Um ‘click’ familiar foi ouvido, um som puro e simples, era o fim, não havia dúvida transpassando os olhos dela, aquilo iria acontecer e seria agora. Ele lentamente fechou os olhos e engoliu a seco, pelo menos valeu à tentativa.

Muitos quilômetros e milhas foram rodadas até aquele momento, mas tudo passava como um flash na cabeça de Charlie Blosson. Fora tudo tão rápido, tão passageiro, tão surreal e tão exagerado, que ele tinha dificuldade de acreditar estar realmente vivendo aquele momento. ‘’Eu não sou digno de estar vivendo isso, Meu Deus, se for um sonho eu não quero acordar nunca disso’’ ele coçava os olhos e tentava soar convincente para si mesmo, aquilo não podia ser real, Erzébeth Pansy não podia estar viva, ou podia?

Charlie havia acabado de depositar o corpo da loira de cabelos cacheados em uma cova não muito rasa, no meio do nada em Budapeste quando algo brilhante no chão chamou sua atenção, algum papel havia caído da bolsa da mulher, mais do que depressa ele correu para pegar o papel, seria arriscado e estúpido deixar alguma prova para trás, se ele queria continuar praticando sua arte, sua brincadeira não tão inofensiva noturna ele teria que prestar atenção aos pequenos detalhes, se alguém encontrasse um papel de bala que fosse no chão levaria a cova, ao corpo a rosa cravada parte íntima e automaticamente levaria a ele. Soava estúpido só de pensar, fritar em alguma cadeira elétrica por um papel de bala.

Ele pegou o papel que cintilava no chão, está escrito em Húngaro, mas ele já sabia o suficiente para entender.

Grande Baile de Máscaras Anual. Uma noite de festas e encantos, entregue-se a nós! Venha vivenciar a experiência única de bailar em um dos mais antigos e tradicionais castelos Húngaros.

Local: Salgótarján

Obrigatório o traje adequado e uso de máscaras.

Uma distração, uma pequena viagem, de Budapeste a outra cidade Húngara era tudo o que Charlie precisava, aliais até os bons precisam de um pouco de distração. Não havia nada de errado em se socializar, conhecer novas pessoas, novas mulheres, novas presas...

Cruzando o salão de danças uma fêmea chamou sua atenção, ela trajava o vestido mais bonito da noite, com melhores adornos, o vermelho ensangüentado e bordado com rosas, aquilo era um sinal, ela seria sua presa da noite. Não foi difícil conduzi-la durante a dança e tampouco fora difícil arrastá-la para fora daquele castelo lotado de pessoas ridículas e mascaradas, seria fácil, uma pequena pancada na cabeça, empurrá-la no porta malas de seu carro e vouilá ele poderia fazer o que bem entendesse com a pobre tola.

Seu aroma era tão bom, Charlie recordava desse momento passado, fechava os olhos e tudo era muito claro, como se ainda tivesse o momento preservado em sua memória, a mulher era avançada, ela investia contra ele, excitando-o provocando-o, havia algo inexplicável acontecendo com ele àquela noite, ele respondia a provocação, ele sentia uma eletricidade no toque da estranha, aquilo não seria possível, ele só se sentira dessa maneira com Erzébeth.

A surpresa veio quando ele foi calçar o sapato da mulher, na realidade ele notou quando o sapato caiu, era a desculpa perfeita, ele era de salto, era só pegar apunhalar a mulher com aquilo na cabeça, rápido e prático. Ele não contava que ela tinha apenas dois dedos no pé, e ainda sendo o esquerdo, o cheiro, o gosto dela, a eletricidade, aquilo não podia ser mera coincidência, aquilo era o destino e o ex- botânico aprendera a confiar no destino desde um verão passado em Nevada em que cruzara com uma linda ruiva em uma loja de conveniência há muitos anos atrás.

Sem pestanejar ele tirou a máscara da mulher, revelando o rosto mais puro, limpo e sincero que ele já tinha visto em toda sua vida, era ela, sua amada, sua prometida, seu objeto de desejo e fixação, ela era aquela que escapou, ela era Erzébeth Pansy, ou como ele a chamava, Scarlett Bliss.

Apesar da chuva, da mascara, dos anos e dos cabelos escurecidos e negros, ele não tinha dúvidas, seus instintos mais primitivos e apurados não o enganariam, ela era sua mulher, não sabia como isso era possível, ou ela tinha uma irmã gêmea ou não tinha morrido coisa nenhuma. Charlie estava hospedado em um hotel nessa cidade, pois não era conveniente ficar indo e vindo de Budapeste para Salgótarján e ele não queria despontar suspeitas, ficando muito tempo em um só lugar, esse era seu manual básico de sobrevivência. Ele levou consigo a máscara vermelha adornada com penas, a segurava próxima do peito, tocando as delicadas plumas, exalou o cheiro oh sim, só podia ser ela, o cheiro de canela misturado com cereja, o ardor que impregnava suas narinas, não havia sombra de dúvida, ele tinha encontrado Erzébeth Pansy, e não apenas encontrado, mas trepado com ela.

Charlie não era do tipo de homem que acreditava no destino, pois o destino havia fodido boa parte de sua vida, mas os acontecimentos ao longo dos anos fizeram com que ele deixasse de ser um cético, coincidências não existiam, aquilo estava premeditado, aquilo tinha que acontecer, ele tinha que reencontrar aquela mulher, e o destino dela era ser dele, ela querendo ou não.

Ele nem havia procurado a mulher, ela simplesmente se jogou em seus braços literalmente, ele estava começando a se conformar com o fato de que a pessoa que ele talvez tivesse sentido algo próximo de amor (se é que ele podia sentir isso) havia ido embora para sempre, e de repente, em uma reviravolta que a vida adora dar, ela estava novamente em seus braços, ela fora dele por alguns minutos, e Charlie era como um cão que se agarra a um osso, ele não iria desistir tão fácil.

Blosson era um perseguidor. E isso era um fato.

Para chegar a onde ele havia chegado, perseguindo suas vitimas, ele teve que se aperfeiçoar na arte da perseguição, saber colher informações, espreitar, esperar o momento certo, ter paciência, ser atento e vigilante essas era apenas algumas das inúmeras qualidades de um perseguidor, se não fosse tão arriscado ele poderia escrever um livro para iniciantes de como perseguir uma mulher e descobrir tudo sobre ela, em outras circunstancias ele daria um ótimo agente do FBI, mas no momento ele era apenas perseguido por ele.

Ela poderia estar naquela cidade, a chance era de uma em um milhão, já que aquela maldita festa trazia pessoas como formigas ao redor de um bolo, elas brotavam de todos os lugares, era um tiro no escuro, mas Charlie tinha que ter um ponto de partida.

Procurou em todas as listas telefônicas, endereços e outros meios que ele conhecia, mas o nome Scarlett Bliss ou Erzébeth Pansy não constavam em lugar algum, o que era obvio já que ela provavelmente tinha fingido sua morte enquanto fugia de um maluco, se Charlie possuísse muitos sentimentos se sentiria ultrajado, algumas pessoas trocam de telefone quando tem um rompimento ruim, Erzébeth aparentemente trocou de continente.

Mágoas a parte, Charlie vasculhou o banco de dados que era sua memória, e se recordou de quando fugiu de sua floricultura em chamas, um afro americano enorme tinha invadido o lugar com a porra do FBI, e pelo o que ele viu nos noticiários ele era um agente do FBI chamado Roger Winnes, Charlie tinha outra informação importante, e procurou pelo homem na cidade.

Bingo! O sujeito morava em Salgótarján em um apartamento no meio da cidade, não era coincidência essa pessoa não estava na Hungria a turismo, estava escondendo a rosa mais preciosa de Charlie, Erzébeth.

Não foi muito difícil invadir o apartamento, deixar a máscara e uma rosa lá, dentro de uma caixa confeccionada por Charlie, já que ele trabalhava em uma marcenaria, tocar o terror fazia parte de sua aproximação, Charlie não era o homem mais romântico do mundo, então aquela era a única maneira que ele encontrou de chamar a atenção da mulher. Antes disso ele havia ligado no telefone, e ouviu a voz dela, o som era melodia para seus ouvidos, a confirmação perfeita daquilo que ele procurava, ‘’Oh Erzébeth, você nem imagina os deliciosos planos que tenho para nós dois.’’

A mulher não estava em seu juízo perfeito, talvez Charlie tivesse uma pequena porcentagem de culpa nisso, ela ficava gritando com as pessoas na rua e rolando na neve, ela precisava ser colocada nos trilhos, precisava de um homem para guiá-la, e Charlie era a pessoa em questão.

Pensamentos a parte, este era o dia, já era 14h30min e Charlie caminhava calmamente na rua em direção a igreja, ela ficava na parte mais abastada da cidade e quase ninguém freqüentava ela, era praticamente um mausoléu, o ponto de encontro perfeito.

A neve caia incessantemente, os cabelos de Charlie estavam molhados com os flocos que pairavam em sua cabeça e derretia com o calor de seu corpo, o homem cultivara uma barba, Charlie passou os dedos pelos grossos pelos faciais, coçando a pele, ela estava começando a se congelar com o frio. Ele colocou as mãos nos bolsos de seu paletó na tentativa de se aquecer, aquele país era realmente frio, às vezes ele sentia saudades do calor infernal de Nevada, do deserto, de sentir a brisa quente no rosto, e não um vento gelado que queimava sua pele. Sua respiração se condensava á sua frente, e logo ele avistou a velha igreja, ela era sombria e gelada assim como a alma de Charlie.

Em passos lentos ele se aproximou da entrada, ela estava praticamente vazia, a não ser pelas velas que faziam fileiras posicionadas próximas do altar, a igreja era antiga, tinha um ar barroco-gótico, como a dos filmes, estava completamente inabitada, exceto pela mulher e preto ajoelhada em um dos bancos.

Ao primeiro passo que Charlie deu dentro da igreja o aroma entorpeceu seus pulmões, dançou em suas narinas e brincou com suas memórias, o cheiro de canela ‘’acerejada’’ algo indescritível, um aroma que só ele conhecia, o melhor cheiro do mundo, o cheiro de Erzébeth.

Ela estava ajoelhada no chão de cabeça baixa apoiando-a nos braços cruzados e apoiados em cima do encosto do banco, ela usava o vestido preto rendado, ele podia ver, também o casaco preto, meias calças da mesma cor e um lenço bordado escuro na cabeça, alguém estava tentando se esconder.

Se ela estava rezando ou fingindo Charlie não podia dizer, apenas se aproximou, ergueu a barra de sua calça e se ajoelhou ao lado dela, a mulher não se moveu, continuou parada com a cabeça baixa, sua voz era um sussurro, a igreja estava vazia, fazendo com que o mais baixo falar de vozes fizesse eco entre as paredes.

—O que é que você quer? — Ela sussurrou ignorando sua presença.

—O que você acha que eu quero? — Ele também posou os braços em cima do apoio, imitando uma posição de oração, os cabelos dela caiam em cascata pelas costas, eram negros como a noite, apesar de não terem mais a coloração avermelhada o cheiro era o mesmo, ele queria tocá-la, como queria.

—Como foi que você me encontrou aqui? —Ela fez a menção de se virar, mas desistiu, continuando a fitar o chão.

—Eu não te encontrei, o destino nos uniu.

—Maldito... — Ela praguejou baixo. — Eu vim aqui como você pediu, pare de me enrolar e fale logo o que diabos você quer! — A voz dela aumentou um pouco o tom, ecoando na igreja.

—Olhe para mim. — Charlie rosnou. Ela continuou parada sem se mexer. — Eu disse para você olhar para mim.

Lentamente ela virou o rosto, fitando-o nos olhos, aqueles grandes olhos cor de âmbar, estavam vermelhos, ela andara chorando.

—Você arruinou a minha vida! Será que é tão difícil para você seguir em frente? Você está livre, pode continuar por ai matando mulheres e cometendo as suas atrocidades, eu não ligo, eu não trabalho mais no seu caso, na verdade eu não trabalho mais em nada, estou impossibilitada de realizar qualquer tipo de tarefa em campo, então, porque você fica me perseguindo? Porque não segue com a porcaria da sua vida? — Os lábios dela tremiam enquanto falava.

—Você não entende? Entre tantas pessoas a escolhida foi você, entre tantos lugares do mundo estamos no mesmo lugar, não se faça de idiota, não tem como ignorar, pertencemos um ao outro.

—Você pertence a uma maca com uma injeção letal sendo enfiada no meio do seu rabo, é isso que você merece. Eu só fui escolhida porque, porque... — Ela fez uma pausa. — Porque o filho da puta do meu chefe tinha uma perseguição comigo. Podia ter sido qualquer outra pessoa do FBI, eu fui induzida meticulosamente para me aproximar e manter um relacionamento com você, então não venha com essa ladainha de destino! — Ela falava de dentes cerrados.

—Não, não e não. Isso não é mera coincidência. Eu nunca senti nada por ninguém como senti por você, e aquele dia, aquele dia naquele baile, éramos totais estranhos um para o outro e nos entregamos novamente!

Ela riu baixinho.

—Eu tinha tomado várias taças de vinho e você era o único pinto disponível naquele lugar, eu sou uma vadia, sabia disso? É claro que você sabe, pois você fez questão de cuspir na minha cara isso enquanto eu estava amarrada naquela merda de maca. Eu trepei com metade desse pais, estou até pensando em mudar de lugar pois aqui não tem mais variedade de escolhas. — Ela o fuzilava com os olhos.

Charlie não ia cair no jogo dela.

—Eu sei reconhecer uma virgem meu bem, não tente me ferir porque você não vai conseguir. Você passou todos esses anos se guardando, se guardando pra mim, admita isso, você me quer, você ainda tem sentimentos fortes por mim!

Ela balançou a cabeça negativamente.

—Eu sou uma puta, você deixou isso bem claro, e até onde eu sei você não se interessa por putas. Então porque você não faz um grande favor para nós dois e vai viver a porra da sua vida! Vá procurar o que fazer, pare com essa obsessão pra cima de mim, me deixe em paz! — Ela se levantou e caminhou em passos largos em direção a saída da igreja, Charlie se levantou e acompanhou.

—Erzébeth! Erzébeth! — Charlie se aproximou e a empurrou contra a grande porta de madeira esculpida que levava a saída do local.

Ela virou o rosto. Charlie a prendia com um braço, e com o outro segurou a quente face dela.

—Olhe nos meus olhos e diga que você não sente nada por mim, ande diga!

Ela se debatia.

—Me larga Charlie, eu vou fazer um escândalo, tire suas mãos de mim!

—Ande diga, eu quero ouvir saindo da sua boca, fale que você é uma puta e que você não sente nada por mim a não ser repulsa, ande diga, fale!

Ela tentava empurrar ele em vão.

—Diga! Fale, fale na minha cara, diga que você me odeia, que eu sou um merda, um inseto gosmento que você que você quer pisar, fale que eu juro, eu juro que sumo da sua vida e nunca, nunca mais volto, DIGA!

— Eu sou uma PUTA!— Ela cuspiu na cara dele. Charlie fechou os olhos e se aproximou do ouvido dela.

—Então, você vai ser a minha puta. — Ele inalava o aroma da pele dela, o cheiro de seu cabelo, mordiscou a sua orelha, lambendo o lóbulo dela, empurrando-a contra a porta da igreja, ela nem se debatia mais.— É como dizem, nós só aprendemos a dar valor quando perdemos alguma coisa, eu não sabia que podia me sentir assim por alguém, mas talvez eu possa amar, e eu a amo, amo, a amo desesperadoramente, eu quero você só pra mim, Erzébeth! — Charlie beijou a face dela, foi descendo os beijos pelo pescoço da mulher, ele sentia o corpo dela tremer, ela arfava, e nem protestava mais, sim ela gostava daquilo. Sentia sua barba roçando e marcando a pele branca e macia, Charlie lambeu aquele pescoço macio e suave, ela tinha um gosto divino. Charlie queria manter o sabor dela para sempre dentro de sua boca. Os pequenos pêlos do pescoço dela se eriçavam ao toque de sua boca, Charlie parou de prendê-la com as mãos, usou uma para adentrar dentro do sutiã da mulher, tocando sua pele, sentindo sua quentura ela era macia e delicada.

Erzébeth estava com as pernas contraídas, Charlie colocou uma mão em sua coxa e foi subindo, ela não protestou e mesmo que reclamasse ele iria continuar, sentia algo o incomodando dentro das calças. Ele colou seus lábios nos dela, em um beijo frenético, sugando sua boca, explorando seus dentes, sentindo a saliva quente em contato com a sua. Enquanto isso ia delineando um mapa nas coxas da mulher, subindo cada vez mais a mina de ouro, ele iria explorar, ele queria brincar em seu jardim. Chegando a sua feminilidade, ela estava pronta, quente, úmida ele podia sentir que ela o desejava, não importava o que ela falasse, ela ainda era louca por ele e ele podia comprovar isso com sua mão. Charlie explorava o corpo da mulher quando sentiu algo gelado em sua garganta. Parou imediatamente, o toque de algo gelado contra sua pele tomou sua atenção, ele abaixou os olhos e de alguma maneira ela apontava uma arma para o pescoço dele, encostando-a em seu maxilar, ela o encarava intensamente.

—Tire sua mão de dentro de mim. —Ela disse com frieza. Charlie obedeceu fitando-a, em um minuto ele estava pronto para comer ela e no outro tinha uma arma apontada para si.

Charlie continuou calmo e a olhou profundamente dentro dos olhos.

—Você terá apenas uma chance de fazer isso, e é bom que faça direito. —Lentamente ele segurou o cano da arma, abriu a boca e a colocou dentro de sua boca. Erzébeth fez uma expressão de espanto.

Ela piscou, ela não era capaz de fazer isso, Charlie sabia disso, ela estava blefando, tentando intimidar ele, aquilo não iria funcionar.

Até que ele ouviu um ‘click’ metálico, ela tinha destravado a trava de segurança, apoiou o dedo no gatilho. Charlie não esperava isso.

O‘click’ familiar fora ouvido, um som puro e simples, era o fim, a dúvida não transpassava mais os olhos dela, aquilo iria acontecer e seria agora. Charlie engoliu a seco e fechou os olhos.

Um som ensurdecedor, uma pontada de dor.