O Mágico e os Ladrões de Som
39 O universo infinito e vasto
Clara entrou entusiasmada na TARDIS. Os seus olhos brilhavam como dois sóis escuros e ela estava tão feliz que enterneceu o Doutor – mas ele nunca iria confessar a sua ternura, por uma questão de postura, de personalidade e de teimosia. Havia uma casca dura como diamante e havia um núcleo derretido de lava fervente. E dois corações batiam dentro desse corpo diferente.
O Doutor fechou a porta, decorando-lhe os trejeitos que transpiravam alegria, vida e amor. Sorriu-lhe discretamente e porque sabia que ela não estava a olhar. Viu-a a observar as bandeirinhas vermelhas e amarelas que ainda decoravam a TARDIS. Rodopiou e encarou-o.
— Bem, Doutor… já que temos o enorme privilégio de possuir uma máquina no tempo que é capaz também de se deslocar no espaço, cobrindo várias dimensões ao mesmo tempo, podemos dar um pulinho até Viena, capital da Áustria e ir ver o teu precioso jogo entre a Alemanha e a Espanha, para decidir o campeão europeu de 2008.
Ele respondeu:
— A Espanha ganhou, um a zero. Golo de Fernando Torres.
— Oh… – Clara inclinou a cabeça um pouco para a esquerda. – Já sabias que o resultado iria ser esse. A decoração foi para os vencedores.
— Já sabia, sim – admitiu o Doutor acercando-se da consola da nave. – Foi um jogo muito interessante e teve… alguns percalços. Não foram fungos, nem daleks, mas o balneário alemão conheceu uma certa agitação. Mas não me cabe a mim, nesta regeneração, tratar desse problema. Fica para um “eu” futuro.
— Outra companheira – murmurou ela, com uma pontada de pena.
— Outras aventuras.
Clara afastou o cabelo do rosto com um sacudir de ombros decidido.
— Oh, mas o que verdadeiramente interessa é o que tivemos, Doutor. Milton Keynes foi maravilhoso! E esta nossa aventura terminou muito bem. Derrotámos os fungos avaza, impedimos uma invasão dos daleks, o Joe e o Rob ficaram totalmente curados, os Linkin Park tocaram e o espetáculo vai ficar gravado nos anais da história da música. Literalmente! Afinal foi tudo filmado para a posteridade e o concerto será lançado num DVD. Um amigo meu tinha esse disco e um dia conseguiu convencer-me a ir à sua casa para vê-lo. Lembro-me que, na altura, achei que tivesse sido uma noite inesquecível e que a atuação dos Linkin Park teria ficado na memória de todos aqueles que lá estiveram. Lembro-me de ter desejado estar também nesse concerto e ver a banda ao vivo, para saber como seria ficar com essa sensação para sempre guardada na alma.
— O teu desejo cumpriu-se, Clara Oswald.
— Obrigada, Doutor! Que espetáculo, hum? Conta-me…
— Muito bom – respondeu, lacónico.
— Tu gostaste!
— Gosto de música – admitiu o Doutor, num resmungo.
— Pois claro que gostas de música. E não te esqueças da tua promessa. Os discos dos Linkin Park ao lado da música de Ludwig van Beethoven, na tua discoteca.
— Na próxima paragem. Cumpro sempre as minhas promessas. Afinal, tenho o tempo todo a meu favor. E irei obter todos os discos dos Linkin Park.
— Obter…
— Nunca uso dinheiro. Sabes disso, Clara.
— Oh… certo. Esqueço-me amiúde desse detalhe. E como pensas obter os discos dos Linkin Park?
— Tenho os meus métodos.
Ela passou as mãos pela consola. A TARDIS navegava, algures, pelo universo.
— Um mágico alienígena que viaja numa caixa azul, os fungos ladrões de som e os Linkin Park. Uma aventura perfeita, diria. Ninguém morreu. Só desta vez, toda a gente vive… Um final feliz. – Trocou um breve olhar com o senhor do tempo e percebeu um lampejo invulgar. Cobriu os lábios com os dedos. – Oh, tens essa expressão, Doutor. Alguém vai morrer. Mas não agora… Um deles. Um deles vai morrer mais cedo do que o esperado. Quem?
O Doutor protestou debilmente:
— Clara, por favor…
Ela aproximou-se, agarrou-lhe no braço. Pediu, aflita e impertinente:
— Qual deles? Vai acontecer em breve?
O Doutor respondeu, num tom tranquilo para apaziguá-la:
— Em breve, não. Alguns anos depois de Milton Keynes. A carreira dos teus queridos amigos vai prosseguir e vai ser fulgurante. Os Linkin Park continuarão a ser amados pelos seus admiradores. A sua música viverá para sempre, mesmo quando todos eles se reunirem nesse lugar onde vocês gostam de resguardar as almas humanas. Tão grandes quanto Beethoven!
Ela arriscou o palpite.
— É o Chester… Sei que será o Chester. Ele é demasiado intenso.
O Doutor não a esclareceu.
— Não podemos ir salvá-lo? Tu sabes quando o Chester nos vai deixar. Usamos a TARDIS e…
— Clara, isso não é possível – sentenciou o Doutor, ríspido.
— Por que não? Ah, é um daqueles estúpidos pontos fixos no tempo!
Uma pequena raiva fê-la chorar. Clara limpou as duas lágrimas que lhe molhavam as faces com os dedos, num gesto seco.
— Por que motivo não o vais salvar? São ciúmes! Continuas com ciúmes dele… ele nunca gostou de ti e tu nunca gostaste dele. Velho tonto! Ele tem razão, sabes? És um velho tonto.
— Clara…
— E se fosse eu, Doutor? Se soubesses o dia da minha morte? Não me querias salvar?
— Eu conheço todos os dias da tua morte, Clara. Tens entregado a vida dos teus ecos por mim e sei perfeitamente o que significa perder alguém que amamos, que admiramos e que queremos para sempre connosco. – Colocou as mãos sobre os ombros dela, Clara calou-se. Tinha os olhos húmidos e suplicantes. – O Chester vai ser muito feliz e vai ter uma vida muito boa. Ele sabe que o amam.
— Até ao fim? Vai ter uma vida boa e cheia de amor… até ao fim?
— Cheia de música e de amor. Prometo, Clara Oswald.
— E nunca falhas uma promessa, Doutor…
— Sempre que alguém deixa a vida, esse é um dia triste – declarou ele. – Mas enquanto viveram, todos os seus dias foram instantes bem vividos, de felicidade, de tristeza, de triunfo e derrota, de aprendizagem. De anulação e de brilho. Como as estrelas no universo, entre o esplendor e a escuridão. Há momentos que magoam, que ferem, que destroem. Sim, é verdade. Esses momentos, todavia, devem tornar-nos mais fortes, resilientes e confiantes no nosso valor. Força e fraqueza. O ciclo é perpétuo até que um dia é interrompido.
— Compreendo…, mas não deixa de ser… de certo modo, injusto e irritante. Queria fazer mais e parece que nunca fazemos o suficiente.
— E temos uma máquina do tempo. Podemos ir visitar o teu amigo sempre que quisermos!
— Eu quero…
O Doutor afastou-se, levantando os braços. Resmungou:
— Ora, ora, Clara Oswald… Sigamos para a próxima aventura! Chega de Linkin Park.
Ela observou-o a mexer nos botões da consola, a vigiar no monitor o trajeto da nave. Os fartos sobrolhos carregados, linhas do rosto vincadas numa expressão dura e contrariada. Mostrava toda a sua impaciência e frieza. Aproximou-se devagar, dengosa.
— São definitivamente ciúmes, Doutor.
— Não tenho ciúmes de um rapazinho! Que disparate! – contrapôs ele, indignado. – Sou um senhor do tempo com mais de dois mil anos. Antes de o Chester Charles Bennington saber o que era música já eu tocava a minha guitarra elétrica para entreter os grandes salões de Ichtyalin!
Clara observou-o, divertida com a sua reação exagerada. Tão humano, tão previsível, tão deliciosamente vulnerável. E, de repente, o senhor do tempo com mais de dois mil anos sabia como se chamava o vocalista dos Linkin Park, nome completo, apelido incluído.
— Hum… Ichtyalin? Parece-me um excelente lugar para visitarmos a seguir. Que género de canções se escutam nesses salões? Será música erudita? Será música Rock? Punk? Jazz? Não te estou a ver a tocar música Jazz, embora saibas improvisar muito bem… em qualquer departamento. Será música diferente, sem dúvida.
— Os grandes salões de Ichtyalin foram engolidos por um buraco negro supermassivo. Os sons impossíveis que por lá se escutavam atraíram… convidados indesejados.
— Outros ladrões de som?
O Doutor baixou uma alavanca.
— Mas nós temos uma máquina do tempo…
— E que tal uma visita a um local mais romântico? – sugeriu ele.
Clara sorriu-lhe.
— Mostra-me!
Fale com o autor