O Meu Quarto

1 Meu Velho Quarto...


Lembro-me bem do meu velho quarto. Era cheio de rebeldia e desordem, algo muito natural pra idade que eu tinha na época. As paredes estavam repletas de pôsteres e haviam revistas jogadas pelo chão. Livros por toda parte e alguns filmes em vídeo. Na verdade, só tinha mesmo filmes de terror, esses eram os meus prediletos. E os discos então!!! Tinha Beatles, Bob Dylan, Led Zeppelin e Ramones. Bons tempos aqueles, com toda a certeza.

De fato, não guardo apenas boas lembranças daquele tempo. Em toda aquela casa havia um ar de mistério e, sobretudo, naquele quarto maluco.

Às vezes eu era acordado por vozes estranhas que me chamavam durante a noite. Os passos pelo quarto eram frequentes, mesmo estando com as portas fechadas. Os aparelhos eletrônicos costumavam ligar sozinhos, e da mesma forma desligavam. As luzes se acendiam no meio da madrugada e até mesmo os tic-tacs do relógio pareciam parar de vez em quando.

Fui chamado de louco muitas vezes por meus familiares e amigos. Passei a acreditar que tudo isso era fruto da minha imaginação. Mas tive a oportunidade de compreender que estava errado.

Certa vez, meus pais foram visitar uma tia que morava longe. Fiquei só em casa, fiquei só em meu velho quarto. Fazia frio naquela noite, lembro-me de que estava vestido com uma das minhas jaquetas. Liguei meu rádio e coloquei meu disco do KISS na vitrola. Deixei o volume baixo, pois já era noite e eu não estava a fim de ouvir os vizinhos reclamando. Tentei por algum tempo me concentrar na leitura, tinha ‘A Divina Comédia’ entre as mãos. Foi então que percebi o volume do rádio aumentando aos poucos. Aumentou até o máximo e por mais que eu girasse o botão, o volume não diminuía. Levantei-me da cama e puxei o fio da tomada e dei um fim aquele barulho infernal. Voltei para a cama e comecei a ler quando a televisão ligou sozinha, sem ao menos intervenção do controle remoto. Larguei o livro e arranquei o aparelho da tomada. Estava muito nervoso com tudo aquilo acontecendo, queria um pouco de paz para ler. Isto já estava indo longe demais. O rádio e a televisão ligaram de novo, mesmo estando fora da tomada. Que horror! Eu estava ficando doido! Tentei sair do meu quarto correndo mas a porta emperrou, tornando inútil qualquer tentativa de fuga. O volume de som dos aparelhos aumentava m gradativamente. Eu quis gritar por socorro, porém, compreendi logo que o volume alto da música não deixaria ninguém escutar-me. De repente, o livro que estava em cima da cama voou de encontro a parede e caiu com as páginas abertas, de cabeça para baixo no chão. Fiquei paralisado.

Um cinzeiro de vidro que eu mantinha na cabeceira da cama atirou-se com força pra cima de mim, atingindo-me no meio da testa. Antes de desmaiar por completo, notei que os aparelhos estavam desligados. Depois disso, não me lembro de mais nada.

Meus pais voltaram no dia seguinte e me encontraram deitado no chão do quarto. Ficaram muito preocupados, perguntaram muito sobre o que tinha acontecido comigo.

- Eu bebi ontem à noite! Foi isso o que aconteceu. Acabei dormindo no chão, devo ter batido com a cabeça, veja!

E mostrei o ferimento da minha testa retalhada. Então, rimos da minha situação, e como era de costume, cada um foi pro seu lugar. Eu nunca mais toquei no assunto, pois não quero acabar internado num hospício. Deixa-os pensar que foi tudo minha culpa.

Fim

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