O Lobo e a Serpente
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Notas iniciais
O Lobo e a Serpente
“Diz a lenda, que o Sol e a Lua sempre foram apaixonados um pelo outro, mas nunca podiam ficar juntos, pois a Lua só nascia ao pôr do Sol. Sendo assim, Deus na sua bondade infinita criou o eclipse como prova que não existe no mundo um amor impossível.”
—Andreia Costa
A noite mais escura era iluminada pelas chamas que se espalhavam por todos os lados, engolindo cada corpo que se encontrava sem vida deixados ao chão e exalando o forte cheiro da queima.
A própria natureza se encarregava de apagar os vestígios daquela noite sangrenta, tomada pela dor e desespero de todos que tentaram sobreviver ao grande conflito que finalmente terminara com o avançar da madrugada.
Em meio ao som das chamas e o forte vento que açoitava as copas das árvores, o alto som de gritos era ouvido personificando o medo que tomava seu ser.
Na beira do enorme penhasco estava a única alma viva daquele conflito, as roupas banhadas pelo sangue de seus inimigos, a espada largada ao seu lado com o sangue fresco deslizando pela lâmina e os cabelos jogados pelo vento deixavam a mostra os olhos verdes tomados por lágrimas.
Em seus braços o homem que lhe prometeu o mundo mantinha os olhos negros abertos e sem foco, o rosto manchado pelo próprio sangue e o corpo empalado pela espada que tomou sua vida para protegê-la de ter aquele fim.
Mas de que lhe adiantava ter a vida que seria tomada por aquela lâmina se já não tinha mais nada? Seu reino estava em chamas junto com a floresta que o rodeava, seu exército fora massacrado, seu povo morrera em meio ao sono naquela madrugada e os poucos que restaram jamais voltariam, não havia para onde voltar.
E por fim, o homem que amava estava em seus braços pela última vez. Entrara em um sono profundo do qual jamais retornaria e deixou-a sozinha naquele vazio que não teria fim. E nem mesmo o sangue do portador daquela maldita espada negra que lhe tomou tudo fora capaz de lhe trazer algum conforto ou esperança.
Tudo o que sentiu enquanto afundava sua própria lâmina afiada no corpo forte de seu maior inimigo foi raiva e enquanto via o corpo dele desabar naquele penhasco e desaparecer pela escuridão, o seu tormento finalmente se apossou de seu coração.
Havia vencido aquela guerra sorrateira que serpenteou para o interior de seu reino, havia lutado com todas as suas forças e sacrificado muitos para conseguir a tão almejada vitória para que no fim, não lhe sobrasse nada. A vitória não era satisfatória como imaginou. Aquela era a maior derrota que teve em sua vida.
—Se os deuses pudessem me ouvir, desejaria apenas trazer você de volta. — Sussurrou erguendo seus olhos para o horizonte, onde a linha alaranjada indicava que um novo dia estava começando.
Levantando-se lentamente após deitar seu amado delicadamente no chão, ela seguiu até a beira do penhasco sem jamais deixar de focar na linha distante do início daquele novo dia. Parada a apenas um passo da queda que levara seu inimigo ela respirou fundo, sentindo o cheiro de flores que o vento lhe trazia, fazendo-a esquecer o cheiro dos corpos que ainda queimavam às suas costas.
Suas pernas falharam por um momento, e ela quase se permitiu voltar ao chão, mas manteve-se firme, os olhos fixos no horizonte que debochava de si. Não importava a desgraça que ocorresse, um novo dia iria nascer em breve diante de seus olhos.
Olhou mais uma vez para o corpo atrás de si. O belo rosto pálido como jamais vira e manchado pelo sangue que deveria correr por suas veias continuava com os olhos negros sem brilho e tão vazios quando ela naquele momento e, sabia, para a vida toda que se seguiria a partir dali.
O dia nasceria novamente, indiferente a sua dor ou perda, mas dessa vez, ela não estaria lá para ver os raios de sol surgirem e iluminarem toda a sua desgraça.
Com apenas um passo para trás ela foi abraçada pelo vazio que a dominava e seus olhos se fecharam quando não conseguiu mais ver o corpo dele enquanto seu próprio corpo seguia o caminho daquele que destruiu sua vida.
—Se os deuses me ouvissem...
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Abriu os olhos vendo o moreno diante de si, deitado ao seu lado na campina ampla tomada por flores, franziu o cenho e olhou para o céu acima de si com as estrelas se despedindo, sua mente confusa lhe pregava peças.
Sentou-se e tocou o rosto do homem ao seu lado, a pele estava quente e corada, embora permanecesse suja de sangue. Olhou para suas próprias roupas pesadas e manchadas pelo sangue.
Levantou-se e olhou ao seu redor, vendo mais afastado o corpo desforme do homem que jogara do penhasco após o último golpe com a espada. Voltou seus olhos para o local do qual recordava-se de ter se jogado e sua mente nublou enquanto sua visão perdia o foco por breves segundos.
—Os deuses ouvem... -Uma voz desconhecida sussurrou ao seu ouvido. -Mas sempre há um preço.
Caiu de joelhos sentindo algo em seu estomago se revirar e o ar lhe faltar. Seus olhos voltaram a ter foco e ela correu de volta até seu amado tocando mais uma vez seu rosto, sentindo a pele quente que tanto lhe acalentou nas noites frias.
—Sasuke... -Sussurrou.
Viu-o franzir o cenho levemente e sorriu enquanto seu coração batia tão forte como jamais sentira. Uniu seus lábios ao dele e sentiu-o correspondê-la e, quando se afastou pode ver os olhos negros abertos, brilhantes outra vez.
Seus olhos foram tomados pelas lágrimas enquanto o abraçava com todas as forças que ainda restavam em seus braços. Os deuses lhe ouviram e, não importava o preço que cobrariam, nada seria alto demais por aquele momento.
—O que você fez? -Ele questionou quando ela se afastou de si.
—Eu... -A voz se perdeu. -Não importa, eu te amo.
Quando o sol nasceu, ela acordou.
Quando o primeiro raio de sol cortou os céus, ele despertou.
Quando o segundo passou pelas nuvens, eles se tocaram.
Quando o terceiro atingiu o chão, eles se despediram.
E, quando a luz do sol a tocou, ela se transformou.
Diante dos olhos negros o corpo dela se alongou, os membros se fundiram e a pele adotou uma cor branca como as nuvens do céu, sendo tomada por escamas granuladas. Diante dos olhos negros um estranho animal grande surgiu, o corpo longo e esguio como uma cobra e o rosto com estranhas feições que lembravam os dragões que vira desenhado em livros mitológicos.
A dor que tomou conta de seu corpo foi indescritível enquanto sentia seus ossos se quebrarem e sua pele queimar e, quando tudo finalmente acabou ela estava irreconhecível. A única coisa que permaneceu foram os olhos verdes como a campina em que estavam.
Sua boca se abriu na tentativa de falar, mas tudo o que conseguiu foi emitir um grunhido animalesco e exibir os dentes afiados nas gengivas vermelhas como o sangue.
Sasuke caiu ao chão, assustado com a figura diante de seus olhos, todo o seu corpo mandando que se levantasse e corresse para longe e estava prestes a fazê-lo quando viu o grande animal curvar-se e jogar-se ao chão próximo a si, os enormes olhos verdes não o miravam, mas estavam cheios de lágrimas que não deslizavam.
E ele entendeu.
Aquele era o preço a se pagar para que o impossível se tornasse possível.
E as memórias finalmente retornaram para ela.
—Os deuses ouvem. -A voz ecoou em sua cabeça.
E ela aceitara pagar o preço que fosse, se em troca, pudesse viver novamente em um mundo no qual Sasuke estivesse vivo, onde pudesse vê-lo e saber que estava bem.
Assim, ela aceitou abrir mão de seu corpo sempre que o sol fizesse o seu percurso. Ele nasceria, iluminaria o mundo e lhe tiraria a forma de mulher para tornar-se a enorme serpente marinha que protegeria os mares e rios até o pôr do sol.
Entretanto, ela sabia. Não havia abdicado somente de seu corpo, como também de sua morte e a de Sasuke.
—Será eterno. -A voz sussurrou no fundo de sua mente novamente.
Vendo o moreno agir daquela maneira perante si a dúvida lhe consumiu e por um momento, ela não teve certeza se a morte não seria melhor do que aquele olhar amedrontado nos olhos negros que tanto amava.
—Os rios... -Ouviu o sussurro novamente e ergueu-se.
—Sakura. -Ouviu-o chamá-la. -O que você fez? -Questionou-a e ela não tinha como respondê-lo naquele momento.
O jovem rei apenas recebeu um breve olhar dos grandes olhos verdes da serpente que se ergueu diante de si mais uma vez antes de afastar-se sem qualquer hesitação.
Ele entendeu que estariam fadados a viver daquela forma e não entendia como algo assim era possível e, sem saber o que fazer, permaneceu ali, parado por incontáveis horas enquanto o sol avançava sobre si.
Lembrava-se de tudo o que acontecera e recusava-se a acreditar que Sakura havia sacrificado tanto em troca de sua vida. Em um mundo como aquele, os deuses dificilmente interferiam em algo. Sempre deixavam clara a sua existência, mas jamais comoviam-se facilmente com os pedidos de meros mortais como eles.
—Então, por que agora? -Questionou-se, embora soubesse que ninguém se dignaria a respondê-lo. Os deuses não eram tão bons quanto as pessoas acreditavam e ele sempre soube disso. Sabia que nada era dado sem pedir algo em troca, sempre haveria uma consequência e agora, a mulher que amava estava pagando o preço por ele.
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Quando o sol se pôs a grande serpente retornou para ele. Olhou-a confuso, questionando-se o motivo de ela ter partido antes e o motivo de ter retornado somente agora.
Foi quando o último raio de sol desapareceu atrás das montanhas que ele compreendeu.
Diante de si ela se transformou outra vez, os estranhos chiados emitidos pelo animal aos poucos foram tornando-se gemidos dolorosos e, conforme o corpo se encolhia, as escamas caiam ao chão, desprendendo-se da pele que retomava a cor corada nos membros que se dividiam.
Em sua frente já não havia mais uma serpente albina, havia apenas Sakura que agora gritava pela dor de sentir seus ossos se partindo para assumir a forma humana novamente e aquilo o quebrou ainda mais.
Quando tudo acabou, ela estava de joelhos e nua em seus braços que tentavam acalentá-la da melhor forma possível e ele sentiu seus olhos marejarem tamanha dor que ela parecia sentir e, quando o silêncio tomou conta da floresta outra vez, a voz dela soou baixa.
—Apenas entenda que eu não me arrependo.
—Eu sei que não. -Ele disse, alisando os cabelos rosados. -Eu dei minha vida por você e sei que está dando a sua por mim.
—O Deus Sol atendeu minhas preces. -Disse quando finalmente conseguiu forças para erguer-se. -Ele trouxe você de volta para mim.
—Ele não atendeu. -Rebateu. -Ele usou o seu desespero, tomou seu corpo e a usou para seus propósitos egoístas.
—Eu aceitei o preço. -Sussurrou.
—Deuses não são bons, Sakura. São armadilhas.
—Mas eu tenho você. -Sussurrou antes de adormecer.
O moreno permaneceu acordado por mais algumas horas, a culpa ainda o corroía e por mais que tentasse buscar alternativas para tudo aquilo, sabia ser impossível. Ele foi puxado do mundo dos mortos e, nem mesmo se morresse novamente quebraria a maldição de Sakura. Jamais imaginou que os deuses poderiam fazê-lo ver outro ente querido ser amaldiçoado em busca de algo. Antes seu pai, agora sua esposa.
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Quando o sol mais uma vez tocou sua pele, seu corpo se transformou quando já estava o mais longe possível de Sasuke para que ele não presenciasse aquela cena asquerosa.
Ouviu os sussurros chamando por si mais uma vez e seguiu na direção do rio mais próximo, sabendo que mais uma vez precisa purificar aquele lugar.
Jamais imaginou que aquele seria seu destino, mas o aceitava como forma de pagamento pelo seu desejo atendido. Todos os dias ao deixar seu corpo humano, seguia para o rio o qual era guiada e, no fundo desse passava grande parte do dia, permitindo que seu enorme corpo animal purificasse tudo que infectava aquelas águas e tudo o que estava ao redor do percurso daquele rio.
Seu corpo absorvia parte da vitalidade de todos os seres que tinham algum tipo de contato com a água e isso lhe permitia ter um poder infinito. Embora não soubesse qual era o propósito daquela energia que se acumulava em seu corpo.
Os dias passavam para si lentamente e a noite rápido demais para que pudesse aproveitar o curto tempo que tinha junto de Sasuke.
Recuperaram o pouco que restou de seu reino destruído e, por lá, continuaram a viver sozinhos e isolados para que ninguém descobrisse sobre si.
E assim, o tempo passou diante de seus olhos sem realmente notar. De dia ela era a enorme serpente que acumulava poder e purificava os rios e mares, à noite ela retomava a forma humana e voltava para Sasuke.
Os dias tornaram-se repetitivos para si com o tempo e, por isso, parou de contá-los, afinal, nada mudaria.
Ela acordava, se afastava, se transformava, voltava, dormia e acordava outra vez.
E por uma década, este foi o seu ciclo sem fim. _____________________________________________________________________________________________________________
E a cada dia que se passava, tudo ia mudando, menos ele.
As plantas ao seu redor mudavam, as estações mudavam e até o aroma das flores pareciam mudar lentamente com o tempo que passava. Mas todos os dias quando se olhava no espelho, via a mesma coisa.
Estava rodeado por mudanças, mas, em seu interior nada mudava. Sua vida não seguia e não voltava. Todos os planos que fizera com sua esposa no passado tornaram-se apenas palavras jogadas ao vento com o passar do tempo.
E seus dias tornaram-se repetições dos dias anteriores. Não havia mais reino para governar, não havia exército para treinar e comandar, pessoas para proteger e ajudar. Não havia mais como seguir com sua linhagem quando sua esposa se tornava uma estranha criatura imortal.
A imortalidade por tantos ambicionada era uma desgraça que caíra sobre si, que jamais almejou algo tão fútil e sem futuro. Todos os seus sonhos foram arrancados de si sem que tivesse escolha.
Não culpava Sakura por sua desgraça, o mesmo desespero que o fez dar a vida por ela a fez entregar-se às vontades dos deuses e, agora, ele sentia-se cada vez mais tentado a atender ao chamado da Deusa da Lua.
Lhe faltava coragem para abrir-se com a esposa sobre isso. Por mais que soubesse que ela notava seu tormento todas as noites quando se deitava ao seu lado ou todas as manhãs quando se afastava antes do nascer do sol.
A verdade é que por mais que soubesse que aceitar a proposta dos deuses fosse o mesmo que aceitar cair em uma armadilha, sentia-se tentado pela possibilidade de que, pelo menos, alguma coisa em sua vida voltasse a fazer sentido.
Naquele momento, seu maior medo era que mesmo seu amor por Sakura se perdesse no tempo. Suas vidas não tinham mais nenhuma expectativa ou objetivo e aquilo era uma queda infinita que estavam tentando evitar.
Apenas uma década se passara e já se sentia em um abismo, sequer conseguia imaginar como seria após um século ou mais.
A única coisa que ainda lhe trazia consolo, eram as noites aquecidas junto de sua esposa e ainda assim, no fundo de sua mente, sempre se questionava por quanto tempo isso bastaria para manter sua sanidade.
Lembrar-se da aparência que ela tomava durante o dia ainda lhe trazia calafrios mesmo depois de tantos anos sem vê-la naquela forma e doía saber que não fora capaz de esconder o desconforto que isso lhe trazia fazendo-a afastar-se cada vez mais quando o dia seguinte chegava.
—Sakura, você ainda é feliz?
Ouviu um suspiro e acreditou que a resposta não viria pelo tempo considerável em que o silêncio predominou no quarto, mas ela veio.
—É difícil ser feliz o tempo inteiro depois de tudo o que nós perdemos. -Ela respondeu, erguendo-se de seu peito e olhando em seus olhos. -É difícil ser feliz quando sinto os meus ossos se partirem todos os dias e tenho que ficar longe da única razão que ainda tenho para ser um pouco feliz. -Completou tocando o rosto masculino. -E eu sei que é difícil para você também, Sasuke... Fiz você abrir mão de muitas coisas e, a cada dia que passa, me sinto ainda mais condenada por minhas decisões egoístas de um momento de desespero.
—Não a culpo por nada disso.
—Você ainda não me culpa, Sasuke. -Afirmou e afastou-se vendo que mais um dia se preparava para nascer ao longe.
O moreno apenas observou-a afastar-se em passos lentos, as palavras desapareceram de sua boca e ele não conseguiu evitar que seu peito queimasse com a dor que sentira nas palavras de Sakura.
Apenas 10 anos tinham se passado, um tempo insignificante para a eternidade que eles tinham pela frente e, em tão pouco tempo já sentiam-se atormentados daquela forma e, foi movido por isso que ele tomou sua decisão enquanto a luz do sol começava a preencher o quarto.
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O dia arrastou-se para si, enquanto permaneceu no fundo do lago cristalino que a rodeava, o sol parecia permanecer por horas no mesmo lugar, como se o tempo não passasse e, para si, de fato não passava.
Com o passar dos anos, ficou claro para si qual era realmente a sua função naquela forma. Sasuke estava certo em afirmar que os deuses apenas os usavam quando precisavam e ela era a prova viva disso.
O Deus Sol precisava de mais poder, precisava de mais controle e no melhor momento ela surgiu, desesperada, aceitando qualquer coisa que lhe fosse imposta em troca de trazer seu amor de volta.
Ela não apenas purificava os rios como acreditara no início, ela também matava. Todos aqueles que iam contra a vontade do grande Deus Sol eram jogados no rio para que ela sugasse sua vida.
Humanos ou não, todos tinham o mesmo fim. Seus ossos afundavam nos rios e sua existência desaparecia. E isso com o tempo começou a trazer uma estranha satisfação assustadora para si, trazia-lhe tormento e, ao mesmo tempo, um grande prazer se apossava de seu corpo de uma forma que ela não saberia dizer.
E conforme o tempo foi passando, a sua função foi aumentando.
Ela não mais ficava apenas aguardando o envio de seus condenados aos rios e lagos em que estava, não. Ela tornou-se uma perfeita caçadora. Aprendera a usar os poderes que seu Deus lhe dera, aprendera a usar seu grande corpo para não apenas esmagar suas vítimas como também causar as maiores destruições que aquele mundo vira. Aquele corpo lhe dera a satisfação de vingar-se de cada um que teve o menor dos envolvimentos em sua desgraça. Com a agilidade que seu novo corpo possuía e a mobilidade sob a água, ela percorreu cada vilarejo, cada reino e cada floresta a procura de todos que tiveram alguma ligação com a guerra que causou a queda de seu reinado.
E, com o tempo, ela não se reconheceu mais quando estava na forma de serpente dando-se conta que o tempo passava para todos, menos para ela. Tudo mudava, mas ela continuava igual, Sasuke continuava igual. Suas vidas haviam parado no tempo enquanto ela se deixava levar pelo esplendor de ter todo aquele poder correndo por seu corpo.
Mas quando voltava a forma humana, o medo a tomava por completo.
Tinha medo do que estava se tornando, medo que Sasuke descobrisse as atrocidades que fazia ou que em algum momento, ele pudesse ver as coisas que escondia.
Após tão pouco tempo diante da eternidade que tinha pela frente, ela já estava se perdendo e, nem mesmo quando retomava sua suposta humanidade, não se sentia a mesma. O poder que consumia o animal aprisionado dentro de si, continuava circulando em seu corpo, o tempo inteiro e tinha medo de perder o controle em algum momento.
Saber que Sasuke também já estava tendo dúvidas e conflitos sem passar pelas mesmas coisas que ela ou saber de toda a verdade apenas lhe deixava ainda mais aflita.
A eternidade acabaria com eles.
E tendo isso em mente, naquela noite ela não retornou para o local que ainda chamava de casa. Seguiu o caminho contrário, voltando pela primeira vez em muito tempo para o local onde tudo começou.
Talvez o que estivesse começando a sentir, finalmente fosse o arrependimento real de se levar pelo desespero do momento. _____________________________________________________________________________________________________________
Naquela noite, ele seguiu para o local em que ouvia o chamado da Deusa Lua sem importar-se com as armadilhas que teriam pelo caminho. Apenas seguiu as orientações sussurradas em seu ouvido até o topo da montanha a qual Sakura havia se jogado anos antes, selando o destino deles.
—Apenas pegue o cristal azul. -Ouviu enquanto chegava ao topo da montanha com a lua já alta no céu.
Sakura provavelmente estaria retornando para casa naquele momento, talvez ficasse preocupada por não o encontrar lá depois de tanto tempo em que estavam mantendo está mesma rotina, mas ele logo retornaria, tão logo conseguisse o que precisava.
Quando chegou ao topo, ficou na beira do penhasco. A brisa fresca batia contra o seu rosto, mas não conseguia ver nenhum cristal azul como a voz lhe pedia.
—Sasuke? -Ouviu a voz delicada atrás de si. -O que está fazendo aqui?
Não soube como responder imediatamente, não esperava que ela fosse até lá e, quando ouviu um estranho riso feminino que ele se virou de imediato para ela.
—Como sabia que eu estava aqui? -Questionou.
—Não sabia. -Respondeu apenas, os olhos verdes desviando-se dele. -Pensei que estaria me aguardando chegar em casa.
O riso mais uma vez soou em sua mente e sentiu-se confuso até que seus olhos focaram em algo que provinha da escuridão da floresta. Um grande lobo branco o observava fixamente e quando o vento soprou mais forte, fazendo com que as nuvens que cobriam a lua se afastassem, ele finalmente pode ver.
No peito do grande animal havia um cristal azul tão brilhante que parecia brilhar mais que a própria lua com a luz que refletia.
Sacou a espada presa a bainha em sua cintura e avançou contra o grande animal que apenas dirigiu os olhos azuis para Sakura.
—Sasuke não faça isso! -Ouviu o grito desesperado da rosada, porém, não parou.
O animal nada fez diante de si e por um momento, acreditou que poderia simplesmente pegar o cristal com as próprias mãos, entretanto, ao tocar no mesmo, o lobo uivou e finalmente avançou sobre si fazendo-o soltar a espada pelo impacto inesperado de seu corpo contra o chão.
Diferente do que esperava, a dor não veio, assim como o calor do sangue que escorreria de seu corpo também não se fez presente. Abriu os olhos que sequer notara fechar apenas para ver que o lobo estava completamente preso por uma grande parte do que parecia ser a calda de uma serpente.
Seus olhos correram rapidamente para a direção em que Sakura estava.
Diferente do que esperava, o rosto feminino ainda estava lá, mas as pernas deram lugar a grande calda que via rodear o lobo branco e aquilo o pegou de surpresa.
—Você controla? -Sussurrou enquanto seu coração batia descompassado.
—Somente à noite. -A resposta veio cortante. -Você não devia ter me forçado a fazer isso.
Olhou do lobo para ela mais uma vez, sem entender. Estendeu a mão novamente para tocar o cristal sob o pelo do animal e, mais uma vez, ele tentou jogar-se sobre si com um rosnado alto.
A ponta da calda da serpente afastou sua mão do cristal e ele olhou-a intrigado.
—Por que está me impedindo?
—Por que você quer o cristal da Lua? -Retrucou, os cabelos rosados dando lugar ao branco.
—Como sabe o que é isso? -Questionou, não querendo respondê-la.
—Pare com seus joguinhos Sasuke! -Gritou irritada. -Pare de procurar por algo que não deve. Já não aprendeu comigo? Já não tivemos o suficiente?
Antes que pudesse responder, o lobo branco moveu-se rapidamente, se debatendo até libertar seu corpo com as garras rasgando a pele pálida da serpente. Quando o mesmo se afastou, mirando agora a rosada, a grande boca abriu-se em um alto uivo em direção a lua que mais uma vez fora oculta pelas nuvens e avançou na direção da garota que ainda respirava fundo, acostumando-se a nova dor de ter seu corpo animal rasgado.
Conforme avançava na direção da serpente, o lobo abriu a boca, permitindo que por ela uma grande luz surgisse sendo disparada como raios na direção dela. Sakura desviou a maior parte do corpo, sentindo seu braço ser atingido.
Não estava acostumada com conflitos quando estava em sua forma humana, ainda não sabia como usar seu corpo e seus poderes estando daquela maneira e isso lhe deixava aflita, pois tinha medo de perder o controle e acabar ferindo Sasuke.
Quanto ao Uchiha, apenas observava o desenrolar da cena diante de si, paralisado, sem saber o que fazer.
—Use a espada... -A voz mais uma vez sussurrou em seu ouvido e, ao observar a espada caída um pouco distante de si, viu-a envolta de um estranho brilho negro.
Sem hesitar, pegou-a rapidamente quando viu o lobo avançar sobre Sakura mais uma vez e, correndo na direção dos dois grandes corpos que se colidiam, perfurou o tórax do grande lobo branco, vendo os pelos albinos se tingirem de vermelho com o sangue.
O animal soltou um rosnado seguido de um sôfrego grunhido de dor enquanto o estranho brilho escuro corria por sua ferida.
Caiu ao lado de Sakura que com a respiração acelerada e os olhos marejados retomava a forma humana completa, o sangue escorria por sua pele também devido as feridas causadas pelo animal, porém, nada disso lhe importava.
—O que você fez... -Sussurrou inconsolável.
Quando o vento novamente afastou as nuvens da lua, o riso feminino mais uma vez foi ouvido pelo moreno.
A luz da lua primeiro tocou o corpo albino do lobo, fazendo os pelos caírem, os ossos moverem-se e assim, um corpo humano surgir. O forte homem loiro estava nu, caído ao chão enquanto agonizava de dor, mas ainda assim, um fraco sorriso surgia em seus lábios.
Ele estava finalmente livre.
Sakura voltou rapidamente os olhos para o Uchiha, a voz presa, as lágrimas banhando o rosto.
Ela sabia o que estava por vir.
Quando a luz o tocou, a pele queimou.
Quando as nuvens cobriram mais uma vez a lua, ele urrou de dor.
E quando a lua o iluminou novamente, sua pele rasgou-se.
Sakura assistiu a tudo em silêncio, sentindo seu peito apertar enquanto os gritos de dor de seu marido eram substituídos pelo alto uivo do enorme lobo negro que surgiu diante de si.
—Eu amaldiçoo os Deuses. -Sussurrou quando o lobo caiu ao chão sem ter controle sobre a nova forma.
Sasuke observou tudo ao seu redor com estranheza e, quando tentou falar com a rosada que o olhava desolada, apenas um choramingo escapou por entre os dentes afiados.
—Eu tentei te impedir, Sasuke. -Ela disse de forma cansada enquanto observava o cristal azul que surgia sob o pelo negro. -Mas você nunca me ouviu, não é mesmo?
Os olhos vermelhos observaram a garota diante de si e somente um grunhido baixo foi ouvido.
Sakura olhou mais uma vez para a lua, antes de voltar os olhos para o homem loiro que se encontrava ao chão atrás de si.
Aproximou-se e fechando os olhos já sem vida, permitiu que uma chama azul tomasse conta de sua mão levando-a em direção ao corpo do homem.
—Você está livre agora de todo o tormento que carregou no último milênio. -Disse baixo tocando a pele ainda quente, permitindo que as chamas consumissem o corpo que há muito não deveria andar por aquele solo.
Aquele era só mais uma pobre alma que caiu nas doces palavras de um Deus. Ela o encontrara uma vez em sua forma humana e o vira transformar-se diante de si naquele belo lobo albino e jamais esquecera, afinal, fora a única vez que encontrara um semelhante.
O Deus Sol uma vez lhe permitiu saber sobre ele, queria que visse por alguma razão e, por isso o conheceu. Sabia que o portador do cristal azul era o servo da Deusa Lua, assim como ela, servia ao Deus Sol.
Agora, diante de si via seu grande amor transformado em uma fera tão grande quanto ela, servindo a uma Deusa que o enganara tanto ou mais que o Deus Sol.
Jamais desejou tanto que pudesse voltar no tempo. _____________________________________________________________________________________________________________
Os dias se arrastaram, as semanas passaram, os meses voaram e os anos pararam.
Quando o sol nascia, Sasuke assumia sua forma humana e Sakura, a forma de serpente.
Quando a lua surgia, ele assumia a forma de lobo e ela podia finalmente voltar a ser humana.
De dia, os rios e mares eram vigiados, purificados e todos aqueles que se opunham ao Deus Sol encontravam a morte.
À noite, os campos e as florestas tinham sua vez, o grande lobo negro protegia a todos que buscavam abrigo por lá e cobrava a vida de todos aqueles que se voltavam contra a Deusa Lua.
Não existia mais noites quentes, não havia mais carícias que poderiam trazer algum conforto aos conturbados corações que aos poucos se perdiam em suas formas animais.
Com o passar dos anos, não havia mais para onde voltar. Quando Sakura retornava à noite, não havia braços fortes para lhe acalentar e lembrá-la que a vida ainda fluía em seu corpo e, quando Sasuke retornava, não havia olhos verdes que lhe traziam esperanças e o calor da primavera.
O amor permanecia lá, marcado a ferro nos frios corações das feras, mas nada podiam fazer. Não havia mais maneira de se comunicarem, não havia mais nenhuma forma de se entenderem. Deveriam servir aos Deuses até o fim dos tempos mesmo que isso fosse contra suas vontades.
Deram suas almas para seres divinos e egoístas que pouco a pouco os distanciaram da forma mais cruel que poderiam.
Ambos estavam vivos, mas era como se não estivessem.
Haviam perdido tudo.
Perderam seu reino, suas famílias, seus amigos e seus povo.
Agora, pouco a pouco perdiam um ao outro a cada vez que se viam em suas formas tão distintas.
Nenhuma história, nenhuma lenda e nenhum conto foram capazes de prepará-los para uma morte tão lenta quanto aquela.
E os anos passaram e passaram sem se importarem com a triste história daquelas feras que carregavam tanta dor, amor e saudade.
Foi com o nascer de mais um dia que Sakura tomou a difícil decisão de voltar-se contra o Deus Sol, sabendo que aquela era uma decisão suicida, mas que em nada poderia ser mudada. Os anos passaram e lhe torturaram. Provara do gosto amargo da perda que adiou por tantos anos. Sasuke estava vivo, mas era infeliz, amargurado e torturado pelas próprias decisões que o levara para ainda mais longe dela.
Preferia a morte a viver por mais tempo sabendo que toda aquela desgraça era culpa sua. Se jamais tivesse caído na tentação das doces palavras de um Deus, Sasuke já teria renascido, teria vivido uma vida plena e feliz com alguém que pudesse ajudá-lo a realizar seus sonhos e desejos.
Descobrira também, que era a única capaz de libertar seu amado como deveria ter feito desde o começo.
Por mais que a ideia lhe doesse, imaginá-lo tendo uma vida como sempre sonhou a fazia sorrir, lhe permitia sentir um leve calor no peito que jamais imaginou ser possível.
Naquele dia, ela não permaneceu no fundo do lago e não buscou pelas presas que eram marcadas para si. Ela manteve-se em meio a floresta até que a noite chegasse e lá permaneceu.
Continuou no mesmo lugar por dias, talvez meses esperando pela revolta do grande Deus Sol, mas isso não aconteceu e ela começava a sentir-se ainda pior, pois nem digna da ira do seu Deus ela era.
Mas em uma noite, enquanto seu corpo voltava a forma humana, ela ouviu um rosnado vindo da floresta. Seu coração bateu descompassado quando os olhos rubros como o sangue brilharam com a luz da lua.
Mesmo naquela forma, seu coração reconhecia Sasuke. _____________________________________________________________________________________________________________
Todos os dias, quando a lua surgia seu corpo mudava.
Não havia um dia que não se odiasse pela tola decisão de apenas seguir uma ordem sem sequer questionar, ao menos duvidar ou hesitar mesmo quando Sakura o alertou.
Agira sem pensar e fora tudo tão rápido, de uma forma tão superficial que sequer conseguia entender como sua mente ficou tão vazia em um momento tão importante quanto aquele. Justo ele que sempre pensou tantas vezes antes de agir, se guiou pelo impulso no pior momento possível.
Ainda não entendia tudo o que estava acontecendo, apenas aceitava tudo o que a maldita voz em sua cabeça mandava fazer sem jamais conseguir se rebelar. Agora, diante de Sakura depois de tanto tempo sem vê-la, sentia seu coração descompassado mais uma vez depois de quase ter se esquecido daquela sensação.
Seu corpo travou quando a viu, pois, a voz da Deusa estava quieta demais naquela noite e isso não era algo com o que estava acostumado. Nenhuma palavra, nenhuma ordem, nenhum pedido haviam sido feitos para si naquela estranha noite de lua cheia.
—Mate-a.
Seus olhos abriram-se um pouco mais quando a ordem soou em seus ouvidos. Não poderia ser real, nada ali poderia ser real, afinal, a Deusa sempre o mandava para longe quando a noite chegava, sempre o manteve o mais distante possível de Sakura, como se tivesse algum tipo de receio em mantê-lo perto dela.
Quando sua visão focou no rosto da mulher diante de si, um pequeno sorriso brincava nos lábios dela. Conhecia aquele sorriso e entendeu ali que ela sabia o que estava por vir.
—Parece que o Deus Sol se uniu para me punir. -Ouviu-a. -Mas não tenha medo Sasuke, nós dois estaremos livres deste tormento quando tudo acabar.
Observou-a sem ter algo mais que pudesse fazer. Queria gritar com ela, manda-la embora, ordenar que fosse para o mais longe possível de si e nunca mais voltasse para que assim, não tivesse que cumprir aquela sentença, mas quando sua boca se abria, apenas rosnados e grunhidos escapavam.
—Vamos. -Ela continuou enquanto abria os braços para si em um claro sinal de que não tentaria revidar qualquer coisa. -Nós já vivemos demais Sasuke. Me liberte dessa culpa que carrego a mais anos do que posso contar.
Continuou a olha-la, usando toda a sua força para manter-se no lugar, as garras afundaram no chão. A vontade da Deusa quase dominando o seu corpo, era difícil desobedece-la, seu corpo queria seguir a ordem recebida, porém, sua mente lutava para evitar isso. Não conseguiria viver com a ideia de ter matado a pessoa que mais amava naquele mundo, em sua vida.
—Está tudo bem, Sasuke. -Ouviu-a e assustou-se com o quão perto ela estava de si. Apenas um passo os separava. -Eu ainda te amo, mas eu não consigo mais ser feliz sem ter você em momento algum.
—Mate-a!
Seu corpo parecia em chamas, sentia o sangue correr por suas veias como se fosse lava. A vontade de gritar era crescente em sua garganta.
“Não!”
—Sasuke, estaremos livres. -Ela disse tocando o pelo negro em uma leve caricia. — Nós dois estaremos livres.
Olhou para a lua, tentando se situar no tempo e notou que a mesma quase desaparecia em meio a escuridão da noite.
Um eclipse lunar marcaria aquela difícil noite para si. Olhou novamente para os olhos verdes diante de si, só queria poder ter uma vida com ela, seguirem com seus sonhos e planos, mas era impossível.
Se aquilo os libertaria de toda aquela tortura infinita, então, ele aceitaria. Atenderia não a ordem da Deusa Lua, mas a vontade de Sakura. Pelo amor deles, acabaria com aquela queda sem fim que estavam.
A boca do enorme lobo abriu-se deixando que um doloroso uivo ecoasse por toda a floresta que permanecia em completo silêncio, como se respeitasse a dor de seu grande guardião. Os olhos vermelhos brilharam com maior intensidade enquanto chamas negras se espalhavam ao redor de ambos.
Seus olhos focaram mais uma vez o rosto delicado diante de si preparando-se para o doloroso fim que os aguardava. Acreditaria nas palavras de Sakura, acreditaria que aquilo iria libertá-los e assim, algum dia poderiam finalmente seguir com os planos que tanto desejaram.
Olhou para a lua mais uma vez e então tudo se perdeu.
Uma forte luz preencheu todo o círculo de chamas negras criadas pelo grande lobo, os cegando. O tempo foi acelerado por alguns instantes e a Lua voltou a brilhar fortemente, livrando-se da escuridão que a cobria.
A Deusa Lua, pela primeira vez em muito tempo, lembrou-se de sua própria história e teve misericórdia com as feras que criara junto ao Deus Sol. O amor que mantiveram mesmo após tanto tempo passado não poderia ter aquele fim e ela se comoveu tocada pela lembrança de sua desesperada busca por alcançar o Deus Sol.
Ela os permitiria ter a liberdade que tanto almejavam.
Tudo estava acabado para ela e para eles.
E o tempo passou e passou, sem esperar por nada e nem ninguém.
Ele apenas seguiu o seu curso, curou as feridas, levou as lembranças, amenizou as dores e ensinou a superar a culpa.
E o tempo passou e passou.
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Os reinos desapareceram, as florestas e bosques perderam parte de seu espeço.
O Deus Sol e a Deusa Lua foram esquecidos e seus servos viraram meras mitologias.
O tempo passou e o mundo mudou.
Os anos que vieram depois não foram tão tortuosos quanto os que passaram.
O tempo não esperou por ninguém, ele apenas passou.
E quando o sol nasceu, ela acordou.
Quando o primeiro raio de sol cortou os céus, ele despertou.
Quando o segundo passou pelas nuvens, eles se tocaram.
Quando o terceiro atingiu o chão, eles se amaram.
E, quando a luz do sol a tocou, ela sorriu.
Notas finais
Até a próxima povito.
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