O Lixo
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Num quente dia de verão do ano 1935, Agostino foi visitar um aterro sanitário no interior de São Paulo com alguns amigos no apogeu de sua adolescência. Para ter acesso ao lixão, era necessário seguir pela estrada pavimentada e virar à primeira direita depois de um posto de gasolina simples e demasiado rústico numa pequena estradinha de terra delineada pelo pneu dos caminhões e pela sujeira de suas margens.
Agostino e seus amigos resolveram ir escondidos com a velha caminhonete de seu pai. Levaram cerca de dez minutos até conseguirem chegar ao lixão, devido a enorme quantidade de buracos e obstáculos no caminho. Ao chegarem, depararam-se com um vasto terreno mal cheiroso e incrivelmente cheio de montes de lixo. A impressão era que todos aqueles montes um dia foram enormes colinas verdes, repletas de gado marcando o solo com trotes, urina e fezes. Mas, infelizmente, no ano de 35, aquilo tudo já estava contaminado. Havia a nascente de um rio nas proximidades do aterro. O mesmo também estava contaminado.
Ao descerem da caminhonete, um homem velho, barbudo e mal tratado aproximou-se dos garotos pedindo comida descente e apelando pelo seu trabalho quase escravo. Fernão era um homem alfabetizado, mas devido um sequestro em 1897, não conseguira mais pegar num papel e caneta por 38 anos. No lixão, conhecera Joaquina, uma linda mulher, na qual tiveram cinco filhos. Nenhum escapou da crueldade. Dois morreram antes de completarem dez anos por motivos de saúde, e os outros três continuaram na dura lida do lixão.
Passados alguns poucos minutos, Agostino e seus amigos estavam cercados por adultos e crianças pedindo comida.
O sol raiava em sua posição mais alta, ao meio dia.
Gilbert, o responsável pelo lixão e apoderador dos trabalhadores, chegou para acabar com a conversa. Sacou uma espingarda de dentro de seu galpão logo quando percebeu a movimentação. Ao sair, atirou três vezes para o alto, dispersando boa parte dos lidadores – que se esconderam atrás dos grandes montes de lixo, onde minutos atrás estavam separando o orgânico do inorgânico, o papel do metal, o vidro do plástico. –, restando apenas a família de Fernão. Gilbert aproximou-se da caminhonete de Agostino, com o propósito de entender o fato então ocorrido, e os expulsou de lá, seguido de um tiro no pé no filho mais novo de Fernão, que saiu correndo e gritando de dor.
Ao seguirem de volta o rumo para casa, Agostino estava perplexo no que acabara de acontecer. Seus amigos se questionavam o porquê de não terem levado comida, mas concluíram que não poderiam se culpar, pois jamais fariam ideia do que por lá iriam encontrar.
Quando Agostino estacionou a caminhonete em frente a sua casa, depois de ter deixado Paulo, Jorge e Anastácio em suas casas, entrou sorrateiramente e logo fora para seu refúgio relatar seu abalável dia num soneto:
Resto deixado, desamparado
Excedentes de malfazejo uso
Cresceu o menino abandonado
Sem casa, sem raiz e sem rumo
–
À procura da liberdade, ele corre desatinado
Envolvido pela sujeira e podridão
Foge o garoto esguio, amedrontado
Que veste a viseira e o cabresto da desmoralização
–
Invisível pela sociedade, trabalha sem parar
Neste serviço atroz que, sem ele,
Adoeceria a humanidade
–
Valorizá-lo? Não há necessidade para fê-lo
Nesta cruel e rude dimensão
Onde menos vale o amor que a depreciação
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