O Mal Que Habita Em Nós
1 Capítulo I
Notas iniciais
Às vezes durante a noite, devido a minha perversidade ou talvez a minha natureza comum, eu sonho com o que pode acontecer se meu gêmeo morrer antes de mim. Eu posso estar andando calma e rindo pelas margens do Lago Negro ou deprimida e chorando nas calçadas estreitas de Hogsmeade e mesmo assim eu saberia. Independente de onde eu estivesse, muito além dos cinco sentidos, a dor intensa me alcançaria. Muito mais forte que as telepatias que muitas vezes tínhamos quando éramos crianças, mais forte que a felicidade inexplicável de quando recebemos nossas cartas para Hogwarts, mais ainda do que quando nossos pais morreram.
Eu sei que ele está vivo, pois caso contrário tal notícia devastadora me cegaria, me sufocaria completamente. Eu sei que ele está vivo, pois se não soubesse, não seria capaz de suportar nada. E é por saber que ele está vivo que o fogo em mim segue me aquecendo, porém a luz da minha vida aos poucos desaparece sem a sua presença. E eu preciso dele para me reacender.
— O que você está fazendo, Srta. Skye? — proferiu uma voz penetrante em tom de surpresa.
— Poção. — Respondi automaticamente, sabendo que minhas poções já não são mais tão poderosas como eram antes, quando fazíamos juntos.
— Você tem certeza? Isso não parece... estar certo.
—Segui a risca o que está no livro — Meus dedos percorriam a lista de ingredientes, conferindo.
O professor continuou a andar pela sala em silêncio, avaliando os outros alunos. O aroma doce e fumaça tomava conta do ar daquela úmida masmorra, o som dos líquidos ferventes borbulhando era quase que ensurdecedor. Verifiquei novamente a fórmula da poção, dessa vez mais atenciosamente.
— Parece que falta algo. — Disse um garoto ao meu lado, metendo o nariz adunco no caldeirão, não me lembro seu nome da mesma forma que não lembro o nome de ninguém naquela ou em qualquer outra turma.
— E falta.
— Vamos tentar isso — O garoto jogou um punhado de pó de escama de dragão, a poção efervesceu e sua textura ficou levemente viscosa como deveria ser.
— Acho que funcionou, mas não estava nos livros. — Afirmei levantando uma sobrancelha enquanto mexia o conteúdo do caldeirão.
— Algumas coisas não estão em livros — ele deu um sorriso envergonhado — Sou Severo Snape.
— Eleonora Skye, prazer.
— Eu sei quem você é.
E voltou para o próprio caldeirão, que borbulhou alto e levantou uma grande cortina de fumaça. Antes que eu pudesse responder o sinal tocou e a sala rapidamente se esvaziou.
O tom misterioso de um garoto meio estranho e com cabelos ensebados não me preocupou: todos sabem quem sou. Eu sou a garota que perdeu o irmão. Todos sabem que Edgar Sky sumiu e nunca mais retornou. Todos acham que nos resumimos apenas nesse estranho acontecimento. Todos acham que sabem quem somos. Todos acham que sabem quem ele é, mas não. Só eu sei.
Meu gêmeo é geralmente brilhante, elegantemente astucioso, para os outros agia quase que como um mistério no escuro antes do nascer do sol. Ás vezes ele parece inflexível e se recusa a ceder, se escondia na biblioteca no meio de pilhas e pilhas de livros, e entre as páginas de poções obscuras, deixava de ser birrento e se tornava alguém que humildemente tinha a sede de conhecer e comigo compartilhar tudo aquilo que aprendia.
Mas eu não merecia, pois não tinha todo o potencial que ele via em mim. Certamente, sou muito mais inteligente e talentosa tanto em poções quanto em feitiços do que todos meus colegas, mas também sou dona de uma covardia imensa que habita meu corpo e minha alma, manchando tudo aquilo que eu sou. E isso me torna falha. Enquanto meu irmão se mantém firme e calmo, eu perco minha paciência e uso minha boca mais do que a minha mente. Enquanto ele foi atrás dos nossos sonhos, eu fiquei pra trás e perdi tudo o que eu tinha.
Andando pelos corredores de pedra desse castelo, consigo sentir os olhares fuzilantes me atravessarem. Todos tão curiosos, eu os entendo. Mas seria pedir muito que parassem de me olhar? Ás vezes tenho que respirar fundo para não sacar a minha varinha e atacar alguém, ou até mesmo pegar minha vassoura e deixar Hogwarts. Mas só quando estou muito cansada, como estou agora. Ou muito triste o que estou desde quando vi aqueles olhos — tão iguais aos meus — pela última vez.
— Qual seu problema, afinal?
Aquele nariz novamente se metendo onde não é chamado. Eu respirei fundo algumas vezes, mas dessa vez pareceu não funcionar. Num ato não pensado, segurei a mão de Severo Snape com força, praticamente o arrastei pelos corredores daquelas masmorras, procurando uma sala vaga para que pudéssemos conversar.
Enquanto andávamos me arrependi de ter agido de forma irracional, minha mão suava e meu rosto queimava um pouco de raiva e um pouco de vergonha. O garoto seguia do meu lado em silêncio, os dedos entrelaçados nos meus, minha timidez não me permitia olhar em seus olhos.
Descemos mais três ou quatro lances de escadas, cada vez mais fundo no subterrâneo. O ar gélido e úmido nos envolvia, o cheiro de musgo ficava cada vez mais forte cobria praticamente todas as paredes. De repente, estávamos em um corredor sem saída. Na nossa frente apenas uma enorme porta de carvalho maciço. Empurrei com força e ela se abriu, joguei o garoto dentro da sala e fechei a porta atrás de mim. Fomos engolidos pela escuridão quase que imediatamente.
— Lumus — murmurei enquanto procurava nas minhas vestes uma fotografia antiga.
Lá estava ela, uma polaroid manchada que sempre carreguei comigo, uma foto minha e do meu irmão. Tínhamos três ou quatro anos e sorriamos montados em um carrossel, se não fosse pela inicial bordada em nossa camiseta, não saberia dizer quem era quem. Apontei o feixe de luz da varinha para iluminar a fotografia e mostrei a ele.
— Esse é meu problema. — minha voz era um sussurro nervoso — Na verdade, seria a solução dos meus problemas. Não sei se você sabe, mas meu irmão sumiu há quase seis meses. Ninguém o viu. Ninguém sabe onde ele está.
Severo Snape riu ironicamente. Meu sangue ferveu. Eu poderia mata-lo ali mesmo.
— Eleonora, você sabe onde ele foi.
— Posso saber onde ele foi, mas não sei onde ele está agora. — Eu fiquei em silêncio por alguns segundos — Mas… Como você sabe?
O garoto desvencilhou seus dedos dos meus, abriu a porta de carvalho e saiu sem dizer nenhuma palavra. Fiquei no escuro, perplexa, tentando montar o quebra cabeças onde aquele garoto parecia ser uma peça que não se encaixa em lugar algum.
Algo em mim disse que eu deveria correr atrás daquele garoto estranho, exigir uma resposta. Mas eu só conseguia encarar a escuridão paralisada, de alguma forma, agora eu o sentia, mais perto do que nunca. Depois de seis meses de silêncio, isso parecia uma pista. Eu não posso desistir. Meus joelhos desmoronam completamente: estava de joelhos no chão frio. Um sorriso esperançoso apareceu em meu rosto.
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