O Meu Imortal

1 Capítulo 1 - Decisão.


- Dylan, está tudo bem? – lembro-me de lhe ter perguntado quando o encontrei à saída da última aula.

Ele ignorou.

- Dylan! – gritei, vendo-o afastar-se.

Os olhares das pessoas estavam todos colocados em mim.

- DYLAN! – ele desapareceu.

Pensei que ele estivesse com alguns problemas no orfanato…e só o pensamento me magoou.

- Muito inocente…

Fui para casa, sozinha. Estava escuro e o silêncio pairava no ar. Caminhava pela calçada refletindo o facto de o Dylan nunca me deixar ir sozinha para casa, principalmente às quintas-feiras, quando o horário escolar marcava a saída para as 18:30…e todos sabemos que durante o inverno o céu escurece rapidamente.

- Definitivamente ele está com problemas…amanhã preciso de falar com ele. – murmurei para o ar frio.

- Eu, sempre preocupada com o Dylan Thompson…parva.

Continuava a caminhar por uma rua ladeada por casas e lojas abandonadas… e o motivo de todo este abandono? Os Walker’s…pelo que dizem.

- Bem que me podia vingar de todas aquelas pessoas ignorantes…

O único acesso à minha velha casa rodeada por vários pinheiros.

Ruído…

…Passos...

…Fui violada.

- QUE NOJO! – gritei, atirando a jarra com rosas brancas, que se encontrava numa pequena cómoda, ao chão.

Senti a porta do que tem sido o meu quarto nestes quase 12 últimos meses a abrir-se. Uma cama ao centro de quatro paredes brancas…

- Brooke, o que é que aconteceu? – ouvi a voz do Nathan.

- Apenas. Sai. Daqui. – falei pausadamente ainda com o olhar no vidro partido.

- Tu não sabes o quanto me custa ver-te assim! – ele aproximou-se. – Confia em mim, eu quero ajudar-te.

Num impulso abracei-o.

- Nathan, tu sabes que és importante para mim, mas eu não consigo confiar em nenhuma pessoa…ou se preferires, nenhum fantasma. — falei com a cara perto do seu pescoço.

- Porque tu estás presa ao passado! – ele rompeu o abraço.

- Eu sempre irei estar… — O meu olhar fitava o chão. Eu não conseguia olhar nos olhos do rapaz que sofre por mim há 1 ano. Eu não podia fazer-lhe isto. Eu precisava de me libertar e para isso precisava de me vingar de alguma forma. – Nathan, posso ficar sozinha?

- Não te posso obrigar a quereres a minha companhia. – Ele suspirou e caminhou em direção à porta.

- Desculpa… — murmurei, mas ele pareceu ter ouvido porque abanou a cabeça positivamente.

A porta bateu.

O Nathan não é apenas o fantasma que vive a morte há dois anos cuidando de mim como a pequena louca, a quem um ramo esmagou aos 15 anos e agora está sendo assombrada aos poucos com as memórias da vida.

Eu já não sou mais uma desmemoriada e em breve terei de escolher entre ser um fantasma, um demónio…ou um anjo.

O pró de ser fantasma é mesmo andar pelo mundo dos vivos, observando de perto seus entes queridos ou conhecidos… mas eu não iria ter qualquer contacto com estes e então como eu me iria vingar? Xingando-os pelo pensamento? Os fantasmas também cuidam de desmemoriados…como o Nathan cuida de mim. Esqueci de dizer que se a recuperação demorar os fantasmas podem tomar a decisão de tornar aquele desmemoriado em uma alma perdida que vagueia pelo nada. Não sei como Nathan ainda não fez isso comigo…

Hum…uma demónio? Ajudar na recolha de todas as almas dos que morrem? Entregar potencialmente a minha alma à Brenda, a vagabunda que possui todo o poder do lado sombrio da morte e ainda ter uma grande probabilidade de ser torturada? Quase todos os demónios que existem não estão no lado sombrio por vontade própria…fizeram pactos com a Brenda… sobre algo tão sinistro como o seu regresso.

Neste momento estou psicologicamente desequilibrada, pelo menos é o que indica o pequeno autocolante no vestido branco que uso. A absurda ideia de fazer um acordo com a vagabunda da Brenda acerca do meu regresso é completamente válida na minha doente condição. Porque não aproveitar?

Um anjo… não.

A minha decisão está já tomada.