assassino.

— Eu não sei, pois, a moça simplesmente desapareceu da face da Terra, nunca mais ouviu-se falar nela. E tinha aquele ciúme doentio dele.

— Ciúme doentio? Como você pode saber disso?

— Além do mais, aquilo parece um mausoléu.

— E o que você acha. Era um tipo de tema muito em voga naquela época. Talvez, ele só quisesse demonstrar a sua dor pelo amor perdido.

— Foi isso que Eduardo falou.

Victor ergueu as sobrancelhas em desaprovação ao meu comentário, seria melhor parar de falar sobre Eduardo.

— Definitivamente, eu não irei destruir a minha estátua por uma ideia maluca como essa.

— Não precisa destruí-la! Poderemos usar um dos seus aparelhos ultrassons para checagem de estruturas, ver o interior do pedestal.

— Como vou explicar isso para a diretoria? – ele falou, exasperado.

— A empresa é sua! – rebato, aflita, mas, respiro fundo, me acalmo. – Tudo bem. Vou negociar com você, Victor. Deixe me usar um dos seus ultrassons para estudar a base da estátua e eu paro de evitar uma gravidez.

— Você quer dizer que se eu deixar que use o ultrassom para investigar essa ideia maluca, você terá um filho meu?

— Sim, você entendeu certo.

Eu sei que esse tipo de negociação era abominável, um filho por uma máquina, mas eu estava determinada a acabar com esses pesadelos que me afligiam, queria viver em paz com o meu marido, naquele apartamento.

— Pois bem. Se é assim, posso tentar, no entanto, não prometo nada.

Respirei aliviada, sabia que ele estava fazendo um jogo duro, para que não voltasse atrás na minha proposta.

Enfim, Victor ficou tão animado com a ideia, que me fez lembrar da intriga da senhora Valdez, que meu marido só teria o controle total da empresa após o nascimento do seu primeiro filho, dentro de um casamento sacramentado.

Como eu previa, ele conseguiu agendar uma data para a exploração da estátua, para dali alguns dias.

Nas noites que antecederam a verificação do interior da estátua, os meus pesadelos se intensificaram, podia assistir a triste vida de Mariane, como um filme, convivendo com o ciúme doentio de Bernard, que a proibiu de sair de casa e receber visitas, passava os dias confinada dentro de casa, sozinha. Por fim, ele a proibiu de sair à rua, mesmo para ir à costumeira missa de domingo. Como costume da época, onde o homem era o amo e senhor, ela não tinha como se rebelar, nem encontrar apoio para fugir, já que não possuía família, então, era obrigada a se sujeitar ao seu tirânico marido. Muitas vezes, eu me identificava com ela já que nós duas não tínhamos família e casamos com homens ricos, mas, ao menos, meu marido era gentil e educado, apesar de me sentir solitária na minha torre de cristal.

No dia programado, estava ansiosa, mal consegui dormir, acordei cedo, à espera do técnico traria a sonda.

— Você não vai trabalhar? – indaguei ao meu marido, porque usava roupas casuais.

— Não, já que você criou esse evento, quero participar – disse com tom divertido, certo que era só uma ideia maluca minha.

— O que disse para conseguir a liberação da sonda?

— Disse que desconfiava que havia uma rachadura na base da estátua – ele me deu um sorriso travesso, sorri de volta.

— Eduardo virá também.

— Por quê? — Seu tom ficou mais sério.

— Porque ele me ajudou na pesquisa.

— Alguém mais? Pois não quero que isso se torne um espetáculo – ele perguntou com uma pontinha de sarcasmo.

— Não.

Na hora marcada, o técnico chegou trazendo a máquina. Já guardávamos lá embaixo. Fiquei decepcionada, pois esperava por algo bem grande, contudo tinha o tamanho de uma maleta. Eduardo chegou logo a seguir e para a minha total surpresa, Alex também apareceu por lá.

— Victor me contou o que iria acontecer hoje, e eu não podia deixar de ver isso – respondeu a minha expressão de interrogação, olhei para o meu marido descrente, porém, minha atenção foi desviada quando as luzes da máquina se acenderam.

Segurei a respiração e estiquei o pescoço para ver melhor a imagem pouco nítida, enquanto o técnico passava o aparelho na base da estátua, na tela a imagem era toda por igual, nada se destacava, já estava pensando como era boba por acreditar em uma ideia dessas e envolver tanta gente nisso, foi quando a imagem escureceu.

— Há uma lacuna lá dentro, senhor – técnico falou para Victor.

— Uma rachadura.

— Não é uma área retangular, medindo, mais ou menos, um metro e vinte por 80 centímetro por 40 – o técnico informou.

— É muito pequena, para conter uma mulher adulta – cochichei para Eduardo.

— Não, são só os restos mortais – ele me respondeu, no mesmo tom.

— Tem algo lá dentro? — Agora, Victor parecia intrigado.

— Acho que sim, não dá para identificar bem está tudo amontoada, mas espere! Aquilo parece ser um crânio, talvez, ossos amontoados! – o técnico avisou, surpreso.

Soltei o ar com força, o queixo de Victor literalmente caiu. Todos ficamos em silêncio, sem poder acreditar naquelas palavras, nem eu mesma.

— Acho melhor chamar a polícia – Meu marido disse, com um fio de voz.

Quando a polícia chegou, a situação ficou ainda mais confusa, a área foi isolada, empregados e até mesmo alguns vizinhos pareceram para ver o que estava acontecendo, reconheci o rosto da secretária da senhora Valdez entre os curiosos. Os policiais queriam saber como suspeitei que houvesse um corpo ali e não poderia confessar a ele, que sonhava com o fantasma da possível vítima escondida ali dentro. A perícia foi chamada para retirar os restos mortais de dentro da base da estátua. O sonar havia revelado a possível entrada para aquela improvável tumba.

Para tristeza do meu marido, parte da lateral da escultura deve que ser destruída para a retirada do seu conteúdo. Então, depois de quase um século, oculta, Mariane veio à luz do dia, sobre os olhares estupefatos de uma seleta plateia.

Em um breve exame local, o perito presente declarou que a vítima deveria estar ali há muito tempo, pela estrutura óssea seria uma mulher pequena, o que foi corrobora pelos trapos remanescente do vestido que usava, as poucas joias e a cabeleira comprida e castanha.

— Prazer em conhecê-la, pessoalmente, Mariane – eu disse, baixinho, ao ver o que sobrou da bela mulher que conheci nos meus sonhos, antes que a levasse dali.

— Eu acho melhor subirmos e deixarmos a polícia trabalhar – Victor propôs, tenso, e nosso pequeno grupo entrou no elevador, em direção a cobertura.

— Eu estou impressionado com perspicácia da sua esposa, Victor – Alex declarou, com um toque de acidez. – Ela é uma incrível detetive.

— Lívia é muito inteligente e esperta. E, também, bastante teimosa. – Victor respondeu de modo sério, para minha surpresa, encarando Alex que sustentou o olhar, em desafio.

Não estava entendo o que estava acontecendo ali entre aos dois homens, podia pressentir que havia algo errado. Por isso, aquela troca de olhares entre os dois, não sei porque, me incomodou.

Assim que entramos no apartamento, senti o ar mais leve, poderia ser só impressão minha, mas algo havia mudado, afinal, a justiça foi feita para Mariane, que, agora, poderia encontrar a sua paz eterna. Eu estava tão feliz, porque poderia ter uma vida tranquila ao lado do meu marido, naquele lugar. Tudo havia terminado bem.

—Vamos beber alguma coisa para relaxarmos? – Victor propôs.

— Não, obrigado. Preciso ir, tenho aula amanhã cedo. Deixei meus dados com a polícia, caso, precisem de algum esclarecimento – Eduardo respondeu.

— Eu levo você até a porta, Eduardo – eu disse, queria um momento a sós com ele para agradecer a sua ajuda. Foi o que eu fiz, diante da porta do elevador.

— Não, foi nada, Lívia. Era um mínimo que poderia fazer para uma velha e querida amiga.

Beijei seu rosto, com ternura, antes de ele desaparecer atrás da porta.

Quando retornei à sala, onde Alex e Victor estavam, tive a sensação que eles pararam de falar a minha chegada, havia algo estranho ali. Aquela amizade sempre me incomodou um pouco, havia algum segredo, que me deixava excluída. Alex levou o copo a boca e tomou um longo gole do seu uísque, enquanto Victor olhava pela janela, porém, eu fingi que não notei.

— O que vai acontecer agora? – perguntei.

— Como assim? – Victor me encarou, erguendo as sobrancelhas.

— Com Mariane, o que vai acontecer com ela?

— Eu não sei – ele respondeu.

— Será difícil comprovar se era Mariane, sem digitais, DNA ou arcada dentária, somente pela história – Alex rebateu.

— Mas, é ela, eu tenho certeza – reafirmo.

— Isso não basta para a polícia – Alex contesta. – Não acho que a família Lyon reconheça que um dos seus membros era um assassino, apesar dos fatos indicarem isso.

— E se eles não quiserem os restos dela? – questionei.

— Será enterrada como indigente ou, talvez, incinerada – Alex parecia querer me irritar.

— Não podemos permitir isso, Victor! – falei, exaltada.

— Eu pedirei aos meus advogados para entrarem em contato com a família Lyon, está bem para você, querida? – Victor interveio, com tranquilidade. Sacudo a cabeça, confirmando.