O Maior Segredo de Brasília
1 Uma Viagem Inesperada
UMA VIAGEM INESPERADA
Já se passavam das onze da noite quando o silêncio foi quebrado no Palácio da Alvorada. O celular gritava sem medo por algum lugar ao lado da cama.
_Marcela, desligue isso! – Era Michel Temer, intacto escondido sob os lençóis
Em um giro digno dos atletas mais ágeis, Marcela se sentou na cama.
_Querido, não é o meu. É o s..
_Pois desligue!
_Michel, não é o número pessoal.
Aquilo soou como uma ordem para o presidente. E em um instante, ainda que com menos habilidade que Marcela, Temer já estava sentado ao seu lado, à beira da cama. Quem quer que fosse ainda não havia desistido do outro lado da linha.
_Quem é? Estou sem meus óculos de leitura. – Havia um pequeno pigarro na voz de Temer, que Marcela entendeu ser de preocupação
_É... o Bolsonaro. – Ela também parecia preocupada _O pai. Digo, o Jair.
Temer pegou o celular das mãos de Marcela e se pôs de pé, ensaiando alguma tossida.
_Presidente Michel Temer. – ele interrompeu a fala _Como? ...
Marcela se manteve imóvel, enquanto via Temer se afastar pelo quarto até alcançar a porta. Ficou ali por breves cinco minutos, tentando adivinhar o motivo daquela ligação àquela hora. De qualquer forma, não iria dormir, mesmo que precisasse, pois no outro dia faria a reunião que estava se preparando há meses (e nada poderia dar errado!).
_Marcela! – Era Temer de algum lugar do corredor _Se arrume, vamos à casa de Bolsonaro.
_Como assim? Agora? No Rio? Está tudo bem com ele? – Ela correu ao closet, ainda mais rápida que da primeira vez
_Ele precisa de mim pra resolver algumas burocracias, e bem... enfim, pegue alguma roupa pra mim, o carro já está parado nos aguardando.
Marcela apanhou o primeiro vestido que encontrara, uma calça e a blusa lilás, favorita de Michel Temer.
Quando se encontraram no corredor, já estava vestida, se equilibrando sobre os saltos finos.
_E o Michelzinho? – Perguntou
_A segurança cuidará dele, ele tem idade o suficiente pra passar uma noite sem a mãe. Me ajude com as calças.
*
A noite não era das mais iluminadas. Algumas nuvens cobriam a lua e quase todas as estrelas. Ventava bastante quando um carro exageradamente chique estacionou próximo ao único condomínio com grades da rua.
_Senhor Presidente. – Um rapaz cumprimentou, tentando enxergar através dos vidros escuros _Eu vou liberar a entrada.
O carro deslizou pela rampa em direção à casa de Jair Bolsonaro.
_Eles deviam usar terno. – Temer falou olhando pro lado de fora do carro _Os seguranças. Falta organização. Já falei isso duas vezes com Bolsonaro.
Jair Bolsonaro esperava impaciente à porta. Se para Temer os seguranças não estavam bem vestidos, Bolsonaro estaria ainda menos, com uma bermuda jeans e uma camiseta regata que Marcela concluiu que fosse “roupa de dormir".
_Boa noite, Senhor Presidente. – Um aperto de mão _Primeira dama.
Marcela acenou com a cabeça alguns passos atrás de seu marido. Antes que pudesse escutar qualquer palavra que fosse, um segundo homem surgiu por ali pedindo que o acompanhasse. E ela foi, depois de uma tentativa falha de despedir do marido.
_Ele sempre faz isso.
_Perdão? – O homem respondeu
_Ele esquece que eu estou com ele quando as pessoas estão por perto. Você... por acaso sabe do que se trata esse encontro essa hora da noite.
Os dois caminhavam por uma pequena estrada de pedra ao lado da casa. Marcela com um pouco de dificuldade devido aos saltos finos. Não tinha sido uma boa escolha.
_É algo além do meu departamento, senhora. Por aqui.
Chegaram a uma entrada de grades de ferro, e um piso claro, que parecia ser uma cozinha, quando a luz se acendeu repentinamente à frente.
_Marcela! – Uma voz doce veio atravessando a porta
Marcela avistou aquela mulher, exageradamente maquiada pra aquela hora da noite. A sorria de volta, ainda que a luz do ambiente não fosse das melhores.
_Michelle. – O sorriso transformado numa risada de cumplicidade _Infelizmente eu não trouxe nada, a viagem foi assim, inesperada.
As duas se abraçaram enquanto o homem sumia no mesmo passo que chegara.
_Mas é claro que não precisava. – Michelle respondeu se afastando pra olhá-la melhor _Você está... nossa, você está arrumada demais pra quem saiu às pressas!
As duas riram, a risada de Marcela quase próxima a uma gargalhada.
_E você cada dia melhor nessas maquiagens! Fez sozinha?
_Sozinha? Com certeza não. Hoje foi a...
_A reunião com aquela ONG! Claro, como eu ia esquecer?
_Isso!. – Michelle a puxou pelo braço casa a dentro _A maquiagem daquele tal Agustin Fernandez é tão maravilhosa que eu fiquei com pena de tirar.
Mais risadas.
_Então, você pode me dizer o que está acontecendo? – Marcela perguntou se jogando ao lado de Michelle no sofá
_Eu não faço nem ideia. – Ela respondeu ajeitando um pouco o cabelo _Você sabe que o Jair diz que eu não devo me meter em assuntos políticos. Por ele eu ficava só fazendo ajuda social... e na cozinha claro.
Michelle gargalhou, mas parou pra conferir se alguém estava por perto.
_E você acha isso certo? – Marcela se arrependeu logo que as palavras saíram da boca
_Se é certo eu não sei. Mas funcionou. – Ela procurou os olhos de Marcela _Ele vai ser o presidente agora, então...
Marcela sorriu com os olhos:
_Meus pêsames.
As duas caíram na risada mais uma vez.
_Mas enfim, não achei ruim que apareceu essa reunião urgente de última hora, porque eu tenho minha amiga de volta! Já faz o que? Duas semanas que não temos a “noite das garotas”? – Michelle falou, colocando a mão na perna de Marcela
_Uma semana e meia. E é bom dormir sossegada sem os roncos do Michel!
_Não acredito. – Michelle segurou um grito com as mãos _Vocês ainda dormem juntos?
_Michelle, nós somos casados. O único casal que dorme separado neste Brasil são você e seu marido. – Marcela sabia bem usar seu tom de deboche
_Porque ele quis. – Um olhar pra porta, e logo um sussurro exagerado _E eu amei!
As duas explodiram em gargalhadas. Logo Michelle completou:
_E você hoje vai dormir comigo! Pelo pouco que eu sei a noite dos garotos vai ser longa e o Jair pediu pra que eu tratasse de te deixar confortável pra dormir aqui. E eu separei três filmes pra gente assistir e não aceito “não” como resposta.
Marcela sorriu com o canto da boca. Ainda que tivesse apenas meses de amizade, já sabia bem que Michelle apesar de acatar tudo que o marido dizia, sabia ser bem incisiva nas suas escolhas, e todos tinham que fazer o que ela pedia(delicadamente).
_Eu tenho que tirar esse salto e esse vestido...
_Eu tenho uma camisola que vai ficar perfeita em você, sutiã, calcinha, você não tem desculpas!
As duas subiram as escadas pro quarto, Michelle puxando Marcela pela mão.
_Eu tenho uma reunião muito importante amanhã, eu não podia perder... o Michel sabia disso.
Antes de entrar no quarto, Michelle lançou um olhar desafiador:
_Pelo visto não sou só eu que aceito as decisões do marido!
_Ridícula. – De novo o sorriso de canto de boca _Eu esperava por isso há meses!
_Eu tenho certeza, Senhora Primeira Dama, que a nossa noite será muito melhor!
*
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