O Meu Juiz

3 Quem está no controle?


Voltei cabisbaixo. Até chegar ao portão do meu apartamento. Saía um casal de jovens. A menina com uma espécie de calcinha jeans e o menino com um boné que só pegava a ponta da cabeça. Ambos de mãos dadas.

Lembrei-me da minha juventude, em como minha mãe pegava no meu pé, levava-me até a porta de todos os lugares que eu ia e ordenava que eu chegasse no horário combinado. Nos bailes que eu ia o estilo “Charme” dominava, hoje esses jovens ouvem músicas estranhas...

Não se tem mais senso e nem educação. E isso não tem nem dez anos. Espero que isso melhore daqui a algum tempo.

— Dá licença. – Pediu a menina mascando chiclete.

Assenti e dei passagem. Ao entrar, o porteiro, seu Romero, abordou-me, sentado no seu formoso banquinho.

— Esses meninos parecem que não tem mais o que fazer, vivem saindo. Nunca vi essa menina com mochila nas costas.

— Essa geração está mais preocupada em sair. Se divertir.

— Não... Vai muito além... – Ele suspirou – Eles querem viver no modo deles.

Seu semblante esmoreceu.

Pensei em deixa-lo daquela forma, mas ele continuou:

— Perdi minha filha ano passado, quando comecei a trabalhar aqui.

Desviei o olhar, sabia a dor de uma perda. Olhar para ele seria olhar para mim.

— Ela saía de uma festa de madrugada, não tenho esposa, então não consegui impor limites. – Ele suspirou – Assaltaram minha filha, levaram tudo e ainda atiraram nela.

— Eu... Eu sinto muito.

Ele riu sem ter muitos dentes aparecendo.

— É duro perder alguém.

— Eu sei. – Meus olhos inundaram.

— Se não fosse esse trabalho, fazendo-me ver todas as vidas que passam por aqui, eu não sei o que seria de mim, meu jovem. Agora mesmo avisei para esses jovens que não era bom que eles ficassem andando pela rua, ainda mais que já vai escurecer, mas esses jovens não escutam mais conselhos, só o que querem.

— O senhor tem razão, seu Romero.

Suspirei e isso encerrou a conversa.

Subi as escadas e, antes de entrar em meu apartamento, minha mente parou e refletiu em tudo o que passei hoje.

— Boa tarde, Daniel. – Cumprimentou-me a minha vizinha.

— Boa tarde... – Arqueei uma sobrancelha – Perdão, mas não sei o seu nome.

— Sarah.

— Ah, sim, boa tarde, Sarah... – Antes de o silêncio pairar, contei: — Ontem eu acabei indo para a sua casa.

— Sim, meu marido me contou. – Ela riu.

Senti-me envergonhado.

— Quando precisar de alguma coisa é só chamar. – Aquela mulher tinha uma doçura incomum.

— Ah, tudo bem, agradeço e... Desculpa por ontem, eu...

— Tudo bem, meu filho, Deus sabe de todas as coisas. Não se preocupe. – Ela desferiu um sorriso e desceu as escadas.

Balancei a cabeça até voltar para a Terra. Demorou alguns minutos e abri a porta do meu apartamento. Contudo, antes de eu entrar, um dos meus vizinhos, o mais velho dos filhos de Sarah, abordou-me.

— Boa tarde. – Ele me estendeu um convite de sua mão. Nem vi quando ele saiu de sua casa.

Olhei para o pequeno sem entender e peguei o convite.

—Terá o culto do amigo na nossa igreja no domingo, se puder ir.

—Onde é? – Minha inocente e desinteressante pergunta tirou um sorriso tão branco do rosto do menino, que temi.

—É lá do outro lado, depois do supermercado. É uma igreja grande.

A informação dele não ajudava muito, mas sua alegria era contagiante, que me fez sorrir.

—Pensei que fosse uma depois da praça.

—Também visitamos essa, mas congregamos mesmo na do outro lado. Eu toco bateria no grupo adolescente. – Ele falou com se fôssemos amigos e eu estivesse interessado em saber.

—Legal! – Como eles conseguem levar essa vida simples e feliz? Não se importando para os olhares indiferentes – Mas eu nunca te vi treinar. – Perguntei no automático.

—Não, não, mamãe não gosta de incomodar os vizinhos. Só tocamos na igreja ou na casa do nosso tio, que é o Pastor.

—Ah, sim. Se eu não fizer nada no domingo, darei uma passada lá. Você estará tocando?

—Sim! Na hora da oferta.

—Você é bem animado. – Eu ri.

—Nossa mãe diz que quando temos Jesus dentro de nós, até a tempestade do nosso interior se acalma.

—Quantos anos você tem?

—Doze.

Abaixei a cabeça. Ele entendeu que nossa conversa tinha acabado, deu tchau e voltou para casa.

Fiz o mesmo.

Não entendi nada do que estava acontecendo, mas sentia algo diferente. Aquilo tudo não foi nada normal. Os encontros...

Tirei as chaves do bolso e caiu o planfeto. Antes de amassar, resolvi ler.

SIM, DEUS NOS OUVE

Muitas vezes nos sentimentos sozinhos,

com problemas, com desemprego, drogas,

desavenças com parentes, falta de dinheiro,

doenças, problemas conjugais, etc.

Mas esquecemos que DEUS tudo vê.

Deus sempre atende às orações do seu povo.

Assim como sabemos que JESUS CRISTO nunca

rejeitou ao pecador que se achegou a Ele

buscando misericórdia, também cremos

que nenhuma oração feita em Seu nome

será vã.

Disse Jesus: “...E o que vem a mim de maneira

nenhuma o lançarei fora.

João 6:37b.

VISITE UMA IGREJA MAIS

PRÓXIMA DE SUA CASA.

Ao acabar de ler, amassei o papel e joguei em cima do sofá. Peguei o celular, tinha quatro chamadas perdidas. Não conhecia o número e também não tinha crédito para retornar.

Liguei o computador. Enquanto iniciava, fui até a cozinha comer algo. Não tinha nada. Cocei a cabeça, não havia comido nada ainda.

Voltei para a sala, entrei no meu e-mail e tinha uma mensagem. Uma resposta. Meu coração acelerou.

— Meu Deus, meu Deus! – Coloquei as duas mãos na cabeça – Calma, pode ser algo positivo ou negativo. Mas... Ficar para baixo não me edificará em nada, palavras do psicólogo Rodrigo. Então pensarei na possibilidade de ser algo bom! Isso! – Fechei os olhos – Pode ser uma mensagem avisando para eu não desistir, caso não tenha conseguido... – Abri os olhos – Sou péssimo em tentar me animar.

Cliquei na mensagem. E, justamente na hora mais importante, o modem não funciona direito!

Reiniciei o computador. Aguardei ansiosamente.

Ao iniciar, a internet ainda não pegava.

Lembrei que meus vizinhos estavam em casa. A tarde caía. Não imaginava criar algum vínculo com vizinhos, mas aquele e-mail era importante.

— Não, melhor não... – Falei comigo mesmo, em pé e sozinho na sala.

Andei para um lado e para o outro. Fui para o quarto vê se achava algum dinheiro para pôr crédito no celular. Procurei em gavetas, debaixo da cama, nos bolsos de calças e bermuda. Nada.

Peguei minhas chaves e saí. Parei em frente à porta. Como era difícil. Apertei as chaves em minha mão.

— Não, não, não!

Virei-me. Passei a mão no rosto.

— E se for algo bom? Mas e se não for? Ai, caramba!

— Está tudo bem, Daniel?

Retornei a olhar para a porta, assustado. Porém, agora, ela estava aberta e a minha vizinha de frente para mim.

— Ah... – Gaguejei – Sim, sim, eu...

— Precisa de algo?

— Não, não! Está tudo bem, eu... Deixa pra lá, eu... – As palavras não saíam.

— Estou indo no mercadinho para preparar o jantar, quer algo? Acabei esquecendo minha carteira e tive que voltar.

— Não, não, muito obrigado.

— Tem certeza que não quer nada? Porque iremos para a igreja daqui a pouco.

— Nossa. – Soltei surpreso.

Ela riu.

— Vocês vivem na igreja. – Sorri sem graça.

— Precisamos ganhar almas todos os dias que nos foi dado por Deus.

— Ah, é, esse Deus precisa estar em tudo na vida de vocês, né?

— Não só nas nossas, Daniel. – Ela sorriu largo para mim.

Eu falaria algo, mas fui interrompido por um grito dentro da casa da minha vizinha, era um dos filhos que avisava que a internet voltara.

Lembrei-me que precisava de internet. Mesmo se fosse em vão...

— Daniel? – Sarah afastou-me de meus pensamentos.

— Se não for incomodar, posso entrar no meu e-mail usando a sua internet? Na minha casa não está pegando, pois o meu modem está com problemas, eu acho. – Passei a mão na nuca.

— Claro que pode, Daniel! Fique à vontade, quando precisar de nós.

— Eu não quero abusar e nem incomodar, não me entenda mal. – Abaixei a cabeça.

— Você é bem vindo. Meu marido está em casa.

— Está? – Dei um passo para trás.

— Sim, ele recebeu uma promoção e agora trabalha dia sim e dia não, quando precisar, pode chama-lo também.

Deu vontade de correr.

— Agora eu vou ao mercadinho. Pode me dar licença? – Ela riu. Eu ainda me encontrava a sua frente, atrapalhando sua saída da porta.

— Desculpa. – Andei para o lado e despedi-me dela.

A porta ficou aberta. Meu coração acelerou.

— E agora?

Abaixei a cabeça e fiquei murmurando comigo mesmo se entraria ou voltaria para casa.

— Olha só quem está aqui!

Olhei para a porta. Sorri sem graça novamente.

— Entra, meu bom rapaz.

Engoli a seco.

— Hoje minha esposa ainda irá preparar o jantar, mas se quiser ficar aqui.

— Não, não, agradeço. Eu... — Cadê as palavras? – Eu...

— Sim. – Aqueles olhos claros e o sorriso largo me paralisaram. Era uma aproximação muito rápida para mim, que nunca tive um contato muito próximo com nenhum vizinho desde quando vim morar aqui.

Respirei fundo. Meu vizinho não era tão assustador assim, levando em conta que não brigou comigo quando invadi a sua casa no meio da noite. Encorajei-me.

— Posso usar a sua internet só para ver meu e-mail? Se não puder, não tem problema. – Dei uns passos para trás.

— E está esperando o quê? Você já conheceu a minha casa não faz nem muitas horas. – Ele riu humorado.

Deu espaço para mim e eu entrei.

— Moisés, deixa o rapaz mexer no computador.

O menino me olhou e ficou desanimado, acho que estava jogando. Era o mais novo.

— Prometo que não demorarei. – Disse, dando um sorriso ameno para ele, que retribuiu da mesma maneira.

Ele ia saindo quando o pai o advertiu.

— Como se cumprimenta o rapaz, Moisés?

— Ah, boa noite. – Ao dizer isso, correu para o quarto.

— Boa... – Ao me aproximar do computador, olhei para a tela e surpreendi-me com a hora. O dia já anunciava sua ida para a chegada da noite.

— Fique à vontade, viu? Estarei aqui no sofá se precisar.

Assenti.

O homem da casa se assentou, pegou sua bíblia, ligou o rádio, estava dando uma espécie de “Top 10”. E logo depois os meninos vieram. Ambos com uma bíblia e um caderninho e lápis.

Atentei-me para o computador, a fim de terminar logo o que vim fazer.

Abri uma nova guia e digitei na barra o link do e-mail. Apertei “Enter” e esperei carregar. Enquanto isso, o pai pedira para que eles abrissem a “Palavra do Senhor” em Mateus, capítulo 8 – versículo 23.

Cada um lia uma estrofe/ linha/ verso, sei lá. O mais novo lia mais lentamente.

Era acerca de uma tempestade, pessoas num barco e alguém que dormia. Voltei a focar na tela. Mas levei em meu pensamento o intrigante fato de alguém dormir, descansar em meio uma tempestade. Acho que esse alguém era o Jesus da vida deles.

Carregou. Coloquei meu login e minha senha. Aguardei mais um pouco.

O pai perguntou ao mais velho que ele tinha entendido acerca da palavra lida, esse era o que me entregou o convite. O menino gaguejou um pouco, talvez pela minha presença. Ele começou pronunciando assim:

— Acho que o texto em geral quer dizer que... – Olhou para o irmão, que olhava a bíblia – Que... Que não importa as dificuldades... É... Se Jesus está conosco, no barco, nós... Nós não precisamos ter medo, porque Ele nos ajuda.

Estava olhando para eles e o pai deles olhou para mim. Esbugalhei meus olhos e ele sorriu.

— Muito bem, Davi. – Elogiou o filho, fazendo a mesma pergunta para o pequeno Moisés, mas o menino não respondeu de imediato.

Retornei para a tela. A página havia carregado.Entrei no e-mail.

Era uma resposta. De uma escola. Cliquei.

— Jesus pode parecer que não está no controle, mesmo dormindo em meio a tempestade. — Moisés riu, descontraindo o irmão — Jesus deveria ter um sono pesado.

Todos nós rimos. Eu ri sem saber o porquê. Na verdade, foi engraçado o que o jovenzinho falara e foi admirável sua atitude para com o Davi.

— E mesmo quando tudo parece, aos nossos olhos, perdido, Jesus sempre virá com uma resposta de sustento. Mesmo que nossa fé não esteja estruturada. — Completou o pai dos meninos.

Eu não olhava para eles, mas permiti que meus ouvidos se atentassem para a conversa entre eles. Parecia que o pai dos meninos falava comigo. Comecei a ler o que estava no e-mail. Minha atenção foi monocrática naquele momento.