O Mais Belo Espinho De Sangue
28 Capítulo 28- Paciência
Notas iniciais
Bjs e boa leitura, não se esqueçam de comentar :)
As partículas de poeira dançavam no ar, eram como pequenos flocos de arco-íris, uma transpassando a outra, se entrelaçando e assim que algo se aproximava para tocá-las elas simplesmente sumiam, desapareciam do ar se transformando em nada, era um ciclo interessante de se observar, as pequenas bolinhas microscopias bailando no ar, a luz solar as tornavam ainda mais interessante, tudo era muito mais interessante, até ver a poeira flutuando do que ouvir o sermão do padre.
O padre falava, falava e também falava um pouco mais. Falava sobre a importância da vida, que devemos celebrar a morte, que ela apenas é uma transição, um começo, e não um final, nada do que ele dizia fazia sentido, nada ali fazia sentido algum. Um mosquito pousou na perna de Roger Winnes, e ele bateu nele com a mão para espantá-lo, o sol estava começando a fritar sua cabeça. Eram 15hs da tarde de uma quinta feira, e o agente do FBI estava sentado em uma cadeira de madeira dobrável, cozinhando em um paletó, em um cemitério de Washington, onde o corpo de Erzsébeth Pansy estava sendo velado.
Ou onde quase todos achavam que o corpo dela estava sendo velado, pois Pansy estava sob um ar-condicionado, deitada em uma cama confortável em um hotel não muito distante. Tudo começara no dia anterior, quando a mulher revelou a todos que o suposto corpo que eles tinham carbonizado não pertencia ao maníaco que eles caçavam, que atendia por Charlie Bloson, e sim a um empregado latino dele que estava na hora errada e no lugar errado. Desde que todos da equipe tiveram a confirmação que o homem ainda estava a solta um estado de alerta se alastrou pelo FBI, eles precisavam proteger Pansy a qualquer custo, pois aquele doido não tardaria a voltar para terminar o serviço, ou pelo menos era assim que Roger pensava.
O Agente Superior Bruce Taunt para variar tinha uma medida para isso, aquele homem tinha sempre uma resposta para tudo, desde para enrolar sua amante retardada chamada Cali Ordin a quem Roger tinha como uma de suas melhores amigas, que há quase dez anos ele dizia que ia se divorciar da mulher, e nesse espaço de tempo conseguiu fazer três filhos na esposa, a contornar situações problemáticas com seus funcionários. Rapidamente e inquestionavelmente ele decidiu (e apenas ele) que Pansy tinha que morrer o que pegou todos de surpresa, Roger teve que serrar os dentes para não meter a mão na cara do homem arrogante. Antes que todos se desesperassem ele disse que pelo menos em tese e legalmente ela deveria ser declarada como morta, até pelo menos que o FBI conseguisse colocar o traseiro de Charlie em uma cadeira elétrica, Roger particularmente preferia que ele se sentasse em um formigueiro e apodrecesse lá. Para que isso soasse convincente, o agente deu uma coletiva de imprensa defendendo a heróica ‘’morte’’ da mulher, e até um funeral fora providenciado, a mãe e a irmã de Pansy foram avisadas sobre a situação, e todos ali envolvidos teriam que dar o melhor de si para seguir convincentemente com a história do óbito, se permitindo até a chorarem. Roger queria chorar, ele estava cozinhando dentro de um terno preto, ele queria colocar uma roupa confortável e ficar deitado na frente do ventilador, e não participando de uma farsa ridícula.
Roger se permitiu olhar para o relógio, apenas três minutos haviam se passado desde a ultima vez que ele havia checado, e o padre estava balbuciando alguma coisa de como Pansy seria lembrada para sempre por sua coragem e bravura, Roger bocejou.
—Você poderia pelo menos tentar ser um pouquinho mais convincente? Menos entediado, mais triste, por favor? — Cali Ordin sussurrou no ouvido de Roger.
—Eu poderia tirar minha roupa e fazer um pole dance naquele caixão, mas não obrigado não estou com vontade de fazer isso, cachorra, você tem idéia de quanto está quente aqui? Que horas esse negócio vai acabar mesmo?
—Vocês dois podem conversar no carro, demonstrem um pouco de respeito. — Bruce Taunt rosnou, ele estava sentado do outro lado de Roger, ele não era a pessoa favorita dele no momento.
Roger revirou os olhos, por sorte ninguém viu, pois ele usava óculos escuros, passou a mão pela cabeça lisa e raspada, ele não tinha cabelo bom para deixar crescer e nem paciência para isso, afinal de contas carecas podiam ser sexys. Sua mão estava suada, ele estava derretendo, quase que literalmente. Roger observou o perímetro, vários policiais, repórteres, curiosos e agentes do FBI estavam na cerimônia, a mãe e a irmã de Pansy estavam sentadas de cabeça baixa na primeira fileira de cadeiras, Roger não pode deixar de notar que o ex-namorado de Pansy, Johnny Mills não se encontrava lá, mas não era muita surpresa, até onde ele sabia o rapaz era um viciado problemático e não se podia esperar muito dele.
Após alguns intermináveis minutos o caixão finalmente desceu no cemitério que era a céu aberto, foi coberto com grama e todos saíram de cabeça baixa e tristes, menos Roger que estava feliz por sair daquele lugar escaldante, tudo o que ele queria era se jogar em uma banheira de espumas. Enquanto ele e Cali caminhavam em direção ao carro, Taunt falava ao celular com alguém, ele estava com o semblante fechado para variar, Roger não se lembrava de ter visto aquele homem sorrir alguma vez, talvez ele ficasse feliz apenas quando estava comendo alguma funcionária burra.
—Winnes, Ordin preciso falar com vocês. —Taunt os chamou pelo sobrenome, lá vem chumbo grosso Roger pensou...
—Desembucha. —Roger disse.
—Acabei de receber uma ligação de Nevada e encontraram o corpo de Johnny Mills em um beco da cidade, tudo indica que foi uma overdose.
—Puta merda! Pansy vai ficar arrasada quando souber disso. — Cali disse.
—Ela não pode saber disso, Johnny podia ser um viciado irresponsável mas ele significava alguma coisa para ela, eles tinham um passado juntos, e ela já perdeu muita coisa, não precisa saber disso, não agora. —Roger disse convicto.
—Se a agente Pansy vai saber ou não isso não me diz respeito vocês fazem o que bem entenderem, há mais, eu preciso de vocês dois e agora, nós vamos para Nevada. — Taunt disse dando de ombros.
—O que? Qual parte de que eu estou derretendo você não entendeu? Estou quase virando um fondue de chocolate meu bem! O que diabos vamos fazer na porra da Nevada? Charlie já deve ter vazado, a essa altura ele deve estar escondido no mesmo buraco que o Bin Laden estava. — Roger imaginou o homem com um turbante e uma barba, teve vontade de rir mas não era o momento adequado para isso.
—Acotece, agente Winnes que até onde eu me lembro que mando em você e você vai para onde eu mandar e a hora que eu mandar, isso não é um convite e sim uma ordem. Acharam dois corpos na residência da tia de Charlie, aparentemente o dela e o de Theodore Lynch.
—Quem? O Charlie tinha uma tia? —Cali perguntou.
—Se vocês dois lessem os arquivos do caso saberiam disso, ele tinha uma tia que o criou chamada Vivien Bloson e para sua informação Theodore Lynch era o sujeito que matou a mãe de Charlie, ele estava preso a uns trinta anos mas conseguiu sua condicional alguns meses atrás, agora vamos, quero vocês dois no jatinho imediatamente.
—Não me espanta que o cara fosse um maníaco psicopata, a vida praticamente fudeu ele por trás. —Roger disse para Cali.
—Rog! Você não tem jeito! — A ruiva o censurou.
Algumas horas depois, e muitos champanhes da companhia aérea depois, os três estavam novamente em Nevada. Roger não podia acreditar que Johnny estava morto, ele já se drogava há tanto tempo, mas pelo o que ele sabia ele usava apenas ecstasy e não drogas pesadas, tudo isso era suspeito demais.
Chegando à casa da tia tudo estava uma bagunça, os móveis estavam quebrados, a casa revirada, a sala toda suja de sangue e marcas de sapato, a mulher estava encostada no sofá, sentada no chão, ela tinha arame farpado enrolado no pescoço, Roger sentiu os pelos da nuca se eriçarem lembrando-se da maneira como Pansy estava com o arame quando ele a resgatou do abrigo anti-bombas. O velho estava jogado no sofá de bruços, Cali se aproximou para examinar, afinal era uma médica legista.
—É, o pescoço dele foi fraturado, provavelmente quebrado, ele morreu na hora um golpe rápido e fatal, quem matou ele deve ser algum tipo de ninja, ou uma pessoa muito forte, pois com apenas um movimento rápido deslocou o pescoço desse velho. — Cali disse.
—A mesma pessoa deve ter matado essa Vivien estrangulada com o arame, e eu não sei vocês, mas eu tenho uma vaga idéia de uma pessoa que gosta de usar esses lances de jardinagem para semear o mal. — Roger devia escrever um livro de poemas, ele mesmo pensou.
—É evidente que Charlie fez isso, deve ter sido algum tipo de acerto de contas, ele deve ter feito isso antes de fugir, os corpos devem ter alguma impressão digital, Dra. Ordin se você puder coletar, eu sei que a pericia já fez isso, mas ele são tão úteis quanto mamilos em um homem, eu agradeceria se você checasse nosso banco de dados. —Taunt disse.
—Eu já coletei, vou ver no nosso banco de dados, mas com certeza deve ter sido esse doido das flores que fez isso, onde esse cara deve estar nesse momento? —Cali perguntou.
—Espero que apodrecendo a sete palmos. —Roger sentia o gosto da bílis na boca, ele nutria uma espécie de ódio muito grande por Charlie, pelo o que ele infligia a suas vitimas e principalmente pelo o que ele fez Pansy passar.
—Uma coisa é certa, precisamos pegar esse cara, ele deve estar escondido em algum buraco, mas logo a natureza o chamará para suas urgências, ele é um psicopata, um serial killer, ele não pode negar suas origens, não vai tardar muito para fazer novas vitimas, espero que ele acredite que a agente Pansy está morta, foi uma idéia brilhante, eu confesso. — Taunt disse com um tom de egocentrismo.
—Mereço... Bom acho que não tem mais nada a fazer aqui, podemos dar o fora desse galinheiro logo? —Roger perguntou impacientemente.
—Antes de irmos eu quero ir ao IML quero ver exatamente do que o Johnny morreu. —Cali disse e Taunt acenou. Roger bufou.
—Esses cadáveres não vão me deixar ir embora não é mesmo? —Roger disse.
Assim que chegaram ao IML, ou o habitat natural de Cali, como Roger gostava de chamar, ela já foi pegando o resultado dos exames e conversando com o legista local, Roger acompanhava, ele não entendia sobre cadáveres, ele entendia de prender bandidos, e entendia de como dançar em um bar gay e ser a sensação do local, olhar para corpos duros e semi apodrecidos não era a praia dele. Johnny estava com uma coloração esverdeada e as veias do corpo marcadas, era overdose, Roger tinha quase certeza disso, era uma perda de tempo total.
—Meu Deus Roger! —Cali disse perplexa se aproximando dele com uns papéis na mão.
—Conseguiu um autografo do Geroge Clooney? O que foi vadia? — A paciência de Roger estava começando a se esgotar.
—Nos exames foi constatado, que ele morreu de uma overdose de heroína.
—Sério? Já te contaram que o papai Noel não existe, Cali?
—Cala a boca Roger! Não é só isso, havia outra coisa misturada com a droga... Ácido sulfúrico! —Cali tentou dar um ênfase a ultima palavra.
—Não sabia que os drogados estavam usando isso, acho que corroer as veias não deve dar um barato muito legal, só acho. —Roger disse.
—E não dá mesmo, seu tonto! Alguém adulterou a droga, você não entende? Isso não foi uma overdose, foi um assassinato! —Cali estava exaltada.
—Calminha Sherlock! Vamos com calma, eu estou com tanto calor que poderia entrar numa dessas gavetas de cadáver e ficar por ai mesmo, mas voltando ao assunto, se isso que você diz é verdade, quem diabos faria isso com o infeliz do drogadinho?
—Quem você acha? Johnny era um empecilho para uma pessoa...
Roger mordeu o lábio inferior pensativo.
—Ele é um empecilho pra minha paciência isso sim, e também para o maluco psicótico e perturbado do Charlie alguma-coisa, você acha que ele pode ter feito isso?
—Eu tenho certeza, esse homem, ele deixou uma trilha de morte por onde passou, você não entende Roger, ele é extremamente perigoso e letal.
—Perigo é o nome dele, coitada da Pansy, ela nem imagina na enrascada que estaria se esse doente soubesse que ela está viva e viesse atrás dela, ele não me parece ser do tipo de pessoa que deixa trabalhos inacabados para trás, se ele achasse que ela esta viva, não hesitaria em terminar o que começou. Eu odeio esse filho da puta! — Roger cerrou os punhos.
—Uma coisa eu devo admitir, pode até soar meio doentio, mas eu estava vendo umas fotos dele do arquivo, e ele é bem... atraente, uma penas ser perturbado né? —Cali disse fazendo um sinal de louco com os dedos envolta da cabeça.
—O desgraçado é uma delicia. Quando eu e Kenny fomos na floricultura para investigar ele, antes da missão da Pansy eu quase fiquei de quatro por ele, aqueles jeans, uie nossa, ele é perigosamente atraente, ele tem um charme perturbador e fatal. —Roger suspirou.
—Seja como for, preciso ligar para o Taunt e dizer sobre isso, precisamos tirar a Pansy da vista o mais rápido possível, se ela morreu, ela não pode mais ficar dando sopa por ai.
—Apoiada! Mas antes precisamos voltar embora, eu preciso ver como aquela cachorra está.
Algumas horas depois, Roger estava de volta ao hotel onde Pansy estava escondida e sob vigia do FBI 24hs por dia, Roger estava ficando no mesmo quarto que ela, ele não desgrudaria da amiga nunca mais.
Entrando no quarto um cheiro forte de amônia tomava conta de tudo. Pansy saiu caminhando do banheiro, ela dava passos lentos, ainda estava se recuperando, os hematomas estavam começando a cicatrizar e aos poucos ela voltava ao normal, pelo menos quase, fisicamente, mentalmente Roger já não podia dizer o mesmo, ela não tinha mais um brilho no olhar, não sorria, passava o dia todo deitada ou sentada encarando os móveis, era como viver com uma morta-vida, e de certa maneira ela estava morta por dentro. Ela tinha os cabelos molhados e pretos!
—Uau alguém voltou à cor normal! Isso explica o cheiro forte de tinta, ficou muito bonita, cachorra. — Roger disse sorrindo.
Pansy deu um esboço de um semi-sorriso.
—Sim, cansei de ser ruiva, aquela era a Scarlett, não eu. Onde você esteve o dia todo?
—Ah eu fui no seu funeral, estava bem legal até, você teria gostado, pegaram uma foto boa sua pra deixarem em exibição perto do caixão, juro que tentei chorar, mas sabe, você é muito cachorra, acho que eu nem senti tanto sua falta assim. — Roger viu que Pansy se permitiu sorrir um pouco, era bom vê-la sorrindo.
—Sei... Roger eu ainda tenho o celular que era meu, bem da Scarlett — ela disse passando o celular nas mãos dele. — se livre disso.
—Pode deixar cachorra, me deixa ver se não tem créditos nem nada. — Ele disse pegando o celular havia uma chamada de voz, Roger colocou o celular no ouvido e ouviu.
‘’Eu sei que você nunca vai ouvir essa mensagem, e seja lá onde estiver eu... — Um longo suspiro precedeu uma pausa — eu, bem, eu a amo, perdidamente e muito’’. — Uma voz rouca e grossa disse essas palavras, Roger sentiu um calafrio na espinha, Charlie devia ter deixado uma mensagem de voz no celular da defunta.
—O que foi Rog? — Pansy perguntou.
—Nada, não tem crédito nem nada nessa porcaria, melhor jogar ele fora mesm— Roger sentiu o bolso vibrar, agora seu celular vibrava, no visor estava escrito Agente Calças Largas.
—Pode falar Taunt. Aham, sim, certo... mas... positivo eu, sim claro que eu vou, adoro viajar meu bem. Tudo bem, entendido, certo, tá bom tá bom, okay, tchau! —Roger revirou os olhos.
—O que ele queria? —Pansy perguntou se sentando lentamente na cama, seu rosto era um misto de dor e desconforto.
—Boas notícias querida, como você morreu, nós temos que vazar, daqui, vamos nos mudar, baby. — Roger disse entusiasmado.
—Ah é? — ela não esboçava nenhuma reação. —E para onde?
—Qual é a sua descendência mesmo, sua da sua mãe e tal? — Roger perguntou com um sorriso no rosto.
—Bem, minha mãe, ela é Húngara, nasceu na Hungria, e veio para cá e se casou com meu pai que era americano, por quê?— Ela não parecia entender.
—Porque nós vamos para a Hungria, baby!
Notas finais
Espero que tenham gostado, não se esqueçam de comentar, bjs e até a próxima :)
Fale com o autor