O Mestre : A última missão.
1 Pistas são como rios.
A poeira do deserto de Nevada se agarrava à van preta como uma segunda pele, um testemunho de quase dois anos de estradas sem fim. Dentro, a atmosfera era uma mistura familiar de hortelã, óleo de arma e a leve fragrância de sementes de girassol de Henry, o hamster, que corria incansavelmente em sua roda. Para Max Keller, era o cheiro de uma vida que ele nunca imaginou. Para John Peter McAllister, era o cheiro de uma busca que havia consumido seus últimos anos.
Sentado no banco do passageiro, o velho mestre ninja olhava pela janela, seus olhos não vendo a paisagem monótona, mas sim um rosto que ele só conseguia lembrar em fotografias desbotadas. Teri. Sua filha. O fantasma que o impulsionava e o assombrava.
"Outra pista falsa, Mestre?", perguntou Max. Sua voz, antes cheia de uma impaciência juvenil, agora carregava a ressonância cansada de um veterano. A caçada os levara a uma pequena cidade mineira, seguindo o boato de uma "mulher asiática que era uma piloto incrível". A mulher era, na verdade, uma senhora filipina que pilotava drones de corrida como hobby. O sabor da cinza da decepção era familiar.
"Pistas são como rios, Max", respondeu McAllister, sua voz grave e rouca. "Alguns levam ao oceano. Outros secam no deserto. O importante é continuar se movendo."
"O problema é que não estamos apenas nos movendo", retrucou Max, sua frustração temperada com uma nova maturidade. "Estamos sendo caçados. Cada parada, cada pista falsa, é uma oportunidade para Okasa nos alcançar."
A menção de Okasa, o ex-aluno de McAllister que se tornou seu inimigo mortal, pairou no ar. Okasa era a sombra que se estendia sobre suas vidas. Após quase dois anos de treinamento intensivo, Max entendia a profundidade dessa ameaça. Ele não era mais o garoto que precisava ser salvo a cada esquina. Ele era um lutador, um ninja em treinamento avançado, e sentia o peso daquela ameaça em seus ossos.
Naquela noite, em um motel de beira de estrada, essa tensão se manifestou. Enquanto McAllister meditava, Max praticava seus katas sob a luz bruxuleante de um poste de luz no estacionamento. Seus movimentos com o bastão bō eram rápidos, precisos, um borrão de madeira e intenção. Três homens rudes, bêbados e procurando por problemas, saíram de um bar próximo e decidiram que Max era um alvo fácil.
"Olha o que temos aqui, rapazes. Um dançarino", zombou o líder.
Max não respondeu. Ele continuou seu kata, seu corpo uma mola enrolada. Quando eles o cercaram, ele explodiu em ação. Ele não lutou como um brigão de bar; ele lutou como um ninja. Ele usou o alcance do bastão para manter a distância, seus golpes atingindo pulsos, joelhos e clavículas com uma precisão incapacitante. Ele se moveu entre eles, usando o ímpeto de um contra o outro. A luta terminou com o líder no chão, desarmado, com a ponta do bastão de Max em sua garganta.
McAllister apareceu na porta do quarto do motel, tendo observado tudo das sombras. Os homens se levantaram e fugiram para a noite.
"Seu trabalho de pés estava desleixado", disse McAllister, sua voz um bisturi. "Você confiou demais na sua velocidade e se expôs duas vezes. Se um deles estivesse armado com uma faca, você estaria sangrando agora."
Max baixou o bastão, a adrenalina diminuindo. "Mas eles não estavam. E eu venci."
"Vencer não é o suficiente, Max. A sobrevivência é tudo. Um ninja não vence; ele prevalece. Lembre-se disso." Apesar da crítica, havia um brilho de aprovação nos olhos do velho mestre. O garoto havia se tornado um guerreiro.
Mais tarde, no quarto, Max mostrou a McAllister um jornal local amassado. "Acho que você vai querer ver isso." O artigo, intitulado "Empresário de São Francisco expande operações para Reno", mostrava a foto de Kenjiro Tanaka. McAllister o conhecia como Kaito, o filho de um oyabun da Yakuza que ele havia desonrado anos atrás.
"Ele é um eco de um passado que eu pensei ter deixado para trás", murmurou McAllister. O artigo mencionava os investimentos de Kaito em um novo cassino e, mais importante, em uma empresa de logística de aviação privada.
"Pode não ser nada", disse Max.
"Não existem coincidências, Max. Apenas padrões que ainda não entendemos", disse McAllister, uma nova energia em seu olhar. "Kaito não faz nada sem um motivo oculto. Se ele está aqui, e está se envolvendo com aviação, ele pode saber de algo. Ou ele pode ser a isca."
A busca por Teri havia acabado de tomar um rumo perigoso. Eles estavam prestes a entrar no território de um inimigo que tinha tanto motivo para odiar McAllister quanto Okasa, mas com um poder diferente. A caçada estava prestes a ficar muito mais complicada.
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