O tempo é algo extremamente relativo. Para alguns ele passa rápido, como milhares de flashs de uma câmera faminta por imagens e para outros pode passar deliberadamente devagar como uma pequena gota em uma torneira, delineando o contorno para cair na pia vagarosamente. Quando momentos felizes de êxtase e alegria são vividos passam rapidamente diante de nossos olhos como um leve piscar, fechando a pálpebra e a abrindo novamente o tempo já passou. Já em momentos difíceis e complicados o tempo passa tão vagarosamente quando um grão de areia caindo em uma ampulheta, um por um se deslocando do topo e caindo em uma imensidão de outros grãos dispersos esperando pelo próximo para completar um ciclo que irá se repetir de novo, de novo e de novo sem fim.

Agora o tempo não existia para Erzsébeth Pansy, ela estava lúcida e sóbria como nunca estivera em anos, mas estava começando a desconfiar que tinha tomado algum entorpecente sem se dar conta pois tudo passava com flashs a sua frente e ela apenas observava indiferente e imobilizada.

Ela não estava inteiramente imobilizada e paralisada apenas pelo medo, mas também fisicamente era impossível de se mexer com os pulsos para trás de seu corpo presos em uma espécie de algema improvisada com um daqueles lacres de fechar embalagens, que depois que é puxado como uma pulseira e bem apertado não dá para soltar mais.

Tudo fora como dito anteriormente muito rápido, Pansy havia chegado em sua casa depois de uma tarde interessante com o homem que tentara matá-la alguns anos atrás e encontrou seu chefe, o Agente Super Especial Bruce Taunt na sua sala apontando uma arma para ela sem mais nem menos, antes que ela tivesse tempo de explicar porque estava toda ensangüentada ficou ainda mais difícil de falar com cara colada ao chão e um pé contra a sua cabeça enquanto ele imobilizava suas mãos com a ‘’algema’’ e a jogava no sofá sem nem lhe dar o direito de explicação, o que era ultrajante e uma espécie de invasão de privacidade. Por um breve momento ela pensou em chamar Roger, porque nada daquilo fazia sentindo, o fato de seu chefe estar a prendendo sem nenhum motivo aparente, mas então ela se lembrou que ele tinha voltado para os Estados Unidos á mando do mesmo homem que a estava prendendo ‘’injustamente’’, e foi então que as peças começaram a se encaixar...

Antes que ela tivesse tempo de argumentar á sua defesa um homem alto, barbudo e ensangüentado entrou correndo no seu apartamento o que não ajudou muito sua situação. Charlie sempre tinha que aparecer nos piores momentos e por um instante ela pensou que se o tivesse esfaqueado no apartamento dele muita dor de cabeça poderia ter sido evitada.

Mas era tarde demais para reclamações, Taunt sacou sua arma e apontou contra a cabeça de um Charlie confuso e assustado que continuava fitando Pansy com um olhar questionador, exigindo saber o que diabos estava acontecendo, enquanto ela ficava imóvel observando a atônita sem proferir uma palavra. Taunt obrigou Charlie a se ajoelhar lentamente no chão e antes mesmo que ela pudesse piscar Charlie estava algemado (com uma algema de verdade) prendendo ambas as mãos atrás do corpo, mas com a algema também presa ao aquecedor no chão, que eram algumas grades de ferro que estava desligado deixando o ambiente ainda mais frio.

Taunt olhava para ambos presos, Pansy com os pés e as mãos imobilizadas sentada no sofá e Charlie preso ao aquecedor no chão com uma espécie de orgulho no rosto, como se tivesse prendido o próprio Al Capone.

—É muito errado que eu ache meio divertido vocês dois aí presos? — Taunt disse com uma falsa modéstia.

—Mas que porra é essa? Eu exijo saber o que está acontecendo Taunt, porque eu estou amarrada nessa merda de sofá? — Pansy vomitava as palavras com rapidez, enquanto Charlie a fitava em desaprovação balançando a cabeça negativamente.

—Você se acha muito espertinha não é mesmo Pansy? — Ele disse se sentando no sofá ao lado dela. — Por quanto tempo você realmente achou que poderia manter esse seu... Romance e achou que o FBI simplesmente iria fechar os olhos para o que está acontecendo? — Taunt tinha um cheiro forte de alguma colônia cara que cheirava á álcool puro e ele também tinha um leve aroma de fumo. — Sinto te informar mas seus planos foram por água a baixo.

Pansy revirou os olhos e tentou soar o mais convincente o possível.

—Taunt, eu não sabia que você estava tão desesperado para arrumar um novo caso para o FBI que inventou um, olha... — Ela fez uma pausa olhou para Charlie que a ouvia atento e continuou — Você está cometendo um grande erro, então porque você não para de ser ridículo e me solta. — Ela disse em tom desafiador.

Taunt a olhou de soslaio e ergueu uma sobrancelha. Balançou a cabeça negativamente e a fitou.

—Corte a baboseira Pansy. Nem adianta negar que eu tenho o seu namoradinho preso ali, eu estou na sua cola e um bom tempo e não sou tão idiota quanto você pensa que eu sou. Estou muito decepcionando com você. Estou me perguntando se nesses cinco anos que o FBI á mantém nessa porra de país você está rindo as nossas custas enquanto fica fazendo só Deus sabe o que com esse sujeito. — Taunt olhava com desprezo para as manchas de sangue na camisola que ela vestia por baixo do roupão.

—Não Taunt, não! Você entendeu tudo errado, eu não tenho culpa se esse homem me perseguiu, ele me encontrou eu juro que não tenho nada ver com... — Antes de terminar a frase tudo o que Pansy viu foi à almofada do sofá que ela tinha caído em cima. Taunt bateu com o cabo da arma contra a sua cara com tamanha força que ela nem viu a arma se aproximando de sua cara. Tudo o que sentia era uma dor crescente e latejante na cabeça e sentiu o sangue grosso e quente escorrendo de sua testa.

Charlie começou a se pronunciar depois de uma eternidade calado, Pansy ouvia o som metálico das algemas em que ele tentava sem sucesso se mover.

—Não encoste um dedo nela seu babaca! Você não sabe que é covardia bater em uma mulher presa? — Ele rosnava.

Taunt se levantou e deu uma risada forçada, se aproximou de Charlie e disse:

—Me desculpe, acho que eu não escutei direito. Você o serial killer maníaco por flores que matou e torturou centenas de mulheres até onde temos conhecimento, que eu dediquei quase minha carreira inteira a perseguir e a estudar a fundo as barbaridades que fez, e que por ventura, quase matou essa retardada que está no sofá, está me falando sobre covardia com mulheres? Você só pode estar brincando comigo seu filho da puta. — Taunt deferiu um chute na barriga de Charlie que soltou um gemido audível, outro e mais outro. Até Charlie tossir sem fôlego e fechar os olhos enquanto tentava se contorcer de dor no chão.

Pansy voltou a se sentar no sofá com os olhos começando a marejar, ela sabia que aquilo era errado deveria ao menos convencer á Taunt que não mantinha nenhum vínculo com aquele homem, mas ver Taunt o chutando como se chuta á um cachorro sarnento de rua a estava tirando a razão.

—Pare com isso Taunt! Deixe-o em paz! — Antes que ela se desse contar já tinha falado.

Ela pode ver a sombra de um sorriso brotar nos cantos da boca de Taunt.

—Ora, ora. Não é que os dois pombinhos se defendem, mas isso não é algo amável? Nunca imaginei que você se importasse com alguém que não fosse você própria, Pansy. — Taunt voltou-se para ela.

—Você é patético sabia disso? Não deveria ter uma equipe aqui junto com você prendendo todo mundo? Ah... —Ela parou por um segundo e sorriu — Não me diga que você se aventurou a vir sozinho até aqui para prender nós dois? Um tiro no escuro, sério Taunt? Eu sabia que você é cabeça dura, mas não conhecia esse seu lado retardado. — Pansy se arrependeu no momento em que as palavras jorraram de sua boca, pois Taunt deferiu uma bofetada com a costa da mão na cara dela. O rosto de Pansy queimava.

—Cala a boca vadia. Minha equipe está vindo, essa merda de neve que interditou todas as ruas deve ter atrasado eles, enquanto isso vocês dois vão ficar quietinhos aí onde estão esperando. Você — Taunt disse se virando para Charlie que olhava com o semblante emburrado e o maxilar cerrado. — Vai direto pro corredor da morte e você... — Ele disse se voltando a Pansy. — Vai pegar uns bons anos de cadeia por ser cúmplice desse homem e ficar escondendo ele enquanto toda a porra do seu país está atrás desse homem. Você tem idéia do tamanho do problema que está metida? — Taunt cuspia enquanto falava.

Pansy se encolheu no sofá.

—Eu sempre soube que você era uma vagabunda ordinária com um péssimo gosto por homens, por onde devo começar? Seu namorado cabeludinho e drogado? O detetive Kenny aquela ameba, oh sim eu sei de tudo o que acontece com meus subordinados, e para fechar com chave de ouro, quando mandamos você para fazer alguma coisa que preste com a sua vida que é prender a porra desse animal — Taunt disse novamente apontando para Charlie que poderia frita Taunt com seu olhar de ódio. — Você resolve viver uma aventura romântica com o homem que matou várias mulheres como quem eviscera um porco e ia fazer o mesmo com você. Não sabia que você gostava de masoquismo, Pansy. — Taunt se sentou ao lado de Pansy e passou a mão de leve no rosto dela. Pansy virou o rosto para o homem o que o deixou ainda mais furioso.

Taunt segurou o rosto dela com força e virou para si.

—Olhe para mim enquanto eu falo com você sua puta! Você não gosta de violência não é isso? Não estão os dois imundos de sangue, não é disso que você gosta? De um homem rústico e selvagem? — Ele disse pousando a mão no joelho nu de Pansy — Hã eu não estou ouvindo o que você está dizendo sua cretina. Pare de chorar e bancar a coitadinha porque todo mundo aqui sabe que não é isso que você é sua puta drogada. Eu sei do que você gosta. — Ele disse levantando a mão sobre a coxa dela e subindo.

—Tire as mãos dela seu porco! Ela não tem nada a ver com isso, eu fui atrás dela, eu a ameacei com uma face e nós brigamos por isso ela tá suja de sangue. Não se atreva! — Charlie rosnava impaciente e impotente á onde estava. — Tire suas mãos imundas dela. SOLTE A MINHA MULHER! — Charlie elevou a voz e Taunt fechou os olhos. Deu um beliscão na coxa de Pansy que estava tentando guardar o choro e se desvencilhar de Taunt.

—Deus! Como vocês são ridículos. É a minha palavra, chefe do FBI á anos e homem de respeito, contra uma puta drogada e um assassino de mulheres. Se eu fizer alguma coisa vai ser a minha palavra contra a de vocês, vocês estão cientes disso não é mesmo? — Taunt se levantou e tirou um charuto do bolso. Tirou a ponta com os dentes, riscou um fósforo e o ascendeu. Voltou-se á Charlie novamente e o chutou nas partes intimas. — Então cale a sua boca, porque vocês são escória da sociedade e logo mais o FBI todo estará aqui e podemos ter uma breve idéia de quem será que vai levar vantagem não é mesmo? — Taunt se agachou e soltou à fumaça na cara de Charlie que olhava com nada mais do que ódio por Taunt. Taunt deu um tapinha no rosto de Charlie e por um momento Pansy julgou ter ouvido Charlie rosnar para o homem. — Bom garoto. Agora os dois se comportem que eu vou dar um telefonema para ver a onde diabos está a minha equipe. Não saiam daí. — Taunt foi para a cozinha.

Pansy olhou para Charlie que a estava encarando intensamente.

—Você não está achando que eu tenho alguma coisa a ver com isso, está? — Ela perguntou baixinho.

—Eu venho para a sua casa, praticamente atraído por você, a pessoa que segundo você mesma me odeia mais que tudo e me despreza e encontro seu suposto chefe aqui. Porque eu estou usando algemas e você está só presa? Porque você está tão calma? Quem me garante que isso não é um plano seu pra me prender, porque se for, bem você conseguiu. — Charlie mexia as pernas como se isso fosse fazer com que ele conseguisse puxar as grades do aquecedor e sair andando dali.

—Meu Deus Charlie! — Pansy bufou. — Eu não tinha idéia que esse nojento estava aqui, isso tudo é tão novo para mim quanto para você. Você tá vendo o meu amigo que mora comigo por aqui? Não né, isso porque esse retardado do Taunt fez ele ir pros EUA pra me deixar sozinha aqui, e você foi estúpido o suficiente para vir par ao meu apartamento caindo na armadilha dele, então não ouse dizer que isso foi planejado por mim. — Pansy tentava não gritar e manter a calma antes que desabasse no chão.

—Você vivia dizendo que ia chamar o FBI para mim. — Charlie disse a engolindo com os olhos.

—Meu Deus! Se eu tivesse que chamar a porra do FBI teria feito isso há algumas semanas atrás quando você me ligou não acha? Se você tivesse que estar preso por minhas mãos estaria fritando numa cadeira elétrica e não algemado no chão da minha casa! Eu não quis denunciar você, eu não quis perder você! — Pansy gritava enquanto soluçava e chorava. Charlie arregalou os olhos e sua coloração era pálida, ela não sabia dizer se era pelo tiro que tinha tomado dela ou pela surpresa de sua revelação. — Eu não deveria e eu me odeio por isso, mas eu não consigo esquecer você, não consigo parar de te amar. — Ela disse entre as lágrimas e soluços.

Taunt voltou da cozinha e aplaudia vagarosamente com uma cara de deboche.

‘’Não consigo parar de te amar’’ estou emocionado com a sua devoção Pansy, merecedora de um Oscar! Nunca imaginei que você fosse tão emotiva. Uma pena que eu vou ter que separar os pombinhos. — Ele disse com um sorriso de escário.

—Cala a boca seu idiota. Cadê a sua equipe que eu não estou vendo ninguém chegar aqui. Seu plano é matar a gente de tédio é isso? —Pansy disse enquanto sentia as bochechas queimarem de constrangimento.

Taunt fechou o sorriso e olhava para Pansy com rancor.

—Isso não é da sua conta sua vadia estúpida! — Ele rebateu. — Pansy como eu tenho um pequeno apreço pelos anos de serviço que você manteve ao FBI, vou te dar uma escolha, de sair como uma heroína dessa historia, um desfecho favorável para você. — Taunt puxou Pansy do sofá a colocando em pé, puxou um canivete do bolso e cortou as amarras dos pulsos de Pansy, ela o olhava perplexa e Charlie apenas observava catatônico. — Vamos, você só tem uma chance de não fuder com tudo, e eu posso te ajudar a sair dessa e dizer que você me ajudou e te dar um pouco de credibilidade, eu sei, eu sou um ótimo cara. — Ele tirou uma arma do bolso e colocou nas mãos de Pansy. — Vamos, agora é a sua chance, atire nele e prove que pelo menos uma vez na sua vida você não é uma vadia estúpida, vamos banque a heroína.

Pansy ainda estava com os pés presos, suas mãos tremiam ao segurar a arma e ela não sabia se isso era algum tipo de brincadeira estúpida de Taunt ela estava aterrorizada demais para se mover, apenas chorava, lágrimas salgadas e involuntárias escorriam junto com muco nasal pelo seu rosto enquanto ela tremia e soluçava. Charlie a olhava , e ela podia até julgar que por um instante um semblante de medo passou pelos olhos dele.

—Vamos Pansy! Você já matou antes, sabe como é. Lembra-se daquele caso que investigamos por meses daquele doente que matava e estuprava velhinhas, que invadimos a casa da vizinha dele e ele fazia a pobre senhora de refém, se lembra? Eu você meteu uma bala na cabeça dele ao invés de negociar ignorando totalmente as minhas ordens? — Ele segurou os ombros dela e se aproximou do ouvido dela. —Vamos é muito mais fácil quando já se matou uma vez. Mate esse bastardo, é um favor á humanidade que você vai estar fazendo! —Pansy tentava ficar parada mas seu corpo estava tomado pela adrenalina enquanto ela tremia e chorava como uma criança. — Um rápido clique, puxe o gatilho e estouro os miolos dele. Você quer fazer isso, se lembre de tudo o que ele fez com você, de como ele te manteve presa todos aqueles dias naquele abrigo anti bombas, como ele enfiou arame farpado dentro de você! Vamos Pansy, faça sua vida valer apena! Atire! Atire! Anda sua puta atire! É uma ordem! — Ele gritava nos ouvidos dela, fazendo-a a tremer ainda mais.

Charlie concordou fechou os olhos, tornou a abri-los e olhou para Pansy.

—Faça o que ele diz, Erzsébeth. — Charlie fechou os olhos esperando e aceitando seu destino.

—ATIRE AGORA! —Bruce gritou.

Pansy balançou a cabeça e começou a gritar.

—Não! Não! Eu não consigo! — Rapidamente ela se virou apontou o revolver em direção da cabeça de Taunt e puxou o gatilho. Fechou os olhos com força enquanto chorava.

Nada.

Nada aconteceu nenhum barulho, nenhum estrondo, nada de sangue espirrando na sua cara. Apenas a risada rouca de fumante de Taunt.

—Péssima escolha, Pansy. Péssima escolha. — Ele disse a chutando nas costas e a derrubando no chão frio.