O Livro dos Cavaleiros Parte I
1 Prólogo
Notas iniciais
Era quase meia noite naquele reino. Exceto por pessoas festeiras e com insônia, todos lá dormiam. Era um lugar à beira-mar, que, à noite, ganhava um belo aspecto. Pois, além das ondas que traziam um som aconchegante para dormir e do luar que refletia na água, havia um belo castelo localizado em cima de uma rocha ao lado da praia.
Neste mesmo castelo havia uma masmorra, que nunca foi usada e ninguém sabia que existia. Até aquele momento, onde estavam um homem e uma jovem. Mas eles não estavam usando o lugar como masmorra, e sim como uma sala de estudos improvisada. O homem explicava, escrevendo com giz na parede riscada:
–O que acha? Se criarmos essa lei, poderíamos ter empregados e não precisaríamos pagar por eles.
–Então eles seriam nossos escravos. –Deduziu a jovem, sentada no chão frio.
–Exatamente. –Concordou ele, mas logo completou por causa de seu orgulho- Foi exatamente isso que quis dizer.
Um relógio cuco, jogado no chão, anunciou que era meia noite. Eles se entreolharam, como se não acreditassem em mais nada. Ele ordenou, rapidamente:
–Vou pegar o punhal, te encontro no corredor.
...
O corredor do castelo era bastante largo, e o carpete vermelho deixava o lugar ainda mais digno da realeza. Havia também vitrais coloridos nas grandes janelas, mas era noite, e não dava para reparar neles direito. O homem chegava silenciosamente com um punhal na mão, enquanto a jovem o esperava em frente a uma porta dupla, tudo conforme o planejado.
–Preparada? –Sussurrou ele e logo completa, sem ser nem um pouco encorajador- Sabe que, se não fazer isso, vai arriscar tudo.
–Eu sei disso. –Respondeu ela, no mesmo tom, com um pouco de receio. Pegou o punhal. Nunca pegou um na mão, e logo que o tocou, arrepiou-se.
Enquanto ela contemplava a arma de cabo negro e lâmina polida, ele abria a porta cuidadosamente para não fazer barulho, revelando um quarto de casal. Se não estivessem tão ocupados e ansiosos, teriam apreciado o local, que tinha um ar majestoso. Enquanto isso, o casal real dormia profundamente.
O rei tinha uma barba não muito longa de cor loira esbranquiçada e leves rugas de sorriso. Já a rainha tinha cabelos de tom loiro-morango, além de uma pequena e delicada flor nos cabelos, o que sugeria que sempre usava uma. Ambos estavam cobertos por um cobertor felpudo, que provavelmente os deixavam bem aquecidos, mesmo sendo outono.
–Você vem comigo? –Perguntou ela, continuando no tom. A mão que segurava o punhal tremia.
–Não. Irei ficar de guarda aqui na porta. –Respondeu ele. Assim que disse isso, olhou para os dois lados do corredor.
–Acho que é melhor o senhor fazer isso, tem sangue mais frio e-- –Mas ela não completou a frase.
–Quer ganhar aquela maldita marca ou não?! –Parecia estar irritado a ponto de perder o controle e gritar. Ela não disse mais nada.
A garota avançou até a cama, que era de fato alta. Tremia e suava, e se pudesse iria chorar também, mas claro que não faria isso. Olhar para eles fez a experiência tornar-se ainda mais difícil. Até que ela se lembrou das seguintes palavras:
Não pense no que faz de errado, mas no que ganhará de bom depois. Aquela tinha sido uma de suas primeiras lições. Começou a pô-la em prática, o que ganharia com aquilo? Fama, riqueza, joias, controle, poder, palácio, vestidos, trabalhadores... dava para fazer uma lista.
Deu um sorriso, que quem visse acharia um pouco cruel. Tapou um dos olhos com as mãos e levantou a arma pronta para desferir o golpe. Assim o fez.
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