O Maior Segredo de Brasília
2 Conversas e Filmes
—Pipoca com leite condensado? Você sabe que vamos quebrar umas dez regras diferentes se a gente comer isso né? – Disse Marcela ao ver Michelle entrar no quarto com uma tigela e uma bandeja com copos exageradamente grandes de refrigerante
—Por que? Você acha que vai engordar, ou...?
—Não! – Marcela interrompeu falando mais alto que de costume
—Porque está errado. Pipoca é salgada, o leite condensado é doce! Aliás, eu achava que você não consumisse nenhum produto que tivesse origem animal. Leite condensado...
—Eu penso que tem muitas coisas sobre mim que você ainda não sabe! Toma, segura seu copo. É zero açúcar.
E Michelle se sentou ao lado de Marcela, a olhando como se fosse a coisa mais estranha do mundo.
—O que foi? Por que você tá me olhando assim?
Michelle sorriu, deixando todos os dentes à mostra.
—Não, é que eu comprei essa lingerie pra minha noite de núpcias e...
—Ah não...
—Não, eu não usei. Jair estava cansado demais e, bem, ela ficou melhor em você do que em mim. – Michelle respondeu fazendo gestos exagerados demais mostrando o corpo de Marcela
—Não precisava ser uma lingerie transparente. – Marcela sorriu tímida, aquele sorriso de canto de boca de novo
—E vai esconder esse corpo pra que? Já te disse que você devia se mostrar mais, eu se tivesse esse corpo, não, Jair me matava. – As palavras pareceram sérias demais _De qualquer forma, cancelei até aquele reparozinho que iria fazer na barriga. Cancelei não, cancelaram! Dr. Rey não me atende mais, você deve saber o motivo.
—Pelo amor de Deus Michelle, você está ótima!
—Não mais que você. Bem, filme?
—Tudo, menos terror!
—Achei que gostasse de vampiros.
Gargalhadas.
*
—Eu acho que Vossa Excelência não percebe a gravidade da questão... Algo deve ser feito agora! Para o nosso bem!
—Para o seu bem, Senhor Deputado! Mas eu devo te lembrar, Bolsonaro, que decisões extremas devem ser muito bem pensadas para que não acarretem em problemas. Isso que está me pedindo, além de beneficiar apenas o seu ego, pode me trazer grandes dores de cabeça. É importante deixar claro aqui que ainda que não pareça, eu sou o presidente deste país e minha reputação está em jogo!
Bolsonaro levantou da mesa, esfregando o rosto como que não acreditando no que estava ouvindo:
—Que reputação, meu amigo? – a voz forte, quase um grito
—O senhor meça suas palavras ao se dirigir a mim. – O dedo indicador surgiu em direção ao rosto de Bolsonaro, assim, como uma faca _E não é por estar na sua casa que o senhor pode concluir que somos amigos!
Uma figura no canto da mesa, calada até o momento, tossiu, forçadamente, avisando que a conversa estava indo longe demais.
—Você fica na sua, Eduardo! – Disparou Bolsonaro, o rosto vermelho como pimentão
Temer, por sua vez, abaixou a cabeça e segurando os óculos na ponta do nariz analisou sem pressa o papel que estava em uma de suas mãos, enquanto Bolsonaro apertava os punhos numa respiração forte.
—Não acho que seja o melhor momento! – Temer falou, a voz fraca, como quem não queria ser notado _O Brasil inteiro está de olho em você. Em nós! Vão nos culpar.
Eduardo Bolsonaro se mexeu na cadeira:
—Que culpem. Não terão provas!
Temer, sem tirar os olhos do papel:
—Terão ódio! E vocês dois, mais do que ninguém, sabem bem os lugares onde o ódio pode levar.
—Mas é claro, levei uma facada pela força do ódio.
—Você... – Temer devolveu o papel a mesa e encarou Bolsonaro _... se tornou presidente pela força do ódio! Não temos um acordo...
—Vossa Exc...
—... por hora. Vamos esperar as coisas esfriarem. Mas lembre-se, deputado, estamos do mesmo lado. Faço isso pelo seu bem e pelo laço que criamos. Agora, se me fez acordar a esta hora esperando que eu fosse agir com esse amadorismo, concluo que foi uma viagem perdida.
—Há outras questões menos importantes que eu precisava discutir com o senhor. -Bolsonaro se recompôs, voltando à cadeira
—Eu acredito que sim.
*
A TV, que cobria quase metade da parede, era a única iluminação do quarto, que mesmo bem menor que o de Marcela, ainda parecia grande, apesar da cama espaçosa. A pipoca já havia acabado na metade do primeiro filme, e Michelle já se encolhia debaixo do edredom.
—Você quer que diminua o ar? -Disse
—Não, ta ok pra mim. – Marcela respondeu sem tirar os olhos da televisão
—Se estiver frio demais pode entrar debaixo do edredom, te cabe aqui.
Michelle levantou uma ponta do edredom dando espaço pra que Marcela entrasse. O quarto estava, realmente, “frio demais". Mas Marcela era educada o suficiente para não reclamar do que quer que fosse. E elas ficaram ali, no silêncio, à meia luz, até que o segundo filme acabasse. Foi quando uma escuridão absoluta tomou conta do quarto.
—Michelle? Acabou a luz?
—Claro que não. – Michelle se divertiu _Foi eu que desliguei.
—Mas...
—Eu quero te perguntar uma coisa. – Michelle cortou _E eu quero que você seja sincera comigo.
Mesmo no escuro, Michelle sentiu que Marcela sorria.
—Eu vou ser.
—Há quanto tempo vocês não transam?
Silêncio.
—Marcela?
—Eu.. eu..
Silêncio.
—Marcela, pode falar. Você não confia em mim? Somos amigas!
E Marcela sentiu a mão quente de Michelle apertar o seu ombro.
—Eu não sei como te responder.
—Tudo bem, me desculpa.
—Porque tem muitos anos.
E novamente um breve silêncio tomou conta do quarto, até Michelle cortar:
—Eu não faço há meses. Nem beijo.
O silêncio que veio depois só não era absoluto por culpa das respirações que, inesperadamente, ficaram mais intensas. E Marcela percebeu que Michelle parecia estar a poucos dedos de distância do seu rosto. Podia sentir o ar da respiração bem perto.
—Você quer ver o filme? – Michelle sussurrou, quase sem voz
—Eu prefiro ficar no escuro.
—Você não tá com frio? Pode chegar mais pra cá.
E Marcela sentiu a mão de Michelle a puxar pelas costas, lhe trazendo contra seu corpo.
E então um som estridente balançou todo o quarto. Fazendo com que Marcela quase caísse pra trás.
—Meu celular! – Michelle saltou da cama num instante. O celular estava na cômoda por ali. _É uma mensagem de texto do Jair. Terminaram lá.
Ela riu acendendo a luz do quarto. Marcela sorriu um pouco desconcertada.
—A gente tem que ir? – A frase de Marcela saiu sem pensar
—Não, a gente... quer dizer. Você... – Michelle colocou o cabelo atrás da orelha, como sempre fazia quando ficava nervosa _Eu. Eu não falei que você ia dormir aqui. Não, é claro que ele sabia que você ia dormir aqui em casa. Eu falo aqui, aqui.
Marcela sentou na cama.
—Tem algum problema? – e se levantou, se arrumando _Quer dizer, nós somos amigas, não é?
—Sim! Não, sim somos amigas e, não, não tem problema. – Michelle cada vez mais desconcertada _Mas eu acho que... É, desrespeitoso eu não cumprimentar o Presidente da República quando ele está na minha casa. E vocês, são um casal, né. Vocês dormem juntos... tenho que preparar um quarto pra vocês. Já é tarde.
Marcela já estava de pé procurando pelo vestido que usava antes da lingerie:
—Você está certa. Vamos descer.
—Marcela. – Os olhares se cruzaram instantaneamente _Eu quero muito assistir esse filme com você!
E na mesma intensidade dos olhares, Marcela respondeu:
—Eu estou disponível pra você sempre que quiser.
Michelle sorriu, colocando o cabelo atrás da orelha:
—Essa lingerie definitivamente fica melhor em você.
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