O Melhor Feitiço
3 Ed
Notas iniciais
Perturbado: era a palavra certa para me descrever naquele momento. Em nenhum momento na minha breve estadia na Terra eu havia passado por situações tão inacreditáveis e bizarras como acontecera na última meia hora em que eu estava na companhia daquele garoto.
Continuei sentado no chão frio daquela casa desconhecida enquanto Tomas ia até as largas janelas ao lado da maior porta de entrada que eu já vira na vida. Ele olhou seriamente através de cada janela e murmurou algumas coisas que não consegui entender por causa da distância entre nós. Alguns calafrios percorriam meu corpo insistentemente.
Quando finalmente criei coragem para se levantar o garoto já passava para as outras janelas, nas laterais da casa... ou melhor, do hall em que estávamos. Só então olhei em volta, notando a escada situada às minhas costas. Ela se dividia em dois caminhos levando para o mezanino. Em cima, um corredor largo dava continuidade à casa, que conclui ser bem maior do que eu imaginava.
Virei para o garoto, já ficando sem paciência pela falta de explicações.
─Ei, você disse que essa é a sua casa? Como chegamos aqui? O que você fez? E quem eram aqueles caras no carro preto?
Tomas se limitou a me lançar um olhar com as sobrancelhas franzidas e levantar um dedo indicando que eu esperasse.
─Muitas perguntas, mas eu vou respondê-las, só um momento. – E passou para a próxima janela, repetindo o que fizera nas outras.
Respirei fundo e diminui a distância entre nós com alguns passos largos. Segurei o garoto pelos ombros e o pressionei contra a parede mais próxima, fitando aqueles olhos heterocromáticos.
─Eu quero as respostas a-go-ra! – Soltei as palavras rispidamente.
Novamente recebi aquele olhar, quase como ele estivesse com pena de mim, mas desta vez havia algo mais. Seus olhos estavam bem abertos e os lábios comprimidos, mas não consegui decifrar sua expressão.
─Claro... você pode... – Ele olhou para as minhas mãos e eu prontamente o libertei.
O garoto aspirou uma grande quantidade de ar de um só vez e passou as mãos onde eu tinha segurado-o. Por um momento me senti culpado, não queria machucá-lo.
─Me desculpe, eu não queria...
─Tudo bem. – Ele me interrompeu e seguiu por um caminho ao lado da escada, acenando para eu o seguisse.
Chegamos a uma espécie de sala de estar. A iluminação ali tinha um tom amarelado, que deixava tudo com uma aura meio dourada. Nas paredes os quadros continuavam decorando o ambiente, mas ali não era tão vazio como o hall. Alguns sofás brancos estavam em volta de um tapete com desenhos em carmesim e preto, e havia um piano no canto mais afastado, fora uma mesa lateral com bebidas e uma mesinha de centro sobre o tapete.
Em cima da mesa repousavam um bule e algumas xícaras.
─Sente-se, eu tenho uma longa história para contar.
Tomas já estava sentado e preparava uma xícara com o líquido fumegante do bule. Sentei-me no sofá à sua frente. Logo o garoto empurrou a xícara na minha direção.
─Chocolate quente.
Percebi que ainda sentia calafrios, por isso aceitei a bebida de bom grado. Depois de sentir o calor da bebida aquecer o meu interior me senti mais aconchegado. Tomas preparava um para si mesmo quando começou a falar:
─Primeiro você precisa saber que tudo o que eu fiz e estou prestes a fazer é para a segurança de muitas pessoas, não só a minha e a sua.
Eu continuava sem entender nada do que ele falava, mas assenti positivamente e continuei a tomar o chocolate, que por sinal estava exatamente do jeito que eu gostava, apesar de eu não ter colocado nem um pouco mais de açúcar. Encostei-me mais confortavelmente no sofá, estava um pouco sonolento. Pisquei algumas vezes, fazendo muito esforço para não deixar os olhos definitivamente fechados.
Tomas ficara imóvel na minha frente, como se esperasse algo.
─O quê? – Coloquei a xícara na mesa o mais rápido que pude e olhei ao redor. ─Tem mais alguém aqui? Quem fez esse chocolate?
O garoto se aproximou de mim. As luzes da sala pareciam mais fortes, fazendo com que tudo parecesse um estranho sonho dourado. Senti suas mãos no meu rosto.
─Há bem mais coisas no mundo do que você possa compreender, Ed.
Suas mãos desceram pelo meu pescoço até meus ombros e me empurraram levemente, me deitando no sofá. A essa altura eu já mal conseguia manter as pálpebras abertas, e meus músculos já haviam praticamente adormecido por completo, mas a voz de Tomas ainda reverberava na minha cabeça, parecendo que vinha de um lugar muito distante. Observei seu contorno sobre mim, era difícil distinguir seus traços de forma precisa.
─Shh, eu sinto muito, mesmo.
Foi então que algo explodiu na minha cabeça, lançando pontadas ao longo do meu cérebro como choques de alta tensão. Tentei gritar, mas adormeci antes mesmo de abrir a boca.
***
Eu estava de novo naquele lugar, o mesmo em que sonhara na noite anterior, que parecia ter sido há um ano. Desta vez eu estava sozinho e mergulhado no total silêncio, as plantas ao meu redor se moviam exclusivamente por causa das correntes de vento no local. Atravessei aquilo que parecia ser uma estufa às pressas e passei pela porta, chegando ao interior escuro de um lugar aparentemente desconhecido. Assim que meus olhos se acostumaram à escuridão a primeira coisa que fitei foram rostos gigantes me observando acusadoramente.
Levantei-me assustado, minha cabeça doía e a julgar pelas dores no corpo alguém provavelmente passara a noite me espancando. Corri os olhos pelo local onde estava e suspirei ao notar que se tratava do meu bom e velho quarto. Eu vestia a minha habitual roupa de dormir, tudo parecia normal, exceto a minha cabeça. Algumas memórias se misturavam desordenadamente e eu não conseguia distinguir o que havia sido sonho e o que acontecera de verdade, se bem que pelas coisas de que me lembrava tudo podia não passar de um sonho, era grotesco de mais pra ser real. Mas havia algumas lacunas na minha memória, de modo que eu não sabia explicar como chegara em casa e como fora todo o resto da minha noite.
Sentado, na cama, refiz a noite passada mentalmente, aceitando relutantemente os acontecimentos fora do normal pelos quais eu passara. À medida que eu fui relembrando a minha cabeça parecia doer cada vez mais. A dor era quase insuportável quando cheguei à parte em que Tomas se desculpara por algo que não entendi, e só. Não havia mais nada de que eu pudesse me lembrar.
Por alguma razão senti raiva, e um pouco de medo e apreensão. Liguei o celular e me surpreendi ao ver que já se passara muito da hora da escola. Fiquei de pé em um salto e saí do quarto apressado, minha mãe já começava a preparar o almoço, mas a mesa do café ainda estava posta, à minha espera.
─Mãe, o que aconteceu? – Fiz a pergunta sem saber ao certo a que me referia.
Ela virou-se pra mim com um sorriso divertido.
─Ué, ontem você e o seu amigo disseram que hoje não iria ter aula, então deixei você dormir até tarde.
Franzi o cenho, mas tentei esboçar um sorriso.
─Ah sim, eu me esqueci disso.
A observei voltar aos seus afazeres com uma expressão confusa. Meu amigo? Ela só podia estar se referindo a uma pessoa.
Tentei agir normalmente, seguindo a minha rotina de sempre, mas tentando entender ou supor o que havia acontecido.
Depois do almoço eu já tinha concluído que Tomas me drogara na sua casa e, de alguma forma, me fizera vir até em casa e se comportar naturalmente, mas nada disso eu conseguia verdadeiramente me lembrar.
─Mãe, acho que esqueci uma coisa na casa do Tomas. – Falei saindo pela porta da frente.
─Ed. – Ela me chamou antes de eu estar longe o bastante. ─Estou feliz por você estar fazendo novos amigos por aqui, e Tomas parece um garoto bem legal.
Minha mãe abriu um sorriso e eu a devolvi outro. Desde que havíamos nos mudado para aquele bairro eu deixara mais de sair de casa e passava a maior parte do meu tempo livre lendo ou fazendo algo no computador, as poucas vezes em que eu saía era pra fazer algum trabalho com o meu pequeno grupo de deslocados da escola, e ainda assim eu evitava o máximo ter que se reunir com eles.
Só depois de sair de casa percebi que não sabia onde o garoto morava, apenas que era ali por perto. A minha mãe conhecia muitas outras donas de casa da vizinhança e vez ou outra elas apareciam na nossa casa, ela era bem mais sociável do que eu. Tentei me lembrar da casa de alguns vizinhos e percebi que não era tão difícil distinguir quais casas estavam ocupadas há muito tempo.
Eu morava em um bairro novo, havia ainda poucas casas e muita vegetação nos terrenos desocupados. Depois de uma quadra descendo na minha própria rua encontrei uma casa que chamou a minha atenção, parecia ter sido construída há pouco tempo e tinha um pequeno gramado na frente, tão diferente do resto das construções por ali. Não tinha muro, de modo que eu podia ver a porta e as janelas da frente, mas nada do interior. Sem pensar demais atravessei o gramado passando pelo caminho de pedras no centro e cheguei à porta da casa.
Sem campainha, a minha única opção era bater, e foi o que fiz. Três batidas na madeira foram o suficiente. Esperei um pouco até que alguém começou a destrancar a porta. Segundos depois um olho castanho surgiu na pequena abertura.
─Eu acho que você ainda me deve algumas explicações. – Falei sem cerimônias.
A porta abriu-se mais um pouco, revelando um rosto assustado com olhos multicoloridos.
─Ed, olá... humn, do que você está falando?
Suspirei pesadamente e mordi um lábio, o incômodo na minha cabeça começava a ficar mais forte.
─De muitas coisas, que tal começar com o que você fez comigo ontem?
O garoto arregalou os olhos e esticou a mão, me puxando pelo braço e fechando a porta atrás de nós. Dessa vez fui eu quem assumiu uma expressão assustada. Dei um giro de 360 graus olhando para as paredes dali, lembrando que já as vira na noite passada. Mas isso é impossível. – Pensei. Por fora aquele lugar não passava de mais uma casa como as outras, como podia ser desse tamanho por dentro?
Virei para Tomas, ele me observava com os olhos semicerrados.
─Como...? – Perguntei apontando para todo aquele espaço.
Ele suspirou e começou a andar na direção das escadas, mas tomou o corredor do lado esquerdo da escada.
─Não é tão grandioso quanto parece, está com fome?
Não tive outra opção a não ser segui-lo, mas eu já estava me cansando de todo o seu silêncio e daquelas meias respostas.
Ao passar pela escada havia uma sala de jantar e uma cozinha, a mesa estava cheia, um verdadeiro café da manhã real, mas tudo que Tomas fez foi lançar um olhar preguiçoso sobre a comida e encher um copo de suco. Já era quase três horas da tarde e ele estava tomando café da manhã. Encarei isso como só mais uma coisa que eu teria de ignorar.
─Não, não vou comer nada daqui até que você me explique tudo o que aconteceu ontem.
O garoto me olhou espantado e, depois de um longo gole de suco, deixou o copo sobre a mesa.
─Você não devia ter falado desse jeito.
Assim que ele ficou em silêncio as xícaras que estavam espalhadas pela mesa começaram a tremer sobre os pires, e em seguida as jarras de suco, garrafa de café e o bule de leite acompanharam no que parecia ser um miniterremoto focado naquela mesa de madeira maciça. Tudo o que consegui fazer foi se afastar um passo, até que Thomas levantou-se e me puxou por um braço.
Enquanto eu era arrastado para outro lado daquela casa estranha vi por cima do ombro as louças e alimentos estremecerem em conjunto e começarem a voar pelo espaço da sala de jantar.
Uma porta se fechou atrás de nós, abafando todo o barulho estridente do outro cômodo.
Eu ainda olhava na direção da cozinha quando Thomas chamou minha atenção.
─Foi mal, ela não gosta de ser contrariada.
Ele me olhava de um jeito indecifrável, como quase sempre.
Encostei-me na parede às minhas costas e deslizei até ficar sentado no chão.
─Ok, eu acho que já fiz perguntas demais e vi coisas o suficiente pra deixar qualquer um louco, até quando você vai me deixar sem respostas?
Estranhamente eu me senti frágil e indefeso. Juntei os joelhos encostados no peito e pus minhas mãos em ambas as faces, mais um pouco daquela loucura e eu provavelmente cairia no choro.
Thomas se agachou na minha frente e me olhou piedosamente nos olhos, mas não se demorou, instantes depois ele estava sentado à minha frente, inspirando uma grande quantidade de ar para começar a falar.
─Certo, você merece saber... tudo. – Ele fitou o chão, os poucos centímetros de distância entre nós. Pela primeira vez eu achei que o garoto estava perdido... ou pior, com medo.
─Bem, eu não nasci aqui, no Brasil. A minha família veio dos Estados Unidos há muito tempo, quando eu tinha menos de um ano. E desde então eu vivo aqui, por isso não sotaque nem dificuldade em falar português.
Aquilo não me surpreendeu, com aquela aparência eu já esperava que ele fosse de outro lugar. Acenei a cabeça levemente e ele prosseguiu:
─Eles não me trouxeram pra cá à toa, nós éramos uma família grande e rica de Nova Orleans, mas algumas coisas começaram a dar errado por lá. – Enquanto falava, Thomas continuava fitando o chão, levantando o olhar poucas vezes. ─Alguns deles nos acharam e começaram a nos seguir, então a única forma de me proteger era se mudando para um lugar bem longe e...
─Ei, vai com calma. – O interrompi, sem perceber ele estava falando apressadamente e me deixando confuso do mesmo jeito, mas percebi que era doloroso contar aquela história pra alguém, apesar de ainda não saber o porquê de ele estar me contando.
Thomas respirou fundo, claramente abalado por aquela conversa.
─Certo. Conseguiram vir para o Brasil a minha mãe, meu pai, minha avó materna e uma tia, irmã da minha mãe, que na época estava grávida de gêmeos, meus primos. Eles nasceram aqui, mas não cheguei a conhecê-los.
E então ao nosso redor fez-se o silêncio, o garoto tinha um olhar perdido, provavelmente estava relembrando o passado, por tudo o que ele havia passado.
Minutos depois, não consegui me segurar, quanto antes terminássemos aquilo melhor seria.
─Por quê? Vocês se separaram?
Ele olhou na minha direção de repente, como se acordasse ao ouvir minha voz.
─Sim. – Ele respondeu por fim. ─A minha tia levou eles para longe, e até hoje não tive notícias.
Thomas se mexeu, ficando de joelhos à minha frente e me olhando nos olhos pela primeira vez.
─Ed, não tem como eu contar mais coisas sem que você saiba do principal, sem que você saiba o que eu sou.
Naquele momento comecei a me preocupar, pelo tom de voz dele o assunto era mais sério do que eu imaginava, mas eu precisava de respostas, e a minha cabeça não poderia ficar mais confusa do que já estava por causa da noite anterior, ou será que poderia?
Concordei com a cabeça um pouco apreensivo.
─Você já deve ter percebido que aquilo que aconteceu ontem não foi normal, ou melhor, que não poderia ser feito por alguém normal.
─Humn... como assim? O que você quer dizer com isso? – Perguntei sem conter a curiosidade, toda aquela conversa estava absurda demais pra mim.
─Eu quero dizer que eu não sou como você, Ed, ou como qualquer pessoa que você já tenha conhecido. – Thomas abriu um meio sorriso. ─Nunca contei isso para alguém estranho, e deve ser difícil pra você acreditar, mas... eu sou um bruxo, Eduardo.
Silêncio, mais uma vez. Thomas continuava me fitando, mas tinha um olhar curioso e um pouco divertido no rosto, enquanto eu apenas o observava de boca aberta, até cair em si e começar a rir descontroladamente.
Inclinei-me para frente soltando gargalhadas como raramente fizera na minha vida. Um bruxo? – Repeti mentalmente. A ideia era engraçada demais para ser levada em conta, mas, depois de alguns instantes e mais risadas, me lembrei do que acontecera naquele ônibus na noite passada e de como misteriosamente eu perdera uma parte da memória logo depois.
As risadas morreram, o garoto ainda me observava, como se compreendesse a minha reação.
─Um bruxo? – Repeti, meio que para experimentar a palavra. Pisquei algumas vezes, a minha cabeça começava a rodar. ─Tipo Harry Potter?
Foi a vez de Thomas rir, mas não tão extravasado como eu fizera.
─Não, se bem que eu adoro Harry Potter. – Ele respondeu, ainda rindo.
Eu já não tinha um pingo de senso de humor, estava ocupado demais tentando entender aquilo ou pelo menos aceitar que podia ser verdade.
O garoto levantou-se rapidamente e me estendeu uma mão para que eu fizesse o mesmo. Aceitei a ajuda, ficando em pé com dificuldade, uma vez que os meus nervos ainda estavam abalados com a notícia.
─Você não faz ideia de como eu me sinto bem por ter te contado isso. – A animação de Thomas era visível, em contraste com a minha confusão. ─Olha só, agora eu posso fazer isso.
Ele virou-se de costas e levantou os braços vagarosamente na direção das mesas repletas de plantas que só então vi que estavam ali. De acordo com os seus movimentos as mesas de madeira grossa também começaram a se mover, levitando a alguns centímetros do chão como se fossem plumas.
A demonstração fora o golpe derradeiro. Apoiei-me na porta às minhas costas e fitei os objetos flutuando, subindo cada vez mais. Corri os olhos ao redor, sentindo as forças se esvaindo do meu corpo. Ele me drogou de novo? As plantas tinham um verde vívido e o ar dali era bem refrescante, por alguns segundos pensei que estava dentro de um sonho. E de fato eu não estava de todo errado, aquele lugar era bem familiar. As plantas, a luz atravessando os vidros, o chão de mármore alvo, tudo exatamente como eu sonhara alguns dias antes de toda aquela bagunça, o que parecia ter sido há muito tempo.
A brilhante luz do sol começou a perder a cor, até que tudo escureceu e eu senti o chão frio abaixo do meu corpo desfalecido. Eu voltara para o mundo dos sonhos.
***
Sonhei que estava em um lugar alto, algum tipo de penhasco. O vento não deixava que meus cabelos caíssem sobre os olhos e lá embaixo o mar investia contra as pedras insistentemente. O ar tinha um cheiro salgado. Que lugar é esse? – Me perguntei. O mar ficava a centenas de quilômetros de onde morava e eu só o havia visto numa visita ao litoral, muitos anos atrás.
─Nossos sonhos são confusos. – Disse uma voz às minhas costas, virei, dando de cara com Thomas, ele estava todo vestido de branco e os cabelos também se moviam de acordo com o vento. Um sorriso confortante lhe enfeitava o rosto.
─Às vezes são lembranças, outras apenas criações do nosso cérebro e algumas raras vezes são visões do que estar por acontecer, premonições, se você preferir.
─E que tipo de sonho é esse?
─É difícil distinguir. – Thomas deu um passo à frente e pôs uma mão no meu rosto, acariciando minha bochecha. ─Mas esse, em especial... – Ele se aproximou mais ainda, com os lábios próximos ao meu ouvido. ─Pode ser o que você quiser.
Mais um passo e nós dois mergulhamos no vazio abaixo do penhasco, como um míssil na direção da água cinzenta.
Sentei-me na cama de uma vez só, voltando à realidade repentinamente.
Thomas estava ao meu lado, sentando em uma poltrona próxima à cama sobre a qual eu permanecia confuso e abalado. As memórias vieram como uma enxurrada igual mais cedo, só que desta vez a minha memória estava intacta, eu me lembrava de tudo, até o desmaio na estufa.
─Isso... foi real? – Perguntei ao garoto que me observava serenamente.
─Isso o quê?
Ele tinha um daqueles sorrisos divertidos no rosto. O fitei com os olhos semicerrados, depois das revelações daquela tarde eu já desconfiava de tudo estranho que me acontecia, mas resolvi deixar pra lá.
─Nada, o que você fez comigo? Me dopou de novo? Que horas são?
Thomas levantou as mãos em sinal de rendição.
─Ei ei, eu não fiz nada, você desmaiou na estufa e eu te trouxe pro meu quarto, nada demais. São seis horas, ainda nem escureceu. – Continuou com um tom de voz mais baixo. ─E eu nunca te dopei.
Ele fitou os dedos franzinos entrelaçados sobre as pernas dobradas na poltrona. Pensando bem, eu havia desmaiado mesmo de causas ‘‘naturais’’, mas era estranho imaginar que eu fora carregado por Thomas até ali.
─Ok, então o que você fez ontem? O que tinha naquele chocolate quente?
Quando ele levantou os olhos, vi uma ponta de desapontamento e tristeza. Pensei que talvez estivesse sendo um pouco duro, mas tinha uma justificativa.
─Eu usei um feitiço, te fiz dormir e mexi na sua memória, mas algo saiu errado. – Ele disse de um jeito tão casual que comecei a me preocupar sobre a que ponto ele seria capaz de chegar. ─Agora quero que você me fale, do que você se lembra exatamente?
Ainda havia algumas perguntas na minha cabeça, mas era justo lhe dar respostas também.
─Humn... depois do acidente no ônibus nós viemos para cá e tomamos chocolate quente, e então eu acordo em casa com a minha mãe falando de você como se fosse meu amigo.
Thomas piscou apressadamente e engoliu em seco. Pôs-se de pé e virou as costas, comecei a me levantar da cama. Meu corpo doía um pouco, eu tinha que parar de desmaiar toda vez que uma situação estranha acontecesse.
─Tem alguma coisa errada, esse feitiço é muito simples de fazer. – O garoto falava consigo mesmo em voz alta, andando de um lado pro outro. ─Um feitiço de memória só dá errado se...
O vi indo na direção da porta e levantei-me também.
─Se o quê?
Antes de sair, Thomas virou-se e me lançou um olhar triste de olhos multicoloridos.
─Se o bruxo sentir algo a mais pela pessoa que ele está tentando enfeitiçar.
E saiu do quarto, me deixando com mais uma confusão na cabeça, como sempre.
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