Clara queria gritar, mas ao mesmo tempo o horror que experimentava era tão grande que o grito não se soltava da garganta, fazendo que lhe doesse, como se estivesse com gripe.

A sua visão foi tapada por um sujeito de barba, com traços orientais e pálido como um lençol.

— Quem é ela? O que faz aqui? Pedimos um médico! Não precisamos do serviço de urgências completo.

— Ela é a minha companheira… assistente… em medicina – informou o Doutor, a voz rouca e autoritária. Mas também vaga e curiosa, pois se Clara tinha deixado de ver, ele continuava de frente para o que estava a acontecer.

— Mike – pediu um segundo sujeito, ruivo e também de barba que se aproximou e pousava uma mão no ombro do primeiro sujeito –, Mike, por favor, eles são os profissionais, deixa-os… trabalhar. Deixa-os que façam os seus diagnósticos e depois…

— Dave, eu só estou a controlar os danos – respondeu o primeiro sujeito, irredutível.

A porta estava aberta, ouviam-se os gritos do exterior cada vez mais excitados, o clamor que exigia a banda e o início do concerto. Clara continuava petrificada na mesma posição, barrada pelos dois homens que a interpelavam em modos diferentes – ameaçador e condescendente. Estava tão assustada e perplexa que nem se apercebeu que tinha, frente a si, Mike Shinoda e Dave Farrell, Phoenix por alcunha, da banda Linkin Park. O vocalista e fundador, o baixista.

Um terceiro sujeito, o mais alto de todos eles, veio com pezinhos de lã e fechou a porta atrás dela.

— Se é para não haver testemunhas, vamos continuar… discretos – disse Rob Bourdon, o baterista. Perguntou à Clara: – Estás bem, querida? Queres um copo de água?

Mike abriu os braços e avisou, histérico, no mesmo tom de menina que sucedia usar quando lhe partiam um dos seus vasos orientais:

— Ninguém bebe água nenhuma ou come o que quer que seja até se descobrir o que causou aquilo! Doutor?! Doutor, precisamos que nos digas o que é que se está a passar aqui. – E voltou-se para trás.

— Ele é um doutor? Não está vestido como um médico… Parece um mágico – apontou Rob.

— Um mágico? – estranhou Dave.

— Sim… topa só o casaco.

— Chiu. Não lances mais confusão.

— Só estava…

— Chiu, Rob!

O Doutor sacou da sua chave de fendas sónica. Hesitou em ligá-la. Fazia uma prévia avaliação com os seus sentidos primeiro. Cheirando, ouvindo, sentindo, olhando, com as sobrancelhas a se crisparem, inquietas, por cima dos seus olhos azuis atentos.

Clara desviou-se da barragem formada por Mike e Dave e voltou a ver o que a deixara tão espantada.

No centro daquela sala, sobre um tapete que se encarquilhava de tão ressequido, como se tivesse sido sujeito a uma temperatura demasiado elevada, estava o disc-jockey dos Linkin Park, Joe Hahn, imóvel, num estupor de estátua inerte. Uma autêntica estátua. Nada se mexia nele, nem mesmo as pálpebras no pestanejar necessário e periódico para que os olhos se humedecessem, nem um ligeiro tremor nos dedos ou um leve agitar dos músculos da perna, ou o palpitar da jugular no pescoço. Parecia que estava tudo normal com ele, congelado numa posição fixa de fotografia tridimensional, a não ser pela gosma verde que lhe cobria os cabelos e que escorria em grossas gotas pela cabeça abaixo. O deslizamento dessa matéria viscosa estava suspenso, numa lentidão programada, a aguardar o gatilho para continuar a contaminação, a apropriação total do corpo que escolhera para se desenvolver.

— O que é que ele tem, doutor? – perguntou um quarto sujeito de cabeleira farta e encaracolada, uma barba igualmente farfalhuda. Clara reconheceu Brad Delson, o guitarrista principal. Enfiava as mãos nos bolsos e era assim que disfarçava a sua apreensão, pois tinha os braços a tremer. Demonstrava mais medo do que os outros. – Encontrámos o Joe assim… Irresponsivo e com essa… coisa na cabeça. Que coisa verde é essa? Ele tinha uma garrafa de água na mão… Tirámo-la e foi a única prova do crime, do… eh… do acontecimento em que mexemos. O cenário está intocado, a não ser a garrafa que mudámos de lugar. Por isso não devemos beber água, pode ter sido da água. Pensámos em bolor e…

— Ninguém fica em coma por causa de bolor! – gritou o quinto sujeito, irritado.

Clara viu, por fim, Chester Bennington, o temperamental vocalista da banda, que se refugiava num canto, em estado de pânico. Estava suado, corado e transtornado.

— Não sabemos se ele está realmente em coma…

— Cala-te, Delson! Ele não dá sinal de nos ver, de estar aqui sequer. Falamos com ele e não nos ouve. Dei-lhe um beliscão e ele nem gemeu. Aliás, fui o único que lhe tocou. Se calhar, já apanhei a mesma doença. Vocês sabem como a minha saúde é frágil. Merda…

— Se ele está em coma, como é que se aguenta de pé? As pessoas em coma estão deitadas, segundo sei…

— Como é que queres que eu saiba, porra?! – esbravejou Chester. – Não sou médico! Não chamámos um médico para…

— Vamos lá a acalmar, parecemos uma cambada de loucos! – pediu Dave falando por cima dos berros do vocalista. Brad recuou e encolheu-se. – O médico já chegou e vai ajudar-nos.

— É melhor que se despache com o diagnóstico – disse Rob, calmo. Demasiado até para aquele cenário em que os nervos de todos estavam claramente à flor da pele. – Temos um espetáculo para dar. Já devíamos estar no palco, a esta hora…

— Ah! – indignou-se Chester. – A tua preocupação é com o espetáculo?! Defines muito bem as tuas prioridades, Bourdon! O Joe está ali a morrer e tu só queres ir tocar?

O baterista abanou suavemente a cabeça

— Ele não está a morrer, Chaz.

— Como é que sabes, hum? Como é que sabes?

— Não sei, é verdade. Não sei. – Vincou as sílabas, quando disse aquilo. Estava a tentar serenar os ânimos, mas naquele ambiente quente e exaltado soava como uma provocação. – Sei, contudo, que estou a escutar os gritos dos nossos fãs e eles querem ver-nos e ouvir-nos. Não coloco o espetáculo à frente da saúde do nosso amigo, mas é um facto que teremos de ir tocar, neste dia, mais cedo ou mais tarde.

— Os fãs podem ir…

— Cala-te, Chester. Por favor! – pediu Mike a agitar as mãos.

— Doutor – murmurou Clara.

O Doutor ligou a chave de fendas. Escutou-se a habitual vibração sonora que indicava que a útil ferramenta estava a funcionar e pronta para responder ao comando indicado pelo código inserido no seu mecanismo tecnologicamente avançado.

E quando o som surgiu no breve silêncio, a gosma verde tremeu e moveu-se. Uma gota grossa formou-se numa bolha e deslizou para a testa de Joe.

— Não !! – gritou Chester, vendo aquilo. – Não, a coisa está a avançar! Está a ficar pior, está a ficar incontrolável.

O Doutor empalideceu, a sua tez igualou a de Mike.

— Doutor?! – pediu o japonês.

O Doutor desligou a chave de fendas imediatamente. Recuou um passo, enquanto a guardava no bolso interior do seu casaco.

— Clara?

— Sim, Doutor?

— Não há nada que possa fazer aqui. Minutos para a meia-noite, não é?... A Humanidade vai conhecer o seu fim. A epidemia começou. Vamos embora.

Clara não queria crer no que estava a ouvir. O Doutor… sem uma solução? Olhou para Mike. Viu Chester no seu canto, Dave e Brad expectantes, Rob curioso. Joe no centro de tudo, alheio ao que se estava a passar. O Doutor… sem esperança?

E de alguma maneira ela conseguira recordar o nome deles todos!

— Não podemos ir embora – protestou. – Não os podemos deixar sozinhos com este problema que está claramente fora do seu controlo e do seu engenho para resolver. É uma doença, não é? Falaste em epidemia… Então, deverá existir uma forma de combater esta… esta bactéria, vírus, criatura, o que seja… Doutor? Doutor!

Mas o Doutor já tinha aberto a porta e saído do camarim.

Notas finais
Próximo capítulo: Os inocentes descartados.