O Melhor Das Piores Intenções

29 Capítulo 27 - Tudo o que você não sabe II


Notas iniciais
Olá! Espero que gostem do capítulo de hoje. É exatamente uma continuação do anterior e trata de situações semelhantes, por isso o mesmo nome com um 'II'. Boa leitura!

– O que a gente faz agora? — Perguntou Shizuo, quebrando o silêncio do ambiente depois de Mairu e Kururi terem subido para seus quartos.

– Para falar a verdade, eu não sei. — Izaya respondeu.

– Nós vamos passar a noite acordados?

– Sim. Bem, o objetivo é cuidar da casa, certo? Então. Eu consigo ficar acordado sem qualquer problema mas você... Eu disse para você não vir comigo, Shizu-chan.

– Eu não estava reclamando.

A resposta de Shizuo pegou Izaya de surpresa, mais uma vez. Será que algum dia ele se acostumaria com a imprevisibilidade do loiro? Isto é, se é que dá para se acostumar com algo que você não pode prever.

– Você pode ir dormir se quiser. Eu vou ficar bem sem você.

– Tch, eu já disse que não estou reclamando. E eu vim aqui para ajudar você se alguma coisa acontecesse. Eu não vou dormir. Se fosse para dormir eu estava no meu apartamento.

– Certo — Izaya suspirou. — Vamos para a outra sala, sim?

– Tá bem.

Shizuo parou no meio do caminho, tendo sua atenção mais uma vez retida pelo belo piano de mogno. Notando que o loiro tinha parado, Izaya foi até ele.

– É uma pena que as suas irmãs estejam dormindo. Eu realmente queria ver você tocar.

– Ah, eu nem sou bom nisso. — O moreno disfarçou. — Tem várias coisas que já esqueci. E só consigo tocar olhando a partitura.

Os dedos finos de Izaya percorreram rapidamente as teclas cor de marfim do caríssimo instrumento. Ele resolveu se sentar no banco e folheou uma partitura.

– Você vai tocar?

– É claro que não. Só estou olhando.

Uma das mãos do moreno descansou sobre o teclado do piano enquanto a outra segurava uma partitura que ele observava cuidadosamente. Shizuo colocou sua mão ao lado da de Izaya e passou a compará-las. Seus dedos eram pouco menos de um centímetro mais compridos e mais grossos.

– Você tem mãos pequenas.

Izaya sentiu seu rosto esquentar. Ninguém reparava nele tanto assim.

– Minhas mãos são normais. Shizu-chan é que tem mãos grandes.

– Claro — o loiro respondeu com um sorriso cansado e contraditório. — São as mãos de um monstro, afinal.

O moreno deixou a partitura sobre o teclado e, depois de um momento de hesitação, colocou sua mão sobre a de Shizuo. Em seguida, levantou-a e a aproximou de seu rosto, como se fosse examiná-la.

Ah... Caramba... O que eu estou fazendo?

– Mmm — ele observou -, você diz que essas mãos são de um monstro mas... Digo, elas não me passam medo, na verdade.

Shizuo ficou sem saber o que responder, sentindo que tinha sido pego de surpresa pelo gesto gentil do moreno. O que ele não sabia é que aquilo era só o começo. Seria Izaya a pessoa imprevisível dessa vez?

Aparentemente sim, pois seu próximo gesto surpreendeu Shizuo mais do que o primeiro. Izaya levou a mão do loiro ao rosto, pressionando-a bem de leve contra sua bochecha. Um tom de rosa tingia nitidamente sua face, mas ele resolveu ignorá-lo dessa vez.

– Sua mão está fria. Você deveria ter me dito que estava com frio para eu te emprestar um agasalho, sabe. Seria um problema para mim se você ficasse doente agora.

O ex-barman estava tão surpreso que acabou nem mencionando o fato de que não ficava doente há anos, mesmo porque não era importante, afinal. Izaya estava mostrando que se importava com ele e Shizuo definitivamente não queria interrompê-lo.

A bochecha dele está quente, o loiro notou. Ele parece estar com vergonha do que está fazendo.

E com certeza estava. Porém, as reações de Shizuo faziam com que não sentisse vontade de parar. Vê-lo surpreso daquele jeito, justamente aquele que era imprevisível, fazia seus batimentos cardíacos acelerarem de uma maneira que ele jamais iria admitir.

Você é forte só por fora, Izaya pensou. Mas por dentro, você é bem sensível, não é? E não tem intenções ruins com as pessoas.

Sem te conhecer de perto fica bem fácil chamá-lo de 'monstro', mas eu não consigo mais pensar assim depois de ver essa expressão nos seus olhos.

Mas você também é diferente de todos os humanos que eu conheço, nee...

Izaya tentou desviar seus pensamentos dos humanos e focá-los no homem que estava à sua frente. Ele levou os dedos de Shizuo aos lábios e beijou um por um, devagar.

Shizuo sentiu os próprios batimentos acelerarem ainda mais conforme assistia os movimentos do moreno e uma sensação estranha formou-se na sua garganta, algo que ele não conseguia engolir e parecia alterar sua respiração.

Era uma sensação semelhante à de quem quer chorar, mas não havia nenhuma lágrima em seus olhos.

Minhas mãos são grossas. Têm calos. Destroem coisas. Machucam pessoas. Causam problemas. Por pouco não matam.

Por que você leva mãos tão grossas aos seus lábios tão delicados?

Por que você está me tratando assim enquanto eu odeio a mim mesmo?

É como dar uma rosa a um touro.

Por último, Izaya depositou um beijo na palma da mão direita de Shizuo.

– No fim das contas, você nem é um monstro de verdade — disse ele, com um suspiro.

'Você nem é um monstro.'

Shizuo nunca tinha tido um sentimento tão forte quanto o daquele momento.

Em nenhuma das vezes em que ele e Izaya fizeram sexo, ele sentiu aquilo com tanta intensidade. Parecia que iria explodir, a qualquer momento, parecia que seu peito iria arrebentar, era sufocador, era maravilhoso, era algo que ele nunca achou que fosse experienciar.

Isso explicava o nó em sua garganta. Haviam tantos, tantos, tantos pensamentos, sentimentos e lembranças que se acumulavam e queriam escapar. Mas não era simples assim.

Ele não é qualquer pessoa.

Esse é o Izaya.

E ele não vai querer ouvir o que eu quero dizer.

Shizuo suspirou pesadamente. O nó ficou mais forte. Não tinha jeito.

Restava-lhe apenas o silêncio de milhares de coisas que ele não conseguiria vocalizar.

Entre elas, um 'eu te amo' engasgado que ele tinha certeza que seria rejeitado pelo moreno.

– Shizu-chan... Diga alguma coisa... Isso é estranho...

Shizuo não conseguiu dizer nada, ao invés disso, segurou a mão de Izaya e levou-a ao próprio peito. Os batimentos cardíacos eram tão rápidos que sua caixa toráxica parecia vibrar sob os dedos finos do informante, que ficou surpreso.

– Sh-Shizu-chan! — Izaya exclamou, sentindo o calor em seu rosto aumentar drasticamente.

O loiro puxou o moreno pela roupa, deixando seu rosto próximo ao dele.

– A culpa é toda sua — finalmente murmurou, quase inaudível.

Seus lábios encontraram os de Izaya em um beijo, que começou inocente, só um selinho, macio e silencioso, como se fosse o primeiro. Porém, tal inocência não durou muito, conforme a língua de Shizuo acariciou os lábios de Izaya, pedindo passagem. Este cedeu, embora relutante — Shizuo se perguntou o porquê -, tornando o beijo muito mais apaixonado e explícito quando suas línguas se tocaram avidamente.

O loiro acariciou a face do moreno, em seguida segurando sua nuca delicadamente e acariciando seu cabelo com a ponta dos dedos, provocando-lhe calafrios deliciosos. Izaya também levou as mãos ao cabelo de Shizuo, puxando algumas mechas loiras. Uma das puxadas foi mais agressiva e o ex-barman afastou sua boca da boca do moreno, acreditando ser um sinal de que queria parar.

– Nós não podemos... fazer nada aqui... — Izaya disse, um pouco constrangido.

Era algo bem estranho de pensar, o fato de que, anos atrás, ele morava naquela casa e desejava beijar Shizuo. E agora era exatamente o que estava fazendo; na mesma casa de sua adolescência. Também era estranho pensar no ódio mútuo que tinham. Onde estava? Para onde tinha ido?

Shizuo queria beijar Izaya muito mais, claro, queria fazer muito mais do que beijá-lo, mas se ele achava desconfortável fazer esse tipo de coisa naquele lugar, ele respeitaria. Então era realmente melhor que parassem antes de que as coisas ficassem mais... quentes.

– Você quer beber alguma coisa? — Izaya perguntou, desviando um pouco o foco dos pensamentos de si mesmo e do loiro. — Café, talvez? Se nós vamos ficar acordados a noite toda, deveria se preparar.

– Mas eu não gosto de café — Shizuo respondeu.

– Achei que fosse dizer isso — o moreno riu baixinho. — Shizu-chan realmente é como uma criança. Só não vá reclamar depois, nee. Algo mais...?

– Não, estou bem assim, obrigado.

Izaya foi até a cozinha e voltou três minutos depois com uma pequena xícara de café fumegante, que bebeu em poucos goles. Em seguida, deixou a porcelana sobre uma mesinha e fez um sinal para que fossem para a outra sala.

Shizuo o seguiu e uma porta de correr foi aberta, revelando um ambiente com um grande sofá marrom, um raque de mogno e uma enorme televisão LCD.

– Precisamos de algo para passar o tempo — disse o moreno, sentando-se no sofá e ligando a televisão despreocupadamente.

O loiro sentou-se ao seu lado e ficaram sem trocar palavras por vários minutos, os únicos sons vindo da televisão.

– Você está quieto de repente — Izaya notou, finalmente quebrando o silêncio, entediado com o drama que estava passando.

– É, eu... — Shizuo coçou a cabeça, um pouco constrangido. — Estava pensando em algumas coisas.

– No quê?

– Nada. É algo que eu queria perguntar, mas já sei que você não vai responder então nem adianta.

Izaya se encontrou em uma situação de conflito consigo mesmo; estava curioso para saber o que Shizuo estava pensando, mas dependendo do que fosse aquela pergunta, ele não iria querer responder.

Um dos motivos pelo qual eu não queria que ele viesse aqui era porque faria perguntas.

E até agora eu já respondi todas as que ele fez.

Eu sou um idiota ou o quê?

Ah, se pelo menos eu pudesse ler Shizu-chan.

Mas eu não deveria estar tão interessado no que aquele protozoário pensa.

– Faça a pergunta — disse Izaya, firme. — Mas se eu não quiser, não vou responder.

Shizuo percebeu que Izaya estava curioso e aproveitou para 'jogar sujo' com ele. Ele não podia deixar a pulga pensar que estava no controle, afinal. Alguém tinha que mostrar para Izaya seu lugar de vez em quando, certo?

– Não é assim que funciona, pulga — disse o loiro. — Se você realmente quiser saber o que eu vou perguntar, você vai ter que me prometer que vai responder.

– Se for assim, não quero — falou Izaya, empinando o nariz. — Eu nem queria saber mesmo.

– Tudo bem então.

Passaram-se alguns instantes e Izaya não resistiu. Maldita curiosidade! Por que Shizu-chan tinha que ser tão difícil de ler e, portanto, tão interessante?

– Eu vou responder a pergunta, idiota.

– Eu levo promessas a sério. Se você quebrar esta, pode dizer adeus ao nosso plano.

Aquilo era certamente um blefe — Shizuo jamais deixaria Izaya agora que estavam tão perto de descobrir tudo e resolver o problema de uma vez por todas. Mas ele precisava de um argumento para manter o moreno na linha, claro.

– Você está jogando sujo, Shizu-chan — disse Izaya, com um de seus sorrisos maliciosos.

– Tenho um bom professor.

– Ah, disso eu não posso discordar. Mas enfim, eu vou responder. Tá?

Tomara que eu não me arrependa disso.

Shizuo demorou um pouco para dizer; tinha que escolher suas palavras cuidadosamente. Se bem que, para ele, não existia uma boa maneira de fazer a pergunta que estava prestes a fazer.

– Qual é o seu relacionamento com Shiki?

A maneira com que organizou a frase pareceu séria demais para ele, fazendo-o se sentir ainda mais envergonhado. Izaya apenas começou a rir compulsivamente — e alto.

– Dá pra parar de rir, seu idiota...

– Você está preocupado com isso? — O moreno perguntou, sem conseguir parar de rir.

– Não.

– Aham, sei. Então por que perguntou?

– Porque eu quero saber.

Porque eu fiquei curioso depois de ler o seu diário, seria a resposta certa, se Shizuo não tivesse tanto receio de dizer a última parte.

Era uma pergunta de certa forma complicada — Izaya não tinha dúvidas sobre a resposta mas era algo mais pessoal do que ele tinha imaginado.

Já estou me arrependendo disso.

Shizu-chan, seu bobo.

Mais bobo sou eu que concordei com isso.

Só havia uma maneira de contar sem revelar demais: enrolando um pouquinho. Ainda assim estaria deixando Shizuo saber de sua vida pessoal, mas talvez não fosse tão ruim quanto pensava.

– Nós não temos um relacionamento, agora.

– Agora...? Então vocês já tiveram alguma coisa?

– Por que você está pensando nisso?

– Não responda minhas perguntas com outras perguntas. Tiveram ou não?

– Depende.

– Como assim 'depende'?! Você está me enrolando, não está-

– Depende do que você considera um relacionamento, é claro.

Izaya riu mais um pouco da expressão miserável de Shizuo.

– Shizu-chan, não faça essa cara. Você está tão sério-

– Vou ser bem direto: você dormiu com esse cara ou não?

– Oh, agora você foi direto.

O loiro lançou um olhar como se dissesse 'responde logo a porra da pergunta'.

– Calma, calma. — Izaya provocou, ainda pensando no que iria dizer. Resolveu, por fim, dizer a verdade. — E sim, já dormi com Shiki-san. Contente?

Shizuo ficou em silêncio mas almaldiçoou Shiki dez vezes em sua mente.

– ...Shizu-chan... — o moreno murmurou, constrangido. — Foi há muito tempo, quando eu era mais novo. Não que isso seja da sua conta, é claro. Eu nem sei porque estou dando esta informação de graça. Você deveria me pagar, huh?

Porque eu quero saber, o loiro pensou. Porque eu quero te conhecer melhor.

– Isso foi no ensino médio? — Perguntou.

– Como você sabe?

Izaya lançou um olhar desconfiado. Shizuo sabia que não poderia deixá-lo saber sobre o diário.

– Você disse 'quando eu era mais novo' e você só tem vinte e cinco, então...

– Vinte e um — Izaya corrigiu. — Para sempre vinte e um.*

– Tá meio cedo para mentir a idade.

E o pior é que o filho da mãe conseguiria muito bem se passar por vinte um, do jeito que é bonito...

– Nunca cedo demais.

– ... Você faltava bastante na escola.

– Shizu-chan reparava? Que gracinha.

– Claro, eram os únicos dias que eu tinha paz.

Izaya deu uma risadinha.

– Sem mais perguntas agora.

Shizuo ficou em silêncio por alguns segundos e Izaya acreditou que era ele quem finalmente teria paz. Mas estava errado.

– Você... hm... como eu posso dizer... gostava dele?

– Shizu-chan, eu vou enfiar o meu canivete no seu nariz. — Izaya disse, revirando os olhos novamente. — Eu já disse, sem mais perguntas. Especialmente esse tipo de pergunta.

Shizuo sorriu e deixou escapar um riso rouco.

– Ora, por que você está feliz agora? — Perguntou o moreno, fingindo estar irritado.

– Eu estou com muita raiva por aquele cara ter encostado em você — a expressão do loiro se fechou por um instante -, mas estou satisfeito por você ter me contado. Sob livre e espontânea pressão, é claro.

Izaya sentiu seu rosto esquentar e teve a certeza de que deveria estar bem vermelho. Virou-se para o outro lado para não ter que encarar Shizuo.

– Shizu-chan é estraaaaaanho — murmurou.

– E você é muito normal, certo?

– Não use sarcasmo comigo — ele fez biquinho.

– Alguém tem que fazer você provar do próprio veneno, pulga.

Nisso, Shizuo segurou o queixo de Izaya e o trouxe perto do próprio rosto, logo em seguida colando seus lábios nos dele, com um leve estalo.

Depois do beijo, o moreno se aproximou e encostou seu corpo no do loiro, deitando sua cabeça no ombro dele. A respiração quente e o cabelo macio que tocava seu pescoço fez Shizuo ter cocégas.

– Por acaso Shizu-chan me quer só para si, hn?

O loiro não respondeu, apenas acariciou o cabelo do informante e permaneceram daquele jeito por alguns minutos, assistindo televisão. Izaya se sentia surpreendentemente confortável próximo a Shizuo; seu corpo era 'quentinho' e seu cheiro, um misto de colônia com traços de cigarro, dava-lhe uma sensação de segurança.

– Está frio, me segure com mais força — disse, baixinho.

– Frio? Mas aqui está-

– Anda logo, você sabe que não vai me machucar.

Aquela afirmação fez Shizuo sorrir e ele depositou um beijo no cabelo de Izaya, em seguida segurando-o mais perto e com um pouco mais de força.

Depois de mais alguns minutos, notou que a respiração do moreno tinha ficado lenta e pesada e seu corpo não estava mais se movendo. Tinha adormecido. E pensar que o planejado era que ficassem a noite toda acordados...

– Ele até tomou café... — Shizuo murmurou, tocando o rosto do menor para ver se ele realmente estava dormindo.

Shizuo ficou com dó de acordar Izaya; imaginou que era bem a cara do informante passar as noites acordado, trabalhando ou no computador. Sem contar que tinha olheiras fundas. Talvez aquele sono fosse necessário para ele.

– Tudo bem, você não precisa ficar acordado. Deixa comigo.

Ah, Izaya.

Quando é que você vai se render a mim?

Notas finais
* Izaya tem mania de mentir que tem 21 anos na light novel. Música que inspirou a última frase do capítulo: http://www.youtube.com/watch?v=AFpZsL3lHJA Na minha opinião, ela é bem Shizaya, mas algumas partes são mais Izaya para Shizuo e o refrão é Shizuo para Izaya. Deixem comentários, please (digam o que acharam/estão achando, façam críticas para que eu possa melhorar, ou só dêem um alô para eu saber que vocês estão aí). Até o próximo ♥