Notas iniciais
22:00h

Último dia de aula, na última aula do dia, e ainda assim tudo o que conseguia sentir era um enorme tédio, o que era até um pouco estranho já que ao chegar em casa iria arrumar as malas para viajar com meu tio, acho que tem a ver com o fato de todo ano irmos para a mesma cabana... Parece que ele ama aquele lugar.

Ainda faltavam cinco minutos para acabar aquela aula de filosofia que mais parecia com alguma aula vaga. As "barbies" e as "pollys", como eu e Liz chamávamos os dois grupinhos de garotas que pareciam estar batalhando em uma Guerra Fria, cheio de indiretas, xingamentos, assassinatos encobertos.. Tá, essa última parte é exagero meu, eu espero. Enquanto isso, tinham também os "retardados" (chamávamos eles assim porque, tipo, acho que o nome já pode dar uma boa ideia do motivo), que estavam fazendo um estúpido campeonato de queda de braço, competindo para verem quem receberia o título do mais retardado do 2º ano, se bem que boa parte deles vai poder tentar de novo no próximo ano.

Pela janela comecei a passar um tempo olhando as folhas das árvores em seus galhos balançando com o vento que trazia consigo algumas nuvens cinzas que tiravam parte do brilho e do azul do céu, mas não diminuía a sua beleza — Cara, como esse céu estava lindo -. Enquanto observava o céu, comecei a viajar um pouco na minha mente, imaginando o que poderia fazer nessas férias e se poderia fazer algo com Liz esse ano, já que ano passado ela disse que estava bastante ocupada e que sem querer tinha torcido o tornozelo. Que férias complicadas.

Tirando-me dos devaneios o sinal da última aula finalmente tocou e sem pensar falei um pouco alto demais:

—Adeus prisão!

Alguns olharam na minha direção meio confusos, tentando descobrir se tinha sido eu quem havia gritado, já que não costumava falar na sala de aula, eu ter gritado era novidade pra eles, mas como a vontade de ir embora era maior que a curiosidade, logo todos simplesmente ignoraram e saíram. Ainda bem.

Fim do ano levito. Agora só iria para casa, arrumar minhas malas, colocar tudo no carro e viajar algumas horas com meu tio, e como a cor do céu estava cada vez mais escura precisava me apressar, mas antes de ir, tinha que me despedir de Liz.

—Ei Tracy, finalmente te achei! — Vindo sabe-se lá de onde, Liz apareceu do meu lado.

—Oi Liz, não me assusta desse jeito, sua louca!

Liz solta uma curta risada e continua falando:

—Desculpa, não queria te assustar, mas e aí, preparada para a sua viagem?

—Acho que sim, espero fazer algo mais divertido esse ano, mas é sempre a mesma coisa com o meu tio, e você?

—Estou animada, esse ano acho que consigo subir de faixa!

Nunca entendi direito do que se tratava essas faixas que ela falava, já que ela nunca me explicou direito o que era, e também eu nunca insisti muito em saber sobre isso.

—Que legal Liz, boa sorte para você!

—Obrigada. — Respondeu Liz dando aquele sorriso meio tímido que ela sempre dava quando estava feliz.

Chegamos ao portão, nos despedimos e fomos cada uma para um lado, como nossas casas ficavam em direções opostas, nunca podíamos ir embora juntas. Lembro do tempo que éramos crianças e brincávamos todos os dias, já que nessa época éramos vizinhas. Liz sempre foi bem tímida e sempre ficava meio receosa quando ia falar com ela e ainda assim nos tornamos grandes amigas, o chato é que aos oito anos de idade fui morar com meu tio e ficamos meio longe uma da outra, mas ela sempre me ajudou em todos os momentos em que estava triste. Enfim, voltando à história.

Normalmente levo em torno de 25 a 30 minutos de caminhada até chegar em casa, mas dessa vez levei uns 15, porque no meio do caminho começou a cair uma chuva que mais parecia uma tempestade.

Chegando em frente de casa, a chuva resolveu dar uma trégua por um tempo, mas nem fazia mais a diferença, já estava toda encharcada de qualquer forma. Mesmo com a forte chuva, a casa parecia até mais seca do que devia. Telhado vermelho, paredes brancas, portão de ferro e uma árvore plantada no quintal. A mesma coisa de sempre.

Destranquei a porta, atravessei a sala e fui direto para o meu quarto pegar uma roupa seca e tomar um banho. Nada como molhar o quarto todo antes de fazer a mala.

—Tracy, se molhou muito? Você está bem? — Carlos apareceu de repente na porta do meu quarto.

Não era meio óbvio? Deixei um rastro de água pela casa até o meu quarto e ele me pergunta se me molhei muito, mas como estava cansada e estressada demais pra ficar brigando com ele de novo, só fiz um sinal que sim com a cabeça, e passando por ele sem querer olhá-lo nos olhos, fui direto para o chuveiro para tomar um banho.

Por que ele é tão estúpido? Já estou cansada dele. E ainda tenho que ir mais uma vez com ele para aquela cabana sem graça e perder quase todas as minhas férias sem fazer nada. E por que ele simplesmente não me responde? Que saco.

Terminei meu banho, fui para o quarto e arrumei o que faltava na minha mala. Carlos estava na garagem provavelmente terminando de colocar as coisas dele, ou sei lá, não me importa. Que droga, agora estou meio irritada pra continuar escrevendo, me dá um tempinho pra respirar...

Tá, vamos continuar.

Levei minhas coisas para o carro e logo depois de almoçarmos partimos até o super incrível e amado lugar de alegria de Carlos. Ele já tinha 37 anos, e ainda não entendo o porquê de ele ficar me levando lá todo ano. Já fazem oito anos que vou nesse lugar, todo ano...

Começamos a viagem às 14:00h. Acho que não tem muito o que contar da viagem, simplesmente coloquei meus fones de ouvido, fechei os olhos e fiquei imaginando todas as coisas que eu faria assim que eu voltasse pra casa. Só tinha uma coisa que estava um pouco estranha, Carlos estava acelerando bem mais que o normal, parecia que queria chegar lá logo, mas como ele parece ter um fetiche por aquele lugar, nem liguei muito.

Era aproximadamente 20:00h, estava um breu total e só podíamos enxergar a estrada com as luzes do carro e um poste ou outro que surgiam entre as árvores. Estava frio, a chuva tinha retornado com força no meio do caminho, mas nesse momento estava apenas chuviscando. O som das folhas se batendo ecoava por toda a floresta que estávamos atravessando, e o vento agitava constantemente os galhos mais finos, fazendo um barulho incessante deles se batendo e quebrando. Uma vez ou outra a floresta se clareava por inteira com a luz de um distante raio, seguido por um fraco som de trovão que indicava o quão longe a verdadeira tempestade estava.

Tio Carlos parou o carro e finalmente estávamos lá. Em uma clareira próxima a uma montanha podia agora enxergar a amada cabana do meu tio. Descemos do carro e começamos a descarregar nossas coisas para dentro da cabana que incrivelmente parecia não ter mudado nada nesses 8 anos em que eu ia para lá, nem parecia ter sido tão afetada pela chuva.

Carlos pegou seu guarda-chuva e me mandou pegar o meu, mas pra quê? A cabana estava logo em frente e como já tínhamos algumas coisas lá dentro, eram apenas duas malas para levar para dentro. Às vezes eu simplesmente não consigo entender ele.

Arrumamos nossas coisas e já estávamos preparando algo para jantarmos. Carlos não sabia cozinhar muito bem, então sempre o ajudava na cozinha. Como as coisas estavam todas bagunçadas ainda, só preparamos um básico miojo mesmo.

Depois do jantar não aconteceu nada muito interessante. Carlos tentou puxar assunto uma vez ou outra, mas como eu já tinha falado antes, eu estou enjoada de tentar conversar com ele, ele só quer falar dos assuntos dele. Às vezes acho que ele nem se importa de verdade comigo e eu só o aguento por ter prometido isso pros meus pais no dia em que eles... No dia em que eles foram embora... Bom, não quero mais falar sobre isso.

Notas finais
Boa noite.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.