O Mar Sob Nossos Pés
2 II "Se for demais para você, eu entenderei..."
Notas iniciais
Parte dois "Se for demais para você, eu entenderei..."
Meus dedos amassaram o casaco longo que ele usava, ainda o mantendo perto, sentindo o calor agradável do corpo dele junto ao meu.
Um beijo não era a metade do que eu desejava fazer com ele, mas devia ser muito para Raul e a consciência tinha retornado com força, fazendo-o perceber que não era como tinha imaginado. Beijar um homem diferia muito dos beijos mais suaves de uma mulher.
Eu não era alguém de muitos modos, não era um cavalheiro de histórias inglesas, eu era um pirata; bem no significado cru da palavra. Diferente do nosso capitão, que tinha poesias na ponta da língua e um comportamento digno da nobreza, eu era um homem mais bruto.
E eu queria apertar, morder e me enterrar naquele corpo, mas também podia deixá-lo comandar, dar a ele uma primeira vez decente, ser cuidadoso e compartilhar toques menos ansiosos, dar prazer a ele, mas talvez, ele não quisesse chegar aos extremos.
Aquela situação era nova para ele e eu conseguia compreender que o receio o faria se afastar.
No entanto, quando suavizei a pressão em sua cintura e afastei a boca de sua pele, encontrei seus olhos ainda escurecidos e brilhantes, encarando-me com um receio que, apesar de tudo, não indicava que ele se afastaria a qualquer momento, o que me trouxe um alívio imediato e um sorriso sutil aos meus lábios.
"Tudo bem, cocinero." Murmurei, roçando a barba na lateral do rosto corado, avermelhando mais a região. "Se ainda quiser, iremos com calma." Movi os lábios para a orelha com três pequenas argolas de ouro e mordisquei o lóbulo, ainda sorrindo contra a pele arrepiada. Eu precisava de um autocontrole dos deuses para não o jogar na balaustrada e protagonizar o que vinha em minha mente. "Você quer?" Proferi com mais inquietação do que gostaria, sentindo-me um tanto mais moço e com o nervosismo aflorando pelos poros.
Quando foi que fiquei nervoso assim? Nem quando lutei pela primeira vez, nem quando entrei para a tripulação, talvez quando me apaixonei pela primeira vez...
Um passado dos infernos, mas o presente, parecia ser um tanto mais agradável. Isso, é claro, até amanhecer e o cozinheiro agir como agia com qualquer um que dividia a cama com ele, partindo meu coração em pedaços. No entanto, ter o coração partido por ele era tentador.
Mas Raul sorriu de novo, mais calmo. Novamente pensei que era tudo novo para ele, eu sabia, mas aquele sorriso me fazia sentir como se tudo pudesse ser possível naquela noite.
"Com calma... Não." Ele pareceu levemente ofendido e girou os olhos, os braços subindo e os dedos se apertando na minha roupa de novo. Os azuis caíram, fitando o que tínhamos entre as pernas e ficando visivelmente surpresos. Ah, sim, ele estava duro também. E o mérito por isso era todo meu. "Não sou uma mulher, eu quero isso do jeito que você quer." Eu duvidava muito disso, mas não o impediria de continuar soltando aquela voz afrodisíaca contra os meus ouvidos. "Mas você não vai fazer tudo sozinho." E como um aviso, ele começou a andar, me empurrando de costas pelo deque até que eu sentisse um degrau.
E continuou.
Eu sabia onde ele queria chegar. E era uma boa ideia.
Meu senso de direção pareceu em falta enquanto descíamos os degraus para o castelo de popa, ele bem na minha frente, empurrando-me com a mão em meu peito e os olhos cravados aos meus. As chamas vindas dos lampiões presos às paredes, jogavam luzes interessantes no rosto que era alvo da minha observação.
Raul havia me surpreendido sobre não querer que eu fosse com calma. Eu jamais o compararia a uma mulher, eu nem mesmo havia me deitado com uma, mas era notável que gentilezas e suavidades combinavam com elas, é só que eu não queria deixar meu belo cozinheiro desconfortável em sua primeira vez com um homem.
E a cada passo, minha ansiedade preenchia o ar daquele corredor, minha pulsação estava acelerada e eu passei a língua entre os lábios quando os senti secar.
No momento em que ele parou, frente a uma conhecida porta que indicava uma das cabines, meus dedos tomaram espaço nas lapelas de seu casaco e eu o puxei de encontro ao meu corpo, prensando-o contra a madeira da porta, roubando um som obsceno de sua boca ao apertá-lo entre as pernas, aproveitando para mordê-lo na garganta que vibrou com um novo gemido.
Eu o queria tanto. E ouvir que eu não precisaria ter calma deixava-me ainda mais palpitante por descobrir caminhos novos naquele corpo.
"O que tem em mente, seniór Belinque?" Perguntei com um sorriso envaidecido, vendo-o mover os dedos para a maçaneta e abrir a porta com afobação. Não esperei mais que um ranger da madeira para entrar com ele no cômodo, descendo as mãos por suas costas até as coxas, trazendo-o para cima a envolver minha cintura.
Estar naquela posição era novo para Raul e a surpresa e confusão naqueles olhos azuis escurecidos só me deixavam mais louco. Deus, eu certamente não tinha uma ideia muito certa sobre a dimensão do meu desejo por ele até aquele momento.
Eu apenas imaginava, mas estar ali...
Garganta seca, visão nublada, minhas mãos subindo e o apertando nas coxas e no traseiro onde eu tanto gostava de bater antes de levar um merecido soco. Bem, nem tão merecido assim, já que ele era um maldito com mãos pesadas.
A respiração dele encontrou a minha quando ele se moveu, impaciente por sentir novamente o que eu o fiz sentir quando o apertei entre as pernas. Jamais imaginei que esse tipo de pegada fosse fazer meu cocinero ficar naquele estado.
"Pare de me fazer perguntas, seniór imediato." Os dedos se agarraram nos meus cabelos e eu arfei com o puxão que recebi e os dentes em minha orelha logo depois. "Não foi você quem imaginou isso esse tempo todo?" O senti sorrir. "Me mostre o seu melhor." E eu me arrepiei até o ultimo fio de cabelo do corpo.
Certo, era tolice fazer perguntas, ele claramente estava apenas seguindo o que eu fazia e se deixando guiar pelos próprios desejos naquele momento, perdido quanto aos próximos passos.
O conquistador e experiente Raul, como um menino ingênuo e excitado nos meus braços. Eu já não sabia mesmo se era sonho ou realidade, mas eu aproveitaria aquele tempo descobrindo aquele corpo de maneira que nem mesmo ele conhecia.
Dei um jeito de jogar minhas botas para um canto do quarto antes que minhas panturrilhas batessem contra a madeira da cama e eu deixasse meu corpo cair no colchão.
Trouxe Raul por cima de mim, encarando-o nos azuis escurecidos e sentindo a palpável ansiedade que era compartilhada entre nós; ele por ser a primeira vez com um homem, no meu caso, era bem evidente que eu estava nervoso por finalmente tê-lo da forma como eu queria naqueles anos, inclinado sobre mim, ofegante, de rosto avermelhado e lábios úmidos, encarando-me em expectativa, com as coxas grossas encaixadas em meus quadris e os cabelos dourados em ondas selvagens ao redor do rosto.
Tão sedutor e ao alcance de minhas mãos, que não perdi tempo em puxar o casaco por seus ombros e afastar a gola da camisa larga, correndo a boca pelo ombro exposto, mordendo e beijando toda a pele que meus lábios tocavam, deixando marcas de dentes que custariam a sair, mas satisfeito com as unhas curtas que se desenhavam em meu peito na abertura da camisa, tocando o caminho de pelos escuros até alcançar os botões da minha roupa e retirá-los com maestria de suas casas.
Um sorriso que mostrou novamente os dentes surgiu quando o loiro contemplou o desenho de uma âncora em minhas costelas.
Logo que entrei para a tripulação, levado por minhas próprias superstições, eu decidi marcar minha pele com algo que traria sorte e equilíbrio à embarcação. Uma âncora significava segurança em alto-mar e eu achava os traços escuros interessantes além de toda a superstição que uma simples tatuagem propagava.
"Eu já pensei em ter uma." O cozinheiro me confidenciou, e para a minha surpresa, os dedos longos da outra mão agora se ocupavam em abrir minha calça. "Mas odeio sentir dor." E piscando um daqueles olhos azuis lindos, ele desceu mais o rosto e me mordeu, bem na tatuagem. Como se eu gostasse de sentir dor.
O cretino...
Suspirei com aqueles dentes na minha pele e o nariz que não me deixava. Talvez ele tivesse fixação por cheiros. Novamente eu me lembrei que devia um queijo inteiro a certo rato. Claro, porque eu nunca imaginaria aquela peculiaridade sobre Raul, mesmo sabendo do prazer que ele tinha em implicar comigo.
Como se os banhos de gato que ele tomava no navio fossem banhos de fato.
"Posso apostar minha cozinha inteira que está pensando alguma bobagem." Ele me segurou pelo queixo, os lábios vindo passear pela minha mandíbula e deixando uma mordida ali. Era bom, era quase como se ele soubesse o que estava fazendo. "Não me deixe esperando, Gaspar." E outro som indecoroso deixou a boca vermelha quando ele, por vontade própria, se moveu sobre meu colo.
Se o navio pegasse fogo naquela noite, a culpa seria do cozinheiro.
Mordi o lábio inferior ao sentir a deliciosa pressão em meu baixo-ventre, apertando os músculos de suas coxas em retorno.
A descoberta da noite, foi saber que Raul não era levado a romantismos, como fazia parecer quando estava junto de companhias femininas. Ele era galante, sedutor, mas não passava a impressão de ser afobado, de querer que as coisas acontecessem sem demora, ao menos na cama. Eu sentia que ainda me surpreenderia mais a cada momento junto dele.
E eu não o deixaria esperando, então.
Afastei seu casaco, descendo a peça por seus braços até dispensá-lo para o chão, sendo um bruto no instante seguinte ao arrebentar os botões de sua camisa, expondo seu peito de pele quase dourada aos meus olhos cheios de fascínio.
Raul não costumava andar por aí com o torso à mostra, somente com uma sutil abertura no tecido, o que me deixava louco para infiltrar as mãos por dentro da fenda provocante que mostrava um pouco do que a peça escondia.
Agora eu podia tocar.
Minhas mãos se apertaram nos músculos recém-descobertos, apalpando a carne firme e tenra com meus dedos ásperos, descendo pelas costelas, o abdômen marcado, o caminho suave de pelos dourados abaixo do umbigo e o volume confinado nas calças ainda presas pelo cinto de couro.
Raul observava minhas reações, sentia meus toques e eu conseguia dizer com propriedade o quanto ele gostava dos meus dígitos se movendo por sua pele nua, da mesma forma que eu adorava a ousadia de tê-lo com os dedos em minhas calças abertas.
Puxei a peça de couro e vi seus olhos brilharem na pouca claridade do quarto, quando desci o tecido grosso por sua cintura, deixando visível as veias saltadas que se desenhavam abaixo da pele de maneira sinuosa.
Eu queria prová-lo por inteiro, mas antes, invadi suas calças por trás, apalpando a carne com fervor, tendo a certeza de que meus toques ficariam impressos na palidez da região. O fiz gemer contra meus lábios, provocando-o sobre meu colo, roçando nossas ereções ainda presas, mas eu logo dei um jeito de mudar essa condição, quando o apertei contra o colchão ao me posicionar acima dele.
"Ansioso?" Provoquei com um riso libertino, observando-o rendido em meus lençóis. Os cabelos espalhados sobre o travesseiro, os lábios marcados pelos beijos e o peito subindo e descendo em um ritmo descompassado. Tratei logo de livrá-lo das botas pesadas sob o olhar azul intenso que se assemelhou as chamas das lamparinas quando enrosquei os dedos nos passadores do cinto e o libertei da pressão do tecido.
Ali, perdi os azuis.
Eles foram cobertos pelas pálpebras quando Raul arqueou a coluna e apertou a boca, segurando um gemido que provavelmente seria um dos mais indecorosos da noite. Eu sabia o quão satisfatório era ter a ereção liberta quando se tinha tanta pressão no baixo ventre, eu o entendia, também era homem. E sabia o quão bom era ter alguém para te ajudar a cuidar daquele pequeno problema.
Pequeno... Não.
Imagino que o cozinheiro tinha ali, outro dos grandes motivos de fazer tanto sucesso com as mocinhas, sem distinção de idade ou classe. Raul era bem abençoado naquela parte do corpo, como em todas as outras. Não tinha nada daquela suavidade e altivez do francesinho com quem Cervantes andava se enroscando e nem o jeito afetado que o diabo tinha naquela ilha.
Raul era simples, isso me atraía. Como me atraíram também os dedos que correram pelos próprios cabelos loiros, tirando-os do rosto enquanto ele se ajeitava. As pernas abertas, jogadas, ofertadas às minhas mãos que não demoraram para sentir o calor da pele e a rigidez das coxas firmes contra as palmas.
Ele gemeu. Eu sorri.
"Muito ansioso." Os olhos azuis se abriram de novo para me encarar, buscando me queimar naquelas chamas de azul intenso. "E então...? Assim está bom para você?" Os dedos escorregaram pelo próprio peito com lentidão antes de tocarem a própria ereção e eu, de garganta seca e em frente ao meu maior desejo de anos a fio, engoli a seco e fui motivo de riso novamente.
Um riso que eu adoraria tirar daquela boca gostosa. Porque agora eu podia falar com todas as letras que ela era, sim, deliciosa.
E eu era um viciado naquele sabor, na língua macia deslizando junto a minha, nos dentes que se apertavam em minha carne e nos suspiros e gemidos que a voz grave deixava vibrar no silêncio do quarto.
Inclinei-me mais sobre seu corpo e capturei seus lábios com os meus, pressionando meus dedos atrás de seus joelhos, movendo os quadris, insinuando estar dentro dele.
Estava quente, abafado dentro do cômodo, e minhas calças incomodavam como o inferno, mas continuei dando atenção a ele, roubando seus gemidos, apertando-o um pouco mais antes de descer, viajando com a boca por seu corpo até pousar sobre onde seus dedos ainda subiam de maneira lenta, somente o suficiente para deixar-me louco por testá-lo.
Substituí seus dedos pelos meus, tomando-o em uma carícia lânguida no mais íntimo que tínhamos chegado até o momento. Senti ele estremecer sob meu toque e deslizei o polegar em círculos, molhando-o de pré-gozo.
"Assim está perfeito, cocinero." Repliquei com um riso pretensioso, respondendo-o após alguns momentos, antes de curvar-me entre suas pernas e testar a língua onde antes passeava com os dedos.
Raul comprimiu os dedos dos pés e apertou os lençóis, perdido. Eu estava certo que ele daria um jeito de verbalizar para que eu o tomasse logo de uma vez e decidi não esperar, mesmo que o som de sua voz causasse em mim mais vibrações do que eu poderia colocar em palavras.
O envolvi no calor de meus lábios quando os dedos longos pousaram em meus cabelos escuros.
E o descontrole que ele mostrou ali, eu gostava de imaginar que não era algo que ele deixaria qualquer uma ver com facilidade. Era para mim, algo meu, a forma como seu corpo inteiro estremecia abaixo de mim, como meus cabelos eram puxados com força e o jeito em que ele quase me afogava contra sua intimidade e pulsava dentro de meus lábios.
Alguém estava muito, muito ansioso.
"Demônios..." Ansioso a ponto de xingar. E, quando eu olhei para cima de novo, pude ver seus olhos me encarando de volta e ele estava apoiado em um dos antebraços.
Uma visão mais que privilegiada.
Alguns fios do cabelo loiro estavam grudados no rosto e na barba. O rosto vermelho e o peito ofegante. Era bonito ver Raul sofrendo de prazer, para variar por toda a vontade que ele já tinha me feito passar por aqueles malditos corredores. E para minha maior satisfação, ele me puxou pelos cabelos de novo e me beijou, buscando o próprio gosto na minha boca enquanto se livrava das minhas calças como podia.
Confesso que havia pensado que ele agiria mais delicado, ou que teria mais receios. Na verdade, tudo que eu podia concluir, é que Raul aprendia bem, e estava aprendendo naquele momento. Aprendendo sobre meu corpo ao me apertar nos braços e me abraçar com as pernas de novo. Nu, agora eu podia sentir todo o corpo voluptuoso contra o meu e isso por si só já era o bastante para que eu perdesse a pouca sanidade que vinha insistindo em manter até ali.
E aquela boca que não queria largar a minha, ansiosa e habilidosa, estava se saindo melhor do que eu era capaz de imaginar.
Suas mãos percorreram minhas costas, marcando com as unhas minha pele, seus lábios devorando minha boca enquanto os pés deram um jeito de abaixar minhas calças até metade das coxas, atritando o tecido com certa urgência e grunhindo quando me afastei.
Eu precisava me livrar daquela peça de roupa incômoda. O encarei com as sobrancelhas arqueadas e ele rolou os olhos, provavelmente pensando em algum deboche quanto a minha demora em me desnudar.
Raul...
Jovens...
Livre de qualquer impedimento, o vi morder o lábio inferior e repuxar um riso satisfeito, mas decorado em receio. Ele havia me provocado, dizendo que queria as coisas como eu queria. E eu estava muito inclinado a fazer exatamente como ele tinha sugerido.
Mas eu conseguia me controlar, felizmente.
E eu jamais tornaria aquela noite apenas uma forma de aliviar meus desejos, enterrando-me naquele corpo. Eu queria que fosse agradável para ele também, fazê-lo adorar aqueles momentos e ansiar por mais, como eu vivia me gabando que seria caso ele me permitisse uma aproximação mais íntima.
O vi lamber os lábios em expectativa e soprar o ar, ainda apoiado sobre os antebraços. Deslizei uma mão pela lateral de seu corpo em uma carícia quente, quase uma espécie de conforto, sentindo sua pele arrepiada em minha palma. Alarguei o sorriso quando ele questionou mudamente que porcaria eu estava fazendo.
A juventude era uma dádiva!
"Vire-se." Pedi, sendo o mais próximo de um cavalheiro em vez de girá-lo em um movimento brusco.
A sobrancelha loira e grossa formou um arco perfeito novamente, e numa atitude que eu sabia que ele tomava quando estava nervoso, os dedos brincaram com o bigode fino, enrolando os pelos por alguns segundos.
Eu quase o beijei de novo, não era hora de mudar de ideia e dificilmente eu o deixaria sair daquele quarto agora, mas Raul apenas balançou os ombros e espantou os cabelos ao virar de costas, dando-me uma visão mais que privilegiada quando ele se empinou em minha direção.
Controle-se, Gaspar! É só a primeira vez do garoto. Eu tinha sempre que me lembrar disso.
"Me faça gostar, seniór imediato." Ele provocou, sendo um filho da puta ao sorrir e morder os lábios quando, sem poder resistir, lhe dei uma palmada em uma das nádegas brancas.
Ele tinha pintas ali! Diversas, espalhadas ao lado de uma cicatriz um pouco grande na nádega esquerda.
Imaginei o que poderia ter acontecido justamente ali, mas preocupei-me em novamente provocá-lo, me debruçando para beijá-lo na marca que meus dedos deixaram em sua pele quente e contornando a cicatriz peculiar com as pontas dos dígitos. O ouvi suspirar de maneira ansiosa e o senti tensionar o corpo quando o abri para mim.
Meu pau pulsou dolorido com a visão e colei o peito às costas de Raul, como se fosse logo me encaixar em seu corpo. Ele estremeceu, soltou o ar pela boca e eu o beijei na orelha, puxando uma das argolas de ouro com os dentes.
"Eu já estou fazendo, meu caro. Você está aí, quase derretendo." Impliquei sobre a frase anterior, mordendo-o na nuca e agora, descendo os beijos por seu ombro, pela linha da coluna e retomando minha atenção onde meus dedos ainda o deixavam exposto.
Mergulhei a língua entre as nádegas brancas e fui contemplado com a voz grave que deixou a garganta dele. Pensei em ser um filho da puta e perguntar se ele estava gostando, mas suas pernas perderam a força e eu o segurei mais firme.
Talvez Raul jamais tivesse pensado naquela forma específica de dar prazer a um homem, mesmo em seus devaneios quanto a se deitar com um. E o que eu disse se tornou uma verdade ainda maior quando ele ergueu mais os quadris estreitos, se expondo para mim sem nenhum pudor enquanto mantinha o peito deitado no colchão e as mãos puxando tudo o que encontravam.
Senti meu ego inflar ao pensar que, apenas com a língua, eu estava levando o seniór Belinque a um paraíso diferente de tudo o que ele já conhecia. Certamente ele se arrependeria de ter demorado tanto a ceder.
Eu esperava — de verdade — que ele se arrependesse.
"Isso...!" Eu tive que erguer os olhos para ver aquela expressão. Para encontrar a cena em que os dedos longos puxavam os próprios cabelos e a boca jazia aberta em gemidos indecentes que ele nem mesmo pensava em guardar. Senti todo meu sangue se concentrar no volume que eu tinha entre as pernas.
Quando se viu livre de convulsões, o rosto corado e confuso se voltou para mim por cima do ombro. "Gaspar...? Por que parou?" A voz era quase ingênua, como se ele pensasse ter feito algo de errado.
Vi uma lágrima brilhar sinuosa no canto de um dos olhos azuis que não passavam de uma fenda por trás das pálpebras pesadas. Eu queria tanto fodê-lo! Talvez mais que antes, se isso fosse possível, porque devia ser proibido ser tão sensual e provocante daquela maneira.
O universo não era mesmo justo com pobres imediatos, foi o que pensei.
"Me ocorreu que talvez você não estivesse gostando." Comentei com um sorrisinho descarado tomando minha boca. Recebi aqueles olhos estreitos na falta de palavras e insinuei o indicador onde antes eu o provocava com a língua, vendo-o se contrair e apertar mais dos lençóis. "Ainda temos a noite toda, meu caro." Até o sol nascer, caso tudo ocorresse como nos sonhos.
Aos poucos, tomei espaço no calor de seu corpo, sentindo a pressão dos músculos internos envolverem meu dedo, preparando-o sem pressa.
Raul teria uma noite inesquecível em muitos sentidos. Eu ainda o ouviria dizer sobre estar arrependido de toda aquela espera, embora fosse evidente que tal fato aconteceria apenas em meus pensamentos, mas estava certo de que poderíamos ficar assim mais vezes, quem sabe até mesmo inverter posições, eu não me importava.
"Meu caro?" Raul engoliu a respiração depois de algum tempo tentando se acostumar com aquela pequena invasão. Ele não perdia aquele jeito debochado nem em momentos assim, e isso também era outro daqueles detalhes irritantes nele que eu amava. "Sem alcunhas melosas? Não parece o Gaspar que eu conheço." E provavelmente, ele ainda diria mais, mas a voz dele foi cortada por um novo gemido surpreso seguido de uma risada divertida.
Outro tapa.
Eu gostava especialmente daquela parte. De vê-lo rebolando enquanto Raul passava por entre os homens e distribuía a comida do jeito mais igualitário possível ou observar enquanto ele se debruçava na amurada, sempre perto do fim da tarde enquanto olhava as estrelas e as ondas. E essas e tantas outras manias me faziam pensar apenas no quanto eu sempre quis ver todos os meus cinco dedos marcados naquela palidez.
E eu já tinha dado como missão de vida a mim mesmo, morder cada uma daquelas pintas. E foi o que eu fiz ao morder uma que ele tinha no ombro antes de somar mais um dedo ao primeiro.
"A parte galante entre nós, é você, seniór." Achei por bem lembrá-lo. Raul nem mesmo devia ter tais expectativas sobre me ouvir sussurrando nomes bobos aos seus ouvidos, ele certamente ia rir, e eu não estava disposto a dar esse gosto a ele. E eu também não conhecia muitas palavras bonitas.
Continuei me dedicando a mordê-lo, beijá-lo e lambê-lo, preparando-o para que pudesse finalmente me receber. O momento para o qual eu estava verdadeiramente ansioso.
Quando afastei os dedos e o fiz girar, deixando-o novamente de costas no colchão, o encarei no profundo dos azuis escurecidos, procurando os lábios dele uma vez mais, tomando de seu fôlego antes de puxá-lo para cima de minhas coxas, ainda o beijando com ardor, movendo-o sobre mim, antecipando um encaixe ao deslizar por entre as nádegas avermelhadas.
Eu deixaria que ele fizesse em seu tempo, mas ao partir o beijo e ver o quanto seu rosto estava vermelho e suas mãos se agarravam aos meus ombros feito garras, resolvi perguntar:
"Tudo bem essa posição?" Minha preocupação era deixá-lo confortável, à vontade para ele fazer como quisesse.
Mas, mesmo assim, algo no rosto de Raul me fazia recuar. Confusão? Arrependimento? Medo?
Não, isso não era Raul.
Esperei, até que ele respirasse com calma e suavizasse a pressão nos meus ombros largos, deitando a testa suada ali antes de balançar.
"Prefiro ficar deitado." Dessa vez foi ele a se mover, jogando-se de novo no colchão e me abraçando com as pernas, não parecendo querer permitir que eu me afastasse nem por alguns segundos. O que era bom, pois eu o queria mais perto do que jamais esteve. "Força nas pernas, sabe... Não tenho muito disso agora." Ele explicou ao me puxar pelos cabelos, daquele jeito bruto que eu já gostava antes mesmo de conhecer.
Ele me mordeu de novo, na clavícula, na mandíbula e na boca, espalhando fogo sobre minha pele, me deixando sensível e mais louco que o normal.
Seus dedos em meus cabelos mantiveram nossos rostos próximos, as respirações ruidosas compartilhadas no espaço quase inexistente que nos separava, os olhos perdidos um no outro e uma confirmação muda antes que eu buscasse abrigo em seu corpo.
Gemi pelo contato quente e que se apertava a minha volta, enlaçando nossos dedos no momento seguinte, um gesto que talvez eu tivesse guardado para quando estivéssemos juntos.
Raul fechou os olhos, as pálpebras trêmulas, as sobrancelhas franzidas e ele certamente questionava como raios aquilo poderia ser bom. E mesmo que eu fosse devagar, ele ainda sentiria vontade de me socar e acusar-me de ludibriá-lo.
Me movi um pouco mais, beijando o rosto corado, esperando por suas reações, gemendo contra sua pele suada, apertando meus dedos nos seus enquanto sentia mais do calor e aperto que estar dentro dele me proporcionava.
Achei que meu peito poderia explodir quando o tomei por completo, respirando exasperado em seus cabelos.
Devia ser uma maldita alegria depois de tudo, uma realização de anos, após muito imaginar, todas as sensações eram vivas e me davam a certeza de que, ao menos dessa vez, eu não acordaria de um sonho.
Meus lábios roçaram nos seus, um sorriso estúpido passeando por eles.
E quando ele abriu os olhos, me encarou nervoso.
Seu corpo estava trêmulo, a respiração falhava e as unhas se apertavam nas costas da minha mão enquanto as pernas caiam para os lados, moles e sem muitas forças para continuarem cercando minha cintura. O cozinheiro gemia entrecortado, mas não desviava o olhar do meu.
Quando pensei que ele abriria a boca para, enfim, me mandar ir à merda, ele me beijou.
Partiu a distância entre nossos lábios e apertou minha mão enquanto bebia de meu fôlego. Era o melhor beijo que eu já havia trocado com alguém a vida toda, disso eu não tinha dúvida alguma.
A partir desse momento, foi impossível ficar parado.
Eu me movi, Raul mordeu minha boca em retorno. No próximo movimento, ele gemeu fraco, e no terceiro, ele arregalou os olhos e as pernas voltaram para minha cintura.
Eu fui lento de início. Lento e profundo, o sentindo se mover contra os lençóis, a voz saindo estrangulada ao passo em que eu sempre o esperava assentir. De novo e de novo, até que, o próximo gemido, veio por puro prazer.
Ele ficava ainda mais bonito assim, gemendo.
"Rápido..." Uma única palavra e eu estremeci.
Ele não precisaria pedir outra vez.
Saí quase que por completo do abraço quente de seu corpo, voltando a afundar em sua carne, chocando os quadris em suas nádegas. Raul arqueou as costas, aprovando aquela onda de prazer mais intenso, grudando os dedos em meus cabelos cacheados, exalando o ar pela boca.
Não resisti em puxá-lo para cima uma segunda vez, experimentando o calor de sua pele nas palmas das mãos, descendo os toques por seus fios ondulados, as costas suadas, os quadris que pressionei com os dedos, ditando o ritmo o qual ele se movia.
Deslizei a boca no pescoço suado, mordi sua garganta, roubei mais sons eróticos de sua voz grave e o presenciei sorrir, enlevado pelo momento, causando em mim a mesma vontade.
Ergui seu corpo um pouco mais, podendo alcançar seu peito e capturar um dos mamilos claros entre os dentes. Raul apertou meu ombro ao gemer em surpresa, sentindo minha língua brincar na região que, certamente, ele não havia pensado ser um ponto de prazer.
Subi os lábios, abandonando beijos na pele suada e voltei para sua boca em uma pressão forte, urgente, exigindo sua língua na minha, o sabor da bebida ainda passeando pelo beijo, deixando-me embriagado como nem mesmo o melhor rum poderia fazer.
Naquele momento, eu podia me esquecer que era louco por aquele homem e que, dias atrás, não conseguia nada além do desprezo dos olhos azuis. Eu podia brincar com meus próprios sentimentos, afinal, Raul estava comigo agora, não? Comigo, não com outra pessoa.
Não com Eluna.
Sem que eu me desse conta, ele se movia sozinho. E de novo, aprendia as coisas do meu jeito. Os quadris que tinham tanta desenvoltura para dançar em volta de uma fogueira, movendo-se de um jeito impudico sobre mim enquanto os dedos se soltavam dos meus cabelos para passearem por todo meu corpo. Músculos dos braços, peito, nas costas e de novo nos cabelos, onde ele fez questão de puxar para trás em busca de me morder.
Eu o senti estremecer.
E era como se não tivéssemos mais tempo, embora a noite ainda nem estivesse em seu auge.
Ao longe, os sons animados e a cantoria incessante de Tortuga continuava, a luz da lua vinha iluminar a cabine pela janela côncava e o impacto das ondas vinham balançar o navio.
O sangue corria rápido pelo meu corpo, Raul não seguia mais um ritmo e tudo o que minhas mãos sabiam fazer era deixar impressas nas coxas e nádegas, em todo aquele corpo, as marcas daquela noite. Se não houvesse outra, doeria, mas o cozinheiro também não esqueceria de quando se derreteu em meus braços.
Afinal, eu ainda sabia ser tão filho da puta quanto ele.
A boca úmida e avermelhada se abriu e as unhas se afundaram de novo na minha carne. Os movimentos dele pararam, os meus não e eu me lembrei de ser cuidadoso ao tomá-lo em uma das mãos novamente, guiando-o ao ápice com maior facilidade.
Raul era mesmo tudo o que me obrigavam a ouvir por quase todas as tavernas onde descobriam que pertencíamos a mesma tripulação. Até mais, na verdade, mas quem culparia um homem louco de amor por achar seu objeto de desejo a melhor foda que já teve?
Viemos quase que ao mesmo tempo, gemendo, suando, ofegando.
Tempestades se formavam em meu peito e os olhos dele eram uma incógnita, mas não deixavam os meus um segundo sequer enquanto ele apertava os dentes, aqueles dentes tão bonitos para um cozinheiro do mar.
Se eu não o conhecesse, e dadas as loucuras que vinham acontecendo naquele navio, eu juraria que o seniór Belinque era um peixe tal como o francesinho de Cervantes.
"Eu... Não sei o que dizer." O ouvi rir e, agora, estava ali a situação mais inusitada que uma noite de sexo com ele. Quando caímos no colchão, ele deixou a cabeça descansar onde estava, em meu ombro, e não se afastou quando testei tocar os cabelos loiros e suados que se espalhavam por meu peito. "Foi como imaginava?" A curiosidade nos olhos azuis era genuína, e com humor, também ri ao ver o quão bravamente ele lutava para normalizar a respiração.
Eu ponderei sobre aquela pergunta em silêncio, avaliando o desempenho de meu belo cozinheiro. Que ele não imaginasse o que eu fazia enquanto aguardava por uma resposta, parecendo distante do rapaz de movimentos sinuosos que subia e descia em meu colo há pouco.
Sua cabeça apoiada em meu ombro, permitiu que eu afundasse o nariz em seus cabelos levemente úmidos, buscando mais do seu cheiro, aproveitando de sua companhia.
Conseguíamos ter conversas decentes agora, mas eu sempre aproveitava ao máximo o que sua presença me oferecia.
"Não sei se devo mesmo dizer que foi melhor do que eu imaginei." Comentei em tom humorado, movendo os dedos por sua fronte e ponte do nariz, vendo-o fazer careta e tentar fugir de meu toque. "Isso pode aumentar o seu ego já naturalmente enorme." E eu não queria fazer daquele garoto atrevido um alguém ainda pior de se conviver. Era um bem que eu fazia a humanidade. "Mas vamos, você pode fazer melhor que isso." Dei tapinhas de incentivo em suas costas, recebendo um olhar confuso. "Nunca ficou sem palavras." Incentivei, se eu podia dizer, ele também poderia, embora ele não precisasse, já que estava claro feito água o quanto ele havia gostado.
Mas, mesmo assim, ele apenas balançou os ombros e não desviou os olhos, como qualquer outro provavelmente faria. Isso era algo que eu costumava a admirar em Raul, ele não tinha pudores desnecessários ou ficava com vergonha por causa de coisas banais, não havia espaço para isso entre piratas e eu nunca vi aquelas bochechas corando antes de hoje, ao menos, quando ele estava sóbrio.
Raul era do tipo que reagia rápido, e de tão leve, nunca via necessidade de fugir em dar respostas.
"Você não me conhece o bastante para saber disso." Ele espalhou os antebraços em meu peito e se deitou direito ali, me olhando de cima. "Mas foi bom... Ou eu não estaria aqui ainda." E com outro sorriso, ele ergueu mais o corpo para me roubar um beijo, passeando com a mão espalmada por meu peito, descendo até apertar minha coxa. Gemi entrecortado com aquele toque, sentindo meu pau enrijecer novamente. "Tem fôlego para aguentar uma segunda vez? Ainda não me cansei."
Ele estava mesmo falando sério?
Mas Raul era jovem, tinha fogo para queimar, o que me deixava ainda mais louco para uma segunda rodada. Eu queria muito vê-lo cansado, adoraria jogar nas fuças dele o fato de minha idade não interferir em absolutamente nada o meu desempenho.
Oras, eu nem mesmo era velho!
Afastei um pouco o rosto para encará-lo, os cabelos loiros espalhados e bagunçados, os olhos azuis estreitos e o sorriso por baixo do bigode fino, não era de deboche ou nenhuma das brincadeirinhas de provocar que ele andava fazendo. Era curiosidade e expectativa.
"Se for demais para você, eu entenderei..." E agora ele estava verbalizando que achava um velho.
Eu havia criado um monstro!
Mas claramente não haveria reclamações de minha parte.
Com um sorriso curvando meus lábios, um gesto que eu esperava ter deixado claro para aquele loiro, o quanto eu ainda tinha energia suficiente para cansá-lo e sumir com aquele ar de jovenzinho prepotente que se desenhava no rosto dele.
"Vai se arrepender, cocinero." Ameacei.
Girei o corpo, derrubando-o de volta ao colchão, fazendo-o sentir o quanto eu estava pronto para uma segunda, quem sabe uma terceira vez. Permiti que ele sentisse o quanto me deixava duro, o quanto eu o desejava. Raul ofegou, dando-me uma permissão muda ao beijar minha boca.
Mergulhei em seu corpo por mais uma vez naquela noite, gemendo junto a ele, apalpando suas curvas, tornando-nos um só como havia feito muitas vezes em sonhos e pensamentos noturnos.
A diferença, é que agora eu não acordaria sozinho e frustrado.
Aquela noite no silêncio do navio, tinha me trazido um dos melhores dias para recordar.
Como sempre, Raul amava partir corações por onde passava. Quando o dia amanhecesse, dependendo de como a noite acabasse, eu juntaria os cacos.
Claro, se ele tivesse alguma força para sair da minha cama e me deixar sozinho, porque, se dependesse de mim, Raul não sairia daquele quarto tão cedo.
Palavra de pirata.
— FIM
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