O Mar de Vingança
4 Capítulo 3
Notas iniciais
2 segundos.
Esse foi o tempo necessário para percorrerem a distância de 15 metros que o separavam. Lucius foi ousado ao jogar uma faca na direção da Fera. Não surtiu efeito, pois facilmente ela a desviou, lançando-a para longe com sua espada. Uma faca a menos. Ao chegarem perto o suficiente, suas espadas se colidiram, fazendo faíscas saírem. A mesma excitação que tivera quando matou o primeiro homem tomou conta de seu corpo, mas dessa vez conseguiu controlar melhor. Sabia que qualquer movimento errado poderia lhe custar a vida. Ela não era qualquer bandido de beira de estrada que se encontrava por ai.
Os movimentos dela eram graciosos, porém rápidos e precisos. Por um curto momento, Lucius se viu encurralado. O som das espadas se chocando ressoava mais forte que a correnteza. A cada colisão, um show de faíscas aparecia, fazendo a batalha ainda mais bela de se contemplar. Ele se defendia da melhor maneira possível, até o momento que sacou também sua marca de batalha, uma adaga de prata. Com duas armas em punho, Lucius teve seus momentos de vantagem. A primeira gota de sangue a cair fora da Fera, que sofreu um pequeno corte no ombro esquerdo, ao tentar se esquivar da adaga, que cortava furiosamente o ar. Seu semblante mudou quando percebeu que ele não era brincadeira, tirando o sorriso de seu rosto. Ela queria matar alguém, e ninguém melhor do que seu único arrependimento. O único que a fizera hesitar.
Com a pequena vantagem que tinha, Lucius aproveitou para abrir pequenos cortes com sua adaga, que ela não conseguia defender. O braço esquerdo da moça sangrava de vários cortes abertos, desde os ombros até as mãos. Seu rosto, antes um dos mais belos, agora estava cansado e suado, com pequenas feridas. Mas ela não gritava nem desesperava. Pelo contrário, achava graça daquilo. O sorriso não saia de seu rosto, mesmo tendo a total desvantagem na luta. Em poucos momentos, ele percebeu o porquê. Com uma rápida rasteira, ela o derrubou no duro chão de pedra. Uma pequena dica em batalha, nunca caia durante uma. Você morrerá na maioria das vezes. Tentou se levantar, mas viu não conseguiria, pois ela colocou o pé em seu peito, prendendo-o no chão. Com seu outro pé, ela pisava em sua mão esquerda, que segurava a adaga. Ao ver que ele abrira a mão, chutou para longe a pequena lâmina.
– Você é bom. – Disse A Fera, com um grande sorriso no rosto, em meio a longas respirações. – Ninguém nunca me feriu dessa maneira, me impossibilitando de usar um dos braços. Devo reconhecer seu potencial. – Sua voz mudou para um tom sombrio. – Mas isso não foi o suficiente. Um último pedido antes da morte que o aguarda?
– Vá para o inferno! – Gritou, liberando todo o ar que tinha nos pulmões, fazendo a adrenalina correr ainda mais.
Conseguiu se levantar ao jogar terra nos olhos da moça, a fazendo afrouxar o pé por alguns segundos, dando a ele a oportunidade perfeita de se levantar. Tentou correr para pegar sua adaga, mas ela logo se recuperou e voltou a atacá-lo, não dando chances de completar seu plano. Por mais alguns momentos trocaram golpes de espada, até que um soco atingiu A Fera em seu rosto, fazendo-a cair. Era a oportunidade perfeita.
Colocando a ponta da espada no fino pescoço, Lucius perguntou, cuspindo cada palavra:
– Um último pedido antes da morte?
– Você foi um grande desafio. Vejo que fui derrotada completamente, então terás o direito de saber o motivo de sua vila ter sido extinta, menos você. – Ela começou a dizer, de olhos fechados, em paz. – Anos antes de aquilo acontecer, fui contratada como mercenária de um homem com grande fortuna. Sempre fui assassina, mas os trabalhos que ele pedia eram sanguinários demais, além de ter uma grande recompensa ao término delas. No meu último serviço, me vi num beco sem saída. Teria que dizimar uma vila inteira, sem deixar sobreviventes. Nem mulheres nem crianças poderiam ser poupadas. Perguntei-lhe o motivo, mas ele apenas disse que me pagava para cumprir suas ordens, não perguntar os motivos por detrás delas. O pagamento era o suficiente para uma vida inteira de tranquilidade. Fui comprada por 20000 moedas de ouro. Meus olhos ficaram cegos pela grande quantia que via pela frente. Aquilo não era nem metade de tudo o que eu ganhara durante 2 anos de serviços. Sem pensar duas vezes, aceitei a proposta e cumpri meu trabalho. Até aqui, era algo desconhecido para você, mas o resto você já sabe. Pelo menos, até o momento de eu sair da vila, deixando um pequeno garoto vivo, chorando no meio da praça principal, rodeado por cadáveres. Antes que me desse conta da idiotice que fiz ao te deixar vivo, fui pedir minha recompensa. O que eu não eu imaginava era que ele saberia que existia um sobrevivente, por isso, nada de pagamento. Colocou minha cabeça a prêmio entre seus soldados, e vi cada um dos meus antigos companheiros de armas caírem aos meus pés, enquanto ele apenas fugia. Fugia por medo de me enfrentar, sabia que eu não era fácil de cair. Durante dias segui seus rastros, mas não fui capaz de encontrá-lo. Há poucos dias recebi uma carta, informando que ele estaria na cidade de Farengorr, fugindo de facções que queriam matá-lo. Hoje, enquanto ainda o procurava, o avistei, mas tive a pior surpresa que poderia esperar. O fantasma que quase me matara estava ao seu lado, bancando o guarda-costas do homem. E o resto você sabe.
Aquilo o pegou de surpresa. Durante anos buscou vingança sobre aquela que matou todos os habitantes de seu vilarejo. E, durante minutos, quase protegeu o mandante de tudo. Talvez por isso o gorducho ficou tão irritado e assustado quando Lucius pulou e começou a correr atrás da garota de capa.
– Então... Tudo o que você fez, foi a mandato de um homem? – Seu tom de voz era irritado. Ela não demonstrava arrependimento, mas tinha sinceridade em sua voz.
– Foi o que eu acabei de dizer. Você é surdo? – Começou a tossir desesperadamente, como se não aguentasse mais a ponta da espada em sua garganta. – Vamos, mate-me agora. Já sabe quem foi o mandante e sabe o porquê eu fiz o que fiz. Não temos mais assuntos a tratar. E, após fizer isso, pegue a carta em minha bota direita e verá que não estou mentindo.
Quase hesitou. Ela tratava a morte com tamanha frieza que fez Lucius pensar se o que faria seria realmente o certo. Mas então foi tomado por todo o ódio acumulado e estocou a espada na suave garganta, perfurando-a de forma a atravessar por completo.
– Vá para o inferno, Fera. – Num último momento, viu um sorriso brotar no rosto da assassina.
E assim ela morreu, sorrindo. Aquele a quem ela poupara a matou.
Como ela havia falado, ele procurou em sua bota a carta. Ao ler, viu que tudo o que ela falou era verdade, ou pelo menos uma mentira muito convincente.
Seu maior propósito foi cumprido. Havia se vingado daquela que matou todos os que conhecia quando criança. Mas ainda sentia que devia fazer algo. Devia descobrir o motivo real por tudo ter acontecido. E sabia quem procurar.
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