– Estamos combinadas meninas? – perguntou Elizabeth após o almoço.

– Por mim tudo certo, não precisaria nem ter pedido. – disse Vic dando os ombros.

– Apesar de não ser tão boa como a Vic ainda, tudo certo Elizabeth, pode contar conosco. – disse Anne sorrindo.

– Ótimo! Sabia que poderia contar com vocês. – disse Elizabeth sorrindo. – Falarei com ele ainda hoje para avisar sobre o que combinamos.

– Só não fale quem sou, tudo bem Elizabeth? – pediu Vic encarando o chão. – Elas não podem saber disso, não agora.

– Fique tranquila querida, não contarei seus segredos. – disse Elizabeth sorrindo bondosamente. – Bom, agora para as aulas meninas.

Sorridentes, as meninas seguiram cada uma seu caminho.

Apesar de Anne ser um ano mais velha que Vic, a loira estava há mais tempo no Instituto, sendo assim, estava níveis acima da amiga.

Diferente de outras escolas do mundo, não só de magia, o Instituto Brasileiro de Magia Guaramirim não havia classes com pessoas da mesma idade. Assim que despertava aquele tipo de magia, encaminhava-se para a floresta da escola. Foi assim que Vic, aos seus poucos cinco anos e alguns meses, chegou lá.

Vic, doze anos depois, estava no último nível de magia. No fim do semestre, estaria formada. A magia ensinada lá era diferente de todas as outras escolas de bruxaria no mundo. Ser uma bruxa ou bruxo de Guaramirim não era uma opção, era um estilo de vida. A loira era, sem sombra de dúvida, a melhor aluna, estava para se formar com bem menos tempo de estudo do que era necessário.

Ao anoitecer, Anne e Vic se reencontraram exaustas, necessitadas de um bom banho e uma boa noite de sono.

– Sei que está cansada, mas me acompanha no trabalho hoje? O Jay quer te ver. – pediu Vic para a amiga.

– Ai Vic, o que você não me pede sorrindo que eu não faço chorando? – resmungou Anne.

– Vou fingir que acredito que você vai só por minha causa. – disse Vic sorrindo maliciosamente. – Se o gordo não estivesse lá, você me mandaria para a pqp e iria para sua casa.

– Calada cadela. – ela me bateu.

– Nossa, me ame menos vadia. – disse Vic antes de puxá-la para uma sombra.

Por mais estranho que possa parecer, Victória Couto trabalhava num bar/boteco/restaurante como garçonete e cantava aos fins de semana. Sim, ela cantava. E eram músicas de sua própria autoria que contavam sua história.

– Chegou na hora certa Victória, como sempre. – resmungou seu ‘adorável’ chefe, Richard.

– Boa noite Richard. – disse Vic revirando seus olhos e indo se vestir.

Os jeans e a camiseta básica branca foram substituídos pó um vestidinho apertado e reto, sem decotes, preto. Salto alto preto e cabelos presos em coque. Colocou o avental verde por cima e se dirigiu para atender os primeiros clientes.

Infelizmente aquele fora o único lugar que aceitaram uma garota de oito anos de idade sem experiência alguma para trabalhar. A vida dela não era fácil, seu pai era um deus e sua mãe abandonara-a. Sim, é claro que ela sabia de quem era filha, mas não poderia revelar por hora.

Enquanto atendia os clientes daquele lugar que mais a viam como um objeto sexual, Anne e Jay paqueravam bem afastados de todos e ficavam olhando de longe para Vic, caso algum engraçadinho tentasse fazer algo a ela, não que ela fosse deixar, é claro.

Antes de virar o dia, Jay veio se despedir da amiga. Já estava bem tarde e ele levaria a ruiva para casa. Após ambos pedirem para ela tomar cuidado e qualquer coisa chamá-los, eles partiram. Vic não ligou tanto, estava acostumada com a solidão, mesmo cercada por milhares de pessoas.

Quando o expediente acabou, lá pelas três ou quatro da manhã, ela saiu rapidamente dali e se jogou na primeira sombra disponível. Surgiu numa linda praia meio deserta. Sem pensar, a loira retirou seus sapatos e caminhou pela areia molhada até uma floresta que começa ao fim da praia. Adentrando a mesma, uma pantera negra a esperava.

– Olá Angel. – disse Vic acariciando a mesma. – Estava com saudades menina?

Junto com sua leal amiga, Vic caminhou até uma clareia, onde uma pequena e aconchegante casa de barro se estendia. Feita com suas próprias mãos, ali tinha uma simples cozinha, sala, suíte e um banheiro social. Tudo que uma garota solitária precisa.

E assim seguiu os dias na vida dessa garota metade deusa e metade bruxa, uma vida difícil e simples.

Com o passar dos dias, ela aguentou a preocupação obsessiva dos amigos por conta “dele”, o trabalho no bar, as provas feitas por ter passado tempo demais no acamamento, as aulas de magia antiga... Mas, finalmente, ela estava para se formar tanto na escola trouxa quanto bruxa. Ela seria a primeira a se formar com tão pouco tempo de estudo.

Só mais quatro meses... Quatro meses e estaria livre de estudos e pronta para assumir, em partes, sua verdadeira essência.