Clara segredou para o Doutor:

— Estavam à tua espera?

O Doutor encolheu os ombros e voltou a guardar o cartão psíquico no casaco. Seguiram o segurança que os levava para dentro da área restrita. Antes, comunicou qualquer coisa por breves palavras através do walkie-talkie que tinha preso junto ao ombro esquerdo. Fez-lhes um sinal com os dedos para que fossem com ele.

— O que é que tu sabes e que não me contaste?

— Não sei o que está a acontecer, Clara.

— Não é isso, Doutor. Estou a perguntar sobre a parte que sabes. Afinal… tu conheces os Linkin Park e estavas a fazer um enorme teatro sobre serem uns miúdos revoltados.

— Poderia conhecê-los, assim como conheço os Beatles. O John Lennon é um rapaz excelente… Ainda me está a dever duas libras de uma aposta que fiz com ele, em Hamburgo, quando tocavam na Reeperbahn. No entanto, minha querida Clara, não conheço estes teus miúdos revoltados.

— Eles não são meus

— Não faço a mínima ideia de quem possam ser. Conheces os nomes deles?

— Eles são seis. Os mais conhecidos são o Mike e o Chester.

— Ah, bom! Muito interessante…

— O que é que é interessante?

— O teu conhecimento sobre os miúdos revoltados não é muito profundo.

— Conheço o que é preciso conhecer – rebateu ela, ofendida. – Conheço algumas canções bastante famosas. E sei os nomes deles todos!

— Vais cantar as canções durante o espetáculo?

— Espero cantá-las durante o espetáculo, sim. Por que motivo estavam à tua espera, Doutor? Se eles não te conhecem.

— É nesse ponto que somos idênticos, Clara.

— Idênticos? Eu e tu?

— Sim, dois idênticos e perfeitos ignorantes.

— Ah!

O segurança tinha-os encaminhado para um local amplo, como um átrio, coberto por uma lona esticada e apoiada por vários mastros, numa espécie de tenda gigante. Aí viram uma mulher que carregava uma prancheta e usava um cartão identificador plastificado pendurado ao pescoço, preso numa fita vermelha. Ela falava com um homem alto e encorpado que a escutava apreensivo, de braços cruzados.

— Não sei o que aconteceu – dizia. – Até há uma hora eles estavam muito bem-dispostos e entusiasmados por irem tocar aqui, em Milton Keynes. Eles sabem que este concerto vai ser filmado e vai ser gravado, que será utilizado para fazermos a promoção do Projekt Revolution, não estavam nervosos ou reticentes. Estavam entusiasmados, como disse. Essa é a definição correta. Entusiasmados. Mas depois entraram dentro do camarim maior, aquele mais reservado, e trancaram-se lá dentro. Dizem que é um problema particular e não deixam ninguém entrar.

— Será que o Chester partiu outra vez um dos vasos orientais do Mike? – perguntou o homem.

— Se fosse isso, eu teria sabido. O Mike grita como uma menina quando perde um dos seus vasos. A sua voz muda completamente. Ele conseguiria estilhaçar vidro com esses gritos!

— Cammy, foco!

— Sim, estou focada – retorquiu a mulher, zangada.

— Daqui a minutos vamos precisar deles para começarmos o espetáculo. Os Linkin Park nunca se atrasam. Se não estiverem a horas em cima daquele palco, as pessoas vão começar a desconfiar de que aconteceu alguma coisa.

— E aconteceu mesmo alguma coisa! Eles estão fechados dentro do camarim e não admitem que ninguém entre.

— Cammy…

— Estou a tratar disso. Já solicitei ajuda.

— Que tipo de ajuda?

O Doutor interrompeu-os.

— Com licença. Eu sou o Doutor e esta é a minha…

— Ah, graças a Deus, o senhor chegou! – exclamou a mulher, levantando os braços.

O Doutor tinha a mão dentro do casaco para sacar novamente do cartão psíquico, mas parou por perceber que também ali sabiam quem ele era e que estavam à sua espera. Clara reparou que o homem fez uma careta.

— Estamos a falar de ajuda… externa?

— Quando não conseguimos resolver os nossos problemas internamente, precisamos de chamar por ajuda externa, Tom – explicou a mulher, semicerrando os olhos, num registo entre o condescendente e o irritado.

— Tens a certeza de que precisamos da ajuda… desse tipo de ajuda? Peço desculpa, disse que era…?

— Sou o Doutor. E esta é a minha…

A mulher agarrou no cotovelo do Doutor e começou a puxá-lo.

— As apresentações ficam para outra ocasião, Tom. Desculpa. Como disseste, os Linkin Park não se atrasam e precisam de ir para aquele palco dentro de minutos. Venha depressa, doutor, já perdemos tempo demais. E ouviu Tom, o meu chefe. Precisamos de resolver isto com a maior rapidez possível… e também com a maior discrição.

Clara seguiu a mulher e o Doutor, trocando um olhar com o Tom que parecia agora totalmente perdido e resignado.

A mulher apresentou-se.

— Chamo-me Cammy, falámos ao telefone. Muito obrigada por ter atendido ao nosso apelo, apesar de ter a sua agenda preenchida. – Continuava a segurar no cotovelo do Doutor e arrastava-o por uma galeria alcatifada, iluminada por candeeiros de pé alto, como numa rua normal de Inglaterra. O ambiente era bonito e fantasmagórico.

— Não há qualquer problema, Cammy. Nunca recuso um apelo… e um mistério.

— Eu sou a Clara, a assistente do Doutor – disse Clara, interrompendo a conversa.

— Olá, Clara – respondeu Cammy sem olhar para ela.

A galeria dava para uma zona de contentores, juntos uns aos outros, que formavam os compartimentos para o pessoal e também para a banda. Os camarins. Estavam todos iluminados no seu interior e havia alguns que tinham as portas escancaradas. A maior parte eram estruturas simples, compostas por divisórias metálicas e reposteiros. Pessoas entravam e saíam, na azáfama típica de uma comitiva de um grandioso espetáculo artístico.

Estavam nos bastidores do palco e dali conseguiam escutar a assistência que ululava e gritava pelo nome da banda, em ambiente de festa. Pararam os três diante de um contentor fechado. A Cammy ainda continuava a segurar o cotovelo do Doutor. Clara cruzou os braços, zangada com aquela intimidade despropositada.

— É aqui que eles ensaiam e descansam. Há uma hora, sensivelmente, que estão ali dentro e não permitem que ninguém entre. Eu tenho insistido bastante nos últimos vinte minutos, porque não é normal eles se fecharem dessa maneira, ainda por cima, quando estão prestes a entrar em palco. São rapazes excelentes e fazem isto há algum tempo, não é aquele típico terror prévio a uma apresentação para uma multidão maior do que estavam à espera. É outra coisa. Eu sei que é outra coisa. E não me querem contar! – A mulher acrescentou a última frase num tom ressentido.

Ela bateu à porta do contentor com três toques e foi só então que largou o cotovelo do Doutor. Clara sentiu-se mais aliviada, mas não descruzou os braços.

— Estamos ocupados! – gritou alguém dentro do contentor.

— Sou eu, sou a Cammy. O doutor que vocês pediram está aqui comigo.

— Eles pediram, eu fui contra a ideia! – disse uma segunda voz.

— Obrigado, Cammy. Podias retirar-te, por favor? – pediu uma terceira voz.

— Mike? O que se passa? Está toda a gente à vossa espera!

— Podias retirar-te, por favor?

Cammy corou de raiva, mas fez o que lhe estava a ser solicitado. Fez um sinal com os dedos, indicando que tinham pouco tempo para resolver aquele problema e retirou-se. O Doutor bateu à porta assim que ela se foi embora.

— É o doutor? – perguntou alguém.

— Sim, sou eu. Sou o Doutor.

Abriu-se uma fresta. Um par de olhos fez uma breve inspeção, para certificar-se de que a mulher se tinha mesmo afastado, depois a porta foi aberta de par em par.

Clara tapou a boca com a mão, aguentando um grito.

Notas finais
Próximo capítulo: A condenação do futuro.