O Lugar Dos Semideuses
1 Apresentações e descobertas - Julie I
Notas iniciais
A história que eu vou contar para vocês poderia ser normal. Seria uma história de aventuras, amizades, coragem... Porém eu sou uma coisa que nem todos são. Eu tenho um atributo que me torna uma pessoa especial, ou não.
Meu nome é Julie Primary.
Se me perguntassem se eu queria ser um meio-sangue, é claro que minha resposta seria não. “Ser um meio-sangue é perigoso, assustador” — já ouvi essa frase em algum lugar.
Os meus problemas eram variados. Minha própria vida era um problema. Eu não deveria estar viva – é o que eu passei a ouvir quando cheguei a um tal acampamento.
Eu poderia ter um dia normal, mas lembrei que eu nunca tive dias normais, portanto, não seria aquele o primeiro.
Eu estudava de manhã, tinha de chegar no colégio as 7 horas da manhã, e para isso, eu acordava as 5:30. Eu não fazia questão de me arrumar ou me pintar, como as outras garotas, mas tinha de acordar cedo demais para pegar um ônibus caótico, já que minha mãe não tivera condições para pagar uma condução particular.
Quando eu abri os olhos, eram 6:40. Eu tinha apenas 20 minutos para me trocar, pegar o ônibus e chegar no colégio – o que era impossível.
Minha mãe estava sentada no sofá da nossa pequena sala. Seus olhos estavam nervosos, como se ela soubesse que algo estranho fosse acontecer. Ela sussurrou algo sobre atraso e advertências escolares, mas não prestei muita atenção. Peguei minha mochila e me opus ao destino.
Seu pudesse escolher entre ficar em casa, eu escolheria. Na verdade, se eu soubesse que sair de casa seria o meu maior erro, não teria o cometido. Mas também haviam me dito que aquilo iria me pegar de uma forma ou outra. Não havia mais como me esconder.
O cheiro de incenso de morango estava forte quando eu saí de casa. Minha mãe sempre acendia um desses, talvez para se acalmar – como eu estava errada pensando isso.
Como sempre, o ônibus demorou séculos para chegar ao ponto. Dei uma olhada no relógio, e não gostei do resultado. Faltavam 5 minutos para as aulas começaram, e eu ainda não tinha pegado o ônibus.
Do outro lado da rua, um casal mais ou menos da minha idade estava me observando. Quando perceberam que eu também estava olhando, mudaram a direção do olhar. Mas eu sabia que eles estavam me observando.
A garota devia ser mais nova que eu. Seus cabelos eram ruivos e sua pele era muito branca. Ela usava um rabo de cavalo para disfarçar alguns arranhões no rosto.
O menino era bem mais alto. Com certeza era mais velho. Ele era bem loiro, e tinha algumas sardas. Ele tinha uma costeleta bem grossa nas bochechas, como se quisesse passar por um adulto. Seu olho estava baixo, como se não dormisse a dias.
Ambos usavam um casaco laranja, pois fazia muito frio. Porém o mais estranho era o casaco. Eu nunca havia visto uma escola dessas, com um uniforme desses. No centro da blusa estava escrito algo como “Acampamento Meio Sangue”. O símbolo era de um homem-cavalo, com um arco e flecha na mão.
Eles me olhavam nervosos. Como se eu fosse uma fugitiva internacionalmente procurada. O menino sussurrou algo no ouvido da garota, que eu incrivelmente escutei: “Será que é ela?”
Eles estavam falando de mim. E eu odiava que falassem de mim. Cerrei os punhos e perdi o controle. Atravessei a rua sem olhar para os dois lados. Eu tinha que saber por que eles comentavam de mim.
Quando cheguei na metade da rua, um caminhão vinha em minha direção velozmente. Eu não teria como escapar. Eu paralisei. Fechei os olhos, e cada vez que abria, o caminhão ficava mais perto.
O garoto pulou para perto de mim, numa velocidade extrema. A menina veio logo atrás. Ele me segurou pela mão enquanto a garota levitou o caminhão para o alto. A partir daí e só conseguia ver vultos.
Quando o garoto me pôs no chão, eu passei mal. Logo depois desmaiei.
Quando voltei ao normal, a menina estava me dando algo para beber, que tinha um aroma surpreendente de morango. O garoto estava de pé, nos rondando. Segurava uma espada para frente, com se estivesse fazendo vigília.
A menina arregalou seus grandes olhos verdes para mim, como se quisesse analisar cada um dos meus traços. Ela sorriu para mim e disse:
–Está tudo bem. Nós somos amigos agora.
Eu precisava entender muita coisa. Primeiramente, como aquele caminhão não havia me atropelado. Depois, como aquele menino conseguiu me agarrar e me puxar a uma velocidade extrema. E por último, como a menina levantou aquele caminhão.
Eram questões que eu poderia deixar para trás e voltar para minha casa. Mas os meus piores problemas ainda estavam por vir.
Eu olhei para as minhas mãos, estavam sujas e raladas. O menino retardou o desastre do atropelamento, mas isso custou um pouco das minhas mãos.
Ainda não podia falar direito. Minha boca estava doída. Eu apenas me levantei com a ajuda da menina e tentei pronunciar palavras, que não faziam sentido.
–Calma – Disse a menina – Coma essa deliciosa ambrósia primeiro, e depois fale.
Eu não sabia do que ela estava falando. Apenas peguei o alimento e degustei. Ele parecia um mini pudim, e acredite, se eu pudesse, ficaria ali comendo isso o tempo todo.
Ela olhou para mim, novamente ficou me analisando. Parecia que queria buscar respostas dentro de mim. Mas eu não sabia o que estava acontecendo.
O menino chegou perto de mim. Meu coração acelerou. Ele largou a espada e me tranquilizou:
– Acalme-se. Nós somos seus amigos. Eu me chamo Brunno. Brunno Alph. Prazer. Não coma muita ambrósia, ela pode te queimar. Queimar por dentro.
Eu senti o nervosismo em suas palavras. Era como se ele estivesse do lado de um monstro. Era como se eu fosse uma ameaça (e eu era mesmo).
Os olhos de Brunno eram extremamente cinzas, como se não houvesse íris. Ele tentou me lançar um olhar calmo, porém só piorou as coisas.
A menina o empurrou. Resmungou dizendo que ele não servia para tranquilizar as pessoas. Olhou para mim e me enfeitiçou:
– Olá! Eu sou Megan Leading. – os olhos verdes penetraram em minha mente. – Vou explicar tudo o que está acontecendo aqui.
Ela se levantou. Brunno fez a mesma coisa. Os dois deram as mãos e pronunciaram:
– Sfaíra ti̱s sképsi̱s. – eu obviamente não entendi o que eles disseram.
Depois de pronunciar, ela me segurou forte pelo braço e me jogou “delicadamente” no chão. Seus olhos verdes agora eram vermelhos. Grandes esferas vermelhas flutuavam acima da minha cabeça. Eu entrei em transe. Megan estava me hipnotizando. Magicamente palavras foram saindo da mente de Megan e entrando na minha. Ela não falou nada, porém eu ouvi dentro de mim:
– Fique calma. Eu estou te ajudando. Você vai ficar bem.
Depois que tudo foi transferido, eu apaguei novamente. Devo ter dormido por cinco minutos, pois quando acordei, eles estavam na mesma posição. Megan olhou para mim e disse:
– Como está, Julie? Consegue entender tudo agora?
Como era mágico o que veio em minha mente. Megan transferiu para mim tudo o que ela sabia. Ela me hipnotizou para entender o que eu era. Mas parte do feitiço dela não me afetou. Na minha mente, eu ainda estava confusa.
– “Você é um meio-sangue. Filho de uma divindade com um mortal. Todos os seus problemas vinham desse fato. Sua mãe acendia incensos de morango para disfarçar seu cheiro, para que outros monstros não a encontrassem. Você, todos os dias, era perseguida por um monstro. Até que nós recebemos uma difícil missão de te encontrar, para formar nossa própria legião.” – dizia a voz de Megan em minha cabeça.
Será mesmo que aquilo tudo era verdade? Será que minha mãe mentiu quando disse que meu pai havia morrido? Eu agora estava mais confusa ainda.
Megan não queria me dizer que eu era um meio-sangue, e sim para eu entender tudo sobre o que eu era. Logo após a hipnose, eu entendi o que aquilo significava:
– Sfaíra ti̱s sképsi̱s. = Esfera de pensamento.
Tudo para mim havia se clareado. Mas eu ainda deveria desvendar muitos mistérios...
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