O Lorde das Rosas
3 O Tutor: mistério e perfume
Lorde e Lady Kieran sentaram-se lado a lado na enorme mesa de madeira, posta com pratos e mais pratos de porcelanato delicado. Luzes de velas iluminavam seus rostos naquela noite que começava a dar as caras em Collins. Lady Evayne sentava-se na ponta de trás, de costas para a lareira, enquanto uma moça na meia idade, de bochechas gorduchas e rosadas, se sentava ao lado dela.
Remsy anunciou quando Eugênio entrou e indicou para ele a cadeira ao lado da tia, deixando vago o lugar na ponta da frente, onde outrora sentou-se o conde. O rapaz foi recebido com olhares curiosos e estupefatos, envoltos em palavras não ditas de surpresa e orgulho ferido. Para alguns ali — bem como para a maioria dos habitantes de Collins — José Eugênio era a primeira pessoa negra que haviam visto em vida.
Nada disseram, talvez pela surpresa, talvez por terem ficado sem palavras, talvez pela etiqueta inglesa. Eugênio desejou boa noite, sentou-se e se calou, levemente nervoso e ansioso pelos olhares vorazes que perfuram sua carne, observando cada ato seu com uma curiosidade nociva e irritante. Ele se sentia um animal exótico num zoológico.
O primeiro prato foi servido com o silêncio mantido pelo rapaz, tentando desdobrar sua timidez e fazer um ou outro comentário pertinente quando lhe era requisitado; Lady Evayne e Lorde Kieran conversavam sobre assuntos triviais, como o tempo, as plantações, as flores. Havia, naquela mesa, aquela continua e estranha sensação, quando se está no meio de pessoas que já se conheciam, e parece que elas têm vontade de falar sobre alguma coisa específica, mas não o fazem em virtude da sua presença.
O segundo prato foi servido e os ânimos resolvidos. Enquanto a tia conversava com Lorde Kieran, um homem mais velho e grisalho, e sua esposa, com uma aparência levemente jovial para a própria idade, Eugênio passou a conversar com a moça, Cassandra Kieran, afilhada de Lady Evayne e filha dos Kieran.
— Wingslayer não é tão longe de Gardenhall — ela disse, em determinado momento, munida de uma doçura perspicaz e uma excitação pela curiosidade — Devia ir ver e conhecer o rio Fourends — afirmou, sorridente — Sem falar, é claro, que só em Wingslayer há o espetáculo de primavera das árvores de monarcas. Borboletas migram de todos os lados e cobrem florestas inteiras com sua vasta gama de cores — disse.
— Eu já vi algo assim, mas no Caribe — Eugênio afirmou — Foi numa das ilhas que passei antes de vir para Collins... Chamavam de Ilha Papillon — Cassandra comeu um pouco do assado e sorriu.
— Papillon? É borboleta em francês, não? — questionou.
— Exato — ele respondeu — A ilha era uma colônia francesa.
— Franceses são terríveis — Lady Evayne interrompeu, em certo momento, com um tom de deboche e zomba — seu tio não confiava em nenhum. Nunca fez negócio com eles. A mera desconfiança da origem franca o fazia recuar nos negócios. Só conseguia aturar Catharine di Coucou, por ser uma velha amiga da família — enquanto os convidados riam, Lady Macbeth se aproximou do sobrinho e sussurrou em seu ouvido — Evite falar de suas viagens... Ainda mais para lugares insalubres. Não quero que os convidados pensem que você pôde ter pego alguma anomalia tropical — e sorriu para Lorde Kieran, como se não tivesse lhe ocorrido nada. Eugênio engoliu seco e se calou.
Durante todo o restante do jantar, Eugênio foi alvo dos olhares alpinos da tia, sempre atenta e crítica, como um gavião observando cada movimento de uma lebre, aguardando pacientemente o momento exato para mergulhar no chão e sobrevoar com uma presa em suas garras. Cultivando uma passivo-agressividade marcante, Lady Macbeth se manteve em silêncio quanto a todos os deslizes de etiqueta do sobrinho, fazendo anotações mentais que seriam cobradas em outro momento mais oportuno.
Quando, mais tarde, os Kieran deixaram Gardenhall, sob promessa de retorno e animados convites à Eugênio, Lady Evayne convocou o sobrinho à biblioteca antes que se deitasse.
— Remsy, peça que a sra. Swan faça um pouco de chá com biscoitos, por favor — ela disse, entregando alguns papeis para o mordomo, quando Eugênio entrou na biblioteca sem bater — E você... Não bate antes de entrar?
— Sinto muito, tia — ele disse, meio desconfiado e envergonhado, se aproximando e se sentando numa poltrona ao lado da dela, sob a luz incandescente de algumas velas sobrepostas em um candelabro de prata.
— O jantar de hoje não foi só um jantar — ela disse, por fim, após alguns segundos de silêncio, enquanto folheava alguns papéis — Foi também um teste. Queria saber o nível de sua educação, sua etiqueta e sua habilidade social — afirmou, sem tirar os olhos das anotações — Bem, não foi tão ruim quanto imaginei que seria, mas ainda assim deixou a desejar. Certas atitudes, as pequenas atitudes e os pequenos detalhes, escondidos em falhas corriqueiras e banais, é lá que reside o que diferencia um homem comum de um Lorde. Um Lorde não pode se permitir errar...
Eugênio ouvia tudo atentamente, não se permitindo questionar as palavras quase que ditatoriais da tia — que, por mais assustadoras que fossem, ainda resguardavam grande preocupação.
— E, quando errar, deve fazer o possível para minimizar os resultados em prejuízo — afirmou, confiante. O ar das palavras da tia era inspirador — Enfim, acabo de enviar uma carta à London Street Academy, logo mais seu tutor deve chegar. Um dos melhores de toda Grã-Bretanha, foi o que eu exigi. Infelizmente Sr. Klaus Montague não leciona mais, pois seria ideal. Foi o professor de seu pai. Um homem exemplar! — ela suspirou, e ajeitou os óculos sobre o nariz — Está muito calado.
— Desculpe.
— Pelo que?
— Por não ser o Lorde que você esperava que eu fosse — por mais que ele não quisesse, suas palavras saíram num tom mais hostil que o normal. Havia certo amargor nos olhos de Eugênio, como uma mágoa que vinha guardando consigo há muito sem ser mitigada. Lady Evayne conseguiu enxergar cada detalhe daquele sentimento (E soube melhor ainda como reagir a partir dele). Sorriu e deixou os papéis de lado.
— Não me arrependo de ter enviado a carta pedindo que viesse à Gardenhall, se é o que está tentando insinuar — ela afirmou, por fim, com um olhar confiante. Eugênio suspirou — Sim, de fato, talvez nem seu saiba o porquê fiz o que fiz, mas não me arrependo. Gardenhall não pode se sustentar por muito mais tempo sem você aqui. Essa abadia é sua desde que nasceu, José Eugênio, só deixaria de ser se você tivesse morrido... e então seria herdada por algum idiota qualquer — ela disse, com um sorriso sagaz, nem um pouco maternal, mas visceralmente preocupado — Não me ocorre que seja brasileiro ou negro... ou o que for. Essa casa precisa de um Lorde. E esse Lorde é você... Quer dizer, ainda não é, mas será.
— Pode não ocorrer a você, mas ocorre a mim... e a todos os outros.
— O que? Acha que não percebo como as pessoas lhe tratam? — ela riu — Sabe a única parte boa disso? Sim, você sabe! Pois você é mais inteligente que a maioria — ela sorriu devassamente, como uma velhinha diabólica — A melhor parte é que, eles gostando ou não, a lei desse país está do seu lado... E você, um dia, vai ser mais importante que qualquer pessoa que cruzar seu caminho em Gardenhall, talvez até em Devon. O Lorde das Rosas. É isso que você será... Mas você sabe que não está pronto. Não ainda — ela se aproximou e tocou no ombro do sobrinho — É seu primeiro dia aqui, rapaz, não se dê por vencido por antecedência. Garanto que a volta por cima vai fazer valer cada passo nesse caminho tortuoso.
Eugênio forçou um sorriso e concordou, mesmo que seu coração estivesse levemente assustado e desmotivado diante de tantas obrigações, tantos medos e inseguranças. Lady Evayne sorriu e voltou aos seus papéis.
— Lorde Kieran falou bem de você. Faço gosto pela sua amizade com Cassandra, minha afilhada, já que frequentarão o mesmo círculo social — Lady Evayne disse, mudando de assunto bruscamente — Mas, por óbvio, os Kieran não são os únicos que você deverá conhecer. Foram só os mais fáceis — afirmou, com um sorriso debochado. Eugênio engoliu seco — Já planejo um pequeno-almoço com Lady Bellemont para a terça, ela tem trigêmeos na sua faixa de idade, inclusive, rapazes irritantes, mas podem vir a se tornar seus amigos. Depois os Brackenwill, os Bates e, é claro, os Ravensword. Agradeça que estou pensando primeiro nas amizades com filhos para que você não fique completamente deslocado nas conversas... — ela suspirou — Mas não poderemos evitar Lorde Moorebunch por muito tempo... É um velho solitário, que vive numa casa velha e decadente, mas que merece todo o nosso respeito e cuidado... Lorde Scarland ainda está de luto em Yorkshire, então não precisamos nos preocupar com ele por enquanto — ela afirmou, pensativa — E o que achou de Archie?
— Ele é muito zeloso — Eugênio afirmou.
— Ele comentou discretamente comigo que você carecia de algumas roupas novas. Estava corado como uma maçã de ter de me dizer que, bem, certas roupas que você tinha eram curtas demais — Lady Evayne suspirou. Remsy entrou carregando uma bandeja com um bule e xícaras — Na hora certa, Remsy, me poupou de dizer mais indiscrições — afirmou, enquanto o mordomo lhe servia um pouco do chá. O vapor aromático sobrevoava da xícara e se espalhava pelo quarto.
Remsy tentou servir uma xícara à Eugênio, mas ele recusou sumariamente.
— Não gosto de chá, mas obrigado — e sorriu, inocente como uma criança. Lady Evayne e seu mordomo o encararam como se ele tivesse dito que gostava de escalpelar filhotinhos como passa tempo. Eugênio engoliu seco — Disse alguma coisa errada?
— Errada não, mas extremamente ofensiva quando se fala à um britânico — ela respondeu, com um olhar desgostoso enquanto bebericava do chá — Não gostar de chá? Isso sim é algo que, por mim, impediria que você reclame seu título — afirmou. Eugênio riu baixinho e bocejou involuntariamente. A tia o observou — Vá. Descanse. Teremos muito trabalho amanhã e em todos os próximos dias... Não pense que pegarei leve com você, rapazinho. E lembre-se: qualquer homem pode ser o Lorde das Rosas... Mas o Lorde das Rosas não pode ser qualquer homem — Eugênio sorriu.
— E qual a diferença?
— Com o tempo vai descobrir.
Como Lady Evayne havia informado, no outro dia Eugênio se encontrou com Lady Bellemont e seus trigêmeos para o pequeno almoço no coreto do jardim do labirinto. A mulher era esguia, de feições bruxescas e olhares felinos sagazes, com cabelos tão escuros quanto carvão. Os filhos herdaram da mãe a pele pálida como giz e as feições esguias, mas tinham um certo charme decadente — que ouviu alguém segredar na cozinha, ter advindo do Lorde Bellemont, que era um homem bastante elegante, mas sem nenhuma fortuna, o que o obrigou a casar por interesse com a Lady.
Apesar da aparência apática e fria, Lady Bellemont foi gentil e educada na maior parte dos momentos — todavia, em determinado instante que a tia teve de se ausentar da mesa para resolver problemas na abadia, Eugênio sentiu que a frígida senhora passara a lhe tratar de uma maneira completamente diferente, menos cordial e mais passivo-agressiva, como se sufocasse um ódio dentro de si que muito lutava para dar o ar de sua graça. Os trigêmeos se mantiveram calados do começo ao fim do pequeno almoço, encarando Eugênio como se ele fosse um objeto de curiosidade.
Quando a tia regressou à mesa, Lady Bellemont tratou Eugênio com a maior das solicitudes e amabilidades, com sorrisos frígidos e falsificados sob um rosto petrificado numa alegria e simpatia fingidas, tentando apaziguar toda raiva que cultivava sem motivo aparente pelo jovem rapaz — lê-se, aparente, pois o fato que a levava a odiar era óbvio, mas José Eugênio preferia acreditar em suposições menos dolorosas, afim de não acabar surtando por antecedência. Uma lady pálida e suas três cópias não poderiam ser aquilo que o faria perder a compostura.
À tarde uma carta chegou à Gardenhall, vinda da London Street Academy. Exaltada em animação, a tia convocou o sobrinho à biblioteca para informar as novidades: um tutor estava a caminho de Devon para prestar serviços à família Evayne naquele exato instante. Eugênio não conseguiu forçar a alegria por voltar a ter de conviver com algum velho branco, entediante, narcisista e exageradamente acadêmico, que trataria todos mais jovens e menos experientes — ou, ainda, que não disponham da mesma pele alva — como burros e imbecis irremediáveis, como por anos teve que aguentar na Academia Santa Bárbara de Salvador, sendo vítima constante de perseguição por seus tutores amargos e demagogos. A situação, contudo, tinha uma perspectiva pior: seu tutor inglês seria um velho branco, narcisista e demagogo em tempo integral, todos os momentos de seus dias lhe perseguindo, fazendo comentários amargos e disfarçando preconceitos em palavras difíceis.
As estratégias para disseminar preconceitos divergem de pessoa para pessoa: senhoras fingem amizade e contentamento, senhores disfarçam as próprias injurias em explicações datadas em academicismo e palavras complicadas... E burros, simplesmente, se acometem de ódio descarado.
Lady Evayne percebeu o dessabor no olhar do sobrinho, mas se fez de indiferente, acreditando se tratar apenas de corpo mole com a perspectiva de voltar a ter de estudar.
— Também já contratei uma professora de etiqueta — afirmou, com um sorriso de deboche, achando que assim perturbaria ainda mais o sobrinho (E se divertindo com essa ideia) — Catharine di Coucou, como disse ontem, uma velha amiga da família — afirmou, sorridente — É uma dama de excelente classe e modos, dignos de uma lady, mesmo que seja só uma atriz decadente.
Eugênio suspirou, mas nada disse, continuou sentado, em silêncio, ouvindo a tia.
— Toca algum instrumento? Pinta ou desenha? Escreve? — ela questionou.
— Faço um pouco de tudo — afirmou — toco a viola — Lady Evayne revirou os olhos.
— Não toca mais — respondeu — Aprenderá um instrumento digno de sua família... Talvez o piano. Seu tio era um excelente pianista! O chamavam de “piano floreado” — ela sorriu e deixou sua mente embarcar em recordações — A veia artística é, de fato, característica dos Evayne. Seu pai era um excelente poeta... Pena que usava de suas habilidades para galanteios e flertes libertinos... Seu avô pintou a maioria dos quadros nesta Abadia e sua avó era uma cantora tão sublime que foi convidada a se apresentar para o rei quando mais jovem... — ela suspirou — E, bem, eu não fico tão distante. Sou um pouco comedida, mas canto como um rouxinol — o orgulho e o amor próprio de Lady Evayne tinham um certo ar cômico que divertiram Eugênio.
— Acho que está tudo muito bem encaminhado... A partir de amanhã já daremos início, de fato, a sua caminhada rumo ao posto de Lorde — ela completou após uma pausa silenciosa — Seu tutor deve chegar ainda hoje, se tiver tomado o trem ainda essa manhã.
— Tão cedo? Achei que ainda precisava resolver assuntos mais triviais e... não sei, detalhes para então assumir as aulas... — ele disse, por fim. Lady Evayne riu, se levantou e deu alguns rapinhas no ombro do sobrinho.
— Pensou que seria fácil, não? Nunca disse que seria — afirmou, caminhando em direção a porta — Aproveite que tem a tarde hoje livre. Depois disso não saberemos o quanto de tempo você vai dispor — e riu, sem olhar para Eugênio — Vá conhecer Collins. Leve Archie com você, caso ele não esteja muito ocupado.
Archie estava, definitivamente, ocupado, mas com muita insistência foi arrastado por Eugênio como sua companhia e guia na cidadezinha interiorana de Collins. Não havia muito o que se admirar ou conhecer; era uma cidade comum, igual a todas as outras em Devon. Haviam lojinhas de coisas caseiras, como pães e carnes, uma única mercearia, uma paróquia anglicana, muitos pomares, muitas plantações e muitas casas grandes e nobres — nenhuma, todavia, tão grandiosa ou poderosa quanto Gardenhall. Passaram por Lumesfera, residência dos Bellemont — e Eugênio agradeceu por não ser visto por Lady Bellemont enquanto por lá atravessaram, viram, contudo, um dos trigêmeos sentado sob a sombra de uma árvore do jardim —, por Stearby, uma mansão decadente e mal cuidada, onde vivia Lorde Moorebunch, sozinho, com exceção de dois criados, e a abadia de Thornheart, uma residência quase tão sublime quanto Gardenhall, fechada em razão do luto de seu Lorde, Gilles Scarland.
No centro da cidade, meio a tantas pessoas desconhecidas, Eugênio se sentia literalmente observado e constrangedoramente vigiado. A mesma sensação que teve durante o jantar com os Kieran e durante o pequeno almoço com os Bellemont: como se todos vez ou outra lhe olhassem e vissem nele um animal exótico perdido numa cidade pequena. Se perguntou como poderia ter sido tão bem recebido por aqueles da entrada da cidade, e agora sendo tratado como uma incógnita monstruosa e misteriosa pelos habitantes do centro e imediações mais campesinas.
Ninguém parava para conversar com eles, mesmo aqueles com que Archie recebia com um sorriso ou um cumprimento. Os poucos que respondiam o bom dia do valete, passavam correndo como se tivessem visto o mal se materializar diante de si. Era frustrante — e, para Eugênio, impossível fingir que a razão daquelas indelicadezas era si.
Chegaram, enfim, na praça que demarcava o exato centro de Collins. Ali havia um coreto de gesso cercado de postes de luz a gás, uma parede de cartazes de serviços e, mais adiante, uma parede em branco, repleta de marcas de colagens e adesivos, como se outrora tivesse sido usada como mural. Por alguma razão desconhecida, aquilo fez Archie sorrir e se empopar, mesmo diante de um passeio tão degradante e entediante.
— Isso é interessante, venha senhor — ele chamou, correndo direção a parede nua do coreto e apontando para as marcas de adesivos, cola e restos de papéis presos à parede — Esse é o Painel Dos Segredos — afirmou, com um sorriso sádico e debochado — Há algum tempo, coisa do século dezenove, quando as pessoas de Collins descobriam um segredo muito devastador e não queriam se manter em silêncio sobre o assunto, pois de alguma forma acreditavam que isso contribuía com o pecado ou alguma bobagem assim, eles escreviam uma carta e colavam aqui, nessa parede. Era uma coisa terrível, segundo o que eu ouvi: a maior parte das vezes não passava de especulação... — ele suspirou — Foi uma prática iniciada na época medieval. Era usado, principalmente, para tratar de “desvios de caráter”.
— E o que seria isso? — Eugênio questionou, ao mesmo tempo que estava interessado no assunto, sentia um certo dessabor pela maldade de se expor assim alguém gratuitamente. Archie engoliu seco e coçou a nuca, parecendo buscar palavras.
— Na maioria das vezes eram de casos de traição... Homens e mulheres traídos traziam seus companheiros ao júbilo social e expunham seus pecados carnais... — ele riu, num tom nervoso — E a cidade, ou melhor, as pessoas da cidade tratavam de fazer o resto. Você já viu como é o povo de Collins, senhor, são verdadeiras cobras. Fofoca aqui é alimento diário. Julgar a vida alheia é o modo de vida da maioria das pessoas daqui — afirmou irritado. Eugênio riu.
— Não podia ter escolhido lugar melhor para morar — disse, enquanto observava as pessoas o encarando ao redor — acredito, inclusive, que trouxe muito material para as atividades extracurriculares das pessoas daqui — Archie riu.
— O senhor nem imagina — respondeu — Vamos? Está prestes a anoitecer e Lady Evayne não tolera atrasos.
Eugênio chegou à Gardenhall a tempo de ouvir os gritos descontentes e irritados de sua tia. Sem perder tempo, deixou o agasalho sobre o sofá e correu para a biblioteca, tentando entender o que se passava.
Lady Evayne estava inquieta e desgostosa, caminhando em círculos com uma carranca assustadora e gesticulando continuamente enquanto andava. Remsy tentava a todo custo acalmar sua senhora. O rapaz entrou com cuidado, inesperadamente preocupado que algo tivesse ocorrido à tia.
— É uma desgraça! Sim! Uma desgraça! — ela repetia freneticamente — Não há outras palavras. Não há outras descrições! Como isso pode ter ocorrido? Não posso crer... Com Lady Evayne de Gardenhall? — ela falava mais consigo do que com qualquer outro.
— Tia? O que aconteceu? — Eugênio questionou, preocupado, tentando manter uma distância estratégica da tia enfurecida. Lady Evayne ergueu os olhos raivosos e apontou para trás de Eugênio.
— Isso aconteceu — e, quando Eugênio olhou na direção, sentiu seu coração acelerar levemente, talvez com o susto do momento (Ou, mais provável ainda, com a surpresa alegre e bela que seus olhos enxergaram):
Era um homem, talvez dois ou três anos mais velho que Archie, de cabelos escuros, com imaculados cachos despencando em cascata num penteado moderno e elegante. Tinha um rosto simétrico, com um queixo marcado e traços másculos e agradáveis. Era relativamente alto, com um corpo forte sob roupas elegantes e comportadas. Seu rosto estava vermelho com uma expressão envergonhada. Uma barba curta terminava de enfeitar sua beleza jovial e espetaculosa.
— É uma desgraça — Lady Evayne concluiu. Eugênio estava ocupado demais encantado para compreender os pensamentos da tia.
— Eu... eu não entendi — José Eugênio disse. O homem sorriu para ele, timidamente, se aproximou e estendeu a mão.
— Thomas. Thomas Blonte — ele disse, por fim, com uma voz carismática e amigável — Fui enviado pela London Street Academy para ser seu tutor.
A tia chacoalhou a cabeça em descrença e desacordo.
— Não há chance alguma nisso — ela firmou, irritada — Volte agora mesmo e pare logo com essa brincadeira sem graça! — ordenou, vermelha como o fogo que ardia em suas veias. Thomas Blonte coçou a nuca, envergonhado.
— Não consigo enxergar o que te irrita, tia Macbeth — Eugênio afirmou, confuso. A tia suspirou num tom muito audível, como se fosse explodir de ódio, mas se acalmou e falou, forçando toda sua calmaria:
— O que me irrita? O que me irrita, José Eugênio Evayne, é a desfeita que recebi da academia. Escrevi, exigindo o que é meu direito como uma Lady: um tutor adequado para ministrar suas aulas. Nada além! E o que eles fazem? — ela riu em nervosismo — Me mandam um rapaz que só terá cabelos brancos se enfiar o rosto numa panela de farinha. Não posso acreditar que não enviaram alguém com a experiência e o renome adequado para ser o seu tutor. Como se chama mesmo, rapaz? Thomas Blonte? Sequer é de alguma casa nobre? — questionou. Thomas engoliu seco, envergonhado e negou. Lady Evayne riu em nervosismo novamente — Como as pessoas vão reagir quando souberem que um Evayne sequer teve a felicidade de ter um bom professor para ministrar seus conhecimentos? Nossa casa será feita de chacota. Pensarão que não temos dinheiro para contratar alguém com idade, com conhecimento.
— Senhora, se me permite... É que os demais tutores não estavam disponíveis e... — Thomas tentou dizer, sendo interrompido por um olhar amargo e feroz da Lady.
José Eugênio não pôde deixar de se divertir com o exagerado desesperado da tia. Todavia, desde o instante que botou os olhos sobre Thomas Blonte, só tinha uma certeza contemplada em seus pensamentos: aquele homem, quem quer que fosse, ou de onde quer que viesse, era o mais belo e interessante que vira em toda a vida — e, não importando o caminho que tomaria para isso, ia tê-lo em sua vida, de uma maneira ou outra. Os olhos de Eugênio brilhavam de uma maneira sem igual enquanto observava Thomas, sofrendo calado diante da descarga de fúria de Lady Evayne. E, a perspectiva de não ter que conviver com um velho que enviesava seus ideais e injurias em palavras acadêmicas difíceis, era muito agradável.
— Eu o acho perfeito — Eugênio disse por fim. Lady Evayne se calou de sua lástima e encarou o sobrinho, assim como Thomas, surpreso e levemente agradecido. O olhar da tia revelava que ele havia dito alguma bobagem. — Sabe, ele não é tão velho e... terá mais disposição para o trabalho em tempo integral... E tem uma visão de mundo mais moderna...
Lady Evayne suspirou.
— José Eugênio... Um Lorde não costuma se interessar por “visões de mundo mais modernas”, sabe porquê? Pois é nelas que guilhotinas são invocadas e cabeças rolam pelo chão — afirmou, irritabilíssima. Lady Evayne estava um poço de nervos. Thomas Blonte suspirou e, antes de desistir, se aproximou da senhora, com toda calma do mundo, e disse:
— Senhora, uma última chance, para lhe explicar tudo... Mas a sós, por favor — ele suplicou. Lady Evayne coçou os olhos, pensou, pensou e assentiu. Com um olhar Remsy se foi, com Eugênio logo atrás.
Quando as portas da biblioteca se abriram, Eugênio se surpreendeu por ainda encontrar Thomas intacto. Todavia, a fúria da tia não havia diminuído, mas, por alguma razão desconhecida, parecia ter “abrandado” e mudado de direção/alvo. Thomas estava relativamente mais calmo quando atravessou a porta, segurando sua mala e olhando Eugênio no fundo dos olhos.
— Obrigado por interceder por mim, senhor das Rosas — ele disse, com um sorriso tão apaixonante que pagou por outras mil intercessões de Eugênio a seu favor. O rapaz sorriu acalentado por um fogo carinhoso do fundo da alma.
— Não sorria tanto — Lady Evayne afirmou, com uma voz amarga — Você ainda está em teste. Um mês! Foi isso que lhe dei! E, José Eugênio: espero que saiba usar bem esse tempo... Do contrário seu tutor estará de volta em Londres antes que você perceba! — afirmou, fechando as portas da biblioteca com um olhar irritado e amargo — Não jantarei hoje. Estou indisposta! — ela gritou.
“Seu tutor”, aquelas palavras deixaram Eugênio com uma certa curiosidade. Thomas ainda estava diante dele, sorrindo.
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