O Melhor Das Piores Intenções
25 Capítulo 23 - Maldito karma
Notas iniciais
Izaya se arrependeu rapidamente da ideia de sair de carro. Talvez o metrô lotado fosse realmente melhor do que perder minutos e minutos em engarrafamentos nas avenidas mais movimentadas.
Para piorar, seu carro estava fazendo barulhos estranhos. Era um carro consideravelmente novo — tinha aproximadamente um ano -, de uma marca japonesa de qualidade, e não deveria apresentar defeitos ainda.
Quando finalmente escapou do último engarrafamento, ele virou em uma avenida que estava um pouco menos movimentada, apesar de também ter vários edifícios comerciais.
Foi então que, na próxima curva em que planejava virar, o freio de seu carro falhou e ele entrou direto em uma árvore que havia na calçada.
Foi tudo muito rápido; do momento em que ele percebeu que a velocidade não estava sendo reduzida até o momento exato em que seu carro colidiu com força na árvore grossa da calçada não passaram-se mais do que três ou quatro segundos.
O airbag foi ativado no segundo da batida e se estufou, empurrando-o para trás. Ele fechou os olhos e seu pulso e mão direita bateram com toda a força no vidro, causando um estalo.
– Ah, merda... — Izaya murmurou, sentindo seu coração bater a mil por minuto devido à adrenalina do susto. O airbag pressionava seu rosto e seu pulso direito parecia queimar de dor. Ele se sentia um pouco enjoado, também.
Pessoas logo se aglomeraram em volta do carro preto, que tinha agora a parte da frente bem amassada. O burburinho das pessoas, as repetidas perguntas de 'ele está bem?' e 'como isso foi acontecer?' deixavam o informante cada vez mais nervoso.
Izaya respirou fundo algumas vezes, com uma sensação de náusea. Então, finalmente fez um esforço e saiu do carro. Havia uma ambulância lá — alguma daquelas pessoas devia tê-la chamado — e não era bem necessária, uma vez que ele estava andando e tudo parecia bem, exceto pelo pulso, mas o informante acabou sendo levado ao hospital.
No hospital, a primeira coisa que Izaya fez foi ligar para Namie, com a mão que não estava ferida.
– Alô, Namie.
– Izaya?
– Eu bati meu carro.
– Bateu no quê?
– Uma árvore.
Depois de um segundo de silêncio, Namie passou a rir descontrolada. Era difícil imaginar Izaya, tão sério, naquela situação.
– Você ingeriu alguma bebida alcóolica mais cedo?
– Não dê risada. — Izaya suspirou, sério. — O freio não funcionou. Tem alguma coisa muito errada com aquele carro.
– Quando você resolve usar seu carro depois de deixá-lo um bom tempo na garagem você bate ele numa árvore?
Izaya suspirou mais uma vez — estava fazendo isso bastante ultimamente -, ignorando os comentários de sua secretária que ria do outro lado da linha.
– Enfim, tem algumas coisas que eu quero que você faça. Providências a tomar.
– Certo — ela pigarreou e retomou a compostura. — O que você quer que eu faça?
Izaya descreveu a ela uma lista de coisas a fazer, incluindo cancelar encontros com alguns clientes, ligar para a oficina e chamar um táxi para buscá-lo no hospital. Seu dia de trabalho estava em parte arruinado e ele estava furioso.
Nem todos os clientes de Izaya foram cancelados. Ele se convenceu de que ainda estava bem o bastante para fazer atividades mais fáceis e que não ofereciama risco, como por exemplo, somente transmitir informações e entregar cópias de documentos.
Essas tarefas acabaram tomando o resto de seu dia, especialmente uma vez que tinha ficado mais lento e prejudicado por causa do acidente. Qualquer pessoa normal teria voltado para casa e cancelado seus compromissos em geral, mas Izaya Orihara era, em parte, um workaholic.
Além disso, para quem estava acostumado a fazer sempre coisas que traziam certo risco à própria vida, um pulso trincado não era lá grande coisa. Caso aquilo fosse algum tipo de castigo para suas más ações, ele mesmo sabia que merecia muito pior.
Porém, sua ideia sobre isso mudou drasticamente quando voltou ao seu apartamento no fim da tarde. Eram seis horas quando Namie ligou para ele, dizendo que o carro já estava na oficina e que ela estava saindo do escritório por ter terminado seu serviço. Aproximadamente uma hora depois, quando Izaya voltou para lá, o estado de seu apartamento deixou-o chocado.
Estava uma total bagunça. O tapete que ficava próximo à entrada estava virado do outro lado da sala. Várias peças de cristal que tinha em uma estante estavam quebradas, no chão. O monitor de seu computador estava no chão. Os papéis que tinha deixado sobre a escrivaninha estavam espalhados por todo o ambiente, como se alguém tivesse ligado um ventilador na frente dos mesmos.
– MAS QUE MERDA É ESSA?! — Izaya gritou, incapaz de se conter.
A primeira coisa que fez foi ligar para Namie, mais uma vez.
– Namie — disse ele, sério-, como estava o meu apartamento antes de você sair?
– Como assim? Estava normal, oras. Derrubei um pouco de café no seu tapete caro e não ia contar, mas agora que você perguntou... Por quê?
– Você trancou a porta quando saiu?
– Claro, tranquei como faço sempre, com a chave que eu tenho e tal. O que aconteceu?
Izaya ficou mudo do outro lado da linha.
– Izaya. Seu filho da mãe. Me responda.
– Namie, se isso foi uma piada, saiba que não teve graça alguma. Além disso, você está demitida e eu vou processá-la com prazer.
– Piada? Processo? DO QUE VOCÊ ESTÁ FALANDO?
– Não precisava ter quebrado a minha estante de cristais. Isso foi porque eu atrasei um dia no seu pagamento mês passado?
– SE VOCÊ NÃO ME EXPLICAR O QUE ESTÁ ACONTECENDO AGORA EU VOU REVELAR TODA A INFORMAÇÃO SIGILOSA COM QUE EU TENHO TRABALHADO COM VOCÊ NOS ÚLTIMOS CINCO ANOS-
Houve um instante de silêncio enquanto Izaya somava os danos do ambiente e formulava a frase, até que ele finalmente resolveu falar.
– Meu apartamento está virado de ponta cabeça. Está tudo espalhado e metade da decoração está no chão. Acabei de notar que parte da porta está fora do batente, também. Deve ter sido arrombada.
– Sério?
– Namie-san... — Ela pôde ouvir o som de Izaya cerrando os dentes do outro lado da linha. — Por acaso parece que eu estou brincando...
– Certo. Então alguém invadiu...
– Pois é. Que horas você saiu daqui?
– Às seis. Na hora em que eu te liguei.
– Parece que a pessoa que invadiu era bem forte, a julgar pelo estado da porta. Shizu-chan já arrombou a porta várias vezes. Mas nunca assim, e...
Ele não faria isso.
– Ele não teria porque fazer isso — Namie disse, como se tivesse lido seus pensamentos. — Eu dei a ele uma cópia da chave hoje.
– VOCÊ O QUÊ?
– Dei pro seu namorado uma cópia da chave do seu apartamento. Super normal.
– NÓS NÃO SOMOS NAMO... — Ele resolveu abaixar o tom de voz para não parecer tão escandaloso. — Eu e Shizu-chan não estamos namorando. Não tem nada entre a gente. Eu não sei nem porque eu tenho que explicar essas coisas pra você-
– Aham. Sei.
– ...
– Enfim, agora ele tem a chave. Além disso, por mais estranho que isso pareça saindo da minha boca, Shizuo realmente não parece o tipo de pessoa que faria isso. Mesmo com a fama de monstro, mesmo que você merecesse.
– Tá, eu já sei que não foi ele. Eu nem achei mesmo que pudesse ter sido ele desde o começo. Só estava divagando.
– Que gracinha.
– De qualquer forma — ele ignorou o comentário -, alguém invadiu o meu apartamento, fazendo questão de deixar óbvia sua passagem por aqui. E algumas horas antes, o freio do meu carro, que não é velho e está de acordo com as revisões, não funcionou. Você enxerga alguma conexão?
– Mhm, estranho. Na verdade, esqueci de te falar, mas um cara da oficina me ligou alguns minutos atrás. Aparentemente, parte do mecanismo do freio do seu carro estava solto. Alguns fios estavam arrebentados.
– Que maravilha. Meu carro deve ter sido sabotado. E agora meu apartamento foi invadido.
– Seu apartamento tem sistema de segurança com alarme. Como foi que conseguiram entrar?
– Não tenho certeza. Mas quebraram o aparelhinho do alarme também para eu não poder descobrir. — O informante suspirou pesadamente. — Já liguei para a empresa de segurança. Devem chegar aqui em alguns minutos.
– Boa sorte. Tenho que desligar-
– Não, espera, eu ainda-
Tarde demais, Namie finalizou a ligação. Izaya suspirou pesadamente e sentou-se no sofá, que parecia ser uma das poucas coisas intactas no escritório. As palavras que Shiki tinha dito mais cedo se repetiram na sua mente.
Cuidado com onde vai meter o nariz.
Sentindo-se extremamente frustrado, ele deu um soco na parede com a mão que não estava machucada e insultou tudo e todos em todas as línguas que sabia falar (muitas).
Não adiantava chorar sobre o leite derramado, ou melhor, sobre o escritório destruído, e o informante resolveu tomar providências a respeito de sua atual situação.
– Preciso ligar para um hotel, arrumar um lugar pra ficar por enquanto.
O moreno ligou para todos os hotéis da área e nenhum tinha um quarto livre para aquela noite. Apenas dali a dois ou três dias. Era temporada de turistas e haviam muitas pessoas se hospedando em hotéis para assistir a um festival de shows jpop que aconteceria no distrito naquela semana.
Izaya sabia que não adiantaria ligar para Shinra, pois este certamente não iria recebê-lo. Poderia até ligar para Shiki, mas sabia que o membro da yakuza iria querer dormir com ele como se fosse um tipo de 'troca'. O informante praticamente não tinha amigos e não havia mais nenhuma opção em sua mente.
Bom, havia uma única.
Shizu-chan.
– Eu não quero ligar para ele. Vai ser constrangedor. Humilhante. Ridículo.
Mas eu não tenho outra opção, tenho?
Merda, merda, merda...
Será que o banco da praça é tão desconfortável quanto parece?
Izaya discou o número de Shizuo rapidamente. Cada 'tuu tuu' da chamada fazia seus batimentos cardiácos acelerarem mais devido ao nervosismo.
Que vergonha, ter que pedir um favor justamente àquele que eu estava sempre desprezando.
Hoje definitivamente não é o meu dia de sorte.
Maldito karma.
– Alô — a voz de Shizuo respondeu.
– Oi, Shizu-chan...
– Izaya?
– Eu...
Droga.
A língua do informante parecia estar paralisada e ele não tinha ideia de que palavras usar. Por um momento, até considerou desligar o telefone.
– Izaya, o que foi?
– Shizu-chan, será que eu posso... Passar a noite aí...
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