O Maior Segredo de Brasília

3 Michelle de Paula Firmo Reinaldo


A celebração da posse com certeza é algo que demanda bastante trabalho para o futuro presidente, Bolsonaro sabia disso, e tentava mostrar a todos que estava pronto para o acontecimento. Com o passar dos dias, menos tempo, mais compromissos, decisões a serem feitas; e a ansiedade estava nítida pra quem quer que o olhasse com uma visão mais atenta.

—Senhor Bolsonaro, o Senhor Frota virá às quinze horas... – Um homem, de cabelos somente nas laterais, e roupa social, entrou apressado pela porta que dava acesso a cozinha, trazia um caderno nas mãos _A reportagem pra emissora Record vai começar a ser gravada hoje e querem que o Senhor grave uns takes. Aqui está os roteiros pra que você escolha o que preferir.

—Qual você acha melhor? – Bolsonaro tirava o miolo de um pão francês

—Os dois são bons. – O senhor apontou um lugar no papel _Nesse mostrará um Bolsonaro mais humano, passará rapidamente pela sua infância, a fase como militar, e terá um destaque maior na família e no amor do Senhor e sua esposa...

—Michelle não vai falar. – Cortou Bolsonaro, a boca cheia de pão com leite condensado

—Podemos definir alguma frase...

—Michelle não vai falar. — Mastigada

O senhor apontou uma outra parte do caderno:

—Nesse roteiro aqui falaríamos sobre patriotismo e a sua luta pelo povo brasileiro. Muitas frases de efeito a serem decoradas, vamos falar do temor a Deus e como colocará lado a lado as leis brasileiras e a Lei Divina. Não precisa se preocupar, já está tudo aqui. – Ele tentou continuar, mas foi interrompido por um segundo homem que apareceu por ali, também apressado, bem menos arrumado, em sua bermuda jeans e camiseta branca

—Bom dia, onde está a minha irmã?

—Olha se não é meu querido Sargento Torres! – Bolsonaro abriu os braços, espalhando umas migalhas de pão no piso

O tal Sargento Torres não sorriu de volta:

—Ela ainda está no quarto? – Completou parado à porta, aguardando a confirmação

—Sim, você pode...

O homem sumiu pela casa antes mesmo de ouvir o restante da frase.

—Michelle! – Gritou subindo as escadas

Michelle apareceu à porta do quarto, os olhos sensíveis à luz da manhã, apertados numa cara de sono:

—Diego? – a voz mais de cansaço que surpresa _Tá tudo bem?

—Devia ter vergonha de me perguntar isso. – E conduziu a irmã de volta pra dentro do quarto

—Diego, você sabe o que o Jair fala de conversarmos assim, eu ainda estou de pijamas. Mulher não po...

—Pouco me interessa o que o Bolsonaro pensa. Eu preciso da minha irmã, e será que ela está em algum lugar por aí? – Diego circulou o dedo apontando o rosto de Michelle, ela sorriu esfregando um pouco o rosto

—Di. – A voz amigável _É sobre o que conversávamos aquele dia?

—É tudo aquilo que conversamos aquele dia! – Diego se sentou na cama, empurrando o cobertor um pouco _Eu não acho certo a proporção que isso está tomando. Você... você percebe o que você está se tornando, Mi?

—Diego, eu sou a futura primeira dama, você não esperava que eu fosse continuar aquela mesma mulher que eu costumava ser, é lógico...

—O que é isso aí? Você está maquiada! – Diego falou, a voz teatralmente preocupada _Michelle você nunca ligou pra essas coisas. Olha de onde você veio, olha onde a sua família está.
Michelle ajeitou o cabelo, respirando fundo:

—Com todo respeito, eu não me casei ontem, nem nessa eleição, a minha família Diego é esta aqui que você vê nesta casa. Vocês são minha segunda família e eu, nós, esperávamos essa mudança. Você lembra quando me dizia que eu era uma mulher que não merecia viver naquele lugar? Que eu era muito pra Ceilândia? Mas eu quero que vocês, todos vocês, mudem comigo, isso é mais que justo!

—Olha para o que você está sugerindo. Sua avó, aquela que nunca entrou num avião, que mora numa casa sem reboco, com meia dúzia de galinhas no quintal... ter “esse" tipo de vida? Michelle você está pedindo demais. – A voz falhou no fim da frase

—E você me aconselha o que? Pois tudo que eu quero é dar uma vida melhor pra todos vocês, eu conversei com papai...

—Ele não quer ir pra Brasília! E ele tá certo. A vida dele é aquilo ali, a casa mal feita cheia de lixo na porta. – Diego encarou Michelle nos olhos _Mas conquistada com muito suor depois de todos aqueles anos dirigindo incansavelmente! Não vem de dinheiro sujo!

—Diego! – Repreendeu Michelle _Todos ali torceram muito pelo meu marido e sempre o apoiaram, eu não sei o que você está querendo fazer com essas acusações.

—Acusações? – A voz de Diego saiu alta até demais _Você está falando comigo! Não é uma entrevista de televisão. Você era uma mulher que lutava mais pelos seus ideais, desde nova! Você lembra o quão nova você era quando decidiu que seria uma modelo famosa? E quando você recebeu seu primeiro salário... que iria ajudar as pessoas....

—E eu ajudo! Eu sempre ajudo!

—Não queremos seu dinheiro. A gente não quer que você mande uma quantia, de longe, pra aliviar a culpa pela falta que você faz! Não substitui! Eu estou aqui, pela última vez procurando a irmã que eu perdi há um tempo... e agora eu vejo uma mulher estranha, com todo esse luxo e gastos, e produtos caros, e amizades chiques... – Diego mantinha o tom de desdém

Michelle sorriu:

—Ciúmes não é muito o que eu esperava de você, mas eu fico feliz, eu só não sei muito bem o que fazer.

—Isso só você sabe. Você ainda fará aquela viagem?

Michelle olhou pro teto, como se procurasse algo, e de repente, soltou, até mais empolgada que

Diego esperava:

—Meu Deus é hoje!

—Tem certeza que você quer ficar todos esses dias naquele lugar?

—Talvez a minha futura casa! – Corrigiu Michelle _E eu estou combinando isso com a Marcela há semanas!

Diego fez um gesto negativo com a cabeça.

—Essa sua amizade.

—”Minha” amizade!


*

—Vão ser apenas uns dias. – Michelle carregava uma mala exageradamente grande pela sala _Eu espero que você chegue pro final de semana.

Bolsonaro estava jogado num canto do sofá:

—Eu não vejo necessidade dessa viagem, bem no meio da semana. Temer esteve aqui há muito pouco tempo.

—Marcela foi quem me convidou...

—Nos convidou. E eu estou ocupado demais pra sairmos despreparados dessa forma.

—Eu estou livre. – Michelle ignorava o olhar de reprovação de Bolsonaro

—Você está... – Bolsonaro tentou segurar a voz _... mudada demais de uns tempos pra cá, e eu não estou gostando de nada disso.

—Jair, é só uma visita. – Ela o olhou um pouco preocupada _Eu gostaria muito que você me deixasse ir.

Bolsonaro encarou a bolsa parada à porta.

—É só uma visita. Tudo bem. – Falou, mais pra ele que Michelle

Michelle escondeu um sorriso ao sair pela porta, ali, em frente à entrada um motorista a esperava ao lado do porta-malas, com os braços cruzados.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.