O Melhor Das Piores Intenções
37 Capítulo 35 - Você é a minha luz
Eu sei o que é amor.
Eu achei que eu amasse os seres humanos, mas eu estava errado.
Eu aprecio os seres humanos. Tenho certo temor, até. O que não faz muito sentido, uma vez que me considero superior a eles.
Mas nada disso importa agora.
Porque você não é parte disso, Shizu-chan. Você é diferente.
Num primeiro momento, eu pensei: 'Como você se atreve a invadir a minha vida e fazer essa bagunça?'
Foi por isso que eu odiei você. Eu não tinha ideia do quanto eu precisava de você.
Precisar de alguém é assustador. Eu não poderia precisar dos meus pais, porque eles nunca estiveram lá para mim.
Eu não poderia precisar de amigos, porque eu nunca tive um de verdade.
Eu não poderia precisar dos seres humanos, porque nunca confiei em nenhum deles.
Ser capaz de ficar sozinho, no fim das contas, implica em não precisar de ninguém, não é?
Então talvez eu nunca tenha estado sozinho como pensei.
De uma maneira ou de outra, você sempre esteve lá.
De uma maneira ou de outra, eu sempre precisei de você.
Eu preciso de você.
Volte para mim, Shizuo.
O som de um disparo invadiu o galpão.
Seguido pelo som de um baque seco, um corpo caiu no chão de madeira após seu último suspiro.
Era o homem que antes tinha metade de um canivete cravado na órbita ocular esquerda de Izaya Orihara.
O sangue de Matsubara Shouichi espalhou-se devagar em uma poça ao redor de seu cadáver ainda quente.
Izaya não disse nada, nem soluçou, nem gritou, nem sorriu, nem chorou. A lâmina já não estava mais em seu crânio mas jazia ao lado do corpo à sua frente. Sua expressão manteve-se vazia.
Sangue escorria pelo seu rosto junto com substâncias que ele não saberia nomear, mas ele as ignorou. Da mesma maneira que ignorou a ardência crescente no que costumava ser seu olho esquerdo.
– Nós estamos atrasados — disse uma voz por trás da porta do galpão.
Vários homens de terno, membros do grupo yakuza conhecido como Awakusu-kai, entraram.
– Vocês, tirem o corpo de lá. — Ordenou Shiki, apontando para dois de seus homens. — Você, ajude Izaya com o ferimento.
Shiki ainda segurava a arma na mão direita. Ele tinha ficado à espreita com seu grupo, observando a cena, esperando pelo momento certo para agir. Gostaria de tê-lo feito antes de Izaya ter sido atacado, mas aquilo poderia ter significado um erro fatal.
– Que bagunça... — Murmurou, passando a mão livre pelo cabelo que já contava com vários fios brancos. — Mas acabou.
Izaya recebeu um lenço branco, o qual usou para secar o sangue e segurou junto ao rosto, cobrindo a cavidade ferida. Ele não se importou muito com os próprios cuidados e recusou qualquer outra oferta de auxílio, ao invés disso focando-se no homem que estava atrás de si, parecendo estar desmaiado.
– Tirem o Shizuo daqui agora. — Izaya disse, transparecendo sua ansiedade. — Ele está respirando mas não está nada bem. O antídoto... Os efeitos... Eu não sei... Ele precisa ir para um hospital. Não! Eu preciso falar com Shinra. Preciso que Shinra esteja aqui agora mesmo.
– Orihara-san — disse um dos homens de Shiki que estava ajudando-o -, mantenha a calma-
– Não se atreva a me dizer para manter a calma em um momento desses! — Izaya gritou. — Shizuo precisa de cuidados médicos. Agora.
– O chefe já entrou em contato com Kishitani Shinra-san. Ele deve chegar em poucos minutos.
– Eu quero falar com Shiki. Chame ele aqui. Minha garganta está doendo, eu não quero gritar de novo...
– Orihara-san, acalme-se, está sangrando mais...
– FODA-SE!
Shiki se aproximou e fez um sinal para que seu subordinado saísse.
– Ouvi falar meu nome — disse ele. — Orihara, eu... — Ele apontou para o próprio olho, como se não soubesse que palavras usar. — Sinto muito pelo olho.
Izaya esforçou-se para respirar fundo e não gemer de dor enquanto falava. Suas mãos ainda tremiam e sentia náusea. A cada minuto, olhava para o corpo desacordado de Shizuo no chão para ter certeza de que ele estava respirando.
– Shiki-san... — Murmurou, com toda a força e controle que tinha. — Como você sabia que estávamos aqui?
– Eu grampeei o seu celular — ele deu de ombros. — Você não deveria subestimar a yakuza.
– Que medo — Izaya disse, com tom de deboche. — Obrigado... Eu acho.
– Não fiz isso por você e acho que você sabe disso. Quando a polícia de Tóquio se mostra ineficaz, cabe a nós resolver as coisas, do nosso jeito. — O chefe da yakuza abriu um surriso sutil. — De qualquer maneira, não há de quê. Os problemas acabaram. A falsa Segunda Saika está morta. Matsubara Shouichi também. Embora fosse muito melhor assisti-lo apodrecer dentro de uma cela suja... Está tudo bem agora.
– Não enquanto Shizuo não estiver bem. Tire ele daqui... — Izaya pediu, mais uma vez, a voz um tanto embargada.
– Você sempre falou tantas coisas ruins sobre ele, nunca achei que fosse...
– Nem eu — o informanete interrompeu a frase e suspirou. — Mas eu estava errado.
Shiki deu um sorriso cansado porém verdadeiro. Já não segurava mais a arma, tinha deixado-a com um de seus subordinados do grupo.
– Eu sempre achei que, apesar da sua frieza, você iria se apaixonar um dia, como todo mundo. Estava certo, huh?
– Pare de falar como um homem velho — Izaya provocou, finalmente abrindo um sorriso que se fechou rapidamente por causa da ansiedade. — Se bem que você é um, nee...
– Não faça piadas sobre mim logo depois de eu ter salvo a sua vida, informante. — Shiki respondeu, no mesmo tom de brincadeira. — Você não muda nunca, não é? Tsc...
– E essa não é a melhor coisa sobre mim?
O chefe da yakuza balançou a cabeça, como quem diz 'não tem jeito mesmo'.
– Parece que Kishitani-san chegou... Orihara?
Izaya sentiu tontura e náusea, além da dor já presente. Sua pressão sanguínea deveria ter abaixado de vez. O mundo em volta parecia girar. Ele queria se sentar em algum lugar, mas estava perdendo a noção de equilíbrio e espaço.
– Eu me pergunto se... Shizu-chan... vai me achar bonito... mesmo assim...
Suas mãos começaram a tremer e o lenço branco — agora vermelho, empapado de sangue e líquido vítreo — pareceu pesado demais. Ele o soltou, com um gemido de dor.
– Ei... Orihara? Segurem ele, parece que vai desmaiar-
– Izaya? — A voz de Shinra pareceu se aproximar.
O mundo em volta de Izaya fechou-se em escuridão.
* * *
O mundo de Shizuo tinha se fechado em escuridão há muito tempo.
Desacordado, perdido em um sonho, sob o efeito de diversos componentes químicos que corriam por suas veias, ele começava a relembrar todo o seu passado.
Shizuo ainda era uma criança quando foi chamado de monstro pela primeira vez. Aconteceu na escola, terceira série do ensino fundamental. Ele não tinha amigos e se metia em brigas facilmente. No próprio ponto de vista, nunca era sua culpa; sempre havia um garoto que ia provocá-lo. Consequentemente, perdia o controle e brigava, sendo expulso da sala e indo direto para a enfermaria junto da pessoa que tinha acabado de ferir.
Foi em uma dessas situações que ele ouviu aquela palavra ser direcionada a si pela primeira vez. Estava brigando com um colega no pátio; o garoto tinha acabado de jogar um sanduíche quase inteiro no lixo, e Shizuo achou aquilo simplesmente inaceitável. A briga tinha começado leve, mas depois de alguns insultos direcionados a si, Shizuo deu um soco no nariz do outro menino.
Uma das meninas que estava passando perto gritou:
– Monstro! Ele é um monstro!
Shizuo olhou para as próprias mãos e viu um pouco de líquido vermelho entre seus dedos. Era sangue, sangue que deveria ter saído do nariz do garoto que tinha acabado de derrubar.
Então, ele entendeu o que a garota quis dizer.
Mais do que isso, ele soube que ela estava certa.
Depois daquele dia, ele percebeu que talvez tivessem o chamado de monstro antes, mas nunca na sua frente. Isso não importava mais, porém, pois seus colegas de classe nunca mais falaram com ele, amedrontados. Shizuo não brigou com mais ninguém naquela sala, mas fora dela as coisas continuavam iguais.
Ele foi ficando mais velho e mudou de colégio algumas vezes, pois sempre acabava causando prejuízos com os quais nenhuma escola queria ter que lidar. Tanto objetos quanto pessoas eram suas vítimas; em meio a sua raiva cega e com a intenção de atirá-los em alguém, Shizuo quebrava armários, carteiras, bancos, qualquer coisa que estivesse na sua frente no momento de sua fúria.
Durante esse período, ele foi chamado de monstro várias e várias vezes, mais do que poderia contar. A palavra tornou-se normal para o jovem Shizuo e, aos poucos, ele mesmo aceitou que era a verdade sobre si. Ele era um monstro. Não tinha como mudar isso.
Ele era um monstro e sempre seria; ou ao menos era isso que pensava.
Apesar de todos os problemas, a família de Shizuo sempre o tratou como uma criança normal, especialmente seu irmão mais novo. Kasuka nunca perguntava sobre suas brigas, seus ferimentos ou a expressão triste que tinha no rosto quando voltavam da escola juntos. Do lado de seu irmão, Shizuo podia fingir por um instante que não era tão monstruoso assim.
Todos os dias, quando entrava no banheiro para tomar banho, ele passava um longo minuto observando-se no espelho. Não havia nada que detestasse mais no mundo do que o reflexo que lhe encarava de volta, triste e vazio. Ele quebrou o vidro duas vezes, com socos. Na primeira, sua mãe trocou o espelho. Na segunda, ela desistiu e a parede foi deixada como estava, marcada e vazia. Como Shizuo.
Às vezes, ele desejava morrer. Jamais teria coragem de cometer suicídio — causar mais tristeza aos pais do que já causava quando vivo -, mas desejava que alguém fosse capaz de matá-lo. Entretanto, Shizuo sabia que, mesmo se fosse atingido por um carro ou levasse uma facada no peito, ele não morreria. Monstros não têm direito à nada, afinal, e a morte não é uma exceção.
O tempo passou e Shizuo chegou ao ensino médio. Ele fez seu primeiro amigo; um garoto estranho chamado Shinra, que era apaixonado por uma deusa sobrenatural que não tinha cabeça. No início, Shizuo teve esperanças de não ser o único monstro que existia. Mas Celty não machucava pessoas, ela era gentil e cuidadosa, portanto não podiam ser comparados.
Ironicamente, seu primeiro e único amigo o apresentou à pessoa que acabaria se tornando seu maior inimigo.
Em um primeiro momento, aqueles olhos vermelhos cor-de-sangue o encararam intensamente, como um alerta. Em seguida, houve um sorriso exagerado, malicioso e o ruído de palmas, altas e secas. Shizuo sentiu alguma coisa arder em seu estômago e um calafrio subiu sua espinha.
– Eu não gosto de você — ele tinha dito, com firmeza.
Ele acreditou que poderia se livrar assim daquela presença irritante, mas descobriu que estava errado quando um canivete cortou a superfície de sua pele, rápido e preciso.
No segundo do corte, seus olhos encontraram os olhos de seu oponente.
Os olhos vermelhos diziam 'eu não tenho medo'.
Naquele instante, ele percebeu que aquela pessoa era diferente de todos que conhecia.
E ele nunca tinha se sentido tão irritado, tão incomodado, tão... vivo.
Shizuo nunca tinha se sentido tão vivo.
Os anos passaram, as brigas continuaram, quase diárias, uma rotina que tinham que seguir. Postes voavam, placas voavam, máquinas de venda automática voavam, Izaya quase voava, usando suas habilidades de parkour para saltitar pela cidade, fugindo de Shizuo.
Um dia, o loiro descobriu que a boca de seu inimigo era doce, apesar de todas as palavras ácidas que pronunciava. Ele não saberia explicar como tinham acabado naquela posição — lábios colados, respirações ofegantes, corpos encharcados de chuva e escondidos em um beco depois de um dia inteiro de perseguições. Entretanto, por algum motivo ou instinto bem estranho, parecia certo.
Por um instante, o mundo em volta parecia ter congelado. Ódio e amor se tornaram bem parecidos, quase o mesmo. Quando os lábios frios de Izaya tocaram os de Shizuo, o loiro não teve vontade de se afastar. Então, ele beijou de volta.
O toque foi acolhedor, macio, quente. A língua de Izaya logo provocou Shizuo e ele abriu um pouco os lábios, dando-lhe passagem. Porém, Shizuo sabia que não poderia deixar o moreno dominar o beijo. Portanto, ele levou a mão até a nuca de Izaya e o inclinou um pouco, garantindo a si mesmo mais acesso, percorrendo a língua do outro com a sua e por fim chupando seus lábios.
Então o beijo foi rompido, terminado. Bocas se separaram, com vestígios de saliva e chuva. Os dois inimigos se encararam por alguns instantes, procurando palavras para as ações que tinham acabado de realizar. Não houve palavra alguma. Shizuo se virou e foi embora, deixando Izaya sozinho no beco, como se aquela fosse a primeira e a última vez.
Mas não foi.
Os beijos seguintes afloraram necessidades mais humanas, carnais. A primeira vez que fizeram sexo foi constrangedora, porém inevitável; depois de uma série de insultos, ameaças e beijos, ambos foram incapazes de controlar seus desejos e Izaya permitiu que Shizuo o tomasse para si no sofá de seu escritório. Era para acontecer só uma vez, também. Mas todos sabemos que foi bem diferente.
Depois de várias e várias noites (e dias) de sexo casual, intercalado com as tradicionais brigas em Ikebukuro, houve a proposta. Não somente uma chance de derrotar um inimigo em comum, mas também a oportunidade de estarem mais próximos, trabalhando juntos, conhecendo um ao outro.
Sentimentos bem além do ódio começaram a desabrochar, pouco a pouco dominando os corações dos homens mais fortes do distrito. O que era 'apenas sexo' passou a ter um gosto diferente — mais doce, íntimo, apaixonado. Logo sexo não era mais tudo o que faziam; havia um romance, algo mais que tinham medo de descobrir, mas já tinham atingido há muito tempo. E em uma noite, uma declaração que virou o mundo de Shizuo de ponta-cabeça: 'você nem é um monstro'.
Agora, na escuridão mais profunda de seu ser, dominado pelos próprios medos e inseguranças, foi a voz de Izaya que o despertou no abismo que tinha criado junto dos alucinógenos.
'Você não é um monstro, então pare de agir como um!'
Foi um lembrete de que, acima de tudo, Shizuo ainda era humano. Um humano com sangue, suor, lágrimas, sorrisos, sentimentos. Ele tinha monstros dentro de si, todas as pessoas têm os seus, mas continuava humano.
Monstros não amam. Shizuo amava Izaya e foi lembrado disso quando ouviu aquela voz gritar, implorar para que ele se lembrasse de quem realmente era. Debaixo de músculos e uma força sobre humana, Shizuo era absolutamente como todo mundo.
No momento em que ouviu a voz de Izaya, ele descobriu para quê servia sua força. Não para ferir, mas para proteger aqueles que amasse. A força não era uma maldição, e sim uma bênção. O moreno fez com que percebesse todas essas coisas.
Seu inimigo, amante, rival, oposto, alma gêmea ligada a ele pelo fio vermelho do destino*. Izaya tinha passado muito tempo tentando arruinar sua vida, mas na verdade conseguiu salvá-lo várias vezes quando mais ninguém seria capaz de fazê-lo. Uma ironia de sabor fortemente... agridoce.
Se Shizuo está na escuridão, Izaya é a luz.
Eu definitivamente vou voltar para você.
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