Talvez minha vida fosse a mesma de sempre hoje, se eu não tivesse tropeçado naquele buraco. Mas talvez daqui alguns anos, quando tudo isso acabar, eu olhe para trás e agradeça por essas aventuras que fazem os dias serem desiguais e menos monótonos, apesar de estar desesperada e gritando por um pouco mais de vida.

O real problema não era a dor que emanava dos ferimentos espalhados por meu corpo, ou da faca cravada em meu peito pela única pessoa que amei, ou até mesmo de meus dedos quebrados, que assim ficaram na tentativa de afastá-lo de mim. Não, a dor já havia passado. O real problema era a dúvida, ir ou ficar... se partisse, poderia evitar as noites angustiantes que viriam a seguir, a dor incurável de uma traição, mas por outro lado, o medo de não ter nada depois, o medo de querer voltar apesar de não ter mais motivos para seguir em frente... Acho que foi assim que me tornei o que sou.

Depois de morrer, mentalmente, meu corpo não aguentaria sozinho, então gritei para mim mesma, me pedindo para não me abandonar. Os gritos eram insuportáveis e eram meus. Cada vez que me pedia para parar, gritava mais alto, engasgando com as lágrimas de desespero que invadiam meus olhos, eu estava caindo na imensidão negra que eu ousei chamar de morte.

Ou talvez uma semi-morte. Não sei se escolhi certo. Não sei se passar pelos olhos das pessoas sem ser vista, sem ser notada, é tão melhor que o grande nada que tive diante de meus olhos antes de escolher ficar, quando meu corpo se foi. O medo faz coisas terríveis com as pessoas, e talvez escolher a morte não seja tão ruim assim, mas agora é tarde, já não poderia partir, porque eu também já não estava mais aqui.

E agora eu ando vagando, eternamente, com a dor ardente cravada por ele em meu peito, me alimentando de felicidades alheias e fúteis, para não sentir minha própria tristeza, causando dor àqueles que ainda podem esquecê-la, me perguntando se isso é vida ou morte.

Notas finais
Bom, como eu disse, é uma metáfora.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!