“O MENINO QUE NUNCA SORRIU”.

CAPÍTULO ÚNICO

Em todos os meus anos trabalhando nesta clínica, nunca pensei que arrancaria os cabelos por causa de um paciente. O nome dele era Sasuke Uchiha, um garoto sem amigos, quieto demais, sem emoções e tampouco afeição natural. Os pais o internaram nesta clínica psiquiátrica por um motivo... Em toda sua vida, ele nunca sorriu. E agora, brinco com meus dedos sobre a mesa gélida e metálica numa sala fechada e com uma grade com barras de ferro, com seguranças dentro e fora da sala. Eu observava dois médicos o trazendo, e eles apertavam seus braços para que não escapasse. O garoto tinha os pulsos algemados e não tentava resistir, pelo contrário. Era guiado sem reclamar. Sasuke era tão obediente, que cada vez mais desconfiavam que fosse louco.

Os médicos sentaram-no na cadeira metálica, onde algemaram seus pés às pernas do objeto. Sasuke me olhava com uma expressão de tédio, como se fosse uma aula de matemática desinteressante.

—Vá pra casa, doutora. — ele murmurou.

—Eu só quero te ajudar...

—Não há nada que você possa fazer.

Aquilo foi uma total perda de tempo. Desperdicei vinte preciosos minutos da minha vida tentando conversar com ele, mas Sasuke mantinha-se calado. Eu quase desisti, pois estava me sentindo uma palhaça. Tentei até perguntar sua comida favorita para não dizer que fiquei no seco, mas ele arqueou uma sobrancelha e perguntou se eu era louca. Então, pedi que os médicos o levassem de volta para a sua sela. Eu realmente queria entendê-lo, mas precisava de uma ajuda.

“Todos querem governar o mundo. É o meu próprio projeto, é o meu próprio remorso. Ajuda-me a decidir, ajuda-me a tirar o máximo da liberdade e do prazer. Nada dura para sempre”.

Eu fui até a casa da família Uchiha. Eles esforçavam-se o máximo para ser hospitaleiros comigo, mesmo estando passando por uma aflição. Eu podia notar o medo e a saudade nas orbes escuras daquelas pessoas. Os pais de Sasuke, seu tio e o irmão mais velho. Para eles, era como se um membro da família tivesse morrido, pois já estavam há quase um ano longe do jovem Sasuke. Eu tentei ser o mais compreensiva possível, a começar, tentando lembrá-los das boas qualidades do garoto — isso seria fácil se ele tivesse alguma. Então eu me lembrei dos rumores de que todos os dias, quando médicos tentavam conversar com Sasuke, ele os encarava, pedia papel e caneta, e começava a desenhar coisas que ninguém sabia. Não que ele fizesse rabiscos, mas ninguém entendia o porquê de cada imagem.

Pedi à Mikoto, mãe de Sasuke, que me apresentasse alguns de seus desenhos. Ela diz que ele tem esse talento desde criança. A mulher então pegou o caderno de desenhos de seu filho. Os desenhos eram incríveis. Havia uma jovem ocidental mascarada com um longo vestido vermelho-sangue colonial. Seus olhos eram verde-limão, e os cabelos eram pretos como a noite. No outro, a face de uma garota oriental com um belo sorriso largo, porém, ela estava chorando. E em seus olhos, ela tinha a visão de um cemitério.

—Desculpe, eu não faço ideia do que podem significar. — suspirei, entregando o caderno à mãe de Sasuke.

—Tudo bem. Tome.

Quando disse a última palavra, Mikoto Uchiha me entregou uma agenda fechada com um elástico que a prendia pela vertical. Tirei o elástico e folheei a agenda. Na verdade, aquilo mais parecia ser o diário de Sasuke Uchiha, e eu confesso que senti certa curiosidade em ler, embora não tivesse certeza de que Sasuke concordaria com isso. Havia uma página que se destacou das outras, e tudo pelo simples fato de estar escrita em vermelho.

“Estou farto. Mais uma vez, meus pais fizeram uma tentativa frustrada de me fazer sorrir. Eu tento, não só pelo fato de que quero deixá-los felizes, mas porque eu sinto esse forte desejo, mas eu simplesmente não consigo. Como as pessoas conseguem arquear os lábios, sabendo que o mundo está um desastre? Eu posso enxergar o medo e a angústia através dos olhos cansados, e o pedido de socorro preso às suas gargantas. Eu queria poder fazer mais, tentar fazer um mundo melhor, mas as pessoas não entendem. Há humanos ferozes entre a sociedade, brigando umas com as outras pelo poder, e acabam prejudicando outras. Uma guerra sem fim, e ninguém faz nada a respeito. Afeição... É apenas uma palavra no dicionário? Eu gostaria de passar horas observando as ondas do mar chocarem-se contra as rochas e sentir o cheiro salgado do vento e algas para não presenciar o caos”.

—S-Sasuke... — sussurrei para mim mesma, crispando os lábios.

“Há uma sala onde a luz não vai encontrá-lo de mãos dadas enquanto as paredes desmoronam. Quando elas caírem, estarei bem atrás de você, tão feliz, pois quase conseguimos, tão triste que tiveram que disfarçá-lo. Todos querem governar o mundo”.

Eu caminhava pela calçada com as mãos no bolso. O hospital não ficava longe dali, faltava pouco. Eu sabia que precisava conversar com aquele garoto novamente, só que desta vez, usando as palavras certas. Recebi uma ligação, e fico surpresa ao ver a foto de Sakura piscando na tela.

—H-Hinata?

Sua voz arquejava palpitante, e era possível ouvir sua respiração irregular do outro lado da linha. Com certeza, algo de ruim havia acontecido, e pelo tom de voz da Haruno, eu iria desejar desaparecer do que presenciar algo do tipo.

—Sakura, tenha calma e me responda vagarosamente... O que aconteceu? — perguntei, com as mãos trêmulas.

—Sasuke Uchiha desapareceu.

Eu quase deixei meu telefone cair, mas como ele é caro, eu simplesmente o afastei da orelha. Atraí olhares curiosos por eu estar parada olhando o nada como se estivesse observando um fantasma à minha frente. Eu não fazia ideia de onde Sasuke Uchiha poderia estar, mas, acabei lembrando de uma frase do seu diário.

“Eu gostaria de passar horas observando as ondas do mar chocarem-se contra as rochas e sentir o cheiro salgado do vento e algas para não presenciar o caos”.

É claro. E de fato, havia uma praia há algumas quadras do hospital, a mais próxima que tinha. Afinal, ele não iria muito longe. Eu corri para o trabalho para pegar meu carro no estacionamento e chegar à praia o mais rápido possível. Eu tinha razão quanto ao local. E lá estava ele, com um pijama branco e uma faixa em seu braço com números grifados, sentado sobre uma rocha, observando o mar. O vento batia contra os cabelos negros. Eu me sentei ao seu lado e toquei seu ombro largo, esperando uma reação espantosa, mas Sasuke apenas me encarou por alguns segundos e voltou sua atenção ao mar.

—Você pode ser um herói, Sasuke. — eu disse, olhando para frente.

—Eu não queria, mas tudo o que posso fazer é cruzar os braços e balançar a cabeça. Não posso ser ouvido, então, eu escrevo. Sou inútil.

—Não, pense positivo! Eu li seu diário, você é ótimo! Poderia passar a escrever livros, e então, eles poderiam ajudar as pessoas.

Por um instante, Sasuke parou, arregalou os olhos e passou a me encarar. Seus lábios tremiam, ele estava prestes a dizer algo, embora estivesse hesitando.

—Você acha mesmo? — perguntou.

Assenti de cabeça. E então, o inesperado. Sasuke Uchiha arqueou os lábios e fechou os olhos, num sorriso largo. Ele ficava tão lindo com aquele sorriso, que mais parecia um anjo. Quando seus olhos abriram novamente, Sasuke me puxou pela nuca e selou nossos lábios, e quando o maldito ar nos faltou e nos separamos, eu olhava para baixo, ofegante, porque não conseguia olhar em seus olhos.

—Obrigado por não desistir de mim, Hinata! — Sasuke exclamou, animado.

Eu sorri como retribuição. E quem diria que ele quisesse recompensar anos em um dia? Parece que Sasuke Uchiha nunca mais pretende parar de sorrir.

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