Capítulo 6 — A casa que não esperou

Seraphine ainda olhava para os títulos sobre Oldfaire quando decidiram partir.

Já não havia razão para permanecer na delegacia. Uma mulher mentira sobre o que procurava, o irmão de Annabeth fora observado por alguém de fora do círculo e havia magika forte o suficiente para quebrar os óculos de Audrey.

Meris os receberia, precisavam chegar até ele.

Antes, Audrey foi procurar Dickson. Como não o encontrou, entrou em sua sala para deixar um contato, caso a polícia localizasse Edgard.

Seraphine aguardava com os outros quando ouviu o telefone. Audrey atendeu.

No início, ela prestou pouca atenção. Mais uma ocorrência, mais uma voz pedindo alguma coisa a alguém que não estava ali.

Então ouviu o endereço.

— Rua Nostradamus, quinhentos e oitenta e cinco?

Seraphine virou-se.

O corpo pareceu compreender antes dela.

— O que você disse?

Audrey olhou pela porta.

Ela já caminhava em sua direção.

— Repete.

Ele afastou o aparelho do rosto.

— Estão pedindo reforço nesse endereço.

Seraphine parou.

Seu apartamento.

O cofre.

O livro.

Durante um instante, não conseguiu organizar nenhuma dessas coisas numa frase.

— Precisamos ir.

Marcos se aproximou.

— Seraphine?

Ela olhou para ele com uma expressão que o fez deixar a pergunta para depois.

— Agora!

***

Havia vizinhos aglomerados nas proximidades.

Seraphine reconheceu os rostos antes de ouvir o que diziam. Pessoas que costumava cumprimentar na escada, vozes que atravessavam as paredes, alguém que lhe oferecera uma gentileza dias antes. Agora todos olhavam na direção de sua casa.

Audrey começou a fazer perguntas. Ela não esperou. Marcos foi atrás.

Ao entrar, percebeu primeiro a desordem. Gavetas abertas. Objetos deslocados. Coisas íntimas expostas de uma maneira que lhe pareceu indecente.

Mexeram onde ela dormia, onde guardava suas roupas, onde deixava os livros que pretendia terminar algum dia.

Seu olhar procurou a parede.

O quadro da mulher entrando no lago não estava mais no lugar.

Atrás dele, onde deveria haver um cofre, havia um buraco aberto pela explosão.

Seraphine se aproximou devagar.

O sistema de duas chaves não tivera importância alguma para quem decidira destruir a parede.

Marcos parou ao lado dela. Não disse nada.

Ela examinou o estrago como se pudesse encontrar um erro naquilo que via. Um detalhe que permitisse concluir que o livro permanecia escondido entre os destroços.

Não havia.

Verificou o restante. Nada indicava que outro objeto tivesse sido levado. A invasão inteira parecia ter servido a um único propósito.

Seraphine se agachou junto à fuligem. Retirou um frasco da bolsa e guardou uma pequena amostra dos resíduos da explosão.

Marcos acompanhou o gesto.

— Você acha que pode descobrir alguma coisa?

— Talvez.

Sua voz saía limpa demais. Era assim que sabia estar perto de perder o controle: as palavras ficavam organizadas enquanto todo o resto começava a ceder.

Fechou o frasco e o guardou junto ao material coletado no circo. Não havia mais nada que pudesse fazer ali naquele momento.

Ao se levantar, procurou o quadro entre o que sobrara. A mulher entrando no lago desaparecera da parede como se também tivesse decidido ir embora.

Audrey conseguiu uma descrição. Um carro partira pouco antes da explosão. Três pessoas.

O motorista tinha cabelos castanhos até os ombros. Outra pessoa, cabelos pretos curtos. Da terceira, ninguém conseguira ver o rosto; o casaco de ombreiras largas escondia o suficiente para impedir uma identificação.

Seraphine ouviu sem interromper.

A visitante da delegacia. Os livros sobre Oldfaire. A oferta da Manteluz. A DFI.

Quando compararam as informações, chegaram à mesma suspeita.

Senhorita Kin, trabalhando com a DFI.

— Tudo isso por um livro? — perguntou Marcos.

Seraphine olhou para a abertura na parede. Não parecia uma pergunta exagerada. Alguém revirara sua casa e explodira um cofre para tomar aquelas páginas.

— Então precisamos descobrir o que há nele — disse Audrey.

Ela voltou os olhos para ele.

— Precisávamos.

A palavra encerrou a conversa por alguns instantes.

O livro já não estava com eles. E quem o levara sabia onde ela morava.

***

A casa de Meris ficava na parte antiga da cidade, mais próxima do campo.

Seraphine reconheceu o caminho antes que pudesse desejar não reconhecê-lo. Uma curva, um trecho de muro, a mudança no espaço entre as construções.

Durante o percurso, havia imaginado o alívio de entrar.

Agora, diante da casa térrea, sentiu alguma coisa mais difícil.

Marcos estacionou. Ela saiu antes dos outros. Chamou à porta. Esperou pouco. Chamou novamente.

Como não houve resposta, procurou a chave reserva. O gesto veio da memória, sem pedir autorização.

— Pois não. O que deseja?

Seraphine se virou. A mulher estava atrás dela. A voz do telefone. Reconhecê-la a irritou mais do que deveria.

— Foi com você que falei mais cedo?

— Foi. Helena.

Seraphine manteve a mão perto do lugar onde procurara a chave.

Celina olhou para o grupo que se aproximava.

— Podem entrar. Meris está esperando.

Afastou-se para permitir a passagem.

Seraphine entrou primeiro.

A casa estava diferente. Percebeu pela ausência. Menos móveis. Mais espaço nos corredores. Portas alargadas. Silêncio...

Precisou de alguns passos para entender que não estava apenas cansada demais para reconhecer o lugar.

Lembrava da música.

Das risadas enquanto testavam teorias e discordavam sobre resultados que ainda não sabiam explicar. De Aurelian questionando seus métodos, acusando-a de tentar imitar o professor.

— Você está repetindo o que ele faz — dizia.

E Seraphine respondia com a irritação de quem não suportava ouvir uma acusação que talvez merecesse algum exame.

Lembrava sobretudo de Meris encerrando as discussões.

Nenhum experimento, nenhuma necropsia, até que fizessem as pazes.

Na época, a proibição lhe parecera insuportável. Agora, daria muito para ouvi-la outra vez.

— Aguardem aqui — pediu Helena. — Vou chamar o doutor.

Seraphine não aguardou. Seguiu pelo corredor até a biblioteca. Conhecia o caminho. Ou acreditava conhecer.

Perto da porta, um frio lhe correu pela espinha. Olhou novamente para o espaço desimpedido, para a largura da passagem.

As peças começaram a se encaixar. Não quis aceitar. Abriu a porta.

Meris estava numa cadeira de rodas.

Os cabelos tinham embranquecido. O rosto guardava um cansaço que não pertencia apenas àquela noite.

Ele levantou os olhos.

Seraphine não conseguiu sustentar a visão. Os joelhos cederam.

Caiu no chão antes de compreender que estava chorando.

Ouviu os companheiros se aproximarem. Alguém pronunciou seu nome. Não soube quem.

Meris a observava, e a ternura em seu rosto tornou tudo pior.

Seraphine tentou falar. A pergunta precisou atravessar o choro.

— O que aconteceu?

Ele começou a responder.

Ela percebeu imediatamente que não tinha forças para ouvir.

A voz conhecida chegava inteira; o homem diante dela, não. Precisava conciliar os dois, e cada tentativa lhe retirava mais alguma coisa.

Marcos se abaixou perto dela. Não exigiu que se levantasse depressa. Esse cuidado lhe permitiu fazê-lo.

Quando todos se acomodaram, Meris explicou.

Estava conduzindo um experimento com corpos resgatados de Oldfaire quando algo o afetara.

Depois, deixara de andar. E alguma coisa começara a crescer em suas pernas.

Ele levantou a manta.

Raízes pulsavam onde Seraphine esperava encontrar apenas o corpo que conhecera.

Ela ficou olhando.

Seu fascínio pela magika não o protegeu daquilo.

Queria compreender. Era incapaz de suportar a primeira pergunta.

Audrey se inclinou um pouco.

— Isso drena sua vitalidade?

Meris assentiu.

Seraphine fechou os olhos.

Tivera tempo de procurar sinais nos corpos da ponte. De discutir com Audrey, esconder um livro, acusar pessoas, desejar a Torre.

Enquanto isso, Meris estivera ali.

Afastou-se da cadeira.

Eu fui embora.

A frase começou a se repetir.

Não sabia se sua presença teria evitado o acidente. Não possuía nenhuma prova de que pudesse ter ajudado.

A culpa não precisava de prova para se instalar.

Olhou para Helena.

A garota sabia onde estavam as coisas. Conhecia as necessidades dele. Circulava pela casa com uma familiaridade que Seraphine não possuía mais.

Sentiu raiva. Depois, se odiou por senti-la.

Meris precisava de ajuda. E ela estava ferida por descobrir que outra pessoa a oferecia.

Precisavam explicar por que tinham vindo.

Seraphine começou.

Falou dos corpos, do circo, do velho. Do irmão de Annabeth, dos fios, da morte de Mabbel.

A narrativa lhe dava uma estrutura em que se apoiar. Se mantivesse a atenção nos acontecimentos, talvez conseguisse parar de olhar para a manta sobre as pernas de Meris.

Audrey a interrompeu. Uma correção. Depois outra.

Uma informação que julgava necessário acrescentar antes que ela chegasse ao ponto.

Seraphine apertou as mãos.

— Eu estava indo dizer isso.

— Mas precisa ficar claro que...

— Vai ficar, se me deixar terminar.

Meris acompanhou a troca.

Em determinado momento, começou:

— Ele parece o…

Interrompeu a frase.

Seraphine olhou para ele.

Pela primeira vez desde que entrara, algo semelhante a uma cumplicidade atravessou a dor.

— Parece — disse.

Meris não completou o nome. Não precisou.

Quando chegou ao exame de Mabbel, Seraphine abriu a bolsa.

Retirou os frascos com o material coletado na região dos olhos da garota e os entregou.

Meris recebeu as amostras com atenção.

O gesto trouxe uma familiaridade que quase a desfez outra vez: ele examinando o que ela havia recolhido, ela aguardando sua avaliação.

— Você teve o cuidado de preservar isso — disse.

Seraphine assentiu.

— A retirada foi precisa. Quis guardar o que pudesse nos ajudar a entender.

Meris olhou dos frascos para ela.

— Fez muito bem.

A aprovação a atingiu num lugar antigo.

Não vinha de um companheiro que precisava aceitar sua decisão, nem de uma autoridade interessada no que possuía. Era o reconhecimento de alguém que conhecia seu trabalho.

Seraphine baixou os olhos antes que ele visse quanto lhe importara.

— Ficaria feliz em analisar o corpo — acrescentou Meris.

Ela voltou a encará-lo.

Por um instante, reconheceu o homem de antes sem precisar apagar o que havia mudado.

A cadeira continuava ali. As raízes também.

Mas a atenção com que segurava os frascos era conhecida. A disposição para procurar respostas num corpo também.

— Vou ver como podemos providenciar, vai ser difícil , mas... — respondeu Audrey.

— Sempre existe um jeito, não é mesmo? — Meris sorriu com um brilho diferente no olhar.

— Esqueço como é tudo fácil pra vocês ricos— retrucou Audrey.

Continuaram o relato. Seraphine falou da visitante na delegacia, da conversa com a Manteluz, da invasão do apartamento e do caderno levado.

Quando terminou, estava mais cansada do que antes.

***

Meris pediu a Helena que servisse alguma coisa para comer.

Audrey foi tomar banho.

Seraphine permaneceu em pé, encostada à parede. Não quis escolher uma cadeira. Não quis parecer instalada.

Olhava para Meris, e de vez em quando uma lágrima descia antes que pudesse impedi-la.

Ele lhe devolvia um olhar terno. Não dizia nada.

Ela agradeceu por isso e sofreu com isso ao mesmo tempo.

Quando Meris voltou a falar da expedição a Oldfaire, Annabeth retirou um dos livros que encontraram.

Seraphine acompanhou o gesto. Aquele livro permanecia com eles. Pelo menos aquele.

Meris demonstrou interesse, e a conversa encontrou um caminho menos imediato para a dor.

Examinaram as páginas. Numa delas, descobriram a ligação.

Claire e Kin pertenciam ao mesmo círculo. As duas haviam sobrevivido a uma expedição.

Seraphine releu os nomes.

Kin.

A descrição do carro continuava recente demais.

Claire.

As mudanças na Candela já não pareciam acontecimentos separados.

— As duas voltaram — disse Marcos, olhando para o registro.

Meris observou a página.

Seraphine quis perguntar o que havia sido encontrado. O que podia acompanhar uma pessoa de volta. O que significava sobreviver a Oldfaire.

Olhou para a cadeira.

Algumas perguntas haviam adquirido uma crueldade que antes não possuíam.

Guardou-as.

— Preciso que examine o menino — pediu.

Meris assentiu.

Foram ao laboratório no porão.

***

Seraphine reconheceu o lugar com um desconforto físico. Ali estavam hábitos que seu corpo ainda sabia cumprir, mesmo depois de tanto tempo longe.

Meris chamou Helena para ajudá-lo. A frase a atingiu antes que pudesse aceitá-la.

— Eu perdi a utilidade?

O silêncio foi breve. Suficiente para que desejasse não ter perguntado.

Meris sorriu. Não um sorriso de censura.

Indicou os insumos de que precisava.

— Pode buscar para mim?

Ela se moveu imediatamente. Como se pertencesse novamente àquele lugar.

Encontrar. Separar. Conferir. Levar até ele.

A sequência devolveu suas mãos ao trabalho antes que o desespero pudesse acompanhá-las.

Quando voltou, Meris retirava do bolso um par de lentes especiais.

Seraphine percebeu o que fizera.

A tarefa tinha sido uma maneira de trazê-la de volta à realidade.

Colocou os materiais ao alcance dele e permaneceu por perto.

Meris começou a examinar o menino.

Annabeth aguardava, atenta a qualquer mudança em seu rosto. Marcos se mantinha próximo. Audrey acompanhava o que podia, procurando compreender o que as lentes revelavam.

Durante uma pausa, Seraphine retirou outro frasco da bolsa.

— Trouxe isto também.

Meris olhou para a amostra.

— Do apartamento?

Ela assentiu.

— Recolhi junto ao cofre. Fuligem e resíduos da explosão.

Ele recebeu o frasco.

Seraphine observou seu rosto enquanto examinava o material. Queria uma explicação que devolvesse alguma ordem à imagem da parede destruída.

Meris demorou o necessário, depois ergueu os olhos.

— A explosão foi feita por magika.

Ela ficou imóvel.

Marcos se aproximou um pouco.

— Tem certeza?

Meris confirmou.

Seraphine olhou para o frasco.

A amostra que recolhera por hábito agora ligava sua casa ao mesmo perigo que vinham perseguindo.

Não tinham apenas usado força para alcançar o livro.

Tinham usado magika.

Pensou no carro, nas três figuras, no casaco que escondia um rosto. Na senhorita Kin, nos relatórios de Oldfaire, na oferta da Manteluz.

— Então não foi uma invasão comum — disse.

A própria frase lhe pareceu insuficiente. Nada daquilo continuava comum.

Meris pousou a amostra com cuidado e voltou sua atenção à criança.

Seraphine fez o mesmo.

Precisava permitir que uma urgência terminasse antes de começar a viver inteiramente dentro da seguinte.

Quando Meris concluiu o exame, Annabeth parecia sustentar a respiração por esforço.

Ele retirou as lentes.

— O menino está fora de risco. Pelo menos por enquanto.

Ela demorou um instante para responder.

— Pode voltar para casa?

— Pode.

A resposta desfez alguma coisa em seus ombros.

Seraphine olhou para o pequeno. A promessa ainda estava ali.

Pela primeira vez, não parecia exigir que enfrentasse tudo sozinha.

Marcos passou a mão pelo rosto.

— Então só falta encontrarmos o velho e acabar com essa história.

Audrey começou a organizar o relatório da missão para entregar à Candela. Voltou os olhos para Meris.

— Podemos trazê-lo para um exame semanal, doutor? Só pra termos certeza?

Seraphine não discutiu. A criança estava fora de risco.

Precisava permitir que a notícia existisse sem transformá-la imediatamente em outra tarefa.

Quando encontrou um momento, pediu a Meris dois frascos. Um agente paralisante e seu antídoto. Mas não explicou em voz alta o que pretendia. Não havia necessidade.

Meris consentiu. Sempre consentía. Sabia que depois viriam ótimas histórias. Talvez um novo corpo para experimentos.

Ela os pegou e guardou em silêncio.

O pequeno peso na bolsa lhe trouxe uma sensação de decisão. Erick ainda precisava ser encontrado.

A perda do caderno não encerrava o que tinham começado.

Seraphine talvez não tivesse energia para desejar mais nada, mas ainda sabia preparar-se.

***

Depois da entrega do relatório, cada um poderia voltar para casa.

A frase surgiu com uma simplicidade que ela já não podia compartilhar.

Sua casa tinha um buraco na parede. O cofre fora destruído por magika. Quem entrara ali poderia voltar.

Permaneceu calada. Olhar fixo no chão.

Meris não lhe ofereceu acolhida.

Ela esperou sem admitir que esperava. Um convite. Uma frase que dissesse que poderia ficar.

Nada veio.

Audrey percebeu a dificuldade e fez um comentário que encontrou exatamente o lugar ferido.

Seraphine ergueu os olhos para ele.

A provocação tornou sua sugestão seguinte ainda mais difícil de receber.

— Você pode ficar aqui.

Ela não olhou para Meris.

Não queria que o silêncio dele precisasse se transformar numa resposta diante de todos.

Annabeth tentou pensar numa alternativa.

Começou a falar da família, mas a ideia não chegou a se sustentar. Não havia segurança suficiente naquele nome para oferecê-lo como abrigo.

Marcos se aproximou.

— Fica comigo lá em casa.

Seraphine olhou para ele.

Por um instante, a gentileza ameaçou desfazer o controle que reconstruíra no laboratório.

— Eu dou um jeito.

— Não precisa... Da última vez que você tentou dar um jeito, foi sequestrada.

— Marcos. Por favor.

Ele parou.

Ela precisou baixar a voz para continuar.

— Não insistam. Eu me viro. Sempre me virei. É normal.

Não queria ser acolhida por piedade.

Também já não sabia distinguir piedade de cuidado sem sentir vergonha.

Meris a observava.

— Fico feliz que tenha feito novos amigos.

Seraphine olhou brevemente para o grupo. Depois para Marcos.

— Aqui, só Marcos é meu amigo.

Não disse aquilo para iniciar outra discussão.

Era o que conseguia oferecer como verdade naquele momento.

Meris entendeu.

Ela viu em seu rosto. E isso não a fez sentir melhor.

Esperou os companheiros entrarem no carro.

As vozes se afastaram. Houve o som de uma porta, o movimento de alguém acomodando os objetos que levariam.

Seraphine permaneceu perto de Meris.

Agora que precisava partir, todas as palavras lhe pareceram insuficientes.

Poderia pedir desculpas por ter ido embora. Perguntar por que não a procurara. Perguntar por que não lhe pedira que ficasse.

Nada disso devolveria o tempo.

Ergueu a mão e acariciou os cabelos brancos. O gesto foi lento, cuidadoso.

Meris levantou o rosto.

Seraphine se inclinou e beijou sua testa. Demorou. Não tentou dizer nada.

Sentiu a pele sob os lábios, a proximidade daquele homem que conhecia e não sabia mais como alcançar.

Os dois suspiraram ao mesmo tempo.

Talvez uma lágrima sua tivesse molhado o rosto dele.

Ela não a enxugou.

Afastou-se antes que precisasse escolher entre continuar ali e conseguir sair.

Caminhou até o carro. Não olhou para trás. Seria mais doloroso que a dor que já sentia.

***

Durante o percurso, Seraphine acompanhou as ruas pela janela.

Tinha um lugar destruído para chamar de casa.

Um homem ferido onde guardara a lembrança de um refúgio.

Uma criança que podia voltar para a família.

Essa última informação deveria bastar para lhe trazer alívio.

Trouxe, mas não conseguiu ocupar todo o espaço.

Meris elogiara seu trabalho. Aceitara as amostras de Mabbel. Quisera examinar o corpo. Reconhecera magika nas cinzas de seu cofre e retirara o menino do centro de seus temores.

Por alguns instantes, tinham voltado a trabalhar juntos.

Seraphine se agarrou à lembrança e descobriu que também doía.

Continuava ali porque ainda havia dever. O relatório. Erick. O livro roubado.

Era possível executar tarefas mesmo quando não se tinha vontade de mais nada.

Ela sabia fazer isso.

Ao chegarem à Candela, ouviram a discussão antes de alcançar a sala da Manteluz.

Marcos parou. Seraphine voltou o rosto para ele.

Ele reconhecera as vozes. Uma era de Kin e, a outra, de Claire.

Claire finalmente havia retornado.

Seraphine ficou imóvel por um instante. Pensou no relatório aberto diante de Meris. Nos dois nomes pertencendo ao mesmo círculo. Na expedição à qual ambas haviam sobrevivido.

Depois pensou na confirmação recebida no laboratório. Magika nas cinzas do cofre.

A tristeza não desapareceu. Mas alguma coisa, sob ela, voltou a prestar atenção.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.