O Livro dos Mortos
3 Parte Dois: Luke
Estava tudo girando, o que era esperado quando se enfrentava um demônio possuindo uma simples garotinha. Sangue escorria do seu braço, mas tudo bem, teria sido pior se não tivesse descoberto a tempo, antes da criança retirar uma faca das costas. Certo, ela estava agora presa em sua cama, com todos os membros amarrados e esticados, fazendo-a ser obrigada a continuar deitada. Um dia fora uma criança linda, mas ele temia que voltaria a ser novamente caso aquela coisa saísse de seu corpo; os olhos agora eram laranjas, até as partes onde deveriam ser brancas, haviam vários cortes no rosto, sinais de que aquela coisa estava em seu corpo fazia um bom tempo, a pele estava quase verde e o cabelo, que um dia foi loiro, agora se misturava a sujeira. Usava um vestido rosa, manchado por algo negro e a expressão que detinha era de extrema fúria.
Por sorte, precisava falar com um demônio e acabou encontrando esse, ou então foi encontrado por ele. Essas coisas traiçoeiras poderiam estar por trás do desaparecimento, mas achou que não teria muito sucesso com o que estava preso em sua frente. Se só teve poder o suficiente para possuir uma garotinha, então não deve saber muita coisa das fofocas de lá debaixo.
Não se preocupou com aquele olhar, abrindo a geladeira e procurando alguma coisa pra beber. O leite estava estragado, e havia alguma coisa cheirando a podre, mas não podia ser carne, ele não tinha nenhuma. Retirou um sprite do fardo de latinhas e a abriu. Ofereceu para o demônio, mas tudo o que ele fez foi sibilar em resposta. Deu de ombros e bebeu um gole. Antes de ficar de noite, ainda teria que lavar a louça, que estava empilhada na pia e ir comprar alguma coisa no mercadinho, que era o motivo para ter saído. Pegou a cadeira de madeira, a única de seu cômodo/casa, e sentou, emitindo um ruído desagradavel, mas que ele já estava acostumado. Procurou gases no armário ao seu lado e um pouco de alcool, além de uma agulha e linha. A tonteira estava passando, mas a dor no braço estava preste a começar.
Jogou alcool em cima do ferimento, emitindo uma série de xingamentos que divertiu o demônio, e logo em seguida colocou gases, pressionando o ferimento. Olhou para o demônio, que ainda mantinha o sorriso e sorriu de volta.
— Espero que você tenha hemorragia. — O demônio disse, pela primeira vez, com sua voz infantil. Havia um pouco de graça ouvir uma criança desejando morte para um adolescente. — Você vai sangrar até morrer, Semideus.
— Eu não acho que você tenha cortado fundo o suficiente para isso. — Franziu o cenho, especialmente pela última palavra dita pelo monstro. — Como sabe o que sou?
— Ah, a sua espécie está em extinção, é fácil reconhecer um quando vejo. — O demônio conseguiu virar a cabeça o suficiente para cuspir no chão. — Pecados vivos, seres impuros, como nós, fruto de algo que não deveria existir. Humanos com poderes de deuses.
— Disse um Treva que está no corpo de uma garotinha de oito anos. — Resmungou alto o suficiente para ele ouvir, tirando as gases e jogando no lixo. Deu mais um gole no refrigerante antes de pegar a linha e a agulha e encarar o braço. Não era um corte tão grande, mas era melhor fazer os procedimentos padrões medicinais. Nunca se sabe como um demônio age até ser tarde demais.
— Mas nós, Trevas... — Sibilou a palavra, como se saboreasse cada letra como um veneno. — Aceitamos que somos seres desprezíveis e malvados. Por que os Semideus não, quando, para viverem, um humano precisa morrer?
Não disse nada, enquanto terminava a costura em seu braço. Em seguida, após cortar a linha e esperar a ardência passar, se levantou e cerrou os olhos para a coisa em sua cama, que mostrava os dentes amarelos. Pegou o alcool e uma caixa de fósforos do armário, se dirigindo ao demônio, que começava a entender o que ele estava fazendo.
— Espera, você não pode está falando sério, né? — Sorriu desajeitadamente, enquanto começava a se debater, tentando se soltar das amarras. Era impossivel, pois as mesmas estavam abençoadas. Demônio algum, por mais poderoso que fosse, conseguiria se soltar daquelas cordas.
O garoto nada disse, enquanto jogava alcool nas pernas da coisa, que continuava se debatendo. Acendeu o fosforo, com um certo divertimento nos olhos.
— Por favor moço, me ajude. — Os olhos alaranjados desapareceram, deixando as pupilas castanhas da garota surgirem. A voz era tão angelical quanto uma criança poderia ter. — Ele disse que se você fizer isso, eu estarei morta.
Ele não hesitou nem por um segundo.
— Você já está morta.
E então, soltou o fosforo, deixando o fogo se alimentar do alcool que jogara nas pernas do demônio. A voz angelical desapareceu, revelando um grito bestial, como vidros se estilhaçando. A voz de um demônio com dor era tão empolgante que ele não sentia nenhum remorso por isso, mas precisava de informação. Lentamente, colocou a caixa de fósforo e o alcool no armário, pegando a lata de refrigerante. Ainda tinha meia lata, o que foi o suficiente para apagar o fogo quando ele a derramou pelas pernas da criança. A única coisa que pensou foi no desperdicio ao fazer isso. Ao terminar, arrastou a cadeira para perto da cama e sentou nela, olhando para o demônio.
— O que você quer de mim?! — Os olhos voltaram a ser laranjas, e a expressão de raiva estava mais intensa.
— Preciso de informações. — Sorriu, apontando para o chão. — Lá de baixo.
— Eu não converso com alguém da minha espécie a mais de um mês, muito menos volto para lá. — O demônio agora parecia mais apavorado, não disfarçando a dor que sentia.
— Sério? — Ele retrucou, com um ar de decepcionado. Não sabia dizer ao certo se estava mentindo ou não. — Eu jurava que vocês sabiam sobre um certo livro amaldiçoado que foi perdido.
O que fez ter certeza de que o demônio não estava mentindo foi sua expressão se suavizando, como se tivesse sido pego de surpreso, algo que raramente acontecia quando se tratava de demônios. Eles eram sempre os primeiros a saber sobre os problemas, por isso sempre eram os mais interrogados quando se tratava de informações.
— O Livro dos Mortos foi roubado dos feiticeiros? — O sorriso projetado na face daquela criança não poderia ser chamado de sorriso algum. — Quero ver o que esses arrogantes de nariz em pé vão fazer a respeito de sua relíquia.
— Eu também. — Sussurrou, apenas para si mesmo ouvir, enquanto encarava o chão.
Se levantou, pegando suas ferramentas de “trabalho”. A louça suja teria que esperar, visto que pegou um demônio que não sabia nada do que estava acontecendo. Vestiu o moletom de capuz sem mangas, que ele mesmo cortou, com um colete por baixo dele e pegou a aljava.
— Aonde você vai? — Ouviu o demônio quase gritar quando o viu colocando algumas flechas na aljava. — Não pode me deixar aqui.
— Na verdade, eu posso sim. — Colocou a mão na maçaneta da porta, respondendo-o antes de abrir. — Você é um Treva, e você sabe muito bem como todos temos que tratar um Treva.
Sem dizer mais nada, abriu a porta. Antes de fechar, já do lado de fora, conseguiu ouvir as últimas palavras do demônio:
— Eu farei você assistir todas as pessoas com quem se importa serem consumidas pelo fogo!
— Eu já assisti. — Disse por fim, antes de trancar a porta.
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