O Mais Belo Espinho De Sangue
33 Capítulo 33- Patinando na Desconfiança
Notas iniciais
A desconfiança faz parte do ser humano, ela sempre o acompanha, aquele que não desconfia não acredita e aquele que acredita sempre desconfia. É da natureza humana desconfiar de tudo e todos e nunca acreditar em ninguém, faz parte da humanidade está sempre preparado para o pior, confiança não se ganha com facilidade, mas se perde com agilidade. Uma suspeita, uma dúvida, sempre há uma questão sendo levantada, sendo imposta, pedindo, implorando para ser investigada, confie apenas em seus instintos, não confie nos outros e nunca ignore a desconfiança, na maioria das vezes ela nos leva para fora de uma redoma de mentiras bonitas, adentrando o mundo sombrio da verdade feia.
Era difícil se mexer na cama, uma perna estava por cima da sua dificultando com que se mexesse, um braço passava por cima do seu torso, porque as pessoas gostam de invadir o espaço das outras? Porque elas não respeitam o seu espaço na cama, porque algumas pessoas gostam de dormir abraçando outro individuo, demonstrações de amor e afeto devem ser feitas durante o dia, e não á noite, durante o sono, impossibilitando uma noite confortável.
Era assim que o Agente Especial Superior Bruce Taunt se sentia quando dormia com a Dra. Cali Ordin. Faziam mais de dez anos que ele mantinha um caso extra conjugal com a falsa ruiva, e ele ainda detestava dividir uma cama com ela. Ele gostava dela, ela era boa no sexo, praticava yoga era extremamente flexível o que era um ponto positivo para ela, era uma presença agradável de se conviver, não era tão careta quanto sua mulher, na realidade ela era uma tola iludida, que achava que um dia se tornaria a Sra. Taunt, mal ela sabia que quem nasceu para ser Marilyn Monroe jamais seria Jackie O.
Taunt tinha um apartamento que ele usava a alguns anos quando queria fugir de casa, as vezes a rotina de marido amoroso e pai dedicado o enjoava, era sempre a mesma coisa, ouvir a mulher reclamando de suas amigas invejosas e fúteis, a crianças fazendo uma zona na casa, correndo, brincando, pulando implorando como filhotes abandonados por sua atenção, pelo amor de Deus, porque ninguém conseguia entender que Bruce Taunt era um homem ocupado? Que depois de um longo dia no FBI lidando com idiotas de todos os níveis, o que ele queria era chegar em casa e ficar relaxado no sofá tomando cerveja e vendo TV sem ninguém perturbando seu sossego? Porque a família se torna um pé no saco às vezes?
As respostas para essas perguntas ele encontrava nos braços da médica legista, ela não era a melhor companhia do mundo, mas dava para o gasto. Ele já a conhecia há tantos anos que era quase como uma segunda esposa, a diferença é que ela não cozinhava para ele, sempre pedia alguma comida quando estavam juntos, tinha um corpo melhor que o da sua esposa, provavelmente porque ela não passou por três gestações, e o que ela tinha em comum com sua esposa era que ela gostava de torrar sua paciência.
Ficava falando sobre o seu dia, sobre os cadáveres que ela tinha aberto, assuntos que era apenas importantes na cabecinha dela, Taunt apenas fingia ouvir, ele não tinha tempo muito menos paciência para se importar com o que dizia. Sua boca era apenas importante quando estava realizando alguma tarefa nele, ela era boa para saciar seu prazer, era um objeto de desejo, ele gostava de exibir por ai que tinha uma amante gostosona, inflava seu ego. Claro que ela era apenas a amante fixa principal, haviam outros casos e aventuras, isso era obvio, mas nada que exigisse muito esforço do homem, ele era ocupado demais para se prender as pessoas.
O que ele queria que Cali falasse, ela não falava, ele queria saber sobre a puta desgraçada que atendia por Erzébeth Pansy. Tudo o que ele precisava era de alguma falha, um pequeno deslize para acabar ainda mais com a carreira dela, enquanto ela não estivesse derrotada, Taunt não se daria por vencido.
Isso era orgulho ferido, ele estava completamente ciente disso, há alguns anos atrás a ordinária fez burrada de rejeitá-lo, humilhá-lo e ainda foi chapada a um encontro que ele tinha planejado meticulosamente para dois, tinha tudo para ser uma noite inesquecível, algumas horas felizes em um motel qualquer e Taunt se daria por vencido, todas as mulheres concordavam, nenhuma o rejeitara, mas ela era diferente, ela fez questão de espezinhar o seu próprio chefe, quem aquela vadia pensava que era?
Taunt fez o seu melhor para colocar a cadela em seu devido lugar, mandou ela para uma missão suicida atrás de um serial killer lunático e que aparentemente tinha pavor do aparelho reprodutor feminino enfiando uma rosa naquele lugar, esse era o tipo de gente doente que Taunt era obrigado a lidar todos os dias...
Mas a infeliz conseguiu seduzir o cara, estava praticamente brincando de casinha com o maluco, sempre que Taunt investigava, perguntava aos agentes á paisana de plantão que ficavam próximos a residência de Pansy confirmavam que eles viviam em uma lua de mel sem fim, aparentemente ela não estava dando a mínima que o cara era um assassino misógino de mulheres, ela nem se lembrava mais que trabalhava para a porra do FBI, achava que tinha um maridinho e ia ter uma penca de filhos e viver feliz para sempre na merda do deserto.
Não, ela estava enganada, Taunt a tinha mandado naquele trabalho para sofrer um pouco, não para se divertir, sendo assim não foi difícil pedir para um amigo do FBI que também trabalhava no caso do assassino das rosas como um agente a paisana, para que plantasse na escrivaninha da residência de Pansy toda a ficha do FBI do caso em que ela trabalhava, sua identidade verdadeira, sua investigação, em outras palavras uma confissão impressa de que ela estava próxima desse tal de Charlie apenas por serviço, nada mais, ela era uma prostituta do FBI. Sabendo que o cara era esquentadinho e lunático era questão de tempo até que ele achasse a última peça do quebra cabeça e acabasse com o conto de fadas da mulher.
Dito e feito, não demorou muito até que Taunt comprovou por si mesmo por meio das escutas que mantinha na casa da mulher que ele descobrira a verdade e que ela estava em maus lençóis. Taunt não queria o mal dela, não queria ela morta, apenas queria que ela fosse colocada em seu devido lugar, um pouco de dor e humilhação não matava ninguém, não é mesmo?
Quando o tempo começou a passar e ele notou que logo a mulher iria virar presunto, ele teve que cumprir com suas obrigações e mandar uma equipe de busca, e até usar o inútil do ex namorado drogado de Pansy como isca na tarefa de resgatar a moçinha em perigo. Feito isso, Taunt mataria dois coelhos de uma só vez. Prenderia o assassino das flores, Pansy voltaria para Washington (praticamente ilesa) e ele sairia vitorioso como o arquiteto de uma operação cinematográfica, impecável e digna de um verdadeiro líder.
Mas seus planos não saíram muito como o esperado, o filho da puta do florista passou fogo na floricultura, fugiu e deixou a Pansy praticamente semi-viva. Taunt podia não ter pego ele, mas pelo menos ‘’salvou’’ Pansy. Era questão de tempo até que ele mandasse Charlie Bloson para o corredor da morte.
Fontes seguras afirmavam que algumas mulheres estavam sumindo na Europa, precisamente na Hungria (mesmo lugar que ele despachou Pansy) e alguns corpos foram encontrados, com vestígios de rosas decompostas entre eles, coincidência? Taunt não acreditava nisso.
Charlie estava na Hungria, ele tinha quase certeza disso, ele era um psicopata burro não ia ficar sem matar e cedo ou tarde seria pego, obviamente por Taunt, o que ele não contava era que Pansy o ajudaria nisso, mesmo sem ela saber disso.
O sol despontava no vitral do quarto, o ‘janela’ tomava a parede toda, dando uma panorâmica de toda Washington. Estava na hora de acordar, estava na hora de trabalhar. Taunt empurrou a espaçosa Cali para o lado e foi até seu computador. O email havia chegado.
Ele havia grampeado o telefone de Pansy e Roger, e se Charlie realmente estivesse na Hungria, não demoraria muito para ele acabar encontrando Pansy, ele não era bobo e nem perdia tempo, Taunt tinha que admitir isso. E se ele realmente entrou em contado com Pansy, havia uma grande probabilidade da vadia estúpida dar corda para ele, e esse seria seu triunfo, prender Charlie finalmente e ferrar com Pansy por encobertar um assassino procurado e por obstrução de justiça. Taunt contava com a sorte.
Mais do que depressa o homem foi ouvir as gravações.
Conversas paralelas de Roger com Pansy, Pansy falando com sua irmã, com sua mãe, com Cali, coisas que Taunt não tinha o menor interesse em saber. Até que algo chamou sua atenção.
‘’ (...) — Ninguém nunca... Chega tão fundo dentro de você como eu chego... Querida.
—Cha-Charlie? É você?
—Às três horas em ponto, você vai estar vestida da maneira que eu mandei e vai me esperar nessa antiga igreja.... — Mais um suspiro, era como se ele bufasse do outro lado da linha — Tente não rolar na neve até chegar lá. Desta vez eu não usarei nenhuma máscara. (...) ‘’
Um sorriso estampou o rosto de Taunt.
—Te peguei, vadia! — ele disse para si mesmo. Aquilo era mais do que prova suficiente, eles mantinha contato, combinavam até encontros, ela tinha perdido totalmente a noção do perigo. Azar dela, sorte dele.
—Com quem você está falando? — Cali perguntou sonolenta. Ela estava coberta apenas por um lençol.
—Ninguém que te interessa, baby. Eu vou ter que viajar.
Ela parecia confusa.
—Como assim viajar? Para onde? Quando?
—Viajando, agora, não é da sua conta. — Ele disse procurando suas roupas. Ele mal podia acreditar que a sorte estava ao seu lado. Ele tinha razão em desconfiar de Pansy, sua desconfiança nunca falhara antes, ele ia detonar a vadia.
—Mas, mas Bruce, você disse que hoje ia falar com a sua mulher.
—Falar sobre o que? — Taunt revirou os olhos, ele não tinha mais saco para isso. Estava prestes de dar a tacada de sua vida e não tinha paciência para ouvir a mesma música riscada de Cali.
—Não se faça de desentendido, você está me enrolando faz tempo. Conversamos sobre isso ontem amor, você disse que ia sair de casa hoje sem falta e contar para ela sobre nós.
—Não existe nós, existe eu e minha esposa, e você e eu aqui, e não vai sair daqui nós dois, você é mais esperta que isso, eu nunca disse que ia largar da minha mulher, você que fica se iludindo porque quer.
Cali fechou a cara.
—Bruce, eu não estou te entendendo...
—Não? Deixa eu te explicar então, você é legal, mas serve pra cama, você acha que eu ia apresentar pros meus filhos uma mulher que vive de fuçar em defuntos e dizer que eu troquei a mãe deles por isso? Faça-me o favor, pare de se iludir, se você quer continuar a ter o privilegio de sair comigo, pare de ficar fazendo graça e aceite EU NÃO VOU ME CASAR COM VOCÊ. Fui claro?
Ela avançou em cima dele. Empurrando-o, chutando-o, e até tentando morder. A mulher estava transtornada.
—Filho da puta! Cretino, bastardo lazarento! Eu não acredito que perdi a minha vida acreditando em você, seu narcisista arrogante! Eu te odeio Taunt, odeio! — Taunt se enfezou e empurrou a mulher descontrolada na cama.
—Se recomponha mulher! Tenha um pouco de classe. — Taunt disse se aproximando da porta.
—Seu filho da puta miserável, eu realmente espero que você morra da pior maneira possível, sozinho e agonizando! — Ela chorava e se rolava na cama.
—Sendo assim, eu te vejo no inferno, baby. —Taunt disse dando de ombros e saindo do apartamento.
Algumas horas depois ele estava descendo de um avião na Hungria. Ele fazia questão de pegar os dois miseráveis ele mesmo. Ele mal podia esperar para rir na cara de Pansy, se ela tivesse sido uma boa menina e feito as coisas do jeito dele, tudo poderia ter sido evitado.
Aquele país era um nojo, nevava para cacete, era cheio de pessoas feias e estranhas, uma cultura diferente e desnecessária, mas Taunt teria que engoli-los para sair vitorioso daquele lugar.
No caminho ele havia gravado todas as ligações de Charlie para Pansy, todos os relatos de morte naquele lugar, seria como tirar um doce da boca de uma criança.
Um carro o aguardava, ele iria direcioná-lo diretamente para a casa do Roger e Pansy, Taunt não era do tipo de pessoa que enrolava, ele ia direto ao ponto.
Um motorista conduzia o veiculo, enquanto Taunt ia organizando seus arquivos e provas, ele também falava ao celular com um agente que estava na área.
—Sim, positivo não há erro, eu quero isso resolvido ainda hoje, apesar de estar de noite, Pansy e Roger receberão uma visitinha surpresa, e eu não irei me surpreender se até Roger for benevolente nessa sujeira, meu Deus, estamos em um meio tão sujo, às vezes é difícil fazer um trabalho decente no meio de tantas pessoas ordinárias. —Bruce Taunt se permitiu rir da ironia do destino.
Ele mal podia ver a rua, estava tudo coberto pela neve.
—Ande, apresse isso ai! Não estou aqui para turismo, tempo é dinheiro meu filho, e isso é muito precioso. — Taunt apressou o motorista molenga.
—Sim senhor. — O homem concordou.
Taunt definitivamente não tinha paciência para gente lerda.
—Como eu ia dizendo. — Ele se voltou para o celular. — Vai ser um grande choque, pois depois de tantos anos eu finalmente vou prender o Assassino das Flores e sua cúmplice, eu sei, eu mereço o mérito e... — Taunt foi interrompido com uma manobra brusca do carro. Uma crosta de gelo havia se formado na pista, o carro literalmente patinou no gelo, o celular se soltou das mãos de Taunt e bateu em sua cara fazendo o ver estrelas, o motorista fez uma manobra acelerada para colocar o carro novamente nos eixos, quase capotando. Taunt ainda atordoado colocou uma das mãos na testa onde um filete de sangue escorria.
—Preste atenção seu idiota! Oh Erzébeth, você não vai escapar de mim tão cedo... — Taunt olhou para a rua coberta de neve e deu um sorriso amarelo.
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