Certo dia, junto ao rio,

Andava um lobo a montante,

Quando deu-se o olhar bravio

Sobre um cordeiro a jusante,

Sobre as águas debruçado.

E com o maior desplante,

Quis sentir justificado

O ataque que forjou

Para se ver saciado.

Pelo anho então chamou,

Abonando à violência:

“Irado deveras estou

Com a tua impertinência!

Suja, aqui, a água aflora

Pela tua negligência!”

Ao que o cordeiro, em má hora,

Inda inocente contesta:

“Está a minha culpa fora,

Como este lugar atesta:

Vem daí a correnteza.

Logo, quem a água empesta

Estará com toda a certeza

Para os lados da nascente.”

“Qual é a tua defesa,

Já que disso estou ciente,

Das calúnias que apregoas

Há um ano, a toda gente,

Sobre mim e outras pessoas?”

“Tal coisa não fiz, senhor.

Minhas escusas são boas:

Podeis ficar sabedor

Que só nasci há seis meses.”

“Se delas não foste autor,

Foi qualquer outra das reses

Do rebanho onde hás nascido.”

Sem argumentar mais vezes,

Estando na razão vencido,

Abocanhou o cordeiro,

Que se viu, assim, perdido.

É triste, mas verdadeiro

Concluirmos sem engano

Que qualquer mote traiçoeiro

Serve de lema ao tirano.

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