O Mais Belo Espinho De Sangue
41 Epilogo
Notas iniciais
‘’Balancei a cabeça negativamente diversas vezes, balancei tão forte e tão convicta de minha resposta que achei que alguma coisa tinha se soltado dentro dela. Aquilo era loucura, eu podia ouvir qualquer coisa sair daqueles lábios que outrora tinha beijado ferozmente, qualquer coisa que saísse dali seria aceitável, mas essa era uma proposta indecente até mesmo para os padrões de Charlie Bloson. Por um breve momento achei que tinha batido minha cabeça com força quando me joguei no chão e que estava ouvindo coisas, pois o que ele dizia não condizia com o homem que eu jurava conhecer, mal eu sabia que ele era uma caixinha de surpresas, simples e compacta, mas sempre ocultando a outra face. Presa em meus pensamentos notei que ainda balançava a cabeça tive que parar por um momento e encarar meus sapatos. Ele ainda estava parado próximo á fria janela Húngara esperando minha resposta e eu sentia o peso do fardo que carregava em minhas costas, minha resposta mudaria a vida de ambos para sempre.
Mordi meu lábio inferior, ele segurou meu queixo, senti suas mãos tocando minha pele, ele ainda causava um impacto sobre mim de forma que sentia minhas entranhas derretendo por dentro, era isso eu tinha que dar um fim á essa loucura.
Fechei meus olhos com força, tão forte que chegaram a doer entre as lagrimas quentes e meladas, quando tornei a abri-los ele ainda estava parado em minha frente esperando pacientemente por algo que eu não podia dar ou oferecer: minha vida.
Abri os olhos, eu os tinha fechado com tamanha força que via pequenos pontos luminosos quando tornei a abri-los. Só quando pude enxergar notei que ele ainda segurava minha mão, passando todo calor de seu corpo para elas. As soltei as coloquei dentro do bolso do meu roupão.
Ele continuava me olhando, parecia uma criança perdido, e poderia jurar que via ansiedade em seus olhos, uma fome por minha resposta.
Tornei a balançar a cabeça negativamente, para bom entendedor meia palavra bastava e um gesto era o suficiente para entregar minha mensagem. Não havia um futuro para ser construído com nós dois vivendo lado a lado.
Ele captou a mensagem, confirmou com um leve aceno de cabeça, me olhos nos olhos pela ultima vez e saiu pela janela de encontro com as ruas brancas e pálidas da Hungria. O que me restou foi continuar a observá-lo até sumir na imensidão da rua e ser engolido por outras pessoas que passavam sumindo do meu campo de visão.
A sala se tornou fria, a eletricidade tinha desaparecido e meus dentes tremiam junto com o meu corpo, o único som que ouvia era do meu maxilar batendo para cima e para baixo, para cima e para baixo.
Eu sabia que tinha presenciado algo lindo e único, como também estava ciente que aquilo não foi uma história de amor, tudo não passou de um conto, sobre o mais belo espinho de sangue. ’’
Com cuidado ela passou a mão pelas ultimas palavras que davam o fim, tamborilou os dedos sobre a escrita, suas longas unhas vermelhas pontudas analisando cada palavra impressa no papel. Ela olhou para suas velhas mãos, brancas e enrugadas, cobertas por manchas da idade, não sabia dizer quando a pele tinha perdido a elasticidade ou quando sua juventude tinha sido roubada.
Erzsébeth Pansy fechou a capa vermelha do livro e deu um longo suspiro, esperou um segundo e ouviu o som familiar de estralados. Tirou os óculos de leitura e observou as pessoas ao seu redor na sala lotada de estranhos, todos estavam em pé aplaudindo-a como se fosse a prima Donna de uma peça de ópera. Observou todos aqueles rostos desconhecidos, algumas pessoas assuavam o nariz, outras tinham um sorriso de satisfação estampado nos lábios. Outras soluçavam e a maioria mantinha as mãos contra os olhos cheios de lágrimas, era bom saber que mesmo depois de tanto tempo sua historia ainda surtia algum efeito para as pessoas.
Olhou para os lados, onde alguns fotógrafos tiravam fotos, ela não queria que tirassem fotos dela, não se sentia tão bonita como antigamente, mas sua editora tinha a convencido que todos precisavam ver como ela estaria no evento. Logo atrás dela perto dos exemplares de seu livro havia uma enorme foto estampada em folder dela quando jovem, sorrindo, cabelos ao vento desgrenhados com o deserto de fundo, poucos sabiam a origem daquela imagem.
Pansy passou as velhas mãos pelo rosto, ele também acompanhava a idade, caído e murcho como uma flor seca que tinha perdido sua vida.
A editora que estava ao seu lado deu um leve cutucão em sua mão por debaixo da mesa em que ambas estavam sentadas após Pansy ter realizado a dramática leitura prévia do ultimo capitulo, ela sabia que isso significava que era a hora das perguntas...
—Pessoal... —A editora disse ao microfone. —Eu sei que vocês têm muitas perguntas, mas peço por gentileza que levantem a mão antes de perguntarem, a Sra. Pansy irá responder todas á medida do possível, mantenham a calma, por favor, e lembrem-se que ela pode se cansar facilmente.
—Obrigada por mostrar a todos que sou uma velha. —Pansy disse se aproximando do microfone onde conseguiu tirar algumas risadas do pessoal quebrando o clima pesado.
A editora deu um sorriso envergonhado.
—No final das perguntas ela irá assinar alguns exemplares de ‘’O Mais Belo Espinho De Sangue’’ então, por favor, mantenham a calma. —A editora tornou a dizer.
Todos concordaram, mas Pansy sabia que ninguém ia manter a calma, ela nunca tinha dado uma entrevista muito menos uma coletiva desde que Charlie tinha fugido, e depois de muito custo de uma jornalista que tinha se aventurado como editora e da insistência de parentes e amigos ela resolveu que era a hora de abrir o jogo, escrever um livro contando sua história fora a melhor saída. Todos estavam eufóricos pelo dia de lançamento, e iam se jogar nela como moscas em uma rosca de padaria, aflitos por respostas e para arrancar tudo o que pudessem dela.
Pansy havia se esquecido de como os jovens podiam ser impacientes e agitados a sala estava barulhenta demais para se gosto.
Um jovem de cabelos duros de gel e óculos de aviado levantou a mão esquerda, Pansy o encarou e todos fizeram silencio.
—Sra. Pansy primeiramente gostaria de dizer que é uma honra conhecê-la e a sua historia realmente me tocou. — ele pigarreou, estava vermelho e nervoso como um porco que vai para o abatedouro. — Porque a senhora levou quarenta anos para lançar esse livro?
Pansy passou as mãos pelo coque que estava preso seu cabelo, tinha usado um tonalizante para deixar todos os cabelos igualmente brancos, o que foi um erro já que tinham ficado roxos.
—Bem, obrigada estou lisonjeada com isso, é bom saber eu ainda causo alguma coisa em rapazes. —Ela deu uma piscada para o garoto que ficou vermelho como um pimentão, todos riram. — Eu não levei quarenta anos para contar a merda dessa historia, só não quis contar ela antes, alguns meses atrás fui convencida a publicar esse livro, e sabe o que dizem? Pagando bem que mal tem? Próximo!
Uma moça com rabo de cavalo levantou a mão, Pansy apontou para ela.
—Pansy, a senhora encontrou o Charlie alguma vez depois desses anos?
Todos ficaram em silencio.
—Se eu o tivesse encontrado acho que não estaria aqui para contar história. Próximo!
Um homem que acompanhava a filha com uma careca lustrosa levantou a mão.
—A onde a senhora acha que o Charlie está? Acha que ele ainda mata pessoas? —O careca tropeçava nas palavras.
—Ele deve estar em uma ilha paradisíaca tomando água de coco e torrando no sol não acho que ele seria estúpido o suficiente para ficar por perto. Bom o FBI não teve mais nenhum relato de vitimas com as características do Charlie, ou ele morreu ou se aposentou. Você! —Pansy disse apontando para uma moça loira que levantava a mão incessantemente.
—Obrigada, Pansy por onde você esteve todos esses anos que não tivemos noticias de você? Você é feliz hoje em dia? No livro você disse que— Ela abriu o livro e folheou algumas páginas. — nunca tinha sido verdadeiramente feliz.
Pansy sentiu um leve arrepio atrás da nuca.
—Eu sou quase uma nômade, meu bem. Fiz algumas viagens ao redor do globo, conheci lugares fantásticos e pessoas maravilhosas e posso dizer que experimentei de tudo que o mundo tinha a oferecer para mim. Nunca fiquei mais de seis meses em um lugar só, não por insegurança, longe de mim, mas porque a vida tem que ser vivida, aproveitada? Uma vez me disseram que temos que aproveitar o dia, e foi isso que eu tenho feito. Encontrei um homem que me faz feliz há muitos anos, descobri o significado da felicidade nas coisas simples, me estabeleci com um homem simples e posso dizer que sim sou feliz. —Pansy sorriu.
—Você não tem medo que o Charlie te encontre? — Uma moça com óculos maiores que o rosto perguntou.
—Se ele quisesse me achar teria feito isso há muito tempo, meu bem. —Pansy deu ombros.
O dia foi marcado por perguntas incessantes sobre o passado, sobre sua vida e sobre Charlie, Pansy as respondeu com toda a sinceridade de seu coração. Depois de tirar inúmeras fotos e assinar tantos livros que seus velhos dedos doíam ela se despediu.
—Adoraria passar o resto do dia falando sobre mim, mas infelizmente tenho que pegar um vôo para o Arizona, parece que o deserto sempre me chama. — Pansy riu. — Vai ser a festa de debutante de minha neta e não quero deixá-la esperando.
Todos fizeram cara de espanto.
—Você não ficou estéril? — Um homem perguntou.
—Fisicamente sim, mas ainda sou capaz de amar, eu e meu marido adotamos uma linda menina alguns anos atrás, acho que trinta se não me engano. Hoje eu tenho um par de lindos netos que fazem minha vida completa. Minha filha Rose foi meu pequeno milagre. — Pansy sorriu melancolicamente. — Mais alguma pergunta?
Uma moça ruiva levantou a mão.
—Sim? — Pansy perguntou.
—E seus amigos do FBI, Kenny, Roger e Cali?
Pansy sorriu de orelha a orelha.
—Nos encontramos no clube da terceira idade de veteranos do FBI, depois que Kenny e Roger se casaram nos vemos quase todos os domingos, afinal sou a madrinha do filho daquela cachorra velha! Depois que nosso amado agente Taunt morreu. —Pansy fez uma pausa dramática. — Cali teve que reconstruir a vida dela, afinal ele foi a ultima vitima de Charlie de certa forma. Hoje ela namora um rapaz uns vinte anos mais novo que ela, sempre que vou para Washington visito meus queridos amigos.
Pansy se despediu de todos calorosamente, era bom reviver antigas memórias que ainda aqueciam seu coração. Segurando um livro em sua mão ela caminhou em passos lentos até o estacionamento, estava muito frio em Nova Iorque, ventava muito e ela se encolheu dentro do casaco.
O velho amado marido veio de encontro com ela em passos devagar, com a coluna arcada e o olhar velho e cansado.
—Como foi? —Ele perguntou com sua voz baixa.
—Deus como está frio, cadê seu casaco? Você vai ficar doente. Foi interessante.
Ele sorriu com sua boca murcha, as sobrancelhas brancas acompanhavam o sorriso cansado.
—Deixei minha blusa no carro, aposto que você se divertiu lá dentro.
—Oh sim, achei que ia ser entediante, mas não foi. Você deve estar morrendo de frio. — Ela disse passando a mão com ternura pelos cabelos ralos e brancos do marido. O tempo modificava todos. —Deixe-me ajudá-lo. — Ela disse tirando seu casaco, por sorte usava outra blusa por baixo.
—Você não precisa fazer isso, eu estou bem. —Ele disse a encarando com os olhos verdes e cansados de um homem simples.
—Não seja teimoso! —Ela passou a blusa pelo braço direito, magro e enrugado do velho.
—Estou orgulhoso de você, Erzsébeth, se saiu muito bem hoje lá dentro. — Ele disse com calma a fitando nos olhos cor de âmbar.— Você se arrepende de alguma coisa? — Ele perguntou com os olhos trêmulos.
— Eu sei que tomei a decisão certa anos atrás, e sei com a certeza de que a noite sempre chega depois do escurecer que nunca vou me arrepender de minha decisão. Você ouviu alguma coisa que eu disse? —Ela perguntou indagada.
—O microfone estava bem alto. — Ele esticou o braço esquerdo para que ela colocasse a blusa nele. —Sabia que eu odeio água de coco?
Every rose has its thorn
Just like every night has its dawn
Just like every cowboy sings his sad, sad song
Every rose has its thorn
Pansy achou graça.
—Mas é claro que eu sei, eu sei tudo sobre você querido. —Pansy tocou a pele flácida e enrugada do marido que um dia tinha sido forte e cheia de músculos. Eles ainda estavam gravados ali, depois de todos os anos e de todos os acontecimentos. Manchados e tão velhos quanto o tempo. Eles continuavam a se enrolar e encarar Pansy por de trás da cicatriz circular. Os espinhos continuavam sua ramificação pelo braço, mesmo velha a tatuagem continuava inconfundível, mesmo assim continuava sendo tão bela quanto um espinho de sangue.
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