O Mar Sob Nossos Pés

1 I "Cedo demais para acordar"


Notas iniciais
Olá, galera!

Chegamos aqui com um conto dividido em duas partes, que mostra o Gaspar e o Raul juntos, do jeito que o imediato sempre sonhou hohoho

Esperamos que vocês gostem, sabemos que 'cêis shippam esses dois também XD

Boa leitura!

Parte Um – “Cedo demais para acordar”

Enquanto sentia as águas calmas deslizarem sob o convés, meus pensamentos fluíam livres com o sossego do porto e a noite que subia veloz no horizonte que há poucos momentos tinha as cores quentes de um fim de tarde.

A maioria dos homens estavam bêbados, brigando por motivos banais, caídos nas sarjetas ou desperdiçando os saques com jogos, rum ou putas. Não que eu fosse muito diferente, mas eu gostava de momentos assim, onde o Sombra da Noite era engolido pelo silêncio e eu podia ouvir meus próprios pensamentos.

Logo que a embarcação aportou, todos desceram e eu os segui, parando numa conhecida estalagem para um banho e uma refeição decente depois de semanas em alto-mar. O rum era precioso e eu tinha trazido uma garrafa como companhia, já que dispensei os serviços de Diogo por aquela noite. Meu amante era um rapaz agradável e não negaria que precisei de força de vontade para afastá-lo, mas ainda preferia estar junto a uma garrafa de bebida e na quietude do navio.

Agora, eu estava com o porto em seus tons escuros e a ampla visão do cais, meus braços apoiados na borda falsa enquanto a maresia bagunçava meus cabelos limpos e desembaraçados. Tinha sido um verdadeiro horror enquanto Mouse enfiava aqueles dedos finos em meu couro cabeludo, alegando que eu precisava aparentar limpeza e não somente entrar na tina com água e sair logo em seguida.

O Raul gosta de pessoas limpas!” O rato falava enquanto puxava meus fios. Eu ainda torceria aquelas orelhas enormes mais tarde, mas tinha que concordar, um banho fazia milagres. E não era como se eu tivesse me enfiado numa bacia com água somente para atrair a atenção de um certo cocinero, embora a ideia fosse agradável. Do jeito que as coisas sempre foram claras entre nós, não era um banho demorado que faria o Belinque simplesmente cair no meu colo.

E céus! Como eu queria que algo assim acontecesse. O hijo de una puta deixava-me louco sem que precisasse fazer absolutamente nada, e eu só queria entender quando foi que essa porcaria sentimental aconteceu. Era frustrante, para não dizer o mínimo. Eu o desejava de uma forma tão particular, que sonhava com o momento em que ele finalmente viria até mim por vontade própria, mesmo sabendo que isso não aconteceria nunca. Raul não sentia nada mais que o mínimo de empatia por mim, que vivia sempre o atormentando em busca de conseguir uma lasquinha do que eu nunca poderia ter. O loiro maldito não tinha aqueles gostos peculiares, como ele me disse uma vez há algum tempo.

Eu ainda podia ver a expressão horrorizada no rosto de um Raul mais jovem, quando eu delicadamente sugeri que ele poderia me fazer uma visita noturna em minha cabine. Foi bem sutil de minha parte, mas ele agiu como se eu o tivesse ofendido da pior maneira possível. Lembro-me de ter rido de minha própria tolice naquele dia, mas a vontade de implicar com ele foi bem maior e eu não desisti de tentar persuadi-lo a vir para minha cama. Persuasões nada convincentes ou eu não estaria aqui, apreciando a noite com suas luzes brilhantes e o porto quase vazio. No momento, eu queria muito segurá-lo nos cabelos e me afogar nos lábios dele enquanto seus dedos descobriam a temperatura da minha pele por baixo da camisa e eu apertava sua coxa com a mão livre, pressionando-o contra meu corpo e sentindo sua rigidez crescer contra a minha.

Era uma lástima que eu ficasse duro somente com idealizações, pensando no sorriso que tomava os lábios dele quando estava me provocando, porque ele sabia que um simples sorriso me deixava palpitante e com um desejo nada racional de trazê-lo até mim e calar qualquer provocação, mordendo-o no lábio inferior até deixá-lo sensível e ainda mais atraente, já que até mesmo o desenho daquela boca me fazia ter os mais indecorosos pensamentos. Todos os pensamentos nos levavam até a cama mais próxima.

Mas a merda, é que não era somente o desejo, era mais que isso.

Percebi minha desgraça quando o vi se ferir em um embate contra os ingleses há uns anos atrás. Foi uma ferida superficial, mas que me causou uma preocupação drástica e quase me fez sucumbir na ponta da espada de um marinheiro inglesinho de bosta. Eu tinha mais preocupações com ele do que o recomendado, esquecendo até mesmo de manter os olhos nos inimigos. Uma constatação tardia sobre meus sentimentos. Uma constatação que me fazia até mesmo dispensar a companhia de outro corpo junto ao meu, algo que eu precisava e prezava muito.

Eu precisava foder, mas eu queria foder especificamente com ele, o que Raul não estava muito disposto a me deixar fazer. Não, ele não era nem um pouco disposto a permitir que eu me aproximasse assim, com toda a fome que eu sentia por ele.

Talvez ele não quisesse se apaixonar, pensei em um humor quase negro, buscando mais do sabor forte do rum ao entornar a garrafa quase vazia. Eu não beberia até ficar completamente ébrio, eu só queria esquecer algumas coisas, mas beber deixava-me um tanto sentimental, pensando em amor e vida após a pirataria.

Tolo que era, até mesmo me ofereci para ajudá-lo com as irmãs menores, na esperança de brincar de casinha com ele. Raul pareceu gostar, claro, ele teria algum tempo livre enquanto as garotinhas estivessem comigo…

Suspirei ao abandonar a garrafa e passar as mãos pelo rosto. Eu pensava demais, gastava energia demais com algo que jamais ia acontecer e eu não era mais um menino, eu era um homem adulto há muito tempo, mas que estava apaixonado por um mocinho loiro de olhos azuis que me eram como a perdição.

Se eu apenas conseguisse esquecê-lo e não apenas fingir, seria o paraíso, mas quanto mais eu tentava, lá estava eu, imaginando o que o filho da mãe estaria fazendo agora. Provavelmente ele estaria com a bela cigana de cabelos vermelhos, enroscando-se em algum canto da ilha.

Outro sorriso amargo surgiu e pensei que seria melhor retornar e aceitar o que Diogo podia me oferecer. Seria um bom começo, mas assim que caminhei pelo convés e antes de alcançar a prancha de embarque, deparei-me com meu maior pensamento materializado.

Lindo, alto e de cabelos loiros ao vento fresco da noite, prostrado a minha frente exatamente como o imaginei momentos antes.

Minha mente devia estar me pregando alguma peça, foi somente isso o que concluí.

O que fez com que, sem consciência, eu picasse os olhos algumas vezes. Obviamente, me ver em busca de me desfazer de uma miragem criada pela necessidade que eu sentia daquele maldito, o divertiu. Ele sorriu, daquele jeito que mostrava todos os dentes e fazia um som rouco vibrar na garganta. Raul deixava palpitantes os corações de muitas mocinhas desavisadas com aquele sorriso.

E o meu também.

"Estás bien, seniór imediato?" A voz. Grave. Ela tinha amadurecido muito nos últimos anos. Ele era nada mais que um garoto quando chegou, um garoto que cozinhava muito bem e começou a chamar minha atenção tão logo os pelos começaram a crescer naquele rosto pálido que ficava constantemente vermelho com o sol. Era por isso que ele preferia ficar na cozinha, protegido atrás de suas facas e panelas. É, talvez eu o observasse em demasia. "Parece que viu um fantasma... Recomponha-se, homem!" E agora, ele me encarava com preocupação.

Que irônico! Se eu soubesse que salvar a vida dele me garantiria aqueles olhos azuis cheios de preocupação, teria feito isso mais cedo. E, diabos, eu nem mesmo lembrava de ter salvo o infeliz de cair no mar, ou muito bem teria aproveitado a cena dramática para dar àquela boca o beijo que ela sempre pedia todas as vezes que eu a via.

Como agora, movendo-se daquela maneira tentadora, as mãos, nada delicadas, dando-me tapinhas nos ombros. Ah, eu tinha bebido! Não muito, mas o bastante para olhar para ele e pensar em mil e uma implicâncias que provavelmente me renderiam um soco no estômago.

Isso, ao menos, no passado. Raul Belinque parecia ter ficado mais próximo desde que me ofereci para cuidar das cópias loiras e femininas dele.

Patético, Gaspar. Certamente, patético.

“Eu ia buscar mais rum.” Procurei por minha voz, percebendo o quanto ele estava próximo, numa tentativa de fazer-me voltar a realidade. Algo que não era comum quando ele estava por perto. “E você? Dispensou a rosa vermelha da tripulação?” Soei ácido, dando-me um ar enciumado o qual eu me arrependi tão logo percebi. Não eram meus assuntos. Raul se entendia com quem bem quisesse e eu estava soando como um homem ridículo e imaturo.

Era bem assim que eu me sentia; mais jovem, dizendo coisas estúpidas que o faziam rir e rolar os olhos.

Observei que, no entanto, ele parecia diferente. Não era somente em minha cabeça que ele andava um tanto afastado da contramestre, como se a evitasse, embora eu não soubesse os motivos. Notei que Eluna andava nervosa com isso, com a nossa aproximação, mas claramente deduzi que eles estavam juntos naquela noite. Toda a tripulação buscava por aconchego quando estávamos em terra.

Mas Raul…

Especialmente naquela noite, eu o achei diferente. Ele estava bonito como sempre, com os cabelos selvagens e dourados, a pele corada de sol, os pelos loiros sobre os lábios e no queixo, um charme certamente, mas que não era nem a sombra do que uma barba deveria ser

O que provavelmente o irritava. Lembro-me de quando ele era um menino, lembro-me do pai dele bagunçando os cabelos loiros do filho que alegava que um dia teria a barba longa e cheia, como as do antigo cozinheiro. Era um menino que admirava o pai, e agora falava muito pouco sobre ele.

E no momento, sacudia os ombros.

Eu continuei descendo os olhos, sem conhecer muitos pudores quanto a olhá-lo. Os cabelos loiros caindo em ondas douradas pelos ombros, as vestes largas por baixo do casaco longo de detalhes dourados onde ele acabava de enfiar as mãos, as calças que se agarravam em alguns lugares estratégicos e a postura relaxada. Quando voltei ao seu rosto, ele tinha desviado os olhos.

Isso era novo. Raul tinha a mania de sempre me encarar, como se pudesse me desafiar para uma troca de socos a qualquer momento.

"Eluna e eu... Isso não vai mais acontecer." Foi um gesto muito jovial aquele, de estalar a língua e passar por mim que, sem muitas escolhas, deixei que meus pés o seguissem, acompanhando-o pela madeira do deque, sentindo a embarcação inclinar suavemente. Ele se apoiou na amurada. "Mulheres são complicadas, mi caro! Agradeça por não cair por elas." E agora, aqueles olhos azuis giraram para o alto.

E pararam em mim, no que me senti analisado. Seria assim que ele se sentia quando eu o olhava daquela maneira insistente? Não era uma sensação ruim, ter meu lindo e arredio objeto de desejo descendo o olhar por meu corpo, tão perto que eu podia sentir sua respiração. Ele se inclinou e, acreditem ou não, puxou o ar bem próximo de meu pescoço, deixando-me tenso.

"Está cheirando bem, Gaspar." E o maldito parecia muito surpreso. Nem mesmo tentava esconder esse fato.

O que eu havia percebido, ainda em meu estado de torpor, foram as palavras anteriores. Segundo Raul, Eluna e ele não existiriam mais na mesma frase, embora me soasse difícil de acreditar. Eles tinham acontecido há algum tempo, mais tempo do que eu queria me recordar, e desde então, sempre estavam juntos, não exatamente como um casal, mas a contramestre desejava que tivessem algo mais que somente os lençóis bagunçados.

Eu estava surpreso, com ambas as falas daquele loiro sinuoso que parecia não saber o quanto brincar com fogo o deixaria queimado. Estávamos sozinhos naquele convés, com o cozinheiro sorrindo de meu palpável espanto, encarando-me com os azuis cheios de um brilho que fez arrepios de ansiedade percorrerem meu corpo.

Resolvi ignorar o fato de eu novamente estar a ponto de frustrar-me e parei ao lado dele, olhando o porto em uma observação avaliativa e nervosa. Sentia que Raul não tirava os olhos de minha figura e fiquei tenso, porque depois de tanto desejar que algo assim acontecesse, eu não sabia como deveria reagir.

“Lembro-me de um certo loiro ter me falado para tomar banhos com mais frequência, mesmo que eu não tenha levado esses dispensáveis conselhos a sério.” Sorri, apoiando-me na madeira da borda. “É bom estar limpo, para variar.” Movi os olhos para o perfil que eu achava estupidamente simétrico, apreciando a forma como o nariz dele era levemente arrebitado na ponta. Ele era um garoto entojado quando queria, mas geralmente me era um pé no saco, principalmente quando me expulsava da cozinha, ameaçando-me com uma faca. Oras, eu sempre amei o perigo. “Então, por que não estão juntos?” Decidi perguntar enfim. “Apenas suponho que mulheres sejam criaturas complicadas, mas vocês pareciam se dar bem.” Oh, não, nenhuma mulher poderia ser mais complicada que Raul Belinque.

Dessa vez, eu não desviei os olhos, notando o brilho ardiloso das argolas de ouro que ele tinha na orelha.

Mas aquele era um assunto delicado, previ. Não que eu me importasse realmente com todo aquele desconforto, a curiosidade era maior e o que eu poderia fazer? Eu ainda era um maldito pirata e Raul estava no mesmo barco. Literalmente.

"Há alguns dias ela já anda estranha, quer conversar demais, fazer de menos." Estava ali uma das facetas de Raul que me fazia lembrar de que ele não era mais um garoto. O cocinero caliente, tinha pouca empatia pelos sentimentos alheios, o que não deixava de ser malditamente sexy, quando eu não parava para pensar no que poderia ter resultado naquele detalhe horrível na personalidade complicada dele. "E agora, mandou que eu fosse procurar meu novo amigo, já que prefiro a companhia dele." Ele trocou o peso dos pés e riu de novo. "Aqui estou."

Ele estava. E Eluna não era a única estranha da história.

Afinal, eis que chegou o tão desejado dia em que Gaspar Buenaventura veria o cozinheiro abrir mão de qualquer companhia feminina que fosse para ficar de papo comigo no convés, parecendo preocupar-se muito pouco com a proximidade, com as próprias falas e com o que elas causavam em mim. Parecendo gostar de ver os arrepios que se espalhavam pela minha pele e se divertir com meu breve momento de ansiedade.

Era um hijo de una puta, eu nunca me cansaria de repetir.

“Anda preferindo companhias perigosas, meu caro cozinheiro.” Impliquei, aliviando o tom de antes e tocando-o no braço de maneira despreocupada, como se um simples toque não despertasse faíscas de excitação por meu corpo. Estar com Raul era como os momentos antes de uma batalha, eu sentia todo meu corpo reagir de maneira que eu não poderia controlar, mas diferente de qualquer embate, não queria que fosse eu a dar o primeiro golpe, no nosso caso, era só um passo. Eu tinha sonhado uma vez, com ele se debruçando sobre mim e buscando meus lábios com os seus.

Eu andava sonhando mais do que gostaria.

A proximidade entre nós, era algo novo, mesmo que viesse ocorrendo já há alguns dias, certamente o que irritou Eluna, mesmo que não houvesse nada com o que ela poderia se preocupar, afinal, Raul deixou claro que éramos amigos, ainda que eu não o considerasse assim.

“Sabe que eu não o vejo como um amigo em potencial.” Comentei, agora usando de um tom mais sério. Eu achava que sempre precisaria dizer coisas assim e fazê-lo entender que, o que eu sentia, em nada tinha a ver com confidências em jogos de cartas ou porres em uma taverna qualquer. Ele não era alguém que eu queria somente beijar, ele era mais que isso. E novamente eu o admirei, tocado pelo fio de prata que se derramava da lua e o deixava ainda mais bonito, vivo, absurdamente jovem e tirava a minha sanidade. Ele tinha uns bons dez anos a menos e eu o culpava por alguns fios grisalhos que surgiram em meus cabelos castanhos. Minha garganta secava com a probabilidade de afogar-me naquele corpo e minhas calças ficavam apertadas com o mínimo dos pensamentos em relação a ele.

Como quando estava distraído, ele passou a língua entre os lábios. Ele devia saber que estava provocando.

E eu podia morrer, simplesmente porque ele não parecia nervoso ou desconfortável. Estudar Raul Belinque, era minha segunda atividade preferida, perdendo para tentar ganhar de Cervantes num duelo. E minha experiência dizia que ele estava muito tranquilo enquanto me observava; os olhos não passavam de uma linha azul como fogo absurdamente quente.

"Nunca gostei de ferir seus sentimentos, seniór imediato." E o desgraçado não parecia nem um pouco arrependido enquanto falava. Aliás, ele pareceu até muito libertino quando entortou outro daqueles sorrisos e tocou-me na lateral do rosto, erguendo a cabeça, dando-me alguns tapinhas na bochecha, mas permanecendo com a mão ali. "Faz tanto tempo... Eu seria um maldito aproveitador se decidisse pular na sua cama só por causa de uma curiosidade." Curiosidade? Estreitei os olhos. Do que diabos aquele garoto estava falando?! "As coisas precisam ser mais difíceis, sabe... E ficar apaixonadinho por aí, não está nos meus planos." E agora ele estava com medo de se apaixonar...

Um Raul curioso e com medo de se apaixonar.

Provavelmente eu estava sonhando de olhos abertos.

“Está brincando comigo, Raul. Ou bebeu mais copos de rum do que deveria.” Me diverti com minha própria fala, sentindo-me frustrado como sempre, mas era somente impossível de acreditar que o cozinheiro estivesse tão dócil e tocando-me com os dedos longos e calosos daquela maneira íntima, como se desejasse mais que uma conversa banal. Eu estava em puro estado de alerta com tão pouco, mas era o mais próximo que havia chegado de um toque consensual. Raul somente tinha patadas e socos para distribuir quando o assunto era a minha vontade quase insana de tomá-lo nos braços. “Devia voltar.” Aconselhei, mas toquei a mão dele ainda sobre meu rosto, o polegar desenhando a linha do meu maxilar, roçando minha barba recém-aparada enquanto os olhos percorriam meu rosto.

Seus olhos eram cheios de mistérios como as águas do mar sob nossos pés.

Foi aí que eu entendi, que não tive mais nenhuma dúvida. Ele sabia, sempre soube, que não era uma brincadeira.

E agora estava brincando comigo. Para variar.

O sorriso cheio de dentes era o mais sedutor que eu já tinha visto e estava explicado o motivo de ele nunca ficar sozinho. Raul sabia ser irresistível, sabia que era muito bonito e, mais que tudo, sabia que eu era louco por ele. Complemente, louco por ele. Tanto, que eu quase não acreditei no que ele fez a seguir.

Foi como começavam muitos dos meus sonhos nada castos.

Ele deixou a mão descer, libertando-a da minha, os dedos habilidosos e rápidos correndo por meus ombros antes de irem para o meu peito, onde se embrenharam na abertura da camisa e pude sentir seu toque, puxando-me forte e firme, como sempre imaginei que ele fosse. Inferno, se ele se aproximasse mais um pouquinho, provavelmente sentiria o que não devia e todo o meu momento mágico acabaria ali.

"Tão cheiroso... Eu gostei." Outro elogio, eu prendi a respiração quando senti o nariz gelado me tocar no pescoço. Ele não hesitava, apenas ia devagar, como se testasse e eu daria toda a liberdade do mundo para que ele continuasse. "Que bom que não está cheirando a rosas dessa vez." Ele estava certo, Mouse havia expulsado Rose e seus perfumes do quarto naquela noite e estava decidido a me ajudar a conquistar o Raul.

Não sei onde estava com a cabeça para aceitar ser banhado por aquela ratazana com mania de limpeza, mas devia um pedaço de queijo a ele por aquele milagre.

Meu cheiro agora, era algo como eucalipto e sabão. O rato tinha roubado algum quarto no navio e eu desconfiava que certo francês entraria em colapso caso não achasse os perfumes que ganhou do capitão.

"Sabe... Quando imaginava essa cena, nunca pensei que ficaria desse jeito. Parado e me olhando com essa cara de bobo. Eu pensei que me quisesse." A voz grave contra minha pele, a risada rouca. Até onde ele queria chegar? "Ou talvez, eu o tenha assustado..." Ele lamentou e, novamente, vi seus olhos azuis. O nariz tocou o meu. "Vamos cuidar disso." E o que eu senti depois, foram seus lábios sobre os meus.

A sensação que se partiu daquele contato inicial, disparou um sinal de alerta que correu diretamente para partes bem específicas do meu corpo. A aproximação já me garantia uma noite sofrida sobre o colchão onde eu certamente usaria a mão em busca de algum alívio, como ocorria com certa frequência.

Mas... Um beijo?

Senti os lábios tentadores roçando sobre os meus, cobrindo-os como pensei que ele jamais faria por motivos óbvios. Eu ainda acreditava que era mais um de meus sonhos quentes protagonizados por ele, mesmo que soasse como uma realidade louca a qual Raul tinha iniciativas e eu permanecia prostrado feito um barril de rum, aguardando pelo momento em que eu provavelmente acordaria duro e frustrado nos lençóis de um quarto de taverna.

Duro era como eu estava agora, sentindo minha excitação aflorar conforme as coisas faziam sentido. Era Raul ali, o garoto que eu desejava ter sob meu corpo enquanto me afundava no calor entre suas pernas e o ouvia gemer e dizer meu nome entre um movimento e outro. Era simplesmente algo que aconteceria somente em meus pensamentos e sonhos, e eu já havia me acostumado a ideia de que nunca o teria da maneira como tencionava.

Mas então, de forma repentina eu o tinha próximo, por vontade própria, sem que eu necessitasse de ser um maldito invasivo e o tocasse sem permissão. Raul estava a minha frente, os dedos enrolados em minha camisa, o peito junto ao meu, sentindo a forma acelerada a qual o músculo pesado parecia prestes a explodir, o lábio inferior carnudo que ressaltava o desenho daquela boca, movendo-se sobre o meu.

Por momentos em que deixei a mente em branco, ouvi um suspiro deixar os lábios dele e percebi que o loiro se afastaria por minha falta de movimentos, tão frustrado quanto eu costumava ficar quando abria os olhos e encontrava o escuro e o silêncio do quarto.

E como um bom pirata que era conhecido por jamais perder uma oportunidade, eu resolvi testar também.

Minhas mãos se apropriaram dos quadris de Raul, mantendo-o firme contra mim, pois agora eu não permitiria que ele se afastasse. Minha boca afundou na sua no momento seguinte ao que um ofego saltou para o ar, quando o fiz sentir a forma como ele me deixava.

Deslizei a língua por entre os lábios macios e provei, finalmente, do sabor da boca dele, movendo a língua junto a sua como muitas vezes tinha feito em meus sonhos.

Eu não sabia se o maldito beijava bem daquele jeito normalmente, ou se era apenas minha vontade abrasadora de tê-lo que intensificava tudo. Mas para o inferno com esses pensamentos! Era Raul ali. E eu me recriminaria depois por pensar que, ao menos naquele curto espaço de tempo, ele era meu. Meu, e de nenhuma das putas que dariam de tudo por uma noite nas mãos daquele cozinheiro famoso, não somente por suas habilidades na cozinha.

Pois era minha vez de provar de toda aquela artimanha. E eu estava gostando do que via até agora.

As mãos dele pareciam descobrir devagar como apertar músculos em vez de seios, os dedos buscavam um jeito melhor e mais excitante de correr pelo meu peito, passeando de leve sobre os pelos ali, antes de subirem. E quando ele me arrancou um gemido, um quase rosnado, os toques vieram com mais confiança. Nos ombros, nas costas, por cima da camisa e descendo mais. Ele não parou de descer até chegar no meu traseiro, onde me surpreendeu ao apertar com força a carne entre os dedos e juntar mais nossos corpos.

Raul não estava tão animado quanto eu, parecia muito controlado na verdade, mas eu o podia sentir bem ali, onde não éramos tão diferentes assim um do outro.

No que o beijo durava até que o ar se extinguisse, nos separamos ofegantes e meus braços cercaram com mais força aquela cintura, os dedos subindo para puxar os cabelos loiros e expor o pescoço branco onde não resisti em colar a boca também. Eu era um morto de sede numa fonte de água pura. Eu o apertava, o medo de que ele simplesmente me empurrasse era pungente e eu não podia, simplesmente não podia...

Não depois de provar daquela boca.

"Gaspar..." A voz quase estrangulada chamou minha atenção, deixando-me tenso e os dedos longos afrouxaram o aperto ali atrás.

Não, não, não…

Era cedo demais para acordar.

Notas finais
Gostaram?

Bichinho Gaspar nem acredita que isso não é um sonho XD Tadinho, mas é real, imediato, o Raul tá aí todinho procê ♥

Mas será que ele vai pular pra trás? hohohoho

Não percam o próximo e último capítulo!

Por favor, comentem o que acharam e favoritem se gostarem ♥

A parte dois vem logo, logo, mas precisamos saber se vocês gostaram XD

Bjuss