O Menino
1 Capítulo Único
Era tarde, mas ainda queria brincar. A noite estava recém começando a aparecer, e ainda estava claro. Porque não poderia? Eu já era uma menina grandinha, podia brincar perto de casa sem avisar. Devia ter uns cinco ou seis anos.
Fui até o parquinho. A praça ficava bem a frente de minha casa e era sempre muito movimentada pelas crianças da vizinhança, o que sempre a tornava divertida de se freqüentar. Naquela hora, porém, havia apenas uma delas brincando perto da caixa de areia com sua mãe, que parecia querer já convencê-lo a ir embora- embora não parecesse estar tendo muito sucesso. Pensei em ir ali, mas algo a mais chamou minha atenção para a direção oposta a do pequenino.
Sentado nos bancos além da praçinha, perto do jardim, um estranho menino bebia uma xícara de chá. A figura ao seu lado era um homem sóbrio muito bonito, vestido em trajes elegantes que lembravam as vestimentas formais de festas antigas; como as roupas formais que via os mordomos das eras vitorianas usando nos filmes, mas que pareciam muito mais elegantes e belas naquela figura. Ele tinha cabelos negros não muito curtos, mais raspados na área do pescoço e tornando-se mais longos a medida que se aproximavam da raiz do cabelo. Ele tinha olhos rubros e um olhar frio e sem vida assim como sua expressão, em uma indiferença anormal que chegava a ser perturbadura. Era quase uma tristeza.
O menino ao seu lado não parecia diferente.
Ele mantinha os olhos fechados, enquanto segurava a delicada xícara de chá nas mãos na altura do peito. Ele também vestia roupas estranhas, como trajes vitorianos negros de ar nobre, tão elegante quanto seu companheiro. Ele devia ter uns onze ou doze anos, apesar das vestimentas formais. Uma bengala elegante e decorativa descansava ao seu lado no banco, enquanto o homem de antes servia-lhe mais chá na xícara vazia, apesar de nada sair do bule. O menino levou a xícara aos lábios e fingiu beber o chá imaginário mesmo assim, enquanto eu ainda os observava atônita perto da entrada do parquinho, tentando entender de onde eles vieram.
Quem eram aquelas pessoas? Elas se vestiam de um jeito estranho e tinham expressões tão frias. O menino tinha um ar mais frio e vazio ainda que o homem que o servia. O deste era mais uma expressão de tristeza ou tédio.
O menino então olhou para mim. Os olhos cor de sangue tão vívidos e cintilantes quanto os do outro – quem sabe até mais – pareciam penetrar até o fundo de minha alma, a expressão vazia e fria parecendo esconder qualquer interesse que o motivasse a me observar, apesar de seus olhos não deixarem minha figura nem mesmo um instante depois daquele início, assim como os meus do dele. Era quase como um transe, eu estava hipnotizada por aqueles olhos. Por aquele estranho menino.
Uma suave brisa percorreu o parque. Naquela hora a mãe e o menino de antes já começavam a ir embora – o menino contrariado -, e restava apenas eu e as duas figuras misteriosas a minha frente, que agora me observavam ambos: O menino com um interesse suave. O homem, com indiferença. A criança baixou a xícara e a pousou sobre o colo suavemente, sorrindo sinicamente e estendendo-me a mão, com uma expressão que eu só poderia descrever como um tipo de diversão misturada com vazio. Como se aquele gesto fosse tão interessante a ele quanto tedioso, e seu sorriso era uma mistura clara desdes dois motivos. Quase uma ironia.
O homem fechou os olhos, suspirando, e eu dei um passo em direção aos dois estranhos aceitando seu convite, enfeitiçada. Uma revoada de plumas negras subitamente vindas de algum lugar que eu não entendia voou para todos os lados enquanto eu andava até ele ingênua, os olhos confusos e interessados. A mente pura e infantil que nem parecia perceber a verdadeira identidade dos dois demônios vazios a minha frente, daqueles dois lindos monstros vestidos de gente, que não queriam nada do que minha pequena mente poderia ofereçer, mas sim algo muito além dela.
O menino pegou com uma das mãos a elegante bengala enquanto levantava e pegava minha mão, sorrindo fria e delicadamente enquanto me levava em passos lentos ao destino do qual eu jamais retornaria.
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