Chester andava de um lado para o outro na enfermaria, incapaz de ficar parado. Tinha descansado alguns minutos numa cadeira. Experimentara uma das macas, mas a lembrança das suas estadias no hospital, no passado, fê-lo levantar-se pouco tempo depois. Fora espreitar a tigela dos doces e não encontrara nada que lhe despertasse a gula. E, por fim, entediado com a espera e o ócio, pusera-se a dar voltas pela sala. Confessou que de cada vez que completava uma ronda era diferente, havia mais um detalhe acrescentado, uma peça de mobília, coisas que mudavam de sítio, como se o lugar fosse assombrado. Novidades, alterações, evidentes ou subtis, que era como um jogo. Uma batalha constante com a imaginação. Queixou-se por ser tudo tão intenso, ali dentro.

— Pensava que gostavas dessas cenas malucas – observou Mike a comer uvas, bago a bago. Estava estendido num sofá branco, as pernas trocadas pelos tornozelos, refastelado num monte de almofadas ao melhor estilo de um César. – Aposto que numa sala destas nunca te aborrecias.

— Eu estou aborrecido.

— És difícil de contentar, meu. Estas uvas estão uma delícia.

— Achas que é seguro comer essa comida? – perguntou Dave desconfiado. De braços cruzados, continuava sentado junto à maca onde Brad descansava. O guitarrista tinha as mãos atrás da cabeça, a fixar o teto, com um meio sorriso nos lábios. O baixista ainda não tinha provado nada do que lhes estava a ser oferecido nas bandejas, pratos e tigelas que agora cobriam a mesa numa exibição eclética de diversas iguarias.

— O Chaz continua bem – comentou Brad.

— Claro que é seguro comer o que está nesta sala – disse Mike. – Esta comida fomos nós que a trouxemos para cá, através do nosso pensamento. A nave responde às nossas necessidades, como nos teus livros do pequeno feiticeiro inglês, Dave.

— Eu falei no filme… não foi no livro – resmungou Dave. Aclarou a garganta. – Mesmo assim, prefiro não arriscar.

— Não há nada para arriscar – disse Chester. – A maçã que comi sabia-me igual a uma qualquer maçã da Terra. Porque estas maçãs e essas uvas não são da Terra. Certo, Mike?

— Claro que são da Terra! Não conhecemos outras. Logo, só sabemos pensar em comida à qual estamos habituados. Pela lógica, tudo o que aqui está… é terrestre. Olhem só os chocolates. São todos de marcas conhecidas, idênticas àquelas que nos deixam nos camarins antes de irmos atuar.

— Devia comer um desses chocolates. Mas acho que o açúcar ainda me vai deixar mais agitado.

— Acalma-te, Chazy.

— Estou calmo! E estou também aborrecido.

— Já sabemos, companheiro.

Dave viu Brad sentar-se na maca e descruzou os braços.

— Ei, meu. O que estás a fazer?

— Calminha, Phoenix. As tonturas já me passaram e estou bastante melhor. Estás dispensado do teu cargo de enfermeiro. Mike?

— Queres comer alguma coisa, Brad? Dave, leva uma dessas bandejas ao Brad. Ou queres beber? Deves hidratar-te. Estiveste muito tempo com febre, a suar em abundância e perdeste muitos líquidos. Se não comes, ao menos que bebas uns copos de água. Não penses noutra bebida, nada hidrata mais do que água. Dave, leva-lhe uma garrafa.

— Mike, onde arranjaste essa guitarra?

Dave e Chester sorriram um para o outro.

— Hum… estás definitivamente curado se reparas na guitarra – disse Mike divertido. Mastigou o último bago e engoliu-o. Limpou a boca com o guardanapo que tinha posto sobre o peito para não se sujar, embora fosse impossível alguém sujar-se a comer uvas. – Arranjei-a no viveiro onde estão a ser criados os fungos para a invasão da Terra.

— Merda! Existe um viveiro?! – espantou-se Dave.

— O Chester também esteve lá, nesse viveiro.

— Hum-hum. É um sítio que mete medo, digo-vos já.

Dave serviu um copo enorme de água a Brad que o bebeu com sofreguidão.

— E a guitarra funciona? – perguntou, pedindo ao baixista que lhe voltasse a encher o copo.

— Bem… funcionou. É uma autêntica guitarra elétrica e produz música através da caixa de ressonância e das cordas. Eu e o Doutor estivemos a tocar um Punk básico e os fungos adoraram as ondas sonoras que provocámos. Sim, antes que perguntes, o Doutor também toca alguma coisa e fá-lo muito bem. A minha ideia de lhe fazer o convite para que toque connosco no espetáculo ainda se mantem.

Chester bufou, contrariado.

— Posso experimentar? – pediu Brad, acanhado.

— Claro!

Mike estendeu a guitarra que Brad, vindo a saltitar desde a maca, agarrou com uma delicadeza bonita. O seu sorriso era sincero e vulnerável quando a aconchegou a si, depois de ter passado a correia por cima da cabeça. Os dedos da mão esquerda moveram-se languidamente sobre as cordas do braço, enquanto os da mão direita acariciaram as seis cordas, um por uma, junto aos captadores.

A sua distração foi cortada ao meio quando teve as duas mãos capturadas pelas de Mike. O japonês pediu-lhe:

— Não toques, Brad. Por favor. Os fungos gostam de som e adoram a vibração de um acorde de uma guitarra elétrica. Talvez seja por isso que apareceram nos nossos camarins e infetaram o Joe esta tarde. Compreendes? Iriam usar o nosso som, a nossa música para iniciar a contaminação dos humanos e começaram pelo nosso amigo. E o Joe e o Rob estão ali, com o fungo no seu organismo. O tubo de vidro está a contê-los, dá-lhes algum descanso e impedem que nos façam mal, mas não sei até que ponto os poderá proteger do som.

— Então, Mike! Que idiotice, meu! – E Brad sorriu. – Esta guitarra não vai fazer som nenhum que preste. Não está ligada a nenhum amplificador. Se a tocar, não se vai ouvir nada.

Essa não é uma guitarra normal. Acredita-me. Se a tocares… vai sair som.

— Isto é muito assustador – murmurou Dave.

— Podes crer – concordou Chester. – Podemos estar seguros nesta sala… como podemos estar na maior merda e estejamos a só a enganar-nos a nós mesmos.

Mike voltou-se para eles, largando as mãos do guitarrista.

— Estamos seguros aqui – reforçou num tom de autoridade inquestionável. – Eu faço para que assim seja. Enquanto esperamos pelo Doutor, nada de mal nos irá acontecer aqui. Mas devemos tomar alguns cuidados e não convocar azares desnecessários.

— Obrigado, papá Shinoda. Ei, Dave! Recomeçaste com a mania das cotoveladas, meu?

— Continuas a falar quando não deves, Bennington.

— Ai… Também gostas de ser paizinho, Farrell.

— Quem está cheio de filhos és tu.

— Ah ah.

Chester afastou-se. Parou defronte dos tubos de vidro onde Joe e Rob estavam adormecidos. Observou-os, intrigado, preocupado e curioso, de mãos na cintura. Franziu a testa ao semicerrar os olhos, esticou os lábios, passou a língua pelos dentes.

— Podia usar a minha voz… talvez os curasse.

— O Doutor disse que o fungo aprendeu a gostar da tua voz – lembrou Brad.

— Chaz, não faças nada. Eles estão bem – disse Mike.

— Vou experimentar.

— Chaz, talvez não seja necessário – completou Dave.

Ele não ligou aos conselhos dos amigos. Encheu a caixa torácica de ar. Uma inspiração bastante profunda. Preparou o diafragma. Concentrou-se. Abriu a boca e gritou. Um daqueles gritos poderosos, viscerais, intensos, prolongados, capazes de criar tremores de terra e de afastar nuvens altas.

O vidro dos tubos começou a rachar.

— Chaz! Para! – pediu Mike, estendendo um braço.

Os capacetes verdes que se agarravam ao crânio de Joe e de Rob escureceram, encolheram e caíram. Tal como já tinha acontecido quando Chester gritara pela primeira vez. No entanto, os hospedeiros reagiram de forma diferente. Os seus olhos abriram-se desmesuradamente. Dave e Mike saltaram assustados ao reparar nas íris e nas pupilas de Joe e de Rob de um verde intenso e perigoso. Brad alcançou Chester e puxou-o pela blusa.

— Sai daí!

— Eles despertaram…

Com dois murros, tanto Joe como Rob quebraram o vidro e soltaram-se da sua prisão tubular. Sorriram diabolicamente e estenderam os braços na direção dos quatro rapazes, que estavam paralisados de surpresa e de medo.

— Faz qualquer coisa, Mike! Vai para aquela consola com os botões! – pediu Dave histérico.

— Posso… posso tentar. Mas têm de os distrair. Eles estão diferentes. O grito do Chaz fez-lhes qualquer coisa que os tornou mais agressivos.

— Ei, Joe! Sou eu. Sou o Chazy!

— Rob, companheiro. Consegues reconhecer-me? Olha, estou com uma guitarra – apontou Brad a tremer.

— Não tentem ser razoáveis com eles. Estão dominados pelos fungos – avisou Mike.

Dave agitou os braços para lhes chamar a atenção.

— Por aqui! Por aqui!

— Não queria fazer isto. Queria ajudá-los!

— Nós sabemos, Chaz. Acalma-te!

— Porra, Mike! Sou muito culpado e estou a sentir-me mal.

— Não percas o sangue frio. Acalma-te! Brad, agarra no Chaz.

— Chaz!

— Larga-me, Brad. Se querem infetar alguém, venham por mim. Deixem o Dave! Eu é que provoquei esta merda.

— Por aqui! – insistia Dave. – Por aqui! Venham atrás de mim! Vá, seus fungos merdosos. Vejam se me conseguem apanhar!

Ergueu os punhos e preparou-se para se defender ao murro se os dois infetados se tornassem mais insistentes e violentos. Mike já se tinha agarrado à mesa e navegava apressado pelo menu, deslizando o dedo indicador pelo ecrã tátil. Chester urrava, com Brad a segurá-lo com um braço que lhe passava pela cintura. Joe e Rob avançavam lentamente, persistentemente, com aqueles olhos verdes fixos em Dave que agitava os braços junto à cara, numa pose de pugilista.

Nisto, as luzes da sala apagaram-se. Ficou uma escuridão total.

— Mike!!!

E depois deste grito amedrontado de Chester, caiu o silêncio.

Notas finais
Próximo capítulo: O primeiro contra-ataque.