O Manuscrito de Palavras Abstratas

2 Capítulo 2 - Cadarços mal amarrados


Notas iniciais
Olá, obrigada por ler até aqui, sua atenção me motiva. musica do capítulo: Dustin Tebbutt - Bones https://www.youtube.com/watch?v=OysNiYXWga0

Observei meu corpo magro no espelho, os ossos da clavícula claramente visíveis, a pele de aspecto doentio esticada sobre as costelas e uma trilha de pelos escuros do umbigo até onde a cintura da calça jeans escondia. Olhei ao meu redor para distrair a visão daquele reflexo deplorável, sobre a cômoda de madeira envernizada estavam alguns livros do curso, lápis e canetas, minha câmera não muito boa e o manuscrito furtado.

Eu estava evitando aquela pilha de papéis amarelados, algo no fato dela não ser minha me fazia sentir a culpa na garganta. Dei alguns poucos passos para me aproximar do móvel velho, passei os dedos sobre a primeira página e o som de atrito seco me agonizou. Peguei a câmera sem saber muito bem o que fazer com ela e voltei para o espelho.

Respirei fundo, liguei a câmera e a posicionei em frente ao meu olho direito para ter visão da mira. Tirei uma foto do reflexo no espelho, e, observando o resultado no display da câmera, percebi que como arte meu corpo não tinha ficado tão ruim.

Deixei a câmera em seu antigo posto e por acaso também peguei o manuscrito antes de me jogar na cama. Evitar não fazia sentido, afinal.

Meu celular vibrou no bolso da calça, arqueei as costas para pega-lo e desbloqueei a tela com um padrão sobre o wallpaper de gatinhos. Três mensagens de Spencer e uma da operadora, não li as outras notificações inúteis antes de ir direto para as mensagens, depois eu as apagaria.

Spencer: Só pra confirmar

16h:50

Spencer: Às oito aqui em cada, Sexta-Feira 13. Certo?

16h:51

Spencer: Casa*

16h:51

Vincent: Certo.

16h:52

Vincent: Se você quiser, é claro.

16h:52

Spencer: É xlaro que eu quero, cara

16h55

Spencer: Claro*

16h55

Spencer: Eu vou te buscar aí

16h56

Vincent: Vou te esperar.

16h57

Bloqueei a tela do celular depois de alguns minutos sem resposta, sentindo ânsia no estômago pelas horas que não passavam na tela do celular e muito menos no relógio velho da parede do meu quarto. Abracei minhas pernas e apoiei a testa nos joelhos, estava sorrindo comigo mesmo até lembrar do manuscrito jogado ao meu lado, uma distração em potencial.

A caligrafia era no mínimo feia, mas legível. Eu não sabia ao certo como a estória começava, me perguntei se estava faltando alguma página ou se eu estava lendo errado, mas depois de alguns parágrafos dei conta de que a confusão fazia parte do propósito.

Naqueles papéis amassados estava manuscrita a rotina da vida de um homem que acordou às cinco, cinco passos até a porta e mais cinco até o banheiro. Se olhou no espelho e se viu espontaneamente, toda a sua desgraça estava ali, por isso lavou o rosto para disfarça-la e ensaiou um sorriso torto para sustentar o dia. Desejou ter morrido no meio de um sonho bom, mas não sonhava.

Esse era basicamente o início de uma semana contada por detalhes, cada capítulo um dia que não passava de três páginas. Haviam muitos detalhes e, mesmo que fosse um tanto arrastado, aqueles pequenos detalhes que mudavam todos os dias prendiam meus olhos no papel.

Duas, quatro, seis páginas lidas e eu olhei para minha estante cheia de livros, imaginando quantos daqueles haviam conquistado minha atenção como essa estória em minhas mãos. Poucos, concluí. Passei a página, e me deparei com uma bagunça de rabiscos sobre as letras. Passei para a próxima e vi mais uma vez um coletivo de riscos em caneta azul. Passei todas as páginas restantes para ver a mesma coisa.

Não me conformei em não ter uma resposta para todas as perguntas que eu tinha. Quem era aquele homem? O que causou sua desgraça? Qual é o propósito da história? Como ela termina? Larguei o manuscrito sobre a cama e fiz o mesmo com meu próprio corpo, bufando de decepção.

Devolver essa pilha de papéis rabiscados onde encontrei e esquecer é a primeira entre as melhores opções, apesar de ter me fascinado por aquela monotonia manuscrita.

Rolei da cama para baixo, usando um braço de apoio para evitar o barulho que meu corpo faria contra as ripas de madeira do chão. Tateei lá em baixo e puxei um par de tênis velhos, os calcei e amarrei os cadaços de qualquer jeito, ninguém ao menos repara em mim, muito menos na amarração ignorante dos meus calçados.

Vesti qualquer camiseta amassada de listras ridículas e sai pela porta do meu quarto sem me esquecer do manuscrito. Das escadas dava pra ouvir o som da televisão narrando um jogo de futebol, e assim que desci o último degrau fui obrigado q ter a visão desprezível do meu pai jogado no sofá com uma garrafa de cerveja, uma camisa social manchada de algum molho e a barba crescendo aos tufos.

— Onde vai?

Ignorei e passei reto até a saída, tentando não respirar tanto daquele ar intoxicado por nicotina. A forma como ele tentava ter alguma autoridade com aquela aparência lamentável me dava uma solução composta de ânsia e pena. Isso queimava meu estômago.

Fiz o caminho até o cemitério olhando para baixo e observando meus próprios passos no pavimento sem cor. Era tentadora a ideia de conta-los. Ao lado da minha mãe, na lápide onde encontrei o manuscrito abandonado, encontrei um homem sentado na grama e encostado na placa de mármore. Olhava fixamente para um ponto com a expressão vazia, os cabelos bagunçados apesar das boas roupas.

Se ele era o dono dos papeis que eu carregava nas mãos então eu deveria me aproximar e entregar-lhe o que o pertence, mas minhas pernas travaram no meio do caminho. Uma brisa leve soprou em mim congelando minhas bochechas. Abaixei a cabeça, fazia tanto silêncio ali que eu podia ouvir meu coração batendo de ansiedade.

Puxei a maior quantidade de ar que consegui, e, sem dar tempo para que meus pés dessem meia volta, fui na direção do homem que agora me encarava com suspeita, contando cada passo. Isso tornava tudo mais fácil.

Notas finais
Peço perdão por qualquer erro e espero que tenha gostado. Até o próximo, e por favor não se esqueça de comentar para que eu saiba se estou indo bem, sua opinião é importante para mim.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.