O Mar de Vingança
6 Capítulo 4
Notas iniciais
Deitado na grama ensanguentada, Lucius pôde respirar. Seu objetivo estava completo, a Fera estava morta. A sensação de dever cumprido foi um alivio após a luta, mas o senso de imediato pulsou forte em seu peito. Se o que ela havia falado fosse real, ainda havia muito a ser feito e ele sabia por onde começar. Mas não naquele dia nem naquele momento. Agora, ele precisava descansar e se recuperar dos numerosos ferimentos, sendo todos superficiais, mas que incomodavam graças ao sangue que não parava de escorrer e o desconforto de ter cortes sobre a pele. Após a adrenalina devolver o controle de seu corpo, as dores começaram a aparecer, primeiro de forma tímida, mas aumentando em intensidade de acordo com o tempo passado. Ficou alguns minutos ali, estirado, como se ele mesmo fosse o cadáver, se vangloriando de seu feito e simplesmente descansando, sem forças sequer para se levantar, até que em um momento de agonia, conseguiu se levantar e voltar em direção a Faregorr, onde planejava se encontrar novamente com o seu novo contratante, numa tentativa de tirar o máximo de informações do mesmo.
Os minutos que foram necessários para ser percorrido todo o caminho de ida até o rio se tornaram horas, graças à exaustão que sentia, chegando a cidade ao final da tarde, quando o Sol já começava o seu poente. Tochas começavam a ser acesas. A praça, antes povoada e cheia de vida, mudava subitamente para um local de encontro de conversas sussurradas por pessoas cobrindo o rosto com capuzes, onde as prostitutas começavam os seus turnos, na tentativa de sobreviver mais um dia saciando os desejos carnais de homens e mulheres que as visitavam. Antes de ir em encontro de Vaatho, Lucius seguiu para o hospital da cidade, onde um pequeno homem carrancudo examinou seus ferimentos e enfaixou partes de seu corpo, como o tórax e um pouco de seu ombro. O pagamento foi feito de forma infeliz, pois achou ter sido cobrado mais do que o necessário, mesmo após falhas tentativas de pechinchar com o pequenino. A pousada o convidava, com suas luzes e cantorias, além de uma boa cerveja e uma ótima refeição o esperando, afinal, não comeu nada desde a manhã daquele dia, e o ganancioso Vaatho poderia esperar mais um dia, se é que ainda esteja escondido. A raiva que sentia por poder ser enganado de nada adiantaria se não conseguisse se manter alerta na viagem que o seguiria, logo, uma boa noite de descanso seria o mais recomendado, e assim o fez, comendo e bebendo para recuperar as forças antes de se deitar e adormecer rapidamente.
Pela manhã, partiu ao encontro de Vaatho novamente, dessa vez se deparando com uma multidão envolta da entrada da casa de Christoppher, que estava arrombada, com sua porta derrubada e seu interior todo destruído, além de nenhum sinal do gorducho que estava com seu dinheiro. Perguntou a alguns dos curiosos que estavam naquele local, mas nenhum soube dizer ao certo o que aconteceu, onde uns diziam que poucos homens invadiram a casa assim que o sol nasceu, enquanto outros falavam que não fazia muito tempo, uma guarnição de homens invadiu e arrastou um homem com as descrições de Vaatho, e mais alguns diziam que os guardas suspeitaram de algo e por isso arrombaram a casa. Soube de imediato que não conseguiria tirar nada de bom daquele local e devia entrar na casa numa tentativa de encontrar alguma pista do que aconteceu no local, mas sabia que não seria tarefa fácil, ainda mais com cada vez mais curiosos aparecendo para se juntar a multidão. E se os guardas ainda não bagunçaram ainda mais o local, logo o fariam. Não havia tempo a perder e nem tempo para agir de forma furtiva. Com o rosto coberto e afastando a multidão, entrou na casa apenas para sentir o cheiro de sangue que o perseguia havia anos.
Ainda que fosse começo de manhã, a sala de entrada estava escura, o que não ajudava em sua investigação. Prestou atenção em todos os detalhes possíveis, absorvendo o máximo de informação enquanto vasculhava os cômodos. Uma grande mancha de sangue arrastado saia em direção a porta de entrada vindo da cozinha, onde antes de sair para a rua, só era visto alguns respingos de sangue; algumas cartas estavam espalhadas pelo chão da sala junto a outros muitos objetos quebrados. Seguindo o rastro e, entrando na cozinha, viu um corpo caído, com suas entranhas jogadas no chão de um longo corte que ia de lado a lado de sua barriga, com algumas moscas pousadas, comendo o que antes fora o interior de um homem. Assumiu que o moribundo era Christopper, pois em nenhum outro local da casa havia encontrado outro corpo. Procurando por algo que pudesse auxiliá-lo, procurou por toda a casa, mas nada achou. Decidiu descansar por uma noite, mas foi o suficiente para perder seu alvo. Pela primeira vez desde que começou a trabalhar como assassino, essa foi a primeira vez que isso aconteceu. Sem se demorar, saiu da casa e partiu em busca de informações daqueles que saíram.
Farengorr tinha três saídas, e foi por aí que começou. Buscou pelos portões por alguém que havia visto um grupo partindo da cidade naquele dia. No portão Leste e Norte não conseguiu nada, mas no Oeste, aquele por onde chegou, um homem disse ter visto um grupo de mercenários partirem de forma rápida, com uma carroça coberta por um pano branco. O que chamou atenção do homem não foi o fato de estarem apressados e sim a mancha vermelha que muito se assemelhava a sangue no pano, com algumas gotas caindo sobre a estrada, que ele logo avistou. Não sabia se era Vaatho quem estava naquela carroça, mas sua intuição apontava nessa direção, e ela nunca havia falhado com ele antes. Sabendo que não tinha opção melhor e o tempo não estava com ele, buscou o seu cavalo o mais rápido que pôde e partiu em direção a estrada, numa busca por aquele que poderia encher o seu bolso de ouro ou saciar ainda mais a sua sede de vingança.
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