O Menino e o Cão
1 Capítulo Único
— Aqui não é lugar para gente da sua idade, pirralho! — bradou o homem, segurando a criança pelos braços.
— Escuta aqui, seu merda! O senhor Yaoyorozu vai acabar com a sua raça quando souber que você não me deixou entrar. Agora, filha da puta, me solta! — O jovem Katsuki falou ainda mais alto, tentando chutar o segurança para que assim estivesse livre.
A face vermelha parou de encarar o garoto para agarra-lo pela gravata. As suíças se mexendo de um jeito que o jovem até acharia engraçado se o homem não estivesse aos berros dizendo como iria lhe dar uma surra.
— Calma, Miya, não trate assim o convidado do senhor Yaoyorozu. — Assim que o outro adulto apareceu, Katsuki foi solto. Sabia reconhecer um burguês quando via um, e aquele homem com certeza era, mesmo não parecendo rico o suficiente para ser Yaoyorozu.
O burguês colocou a mão no ombro do outro e sussurrou algo em seu ouvido. “Controle-se. Não queremos os Federais aparecendo aqui.” Katsuki não deveria ter ouvido, mas tinha uma audição surpreendentemente boa para quem trabalhava em um lugar tão barulhento.
Apertou a gravata de volta a seu pescoço, bateu na casaca de segunda-mão para tirar a poeira e ajeitou os óculos em seu cabelo loiro. Então virou-se para Miya e fez uma das suas coisas favoritas: Gritou.
— Morre!
Por fim seguiu o burguês para dentro do recinto. Os olhos atentos a tudo. Vários homens, chiques e maltrapilhos, entulhavam o local, mas com poucas mulheres, quase todas vestidas de um jeito estranho. Entretanto outra coisa lhe chamava mais atenção.
— O que fazem aqui? — A criança curiosa dentro de si perguntou, apontando para uma área cercada de correntes.
— Briga de cães. — respondeu o adulto, indiferente.
O homem só pareceu demonstrar alguma reação quando estava de frente a uma mesa com outros senhores. Na verdade, apenas um senhor acompanhado de seguranças: Yaoyorozu.
— Meu senhor, a criança. — Curvou-se de maneira respeitosa. Talvez Katsuki devesse fazer o mesmo, mas ele não moveu um músculo.
— Sente-se, menino. — O Senhor Yaoyorozu indicou uma cadeira e o garoto sentou-se, suas pernas curtas demais para alcançar o chão balançavam. — Me mostre o que combinamos.
Após a ordem, Katsuki tirou um pequeno pássaro de metal de um de seus diversos bolsos e colocou-o na mesa. O senhor pegou e ficou alguns segundos o analisando antes de finalmente dar corda. O pássaro cantou. Era uma caixinha de música e o bico se movimentava enquanto tocava. Aos seus olhos, era difícil dizer se Yaoyorozu estava impressionado ou não, mas Katsuki estava orgulhoso de sua criação.
— Diga-me, criança, quantos anos tem? — indagou Yaoyorozu.
— Nove.
— E posso saber de onde conhece minha filha? — Outra pergunta, e o senhor não parecia contente.
— Não a conheço. — respondeu, confuso.
— Então como ela conseguiu isso? — Tacou outra figura metálica. Uma borboleta que batia as asas quando lhe davam corda. Outra de suas criações.
— Não sei. — Realmente não sabia. Não sabia até então onde estava aquela borboleta.
— Diga-me, criança, você tem trabalho de verdade além dessas tralhas? — E pela primeira vez naquela conversa pouco amigável, Katsuki estremeceu. Não, por favor, seu trabalho não.
— Na fábrica da Construtora Himura, senhor.
Yaoyorozu pareceu soltar um suspiro.
— Deve ter sido o caçula do Todoroki. — Conseguiu ouvir o outro murmurando para si. — Não sei o que há de tão especial nas suas geringonças, mas minha filha parece gostar delas. Faça mais uma até o próximo mês, tudo bem?
O garoto fez que sim com a cabeça. Sabia que não tinha escolha.
— Ótimo. Pode entregar na fábrica que você trabalha mesmo, vou deixar avisado para Todoroki.
Talvez Yaoyorozu tivesse murmurado algo mais, mas dessa vez Katsuki não foi capaz de ouvir. A multidão vibrava com alguma coisa. A sua parte de criança curiosa falou mais alto que qualquer mínima educação naquele momento, ficou em pé na cadeira, esticando o pescoço ao máximo na tentativa de ver algo.
— Sente-se, criança, é só a briga de cães.
Não. Não era só uma briga de cães. Não para Katsuki. Tinham pessoas dentro das correntes. Pessoas de dentes afiados se mordendo e se arranhando.
— Posso ir para casa, senhor? — perguntou, passando os olhos novamente pelo local.
Yaoyorozu só jogou duas moedas de pagamento pelo pássaro. Katsuki as pegou e saiu.
Mas ele não iria para casa. Não combinava com o seu jeito, nem com o que sonhava ser.
Katsuki havia aprendido no seu curto período de vida que os adultos dificilmente olhavam para quem estivesse abaixo deles. Distraídos com a luta, era ainda mais fácil passar entre suas pernas sem chamar atenção.
A segurança até onde as pessoas estavam era mínima. Apenas uma bombinha foi precisa para fazer o único guarda se afastar da porta e ir verificar o que era o barulho em outro corredor. Katsuki quase se sentia ofendido com a facilidade.
Pôs os óculos em seus olhos, pegou um maço de ferramentas pequenas e começou a trabalhar na fechadura. Não havia sido para isso que as havia trazido e nem era para o que serviam, mas já servia.
— E os adultos ainda se acham os inteligentões! — debochou ao ouvir o click da porta, abrindo-a.
Uma criança, tão nova quanto ele. Apesar de haver correntes para prender mais pessoas ao chão, apenas uma criança estava dentro do quarto. Era por isso que pareciam tão despreocupados em guardar ali?
A pequena figura o encarou com seus olhos vermelhos, mas não disse nada. Estava de focinheira e grossas algemas em seus pulsos, o prendendo ao chão.
— Fica quieto que eu vou tentar te tirar daqui. — sussurrou, ainda que de uma maneira gritada.
O fecho da algema foi mais trabalhoso e levou mais tempo do que queria naquilo, mas seu maior problema foi o peso na hora de tira-la. Santo Metal, como aquele menino aguentava aquilo? Porque Katsuki não aguentou, soltando-a assim que tentou segurar.
E o barulho que aquilo fez ao encostar no chão foi o suficiente para ele identificasse passos em direção onde estava.
— Merda! Merda! Merda! — gritou baixo. Não poderia ser pego!
O menino, agora com as mãos livres, apontou para um canto qualquer do quarto. Uma tubulação que já deveria não ser mais utilizada há tempos, seca, mas ainda suja e pequena demais para um adulto enfiar lá algo além de um braço. Entretendo, para eles, duas crianças magricelas, aquilo era perfeito.
Katsuki nunca desparafusou algo tão rápido e o outro garoto tratou de erguer a grade de proteção quando terminou.
A criança de olhos vermelhos entrou no momento que a porta se abriu e Katsuki tacou outra bombinha na cara do sujeito que apareceu.
— Morre! — gritou.
A intenção era só fazer fumaça no ambiente, mas ele queria ver se havia conseguido quebrar o nariz do homem com a bolota de metal. Porém, sabia que se esperasse, talvez não conseguisse escapar, e logo seguiu pelo tubo.
Demorou alguns minutos deles se arrastando no escuro até que finalmente saíssem em um beco. Katsuki havia crescido naquela região, estavam longe o suficiente para estarem seguros, nem se fosse por um curto período de tempo.
Ele bateu nas próprias vestes, tentando novamente limpar-se, dessa vez em vão. E em um giro rápido com os pés, virou para o outro.
— Meu nome é Katsuki Bakugou! Qual é o seu, cabelo de merda?
O menino apenas apontou para a focinheira que ainda usava.
— Ah! — exclamou, aproximando-se de seu rosto e finalmente soltando a última peça de metal.
Completamente livre, a criança passou a língua pelos lábios secos e movimentou um pouco a boca, antes de finalmente responder.
— Eijiro Kirishima! — O estomago de Eijiro roncou logo em seguida.
O certo para Katsuki seria voltar e resgatar o resto das pessoas, mas agora todos estariam mais atentos. Mas não poderia deixá-lo com fome. Mas se fossem vistos juntos seria o seu fim, já que o senhor Yaoyorozu conhecia o senhor Todoroki. Mas... Mas... Mas...
— Vem comigo! — Irritado, pegou Eijiro pela mão e saiu puxando-o pelas ruas.
Logo parou de frente a uma padaria já com as luzes apagadas. Ele não ligou, batendo com toda a sua força na porta.
Katsuki conseguiu ouvir portas sendo abertas e fechadas e resmungos vindo de dentro antes de uma senhora aparecer.
— Estamos fechados! — Disse, irritada.
— Mas eu tenho dinheiro! — Mostrou as duas moedas que havia ganhado.
Ela pareceu reconsiderar por um momento e, a contragosto, pegou um dinheiro.
— Isso só dá para um pão velho, garotos.
— Ontem isso dava para pelo menos dois! — disse indignado.
— Deveria ter passado aqui antes, então. — A mulher tacou o pão para os dois e fechou a porta em suas caras.
Enquanto Katsuki dirigia palavras pouco educadas a dona, Eijiro pegou o pão do chão e o repartiu.
— Toma. — Ofereceu a outra metade para o loiro.
Tentou negar, mas Eijiro continuava com o pedaço estendido. Por fim, contrariado, acabou pegando-o e dando uma mordida.
— Por que me salvou? — perguntou, após comer um pouco.
— Porque era isso que um Federal faria, ora! — respondeu como se fosse óbvio.
— O que é um federal? — Eijiro falou a palavra como se fosse uma estranha.
— Você não conhece os Federais? — Katsuki estava completamente chocado. — Bem, eles são os caras mais legais que existem! Eles salvam pessoas e batem nos caras maus! E também tem armas super legais e bombas... — continuou descrevendo completamente animado com o que sonhava em ser.
— Nossa! Você é um?! — indagou, compartilhando da energia do outro.
— Não, mas um dia serei! — Estava todo confiante. — Por enquanto eu trabalho construindo essas coisas. — Apontou para os dirigíveis voando no céu noturno.
Eijiro olhou para cima e pela primeira vez na vida viu as máquinas. Estava completamente maravilhado, sorrindo de maneira inocente como deveria ser.
— É você que faz isso?! Você é incrível, Bakugou!
Era um sentimento estranho demais aquele para uma criança descrever com clareza, mas Katsuki não conseguiu de deixar um sorriso ainda maior ao ver o quanto o outro estava encantado com algo que para ele era o seu cotidiano.
— É claro que eu sou!
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