O Melhor Das Piores Intenções
27 Capítulo 25 - Uma chamada perdida
Notas iniciais
Izaya abriu os olhos devagar, sentindo-os arder de leve quando um raio de luz que escapava pelas cortinas chegou até eles. Ele virou o rosto, tentando desviar da luz, e encostou o nariz na roupa da cama, inalando o cheiro de amaciante misturado a certo cheiro de cigarro ao qual já tinha se acostumado.
Os braços fortes de Shizuo estavam segurando seus quadris, encostando seu corpo no dele. Mesmo sem virar para o outro lado, Izaya já sabia que Shizuo estava virado para si, pois conseguia sentir o calor da respiração dele na sua nuca. Essa situação o lembrava de uma outra manhã que tinham passado de maneira bem semelhante algum tempo atrás; mas dessa vez estavam muito mais próximos, era notável a diferença.
Um lençol branco lhe cobria até as coxas e a sensação de calor era confortável, para combater o clima friozinho do ínicio do outono. A situação toda era confortável, na verdade; apesar da cama de Shizuo ser menor do que a king size de Izaya (embora ainda fosse uma cama de casal), era muito mais agradável estar em uma cama menor com outra pessoa do que em uma cama enorme sem ninguém com quem dividi-la.
Izaya se perguntou quando foi que começou a pensar daquela maneira.
Que constrangedor.
– ...hayo... — Shizuo murmurou. — Bom... Dia..
– Bom dia — Izaya respondeu, virando-se para o loiro.
O estômago de Izaya fez um barulho, como se anunciasse que também tinha despertado. O informante deu uma risadinha para disfarçar o constrangimento.
– Você deve estar com fome, — Shizuo observou — ficou sem comer noite passada.
Izaya sentiu até um pouquinho de vontade de pedir desculpas por ter adormecido antes de Shizuo terminar, mas aí já estaria indo longe demais contra a própria natureza. Ao invés disso, apenas ficou um pouco mais vermelho do que desejava.
– Vou tomar um banho primeiro — disse, levantando-se da cama.
Seus quadris estavam doloridos e o mesmo se aplicava para suas coxas. Ao entrar no banheiro, Izaya pôs-se a observar as marcas que Shizuo tinha deixado da noite anterior.
Em seguida, entrou no box e ligou o chuveiro, fechando os olhos e sentindo a água quente descer pelo seu corpo. Flashbacks da noite passada invadiram seus pensamentos e ele rapidamente sentiu seu corpo reagir aos estímulos da sua imaginação.
– Embora a gente tenha feito... noite passada... eu... nn...
Izaya levou uma mão até seu abdômen, massageando-o algumas vezes, em seguida descendo-a até seu membro enrijecido. Hesitante, ele fechou o punho em volta de sua ereção e passou a massageá-la, inicialmente devagar mas ficando mais rápido a cada instante, conforme seu corpo passava a desejar Shizuo mais e mais, até um ponto que parecia insuportável.
Sua respiração tinha ficado pesada e gemidos escapavam ocasionalmente de seus lábios finos e molhados, mas não era o bastante; Izaya sabia muito bem o que realmente queria.
– Que... embaraçoso...
O moreno introduziu um dedo na própria entrada, seguido de outro. Ainda estava largo da noite anterior, de modo que o desconforto foi quase inexistente e o prazer veio rápido conforme começou a movimentar seus dedos dentro de si, procurando ir o mais fundo que podia.
– Shizu-chan está me deixando... viciado... Mmn... Nnn... Ah...
Quero ele dentro de mim de novo.
– Merda... Eu me sinto... Uma puta...
Ele gemeu mais algumas vezes, mais alto do que queria — já não tinha mais o controle disso -, até que ouviu duas batidas na porta do banheiro.
Seus batimentos cardíacos aceleraram e ele engoliu em seco.
– Izaya. Você tá demorando.
– Já estou saindo — respondeu, tentando fazer a voz mais normal que conseguia naquela situação.
Depois de secar-se, trocar de roupa e recuperar a compostura, o moreno foi até a cozinha, onde o loiro estava. Shizuo estava fazendo panquecas e o estômago de Izaya pareceu reagir alegremente àquela visão e cheiro agradável.
Ele realmente sabe cozinhar, huh.
Izaya se sentou à mesa e ficou assistindo Shizuo por alguns minutos. Por fim, resolveu falar:
– Shizu-chan, tem algumas coisas que eu preciso te contar.
– O que é? — O loiro perguntou, sem tirar os olhos da frigideira.
– Bom, é sobre a Segunda Saika. Ontem, antes do meu acidente, Shiki me ligou e deu algumas informações.
– Eu achei que esse plano contra a Segunda Saika fosse entre eu e você, mas você vive mencionando esse cara, tch.
– Ah, vamos lá, Shizu-chan, não seja infantil. É impossível ser um informante sem depender de outras pessoas. Eu e você somos aliados contra a Segunda Saika, mas Shiki também quer se livrar dela, então ele acaba sendo uma ótima fonte de informação para mim, apenas.
– Tá, tá, que seja. O que foi que aconteceu?
– A esposa de Matsubara Shouichi está desaparecida desde que se separaram. Um funcionário dele contou isso a Shiki e foi morto horas depois.
– Nosso inimigo nem é mais a Segunda Saika, então.
– Exatamente. Nosso inimigo agora é Shouichi, provavelmente. Ele deve estar por trás de tudo isso. Mas nós precisamos descobrir do que a Segunda Saika é feita primeiro. O que causou a Segunda Saika. Em que condições um ser humano se tornaria um monstro como aquele?
– Que saco — murmurou Shizuo, virando uma panqueca.
– Relaxe, Shizu-chan — Izaya riu. — Nós estamos cada vez mais perto.
O moreno resolveu ligar seu celular, para ver se tinha recebido mensagens enquanto estava dormindo.
(1) Chamada perdida: Mairu & Kururi
xxx-xxx-320
Aquele era o número de sua casa 'antiga', a casa em que ele tinha morado com seus pais e irmãs, desde infância até o fim da adolescência. Atualmente, moravam naquela casa apenas as gêmeas e duas empregadas (considerando que seus pais estavam sempre viajando e raramente apareciam por lá).
– Você parece surpreso — notou Shizuo. — O que tem aí?
– Minhas irmãs me ligaram — Izaya respondeu, franzindo a testa.
– É?
– Mhm hm... Elas raramente me ligam. Estranho.
– Você não é muito próximo da sua família, não é?
Izaya demorou para responder. Sentiu-se desconfortável pela pergunta tão pessoal. Mas era normal que Shizuo quisesse saber.
– Nem um pouco próximo, na verdade. Falo com as gêmeas de vez em quando. Só.
Shizuo ficou em silêncio e Izaya agradeceu mentalmente por ele não ter perguntado 'por quê'.
– Vou retornar — disse ele, dando de ombros.
O moreno discou rapidamente o número e esperou que alguém atendesse.
– Alô, Nii-san? — Disse Mairu.
– Oi — Izaya respondeu, a voz meio monótona. — Vocês me ligaram mais cedo, certo? Eu quero saber o motivo.
– Ah — Mairu hesitou. — Nii-san... Aconteceu uma coisa muito estranha...
– O que foi? — Izaya perguntou, já ficando mais sério.
– Alguém ligou aqui em casa e disse para a gente tomar cuidado... Porque tem 'monstros' soltos na cidade... E disse que esses 'monstros' poderiam vir atrás da gente também. E depois desligou.
– Diga-me o que te disseram com as mesmas palavras.
– Ok — a garota suspirou. — Foi algo como 'as mocinhas deveriam tomar cuidado. Tem monstros soltos na cidade. Eles podem vir atrás de vocês também.'
– Uma ameaça — Izaya pensou em voz alta. — Era só o que me faltava depois de tudo o que aconteceu ontem. Voz de homem ou de mulher?
– De homem — a adolescente respondeu. — Nee, Nii-san, eu e a Kururi sabemos muito bem que existem criaturas realmente estranhas em Ikebukuro mas nós não achamos que estes sejam os 'monstros' dos quais aquele homem estava falando. Nii-san está sempre lidando com gente perigosa e não foi apenas uma vez que eu e Kururi acabamos metidas na bagunça.
– Ou seja, você acha que foi alguém que tem problemas comigo que resolveu ameaçar vocês?
– Exatamente. E nós queremos que você dê um jeito nisso.
Izaya parou para pensar por um instante, então suspirou e começou a bater de leve com os dedos na mesa, sentindo-se muito incomodado.
– Nii-san — disse Mairu, percebendo que ele demorava para responder — você está lidando com o assassino da katana, não está?
– Quem te disse isso? — Izaya perguntou.
– Namie. Às vezes eu e Kururi ligamos para ela para saber de você.
– Eu não acredito que a Namie... — O informante resmungou. — E por que vocês ligam pra ela ao invés de ligarem pra mim?
– NÃO IMPORTA, NII-SAN! — Mairu alterou seu tom de voz, irritada. Em seguida, percebeu o quanto aquela atitude era desrespeitosa para uma irmã mais nova e respirou fundo, voltando ao seu tom de voz normal. — A ligação que nós recebemos... Você acha que tem a ver com o assassino da katana?
– Eu não sei — Izaya respondeu. — Pode tanto ter sido só um trote quanto uma ameaça de alguém que eu prejudiquei recentemente ou no passado. E pode também ser relacionada à Segund- digo, ao assassino da katana. Considerando que várias coisas estranhas tem acontecido comigo ultimamente, a última possibilidade é a mais provável.
– E o que você vai fazer?
– Vou ligar para um colega e pedir para que mande seguranças para ficarem em volta da casa. Mas como isso pode demorar um pouco e no fim das contas eu não confio em ninguém além de mim mesmo, eu vou passar a noite aí.
– Certo — a adolescente suspirou, aliviada. — Quando você vai chegar?
– Umas oito horas, se possível.
– Tá. Até lá.
– Tchau.
Izaya desligou o celular e deixou-o sobre a mesa. Em seguida, deu um suspiro e se espreguiçou.
– Você vai para a casa dos seus pais? — Shizuo perguntou, colocando os pratos de panquecas também sobre a mesa.
O moreno soltou uma risadinha.
– Nee, Shizu-chan, é feio ouvir a conversa dos outros, hmm~
– Foi impossível não prestar atenção quando você mencionou a Segunda Saika, pulga.
– Ok — Izaya disse, resolvendo que iria explicar a situação. — Minhas irmãs receberam um telefonema ameaçador e eu vou passar a noite lá só pra garantir a segurança e tal.
– Eu vou com você — disse Shizuo, determinado, levando uma garfada à boca.
– O QUÊ? NÃO! — O moreno negou rapidamente.
– Tem um motivo pelo qual você me propôs que a gente trabalhasse junto — o loiro afirmou, sério — e esse motivo é que a Segunda Saika é forte demais para você lidar com ela sozinho.
– Eu não preciso da sua ajuda — Izaya bufou, fazendo biquinho.
– Não, imagina. — Só teve que pedir para dormir na minha casa ontem, o ex-barman completou mentalmente.
– DESDE QUANDO VOCÊ USA SARCASMO, SHIZU-CHAN?!
– É meio contagioso quando eu passo tanto tempo perto de você.
Ah, isso é verdade.
A gente tem passado tempo demais junto.
– Não. Shizu-chan, não. — Izaya repetiu, virando a cabeça com veemência, como se ensinasse a um cachorrinho que era errado fazer xixi fora do jornal.
– Você está com o pulso imobilizado. Como você acha que vai se defender?
– Eu ainda tenho um pulso saudável e isso é mais do que o suficiente.
– Por que você é tão contra eu visitar a casa em que você morava quando era adolescente?
Izaya não fazia a mínima ideia de como responder essa pergunta — embora soubesse muito bem as várias respostas possíveis à mesma questão, nenhuma delas seria adequada.
Porque eu tenho coisas embaraçosas do meu passado lá.
Porque estamos ficando cada vez mais próximos e é assustador.
Porque você vai ficar me perguntando coisas que eu não vou querer responder.
Porque a minha família é uma droga. Que família, na verdade? No fim das contas acho que nunca existiu família nenhuma. Só cada um por si.
Porque quando estivermos lá eu vou me lembrar de que tenho sentimentos estranhos relacionados à você desde que éramos adolescentes. E eu não quero que você esteja do meu lado nesse momento.
– O que foi? — Shizuo perguntou, parecendo subitamente preocupado.
– Ah...? Não, nada.
Eu sou um idiota.
– Tá — Izaya concluiu, revirando os olhos. — Você vai comigo.
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